O Comício – Por Ruben Bemerguy

O COMÍCIO
Ruben Bemerguy

A experiência em ser candidato estava sendo um exercício muito interessante para mim. Me sentia de verdade um pouco menos ignorante quanto a imprescindibilidade da ternura, quanto a intensidade de um beijo, quanto a necessidade suprema de chorar. Eu estava enriquecendo na sinceridade das ruas.
Ontem à noite, entretanto, quando sai do escritório, minha candidatura estremeceu, outra vez. Não pensei em abandonar a candidatura, abandonar o Wagner ou me abandonar, mas conclui que não tenho a mais remota chance de ser eleito. Nem o Wagner, nem eu.
É que, como disse, ontem à noite quando sai de meu pequeno escritório de advocacia, deparei com um imenso engarrafamento. Imaginei fosse um acidente. Um desastre. Um corpo no asfalto até. Sou dramático em horas como essas. Encarno a dor do outro instantaneamente. Eu me conheço e, por incrível que pareça, sinto saudade dos que se envolvem em circunstâncias fúnebres, ainda que sequer os tenha conhecido. É estranho, mas sou assim. O que se há de fazer?
Felizmente, não era nada disso.
Eram só automóveis nervosos, muitos ônibus em filas, um palco montado no meio da rua daquela noite quase escura. Quase escura, não fossem um conjunto de lâmpadas instaladas no céu daquela rua quase escura.
Um mundaréu de gente, também tinha. Um animador em gritos de louvor estremecia o palco montado no meio da rua daquela noite quase escura.
Uns poucos homens vestidos para festa. A imensa maioria dos homens vestidos de fome. Os que estavam vestidos para festa andavam apressados, falavam apressados, acenavam apressados, riam apressados. Toda aquela pressa se justificava, porque o destino dos homens vestidos para festa era preciso e único: o palco montado no meio da rua daquela noite quase escura.
Os vestidos de fome, curiosamente não dedicavam os olhos àqueles homens vestidos para festa. Eles preferiam dedicar atenção à noite quase escura. E a noite quase escura dedicava atenção aos homens vestidos de fome. Ambos os olhos – da noite quase escura e dos homens vestidos de fome – tinham a forma e o cheiro de um caroço de açaí no pé.
Indiferente à noite quase escura e aos homens vestidos de fome, os homens vestidos para festa entronizavam no palco montado no meio da rua da noite quase escura conduzidos por outros homens vestidos para festa. O animador, em gritos de exaltação, fazia sua parte e gabava muito os homens vestidos para festa.
Heróis, pelo menos para aquele animador de palco montado na rua da noite quase escura, eram os homens vestidos para festa.
Fogos de artifício, aos montes, rompiam o espaço daquela noite quase escura todas às vezes em que o animador gabava os homens vestidos para festa.
Eu não custei a perceber que aqueles eram os mais verdadeiros fogos de artifício já vistos por mim. O nome agora fazia jus ao seu mais exato significado: Artifício.
Fogos de artifício preparados sutilmente, astutamente, em química impiedosa, para fazer com que os homens vestidos de fome permaneçam a vestir os homens vestidos para festa sem que aqueles – os vestidos de fome – percebam que é exatamente a fome deles que veste, dia a dia, os homens vestidos para festa.
Aos ruídos que vinham do palco, os homens vestidos de fome respondiam com outros ruídos que me pareciam combinados e vigiados. Os homens vestidos de fome encanavam também com maltrapilhas bandeiras atadas nas mãos na noite quase escura.
Depois de repetidas doses de homens vestidos para festa, o animador do palco montado na noite quase escura sentenciou o final do espetáculo.
A noite quase escura se despediu dos homens vestidos de fome e os homens vestidos de fome se despediram daquela noite quase escura.
Os homens vestidos de fome enfileiraram-se diante de uma fila de ônibus em fila Indiana levando de volta só o que trouxeram para aquela noite quase escura: os olhos em forma e cheiro de um caroço de açaí no pé.
Os homens vestidos para festa também se foram em vistosos automóveis de festa.
Eu fiquei lá. Com um imenso nó na garganta e profundamente mais ignorante quanto a imprescindibilidade da ternura, quanto a intensidade de um beijo, quanto a necessidade suprema de chorar.
Esbarrei em mim os olhos da noite quase escura e dos homens vestidos de fome – olhos de caroço de açaí no pé – e tropecei na minha inadvertida candidatura a suplente do Wagner.
Me virei para a noite quase escura e sem rivalizar com a saudade de mim, sem rivalizar também com o meu modo de ver a vida dos homens vestidos de fome, disse para a noite quase escura: “Se para conquistar um voto for necessário eu me vestir para festa. Se for necessário andar apressado, acenar apressado, rir apressado. Se for necessário montar um palco. Se for necessário um animador que me gabe. Se for preciso ônibus em filas. Se for preciso o artifício e seus fogos. Se for preciso artificializar um mundaréu de gente, eu prefiro inexistir”.
Se para ser candidato for preciso desolhar a noite quase escura e desolhar os homens vestidos de fome, eu prefiro ser o não candidato.

  • Triste realidade. E daqui a 2 anos veremos os mesmos homens vestidos de festa se unindo e enganando outros homens vestidos de fome.

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