Crônica de José Machado – Do “Bruxo do Cosme Velho”, infelizmente herdei apenas o sobrenome e as gafes machadianas…

Do “Bruxo do Cosme Velho”, infelizmente herdei apenas o sobrenome e as gafes machadianas…
José Machado*

Com a massificação das novas tecnologias, a escrita à mão é cada vez menos utilizada, as pessoas escrevem mais em teclados. Tecla-se no computador, smartphones ou se usa as telas touch screen. Mas nenhuma dessas maravilhas se compara a satisfação tátil de um papel e uma caneta.
De um modo geral, dependendo do grau de ensino somente as escolas ainda mantêm a escrita à mão no cotidiano. A caligrafia, é o registro da nossa individualidade, nos envolve numa relação sensorial, imediata e particular.
Como cada escrita é única, ela permite identificar a autenticidade de documentos e assinaturas, assim como criar ligações emocionais mais fortes entre as pessoas.
Sinto-me privilegiado, por haver tido uma educação de base muito forte, de qualidade, e sei quanto a escrita à mão foi importante na minha formação, principalmente o desenvolvimento das habilidades motoras e, pode ser benéfico em muitas outras áreas do desenvolvimento cognitivo, uma relação tateada de afetos.
Não planejo dia ou hora para escrever, teço a fantasmagoria da vida desde que haja uma súbita captação mental, sou movido a fazê-lo quando surge o insight, porque as memórias são fugidias.
Às vezes, não consigo lembrar em sua totalidade, e sob a forma de texto divergem das ideias iniciais. É, escrever ou silenciar, o que fazer diante da ideia?
É a vida que está em volta, é o ato de observar. Por isso, urge se colocar no papel aquilo que chega de repente…Fragmentos de pensamentos que se alinham em letras. Como texto quer dizer tecido, então a ideia gerativa, é se trabalhar através de um entrelaçamento de textura.
O início é vagaroso como um aquecimento, e os poucos, a velocidade aumenta e a escrita fica rápida. Dependendo da natureza do texto, uso duas canetas.
A escolha pelas cores das tintas, não é um mero adorno estético, é uma forma de conferir singularidade a certas situações, para sublinhar e dar destaque a partes importantes.
Realça determinadas frases e, serve para identificar e adicionar uma anotação. Quando faço o texto direto no meu notebook, utilizo a mesma técnica para alterar a cor dos blocos.
Concluído o rascunho, ponha-o de lado. Um determinado dia lembro e vou atrás e, aí então quando o leio, sempre acho algo sem sentido e, então começo o processo de revisão.
Cortar, acrescentar ou modificar palavras, frases, parágrafos, alterando, reescrevendo, apagando, incluindo, excluindo e ainda assim, tenho a impressão de que falta alguma coisa, não está como eu quero.
O esboço, constitui material privilegiado, denota os garranchos, a neura, o cansaço físico e mental, traçadas no calor da inspiração e emoção – letras redondas, compridas, deitadas ou tortas -revela as etapas de como um trabalho se realizou, do processo criativo, com rasuras e hesitações.
E as vezes, na ânsia de não deixar escapar o raciocínio, algumas frases ficam como prescrições médicas…Apenas a letra inicial seguida de uma linha tortuosa. Os caminhos que a mão trilhou, com desvios e contornos.
Dificilmente um texto sai “redondo” como aquele slogan da cerveja. À maioria das vezes foi reescrito dezenas de vezes, até o autor se dar por satisfeito. Escrevo à velocidade em que o automatismo da minha mão, tenta acompanhar a fluidez do pensamento, que tem me causado sérios apuros, os mesmos enfrentados pelo “bruxo do Cosme Velho”.
Na ânsia de acompanhar o impulso mental, escrevia com rapidez e, depois tinha dificuldade em decifrar a escrita. Infelizmente dele, herdei apenas o sobrenome e as gafes machadianas.
*José Machado é veterano jornalista e cronista amapaense
  • Herdou bem mais. Cada livro é Como um torno que vai aprumando a mente até sintonizar com os dedos, extraindo desse catar letras, o sumo plasmático das visões impressas. Artesão de palavras precisas, exercita as emoções, que passam como arrastões de vivências passadas e as materializam em texto/cinema dos fatos. Você é muito bom nisso. Sabe brincar e ralhar usando a magia das letras. A sopa pode sair do sabor do merecimento de cada leitor. Este tempero é pessoal e intransferível. Este Machado é mais refinado que o mais perfeito bisturi. Precisão.

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