Matinês paroquiais

Matinês paroquiais
José Machado*
As vezes sou surpreendido pelas lembranças da infância,do cinema no barracão paroquial. Ficava a contar os tostões durante toda a semana, na esperança de que eles pudessem bastar para comprar a entrada da matinê de domingo.
Além de me desdobrar para conseguir a grana fazendo pequenos serviços, ainda tinha que obter média às “Composições” (simuladão de provas) que eram aplicadas todas as sextas feiras.
Era um só dia de diversão, uma data marcada, uma solenidade para o espírito, a única grande atração da arrastada existência infantil daquele tempo.
Ás tardes de domingo logo após o almoço, lá ia eu para ver o Gunga Din, Sansão e Dalila, o Gordo e o Magro, Robin Hood- Durango kid, Johnny Mack Brown – Apolong Cassidy, Roy Rogers e, tantos outros ídolos dos Far West.
Mas nada se comparava aos seriados – principalmente quando era do Batman (o homem morcego). Era o sonho de um menino embalado uma vez por semana, apenas uma tarde, o resto era estudo ou trabalho.
Enquanto aguardava a abertura da bilheteria, a garotada se concentrava em frente ao barracão paroquial improvisado de cinema, barganhando a troca de gibis.
Parecia um antigo pregão da bolsa de valores ou mercado persa – pela algazarra generalizada de todos falando ao mesmo tempo, trocando ideias de como o mocinho do seriado se salvaria do perigo.
Quebrávamos a quietude e a rotina dos padres. Recordo, com carinho, das velhas máquinas Hows & Bells de 35 milímetros, que carinhosamente chamávamos de dois tempos, e que rebentavam o filme sempre no melhor momento – era o caos.

Com perfuração dos dois lados, os filmes em preto e branco vinham em duas grandes latas metálicas presas por uma correia de couro.
Enquanto o carretel da fita partida rodava em alta velocidade, a molecadas batia o pé no assoalho de madeira que pela densa nuvem de poeira, creio que nunca sequer fora varrido, quanto mais lavado.
Começava então, uma guerra de bombons que literalmente viravam balas, acompanhada de assobios e palavras de ordem “não vale roubar “e “morra a mãe” – deixavam o Nemias e o Cascavel operadores, muito mais nervosos.
Por questão de ordem, acendiam as luzes. Aqueles que eram surpreendidos pelos padres, levavam um série de cascudos e eram postos para fora com chutes na bunda.
Colada a fita, reiniciava o filme, muitas vezes numa cena que nada tinha com a anterior quando foi rompido. As palavras de ordem acima recomeçavam, até o padre ameaçar encerrar definitivamente a sessão.
À maioria das vezes não dava pra continuar, nunca se entendia o enredo. Muitos deixavam espontaneamente o cinema. Como se não bastasse a descontinuidade do filme, acrescente-se a retaliação dos manifestantes postos pra fora a tapas e chutes, que conturbavam a sessão, atirando pedras sobre o telhado de zinco.
O assoalho de madeira, sem declive, com longos bancos sem encosto, dificultava a visualização, situação que se agravava principalmente quando algum retardatário ou aqueles que deixavam o cinema antes do término da sessão passavam em frente do foco de projeção obstruindo a cena.
Momentos inesquecíveis e hilariantes perdidos no tempo. Se a vida fosse tão simples como o cinema de antigamente nos mostrava, não precisaríamos nos preocupar em recarregar os revólveres.
E sempre que tivéssemos de sair às pressas de um restaurante ou bar, atiraríamos dinheiro em cima da mesa sem precisar contá-lo e sem esperar que o garçom trouxesse a nota.
Em antiquários, museus, onde quer que estejam, as velhas Hows & Bells merecerão sempre o carinho e a admiração de uma geração que não se continha de tanto encantamento e, era feliz até o THE END.

*José Machado é jornalista e escritor

  • É, Machado, como não lembrar desses tempos guardados nas brumas do tempo? Do Cine Paroquial, do João XXII, e do Cine Macapá? E bem mais atrás, do Cine Territorial?
    Embora tenhamos toda essa modernidade, toda essa tecnologia, na ponta dos dedos, como não sentir saudade de tempos tão especiais e gostosos que nossas novas gerações jamais conhecerão?
    Valeu meu velho amigo. Ainda estamos vivos.

  • Meu amigo José Machado, ” A vida é uma viagem a tres estações: Ação, experiência e recordação.”, a sua publicação acima me fez retornar a tempos idos e que não voltarão mais. Abraços amigo.

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