My friend Fernando Canto

My friend Fernando Canto
Ray Cunha

Conheci Fernando Canto por volta de 1969; tínhamos em torno de 15 anos e eu morava perto da casa do Fernando, no Morro do Sapo, Laguinho. Já frequentava, então, a casa do pai da minha geração perdida, Isnard Brandão Lima Filho, na Rua Mário Cruz, amava os Beatles e bebia como Ernest Hemingway.

Em dezembro de 1971, publiquei, com Joy Edson e José Montoril, um livrinho de poemas, XARDA MISTURADA, e no ano seguinte peguei o que pude de exemplares desse livro e me mandei de Macapá. Peguei um barco para Belém e, de lá, consegui carona em um caminhão via Belém-Brasília e de Brasília fui parar no Rio de Janeiro, onde convivi com o músico Aimorezinho Nunes Batista e seu irmão, Itabaracy, com o compositor Luiz Tadeu Magalhães, com o poeta e pintor Manoel Bispo e com o pintor Abenor Pena Amanajas, até 1974, quando peguei de novo a estrada.

De volta a Macapá, tentei retornar aos estudos, o quarto ano ginasial, mas eu continuava extremamente inquieto e a estrada me atraía irresistivelmente, e assim tomei outro barco e desta vez segui para Santarém e depois para Manaus, onde morava tia Izabel, irmã de meu pai, João Raimundo Cunha. Em Manaus, consegui emprego como repórter policial do Jornal do Commercio. Era o ano de 1975.

Vivi em Manaus até 1877. Trabalhei, depois do Jornal do Commercio, em A Notícia e A Crítica. Foram dois anos de farra, que me deram elementos para escrever o conto A GRANDE FARRA. Mesmo assim sentia-me entediado. As coisas estavam acontecendo mesmo em Belém, onde moravam o pintor Olivar Cunha, Isnard Lima e Fernando Canto, além de vários amigos de Macapá.

A estrada novamente me tragou. Peguei um avião e me mandei para Belém, onde consegui emprego como repórter em O Liberal. Eu continuava com apenas o quarto ano ginasial, o equivalente, hoje, ao último ano do ensino fundamental, mas as empresas jornalísticas ainda aceitavam jornalistas sem diploma.

Foi nessa época que estreitei minha amizade com Fernando Canto. Bebíamos e conversávamos muito. O Fernando tinha um tio que era dono de bar e quando aparecíamos lá, bebíamos de graça. Certa noite bebemos tanto gim no bar do tio do Fernando que no dia seguinte eu rescendia a gim.

Em 1980, retornei ao Rio e em 1982, a Belém. Submetera-me ao supletivo de primeiro e segundo graus e ao vestibular da Universidade Federal do Pará e passei no curso de Jornalismo. Graduei-me em 1987 e retornaria ao Rio, mas, em Brasília, Walmir Botelho, então diretor de redação do Correio do Brasil, me convidou para trabalhar com ele como redator da capa do jornal. Aceitei, casei-me com a gata Josiane Souza Moreira Cunha, nasceu minha princesinha Iasmim Moreira Cunha e até hoje moro em Brasília.

Aqui e ali vou a Macapá, onde tenho encontro marcado com Fernando Canto. A última vez que estive lá, de 11 a 16 de janeiro passado, foi uma grande farra. Estivemos juntos quase o tempo todo, vagabundando por toda a orla, até o Curiaú, e parando em restaurantes e bares da cidade. Encontrei com o Manoel Bispo e bati um longo papo ao telefone com a Alcinéa Maria Cavalcante, musa da minha geração e a grande dama da poesia macapaense.

A realidade é infinita como a própria vida. Cada qual tem a sua própria realidade, assim como cada circunstância e cada local e horário tem realidade específica, de modo que a realidade é um labirinto infinito em sucessão e variação. A sensação de que só há uma realidade é que só nos encontramos em um determinado ponto desse labirinto e em determinado momento, de modo que aquele ponto e aquele momento criam a ilusão de que só há aquela realidade.

De certa forma, isso se parece com a observação do filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), de que só é possível chegar ao entendimento ao superar as próprias circunstâncias, que estão, por sua vez, em permanente processo de mudança: “O homem é o homem e a sua circunstância”. Acho que, em suma, esta foi a conversa que tive com Fernando Canto, durante os quatro dias em que estive em Macapá, ora a bordo do carrão tipo James Bond do Fernando, ora em bares, ora ao telefone.

Fui à Macapá para ver minha irmã Linda, que está bem. Fernando Canto e eu batemos muito papo durante esses poucos dias. Senti-me personagem de ficção, o Mundico dos TEMPOS INSANOS, conto publicado inicialmente no livro O Bálsamo e Outros Contos Insanos, pela Editora da Universidade Federal do Pará, em 1995. Na companhia do Fernando sinto a velha sensação de aventura, de novas possibilidades, de coisa nova.

Acho que vale a pena transcrever o conto OS TEMPOS INSANOS, comentado. Trata-se do melhor texto, o mais criativo, de um escritor que vem, a cada dia, se assenhoreando mais e mais do labirinto da vida, que já compreendeu que a verdadeira vida se passa em um plano mais sutil do que o da matéria, pois ele, como eu, já aprendeu a voar na luz.

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