Cronistas do blog

BEBAI, BEBAI…
Wagner Gomes

Dia desses, numa das salas de audiências, no Fórum de Macapá, encontrei-me com o Promotor de Justiça, Marcelo Moreira, e lembramos do saudoso desembargador Leal de Mira, de quem Marcelo foi assessor. Na rápida conversa recordei a ele a saudação que aquele magistrado sempre fazia ao me ver: “Bebai, bebai para que os inimigos não vós encontre ocioso”.

Para quem não entendeu, ele fazia referência a Baudelaire, que afirmava: “É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos. Embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.”

Dito isto, vem a memória a lição de Fernando Pessoa: “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela… Quem escreverá a história do que poderia ter sido o irreparável do meu passado. Este é o cadáver… Se a certa altura eu tivesse me voltado para a esquerda, ao invés que para direita. Se em certo momento eu tivesse dito não, ao invés que sim. Se em certas conversas eu tivesse dito as frases que só hoje elaboro. Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro seria insensivelmente levado a ser outro também.”.

Nessa angustia existencial, quem me socorre é o sociólogo Jocivaldo França, citando Nietzsche: “Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu.

Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias

Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”.

E seguindo o meu caminho, junto com os advogados Evaldy Motta, Emmanuel Dante e Dayse Nascimento, sentamos em uma mesa de um Bar, na orla do Igarapé das Mulheres onde apresentei a eles o meu amigo Manoel.

Manoel nasceu para viver no mar. Pernas arqueadas, típico marinheiro amazônida, conhecedor dos rios, lagos e igarapés da ilha de Marajó e adjacências. Carpinteiro naval, já perdeu a conta de quantas montarias construiu na região.

Olhar sereno, estatura mediana, com a visão prejudicada, usa “uns óculos que comprou no camelô da esquina para ver melhor”. Na ponta dos beiços seu indefectível “porronca” que exala um cheiro que diz espantar carapanãs e os maus espíritos.

Meu amigo Manoel, não é o “Venturoso”, soberano português (1495-1521), nascido em Alcochete, filho do infante D. Fernando e de D. Beatriz, neto paterno do rei D. Duarte, que assumiu a coroa (1495) como quinto rei da dinastia de Avis e décimo quarto rei de Portugal. Que casou-se (1497) com a princesa Isabel de Castela, viúva de D. Afonso, filho de D. João II, e filha dos reis da Espanha,Fernando e Isabel. Que herdou as coroas de Aragão e Castela e, uma vez viúvo, desposou sua cunhada, a infanta D. Maria, com quem teve nove filhos. E que novamente viúvo, casou-se com Leonor D’Áustria, irmã do imperador Carlos V. Que construiu a Torre de Belém, em Lisboa, e criou as bases do renascimento português à medida que patrocinou publicações poéticas como o Cancioneiro Geral (1516) e o gênio do teatro Gil Vicente. O Manoel é o Manoel mesmo, de falar interiorano, que troca o O pelo U, R, pelo L e vice-versa. Que não gosta dos “escassos”, e que hoje devido à idade, faltando-lhe forças para continuar como carpinteiro naval, dedica-se a “fabricar” coronhas de espingardas. Sentado, enquanto confecciona suas “empunhadeiras”, se transforma em um verdadeiro contador de estórias, mais verdadeiras do que lendárias.

Naquela ocasião, contou-nos, que quando jovem, no inicio do Território Federal do Amapá, por volta do ano de 1944, numa Comarca do Interior, apareceu Maria Senhora, procurando o juiz, para comunicar àquela autoridade que sua filha “Lindinha”, de 14 anos, havia sido seduzida por João Capucho, filho de sua comadre D. Miquelina. A menina toda envergonhada com a cara pro chão, relatou a maneira como lhe fizeram “mal”. Disse que fora acompanhar Capucho dentro da mata para apanhar folhas de palmeiras pra cobrir o coradouro de roupas, tanto para si, quanto para sua madrinha Miquelina. Que, quando se encontrava a sós, ele a derrubou no chão, nela saciando toda sua lascívia, deixando-a desvirginada e angustiada. E agora não queria casar. O rapaz compareceu perante o magistrado e na maior cara de pau negou tudo. Enquanto isso, Lindinha, olhos verdes brilhantes e safados, parecia se divertir com o “aperto” que o Dr. Falcão, o juiz, dava nele. Capucho não tinha instrução alguma, mas era pra lá de esperto. Negava tudo e apresentava seus argumentos. Dizia que Lindinha “era uma pequena flor do vício, nascida e criada na estrumeira dos alcoices e bordeis pelos quais sua mãe se arrastava na convivência debochada de reles decaídos e vadios contumazes”.

Não aguentando mais a negativa de Capucho, o seu falar empolado, Dr. Falcão mandou recolhê-lo ao xadrez da Delegacia, determinando que  o trouxessem de volta a sua presença, às 16 horas.

Depois da sesta, tomado banho e perfumado, o juiz em seu gabinete, sozinho com Capucho tendo um dos braços em seus ombros, mansamente foi dizendo:

– Então foi você que foi o autor de Lindinha ou continua negando?

– Não fui eu, doutor.

– Mas não foi você quem convidou Lindinha para ir ao mato colher folhas de palmeiras para o coradouro de roupas da mãe dela e da sua?

– Bom, convidar eu convidei. Ela aceitou. Não forcei. Então caminhamos até onde existe um igarapé e os açaizais.

– Mas lá naquele igarapé, atrás daquelas pedras, vocês não tomaram banho juntos?

– É verdade, doutor, nem me lembrava. Tomamos banho porque o sol estava muito quente. Por isso tiramos a roupa. Ficamos conversando, enquanto ela chupava uns taperebás.

– Aí você agarrou-a, derrubou-a no chão à força e fez-lhe mal, não foi?

– Que negocio é este, doutor? Não tinha ninguém por perto! Ninguém viu. Só se o senhor estava atrás daquelas pedras escondido para saber disso.

– Irritado com a resposta de Capucho, engolindo em seco, disse ao escrivão.

– Chama o soldado e manda prender este pilantra!

– Doutor, não sou bicho de circo para viver enjaulado. Eu caso com Lindinha. É melhor ficar preso a ela e solto, do que gramar cadeia sem poder caçar.

Casou-se. Seis anos depois, adiantou-nos o Manoel, Lindinha estava com seis filhos barrigudos, encatarrados e remelentos, embora tivesse sido decretado no termo de casamento a separação de corpos. Totalmente acabada aos vinte anos. Parideira cedo. Mas os olhos cor da floresta, ainda representavam todos os seus encantos e mistérios, sacanamente belos…

É, Evaldy Motta, Emmanuel Dante e Dayse Nascimento – Bebai, bebai, para que os inimigos não vós encontres ociosos…

  • A bela narrativa de Wagner Gomes é mais que um “causo”, é uma novela daquelas contadas e ouvidas somente por quem vive às margens dos lagos e igarapés amazônicos. Ainda que recheada de referências “eruditas”!
    Alcinéa, simplesmente fantástica essa crônica do meu amigo Wagner, que, sem desejar desmerecer os demais distintos colaboradores do seu blog, contribuiu magnificamente para o conforto literário de seus visitantes.

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