Em novo livro, Willi Bolle propõe conhecer a Amazônia pelas letras de Dalcídio Jurandir

Amanhã, 30 de junho, o professor Willi Bolle lançará em Belém, na Livraria Fox, o seu novo livro “Boca do Amazonas: sociedade e cultura em Dalcídio Jurandir”, editado pela Edições Sesc. Ele é professor titular de Literatura da Universidade de São Paulo e crítico literário, conhecido no Brasil e no exterior pelo estudo de autores como Guimarães Rosa e o filósofo Walter Benjamin, de quem organizou a edição das “Passagens” para a língua portuguesa.

Em seu novo livro, Bolle propõe uma interpretação da obra do escritor paraense Dalcídio Jurandir (1909-1979), apresentando o “Ciclo do Extremo Norte”, composto por dez romances publicados de 1941 a 1978, como forma de compreender melhor a sociedade e a cultura da Amazônia.

O encontro com a obra de Dalcídio se deu a partir de Belém, onde o autor esteve diversas vezes, a fim de ministrar palestras e cursos sobre Walter Benjamin. Pela mesma razão, passou uma temporada na cidade como professor visitante do Núcleo de Estudos Amazônicos (Naea), na Universidade Federal do Pará.

Seu interesse pelo escritor paraense surgiu em 1998, após a participação na banca de mestrado de Paulo Nunes, também professor de literatura e um dos maiores especialistas em Dalcídio.

Para Willi Bolle, o estudo de Dalcídio completa uma trilogia iniciada em 1994 com “Fisiognomia da Metrópole Moderna”, cuja terceira edição acaba de ser publicada pela EdUSP, e continuada em 2004 com “Grandesertão.br: o romance de formação do Brasil”, também em fase de relançamento.

Uma trilogia que representa meu projeto de uma topografia cultural do Brasil, num percurso que vai da metrópole/megacidade através do sertão até a Amazônia”, aponta o autor na introdução do “Boca do Amazonas”.

Outra característica que acompanha o esforço de leitura do ciclo dalcidiano por Bolle foi o de aproximá-lo com o filósofo alemão Walter Benjamin.

Comecei os estudos sobre o retrato da Amazônia em Dalcídio Jurandir com uma pesquisa sobre a metrópole Belém, pelo prisma do romance Belém do Grão-Pará e, ao mesmo tempo, das Passagens, de Walter Benjamin – para apresentar a obra do romancista paraense, desde o início, numa perspectiva comparada e à luz de um autor de projeção internacional”, afirma.

A atualidade da obra de Dalcídio também passou a ser melhor compreendida e afirmada por Bolle a partir de leituras dramáticas e da montagem de peças com base nos romances, em colaboração com professores e estudantes da Escola Dr. Celso Malcher, localizada na Terra Firme, entre os anos de 2009 e 2014.

Ele conta que a relação com o teatro iniciou ainda na juventude e firmou-se com a formação como ator nos anos 1980 pela Escola de Arte Dramática da USP, universidade na qual já atuava também como professor de literatura.

Belém, Brasil – Vindo de Berlim, Willi Bolle conta que chegou ao Brasil em 1966, aos 22 anos, entusiasmado pela leitura de “Grande Sertão: Veredas”. A ideia era conhecer o país à luz do romance. Esteve pessoalmente com Guimarães Rosa no mesmo dia do desembarque da viagem de navio que o transportou do porto de Hamburgo ao Rio de Janeiro. Em São Paulo, seguiu com os estudos do romance que o motivou desde a graduação em Literatura.

Um ano após a viagem, em 1967, veio de ônibus de São Paulo até a capital paraense pela recém-inaugurada Belém-Brasília (BR-316), para realizar o desejo de conhecer a Amazônia. Em Belém, encontrou o filósofo Benedito Nunes, cujos estudos sobre Guimarães Rosa conhecera através de jornais. Antes de retornar, esteve na Serra do Tumucumaque, localizada na fronteira entre o norte do Brasil e a região sul do Suriname e da Guiana Francesa. Na volta, em Óbidos, no oeste do Pará, perdeu a “carona” em um voo da Força Aérea Brasileira e, por meio de outro voo, chegou em Manaus, de onde, por intermédio do governador, conseguiu retornar a Minas Gerais, também de carona em uma linha aérea militar, para concluir a graduação em São Paulo.

Mais de duas décadas depois, por meio do Instituto Goethe, participou da organização do evento “Sete Perguntas a Walter Benjamin”, em São Paulo.

O evento repercutiu no Brasil inteiro e recebi um convite para dar uma conferência aqui em Belém, no final de 1990. Quem me apresentou ao público foi o Benedito Nunes. Reencontrei Belém e o Benedito 23 anos depois”, relata.

No primeiro semestre de 1991, a convite do filósofo, realizou um curso sobre Benjamin no então Departamento de Filosofia. A partir do ano seguinte, sob o intermédio da professora Edna Castro, realizou diversos cursos no Naea, da UFPA.

Naturalizado brasileiro, o professor segue, a partir de seus estudos, diálogos, participação em eventos e bancas, colocando Dalcídio em contato com outros autores e a capital paraense em diálogo com outras cidades, como São Paulo e Berlim.

Novo livro – Segundo o “Boca do Amazonas”, o romance em série ou romance-fluvial dalcidiano acompanha o caminho de formação de Alfredo, alter ego do escritor. O jovem protagoniza o ciclo, dos 10 aos 20 anos de idade, durante a década de 1920, marcada pelo declínio da economia da borracha, pela estagnação e por tentativas de reestruturação. Por sua riqueza de detalhes e da caracterização da região através da linguagem, da memória, da imaginação e das indagações das personagens, trata-se também de um romance social, com elementos etnográficos.

Optei por estudar a Amazônia à luz da obra de Dalcídio Jurandir, porque seu ciclo de dez romances, com cerca de três mil páginas, oferece uma apresentação da história cotidiana e da cultura da Amazônia que é exemplar em termos de amplitude e fidelidade aos detalhes”, justifica Bolle logo na introdução de “Boca do Amazonas”.

Como se sabe, a Amazônia, apesar de ocupar 60% do território brasileiro, desperta um interesse apenas marginal na grande maioria da população, inclusive nos intelectuais, e também na mídia. Com isso a proposta de fazer conhecer essa região – que, segundo Euclides da Cunha, situa-se à ‘margem da história’ do Brasil – por meio de uma obra que também ficou à margem, a saber, do cânone literário, tem algo de paradoxal, mas ao mesmo tempo, de homeopático”, prossegue o autor.

No novo livro, a obra de Dalcídio Jurandir é inicialmente situada no contexto da história política, econômica, social e cultural da Amazônia. São descritos também o processo de criação do ciclo romanesco e a sua recepção.

Nos capítulos principais, o leitor passa a conhecer, com base nos dez romances, quatro cenários da vida cotidiana social e cultural da Amazônia: a ilha de Marajó; a metrópole regional Belém; a periferia de Belém; e a vila de Gurupá.

Segundo o autor, é possível destacar três aspectos acerca da contribuição do ciclo romanesco de Dalcídio Jurandir para o conhecimento da Amazônia: 1) a descrição da cultura cotidiana dos que vivem na periferia da sociedade; 2) o engajamento por uma educação de qualidade para todos; 3) e a importância dada às falas dos habitantes da Amazônia. “O romancista captou na boca do povo dizeres significativos, que são documentos da memória cultural e do desejo dessas pessoas de se tornarem sujeitos da História”, enfatiza.

“Com tudo isso, o retrato exemplar da Amazônia apresentada no Ciclo do Extremo Norte estimula também a reflexão sobre os problemas sociais e educacionais de todo o Brasil”.

(Yasmim Ribeiro)

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