Ateei fogo às memórias

Ateei fogo às memórias
José Machado

Ao longo dos anos vamos guardando coisas, entupindo gavetas, empilhando prateleiras com recortes de jornais, de revistas, fotografias, convites para casamentos de gente que há muito se separou, cartões de agradecimento de pessoas cujo rosto esquecemos.
Ao abrir caixas nos deparamos com lembranças. Algumas, têm história e grande valor sentimental que nos trazem gratas recordações. Alguém que foi muito importante para nós, outras foram nossos filhos que compraram e nos deram; um objeto que compramos quando éramos mais jovem ou conseguimos quando estávamos viajando e nos lembra bons momentos- peças que são heranças familiar- memórias incríveis de uma época especial de nossa vida.
Logo que adquirimos, a sensação é boa, gratificante e juramos que irão acompanhar-nos até que a morte nos separe. Mas essa sensação nunca dura muito tempo. Isso acontece com qualquer coisa que envolva desejo. Mas não é o desejo que é ruim.
O problema é o apego que criamos e desenvolvemos por todas essas bugigangas de que não nos livramos porque as associamos a alguém, a algum momento, a algum lugar, funcionam como portais do tempo – são elos do passado ao presente.
Durante esse fim de semana, enchi sacos grandes de tudo e de nada.Muitos, eram objetos sem sentido. As lembranças que preciso estão dentro de mim, não nessas coisas. Algo guardado há muito tempo, retém energia negativa. Por isso, o budismo prega o desapego.
É bom esquecer e livrar-se de alguns trecos, para abrir espaço para novas experiências. Vivemos em um mundo de palavras e imagens, que nos empurram rumo aquilo que não temos, que ainda não somos, que ainda não vimos e, que ninguém nos garante que teremos, seremos ou veremos.
Colecionar ou guardar coisas, é uma tentativa de dar feição familiar a um todo, que na maioria das vezes assusta pelo tamanho que alcança. Mas alguns objetos têm lembranças demais para irem ao lixo.
Por isso, mantive alguns. Cada um deles, me transporta a um tempo diferente da minha vida, é uma prova de que vivenciou uma boa época comigo. Dizem que a vida é curta, mas não é verdade. A vida é longa para quem consegue viver pequenas felicidades.
Algumas coisas doei, olhava-as carinhosamente e decidia intimamente quem ficaria com elas… Não podemos nos desconcentrar no que temos de mais precioso – as relações de amizade e parcerias verdadeiras ou acabaremos lotados de tralhas que não preencherão o nosso vazio existencial.
Doar, é um ato puro, de quem se desprende de seu mundo para oferecer prazer ao desconhecido, sem esperar nada em troca. Daqui pra frente vou adotar uma espécie de prazo fiscal caseiro. Dois anos e adeus…Fogo naquilo que não serve pra ninguém.

  • Velho Machado de guerra! Um verdadeiro Tomahawk! Magistral! Afiado e certeiro!
    Li, como ha tempos eu não o fazia, sentindo tua leveza de alma.
    Preciso queimar velhas lembranças e conquistar essa leveza de meu ser! Obrigado pelo belo texto.

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