Cronistas do blog

O Pássaro cativo   
Cléo Farias de Araújo

Batendo papo com João Uvilon, um cabôco que mora acima da Serra do Navio, sempre colho a sabedoria brejeira. Há alguns dias atrás, num desses bate-papos, ele me revelou:

— Olha, meu amigo, eu me considero muito feliz. Moro neste paraíso, como do bom e do melhor, sou saudável e tudo mais. Mas tava lembrando que, num mesmo dia, com diferença de minutos, eu chorei duas vezes, pelo mesmo motivo.

— Explique-se melhor.— Propus e ele atendeu.

—Eu e meu irmão mais velho gostávamos de criar passarinhos. Possuíamos toda a parafernália para capturá-los e criá-los: gaiolas, alçapões, visgos, etc.

No início de 1964, na hora da sesta, escutei Vovó declamar o poema “O Pássaro Cativo”, de Olavo Bilac.
Parei pra escutar aquilo e vi que a parte mais cruel, foi quando o poeta proclama:

 “…Solta-me. Não quero o teu alpiste!
            Gosto mais do alimento que procuro
            Na mata livre em que a voar me viste;
            Tenho água fresca num recanto escuro
            Da selva em que nasci;
            Da mata entre os verdores,
            Tenho frutos e flores,
            Sem precisar de ti!”

E prossegue:
“…Não quero a tua esplêndida gaiola!
            Pois nenhuma riqueza me consola
            De haver perdido aquilo que perdi”.

“…Com que direito à escravidão me obrigas?”.

Mais à frente, arremata:

“Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade …
Quero voar! voar! … “

Estas coisas o pássaro diria,
             Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria, vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria a porta da prisão…”.

Isso me fez sair correndo e chorando pra dentro de casa, por ter, por algum tempo, cometido a barbaridade de aprisionar vários inocentes. Em seguida, libertei todos os passarinhos que criávamos e ainda quebrei as gaiolas e demais tralhas.

Falei ao cabôco da serra: —Êpa! Tu disseste que choraste duas vezes no mesmo dia, pelo mesmo fato. Onde está o outro choro?

—Foi meu irmão mais velho! Ao chegar da escola, não encontrando os passarinhos e vendo um monte de gaiolas quebradas, me encheu de tapas. Só depois é que mamãe explicou a ele. Mas aí não tinha mais como consertar. É como dizem os mais sábios:

“Palavras ditas
e pancadas dadas…
Ninguém retira”!

  • O gostoso da vida é ser livre,realmente isso serve para todos os seres vivos. Eu demoro pra comentar você sabe do meu horror por tecnologia.Beijos.Marjô.

  • Certa vez, naquele igapó que existia nas imediações da residência do governador, próximo ao Igarapé das Mulheres, influenciado pelo Zezé, filho da D. Corina, com um espingarda de ar comprimido feri um bem-te-vi. Vi que o passarinho não morreu, mas não me lembro do seu destino. O certo é que até hoje guardo este peso na consciência.

    • Oi, Roque. Eu usei baladeira, mas nunca matei um só passarinho. A baladeira era apenas porque os colegas usavam e, numa eventual guerra de baladeira com o pessoal de outro bairro, poderia me safar.

  • Cléo, lendo tua crônica lembrei do Rubem Alves. Ele conta uma história bonita sobre o pássaro encantado, conhece?
    Gosto muito da forma ccomo escreves, sempre retratam temas importantes. Parabéns por mais esta e que os pássaros tenham o direito de voarem-viverem em liberdade.
    Um grande abraço

    • A insígne honra de merecer um comentário teu é que me faz ver que vale a pena escrever. Brigadão, querida!

  • Meu aprendizado com os passarinhos nâo foi tâo academico, mas surtiu efeito. Peguei um periquito com visgo do bom e amarrei pelos pés pensando em amansá-lo. Quando meu finado pai viu aquela marmota, foi logo me puxando pela orelha. Quase sí do châo. Me deu mais dois bolos de palmatória. Aí ele foi explicar que nimguém deve tirar a liberdade dos passarinhos. Foi um santo remédio.

  • Que belo texto Cléo!Ainda mais que vc mesclou com o poema de Olavo Bilac. Se nós seres humanos, adoramos ter nossa liberdade, imagine os passarinhos que nasceram livre para voar.

    • Deus-o Criador do universo-fez a liberdade para todos usarem-na. Logo, não se concebe alguém tirando esse benefício dos outros. Minha avó estava certa.

  • Amigo Cléo,
    Conheço o poema desde menino, da época de Escola Getúlio Vargas, anexo ao CA, com a excelente professora Lucilia Leôncio. Ainda não consegui me contagiar pelo mesmo apesar de achar que o poeta encarna literalmente o pássaro cativo. Crio desde moleque e acredito que só deixarei quando não puder cuidá-los da forma que cuido. Também não sei se é definitivo, pois, somos mutáveis e a qualquer momento posso renunciar, aí vem o problema, alguns tem mais de 15 anos e já nasceram em cativeiro….
    Sds,

    • Oi, amigo Ruy. Até ouvir minha avó, eu criava passarinho. Meus preferidos eram: curió e bigode. Mas libertá-los foi melhor. Porém, respeito os hobbies dos outros semelhantes. A propósito, já mandei o questionário da pesquisa, ok?

  • Se eu não me engano esse poema é do livro Infância Brasileira. Ótimo texto. Sobre a criação de pássaros em gailoas, não sou a favor. Dizem que eles cantam por tristeza.

  • Detesta poesias e, pelo jeito, o exercício da Língua Portuguesa. Em pleno século XXI, é doloroso escutar uma declaração dessas neste espaço.

  • É. Eu sei como é bom pra gente criar passarinhos. Na infância eu os criei. Mas tem aqueles cuidados todos e depois enche o saco. Eu só gostava quando ouvia o canto, principalmente do curió.

    • De fato, o canto do curió é daqueles inesquecíveis. Que o diga o Rivelino, craque da seleção de 70.

  • PARTICULARMENTE DETESTO POEMAS, NEM LI O QUE VC ESCREVEU, MAIS APRECIO QUEM TEM O DOM PELA POESIA !
    ADORO A REGIÃO ALI, DA SERRA DO NAVIO,,EM ESPECIAL O “CACHAÇO” AGUA FRIA, UMA DELICIA PASSAR POR LÁ UM FINAL DE SEMANA – NO CONTRASTE O MUNICIPIO DE SN ESTÁ PRESTE A DESAPARECER DO MAPA TUCUJU…CUIDADO REPRESENTANTES DO POVO – MÃOS A OBRA !
    BOM FERIADO E FIQUEM COM DEUS!

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