Faveira – Não deixe que me condenem à morte

Não lembro quando nem como aqui cheguei ou aconteci. Faz tanto tempo!

Aqui fui criando raízes, crescendo com a cidade, vendo esta rua se enfeitar de canteiros e casas tão parecidas.

Lembro do seu Alceu chegando em casa com uma pasta embaixo do braço; ainda vejo na memória o laboratório da “tia Ênia” e a família do coronel Ribeiro que morava aqui defronte. Lembro da professora Zulma ainda menininha brincando na calçada.

Já ri muito com os jovens sentados aos meus pés na maior galhofa e abençoei os que aos meus pés estudavam para o vestibular.

Ah, quantas vezes vi os bonecos de anil passando por aqui assobiando, indo ao encontro de suas belas garapas azedas embaixo de uma frondosa mangueira que ficava ali na esquina.

Testemunhei a inauguração do Hotel Mercúrio. Um luxo!

Senti o cheiro do café vindo da Fábrica Amapaense.

Ouvi a melodia que vinha da máquina de escrever do poeta e jornalista Alcy Araújo quando ele estava poetando ou escrevendo artigos.

Acolhi na minha sombra gente de todos os credos, idades, raças, classe social.

Dou abrigo para os passarinhos e de manhã sou palco para o show  que eles fazem reverenciando o amanhecer.

Nunca fiz mal nenhum. Nenhum mesmo. Por isso não entendo porque  estão me ameaçando de morte. Estou aflita. Inquieta. De noite não sei se amanheço. De dia não sei se anoiteço.

Ouço barulho de motosserra (estarei louca?). Tenho pesadelos com uma bruxa estrangeira que me golpeia com machado, me esquarteja e com meus pedaços faz uma enorme fogueira onde bota a ferver seu caldeirão. Acordo assustada, pois já tentaram fazer isso comigo e já fizeram  com algumas das minhas vizinhas.

O canto dos passarinhos me acalma, vislumbro o sol derramando seus raios sobre a abençoada terra de São José e peço a proteção do padroeiro e das pessoas de bem deste lugar  onde finquei minhas raízes. Por favor, não deixem que me condenem à morte.

(Alcinéa Cavalcante)

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