Uma aventura pitoresca

Uma aventura pitoresca
Cléo Farias de Araújo

Certa vez, indo de caminhão com meu pai, fazer compras no supermercado da Icomi, em Santana, ao dobrarmos na Av. Pe. Júlio Maria Lombaerd, ele falou:
—Preste atenção, meu filho: esta é a estrada que vai para Santana!
Aquela observação ficou em mim, para sempre.
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Em meados dos anos 60, antes de me mudar com a família, para o bairro da Favela, eu morava no Trem, também conhecido como o bairro proletário. E viver ali era tudo pra mim: tinha escola, campos de futebol, praia do Araxá, rádio valvulado, a taberna do seu Lauro Colares igreja e….cinema! E, como não havia televisão no Amapá, as opções de diversão eram poucas.
No quesito estudantil, eu tinha que atravessar a cidade, diariamente, pois estudava na Escola Gen. Azevedo Costa, no Laguinho. Calçando um sapato kerandá, de borracha, o trajeto virava um carrossel de situações: no inverno, as constantes poças d’água, ensejavam que nossos pés ficassem iguais a carne de supermercado, exposta no resfriador. No verão, a mistura do calor, suor e poeira, produzia o tão desagradável chulé. Mas também tinha o lado bom desse percurso diário: alem do exercício físico, colher mangas na rua, ver a revoada dos pássaros conhecidos como papa-arroz, na Rua Odilardo Silva, na ilharga do Hospital Geral e, descendo a ladeira, rumo ao Trem, merendar aquelas grandes e deliciosas goiabas, daquela árvore gentilmente plantada pela avó dos amigos Mário e Eulálio Lucien. Vale ressaltar que, de tão grande, uma só goiaba já enchia o bucho de um moleque. Mas eram tantas disponíveis e os bolsos de nossas calças curtas, tão generosos, que não resistíamos e sempre levávamos algumas, as quais nos serviam de trunfo de troca.
Descendo ainda mais, na Odilardo Silva, vinha aquela imensa ponte de madeira, que ligava os bairros da Favela e do Trem. Para mim, passar por ali era um tormento: quando chegávamos à metade da ponte, meu irmão mais velho se movimentava de um jeito que fazia a ponte balançar. Com medo que meus cadernos caíssem na água (o que seria surra em casa, na certa), eu me ajoelhava na ponte, prendendo-os sob os joelhos, até meu irmão parar com aquela marmota.
Certo dia, vendo passar o lotação, pedi ao papai que me deixasse ir de ônibus para a escola. Afinal, eu já sabia o caminho. Mas o velho Luizão sempre adiava esse sonho, alegando um magote de justificativas. E eu continuava indo ao Laguinho, a pé.
Certo dia, em que o almoço demorou a ficar pronto e como eu tinha prova no horário vespertino, meu pai me deu o dinheiro para a condução, via lotação, evitando que eu chegasse atrasado para aquele compromisso.
—Que bom! —Exclamei, olhando, sobretudo, para o mano Carlito, na intenção de lhe dizer que, embora eu ficasse sem as goiabas, também me livraria do terror da ponte.
Corri para o ponto de ônibus, que ficava em Frente à Estância Brasil, onde hoje é o Shopping Macapá, próximo de onde eu morava. Subi no lotação, todo garboso, como se tivesse ganho na loteria. “Sentei na janela”, a contemplar a cidade, de um outro patamar. Cheguei a pensar: “ser rico,deve ser bom. Quase não anda de viação canela!”.
Perdido em meus devaneios, só percebi que o motorista dobrou da Leopoldo para a Rua de Santana…
—Meu Deus! Ninguém me disse que esse carro vai primeiro em Santana e só depois é que faz o resto do percurso! Para o carro, motorista! Se não, perco a prova!
Meio espantado, Maranhão freou, no canto do Canta Galo, moveu a alavanca que abria a porta e me deixou sair…
—Ufa! Pelo menos, se eu apressar o passo, chego depois do hino nacional, mas com tempo para a prova.
E me embrenhei, passo ligeiro, como aqueles participantes da marcha atlética, sem, porém os requebros daquele exercício. Da Leopoldo, quebrei na FAB e segui. Quando chego ao Posto CAN, um departamento da Aeronáutica, onde meu pai trabalhava e ouço aquele barulho de motor Mercedes Benz. Para a minha surpresa e chateação, eis que passa o lotação, que apenas havia contornado parte do bairro da CEA, seguindo pela FAB, rumo ao mercado central.
Papai viu o ônibus e me viu, a pé. Dali mesmo e pensando que eu havia gastado o dinheiro da passagem, com garapa e donzelas, fez aquele tão conhecido gesto, significando: “Em casa, a gente conversa!”

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