Crônica – A Idade da Razão

A idade da razão
Ray Cunha

rayNasci em 7 de agosto de 1954; Macapá, minha cidade natal, era então um povoado ribeirinho, cortada pela Linha Imaginária do Equador, à margem esquerda do Amazonas, quase na boca do maior rio do planeta, quando despeja 400 mil metros cúbicos de água por segundo no Atlântico, em média. Mas nunca senti o emparedamento, a solidão dos povoados amazônicos, porque, quando somos crianças, vivemos numa dimensão muito mais ampla do que a dos adultos, e, aos 5 anos, os gibis inocularam-me para sempre o vírus da aventura; aos 13, já lia autores da pesada; aos 14, bebia, conversava sobre filosofia e arte, e escrevia, até de madrugada; aos 17, recebi meu batismo de fogo, como disse o poeta Isnard Brandão Lima Filho, lançando o livro de poemas Xarda Misturada, juntamente com Joy Edson e José Montoril, e peguei o rio e a BR.

Aos 27 anos, cansado de navegar e de rodar, e ainda tonto de um casamento fracassado, começara o curso de jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPa), em Belém, quando reencontrei um velho amigo, a quem chamarei de B.

B media um metro e noventa, por aí assim, pesava uns 100 quilos, tinha os olhos claros e exercia fascínio sobre as mulheres, inclusive casadas. Depressivo e dipsomaníaco, quando começava a falar, sua verve pessimista assustava todo mundo, daí que não vivia cercado de amigos. No nosso caso, havia uma coisa que interessava a ambos: os livros e os escritores. Li muitos livros recomendados por B, e gosto de todos eles. Além de um dos leitores mais argutos que conheci, B era também mais experiente do que eu, e, à sua maneira, sábio.

Certo dia, numa das pausas da bebida, B profetizou que nossa geração só se tornaria sábia aos 60 anos. Daquele dia até hoje, 33 anos se passaram, e estive, muitas vezes, à beira do abismo, caí tantas vezes no poço dos prazeres mais carnais, e frequentei aquela zona cinzenta dos alcoólatras, dos desesperados, dos desesperançados, dos danados, dos mortos-vivos. Contudo, há sempre alguém, ou algo – uma lembrança, uma voz onírica, o levantar voo num sonho, uma rosa, o azul, o mar, personagens de ficção –, me levantando.

Cinquentão, comecei a mergulhar em novo conhecimento, a entender a máxima do filósofo Massaharu Taniguchi, que a matéria é sombra da mente. Se antes, aos 21 anos, sentia-me leão, hoje, sinto-me leão de asas – turbinas que me conduzem à velocidade da luz, alimentada pela visão de uma rosa que se desnuda, de jasmineiros que choram nas noites tórridas e eternas de Macapá, do azul que sangra, do som da Terra no espaço.

B, amanheci sentindo-me sábio!

  • …sair um pouco da retidão das coisas exatas…flutuar entre reminiscências lítero-lírico-etílicas… eis o que nos resta neste mundo cibernético idiotizante… ler um livro, ouvir uma bolacha preta, uma fita cassette, assistir um filme no video-cassete… sério, ainda tenho tudo isso…escrever poesias que ninguém vai ler… putz!…aos 50 e poucos, é o caminho entre o pôr do sol e o sumir da mais linda estrela na explosão da luz primeva do dia que nasce…belo texto, Ray… avoé!…

  • Camarada Ray, obrigado por existir, por ter tido o privilégio de vivenciar alguns desses momentos, junto a voce, ao Joy e ao próprio poeta Isnard, em alguma mesa de bar, reformando o mundo e sonhando com estrelas, discutindo filosofia, arte e as mais variadas formas de viver.
    Acho que os jovens de hoje não sentem nem fazem mais isso. Uma pena.

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