Vamos?

Vamos, eu e tu, andar por esta rua que se estende preguiçosa como uma tarde de domingo.
Te mostrarei as marcas da infância deixadas pelos meus pés descalços quando havia um pote de ouro no fim daquele arco-íris que atravessava a mata onde a matinta-perera morava.

Conheço cada pedacinho dessa rua, suas pedras, flores, janelas e personagens.

Vê! Ali morava Mané Pedro e sua bicicleta azul. Já não existe a casa. Nem a bicicleta. Desconfio que Mané Pedro foi pedalando para o céu e deixou uma saudade estacionada na rua.

Ah, a casa da Maria Banha. Era bem ali, do lado do Mané Pedro. Não tinha pátio nem varanda. Era coberta de palha e era tão singela.

Mais aqui morava “Vó” Etelvina. A casa era verde, de venezianas. Essa tinha pátio com duas cadeiras de vime. À tardinha, ‘Vó Etelvina”, sempre de vestido estampadinho, sentava no pátio e nos contava histórias sob os olhares atentos das flores que emolduravam a entrada.

Vó Etelvina era linda e doce, cheirosa e sorridente. Tinha os cabelos da cor do luar. Dela a criançada tomava bênção. Mas também morria de medo e chorava, mas só quando estava com a garganta inflamada. É que Vó Etelvina era “curadeira” de garganta. Encharcava um algodão com copaíba, andiroba e limão, enrolava no dedo e enfiava na garganta do doente fazendo movimentos circulares. Juro que me dava vontade de morder a mão dela para que nunca mais fizesse isso. Mas era um santo remédio.

Aliás, nessa rua havia também uma benzedeira, que tirava quebranto e costurava rasgadura. Mas isso te conto no próximo passeio e te falo também dos demais vizinhos, como o campeão brasileiro de natação Anselmo Guedes e a professora Odete (que ainda moram no mesmo endereço), o jogador de futebol Tamundo, o professor Pardal, dona Carmina, dona Lourdes (que fazia o melhor mingau de mucajá do mundo), dona Ermínia e os japoneses da esquina. (Alcinéa Cavalcante)

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