O escritor de cartas

O Escritor de Cartas
Ruben Bemerguy

Ruben_8-150x150Não conheço quem na vida tenho escrito uma carta só e pronto. Quem escreve uma carta escreve outras tantas. Não é o hábito de escrever que faz com que se escrevam cartas. As cartas são escritas porque movem almas e almas não vivem sem esse exercício álmico. Também não sei daquele que tenha lido a mesma carta uma vez só e pronto. É que a alma de quem lê carta, igualzinho a alma de quem escreve, carece do mesmo exercício álmico.

Dizem, não sei se verdade é, que os escritores de cartas predizem qualquer benquerença. Contam que um dia um homem queria escrever uma carta. Não que fosse analfabeto, mas porque sabia que só os escritores de cartas assinam as palavras exatas, se é que existem palavras exatas. Pois sim. Então o homem lançou os olhos sobre o céu e viu no céu o reflexo de uma partitura, como fosse um papagaio sendo empinado pelo tempo. Caminhou até lá e lá estava um escritor de cartas.

Curiosamente e para assombramento do homem, lá, ao contrário do que imaginava, não havia ninguém além do escritor de cartas. Ninguém para ter com ele. É como se os outros homens não soubessem que só os escritores de cartas transladam versos e curam orações. Santa ignorância, pensou ele. Logo depois o homem encontrou o escritor de cartas.

O homem postou-se e observou que ao escritor de cartas faltavam os olhos.  Ora, refletiu logo, mas se os olhos não escrevem cartas, para que tê-los? Para desguardar lágrimas? Aliás – continuou – nenhum escritor de cartas precisa de olhos. É por isso que transladam versos e curam orações.

Por fim, pediu ao escritor de cartas que escrevesse uma carta. Advertiu logo que a carta não teria destinatário. Exigiu também que queria que o escritor de cartas repetisse várias vezes as mesmas palavras. Para o homem a carta precisa precisa ecoar. A carta, ademais, teria um argumento: a dor. Dor deles – do homem e do escritor de cartas.

Foi assim que o homem ditou e o escritor de cartas escreveu. É claro que as palavras ditadas pelo homem nem sempre eram escritas pelo escritor de cartas na medida em que os escritores de cartas têm a obrigação de traduzir as palavras ditas pelos homens de modo que as palavras deixem de ser só palavras. Ninguém sabe o que o homem ditou e nem o que o escritor de cartas escreveu. O que se sabe é que o homem, o escritor de cartas e a carta,  existem.

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