Os livros e os dias

Li, mais uma vez, “Os livros e os dias”, de Alberto Manguel. É um misto de diário e crítica literária. De junho de 2000 a maio de 2003, ele releu 12 livros – um por mês.

Em “Os livros e os dias”, Manguel mistura a crítica com seu diário pessoal e estabelece diálogos entre os 12 autores relidos no período e outros lidos ao longo da sua vida. É como se houvesse uma conversa descontraída – e até algumas confissões – entre escritores de nacionalidades, gêneros, épocas e estilos tão diferentes.

A primeira vez que o li, devorei-o. Desta vez não. Li tão sem pressa e com tanta atenção como um pescador que tece sua rede de pesca para a próxima temporada. Grifei trechos, fiz anotações e me senti participando de uma grande roda de bate-papo com Manguel, Kipling, Machado de Assis, Conan Doyle, Cervantes e tantos outros. Senti falta de Hemingway.

livro3Durante a conversa veio o desejo de reler algumas obras, como D. Quixote, Kim e Memórias Póstumas de Brás Cubas. O primeiro e o último tenho na estante. Já os li várias vezes desde minha adolescência. Mas Kim… juro que nem lembrava da sua existência. Só lendo Manguel é que me veio à lembrança que li Kim quando tinha 10 ou 11 anos. Mas não lembro absolutamente nada dele. Sei apenas que gostei.

É possível gostar de algo que não se lembra, de que não se sabe mais nada? Acho que sim. Quem é Kim? Não sei, mas gosto dele. O que Rudyard Kipling conta em Kim? Não lembro, mas sei que é coisa boa. Como era a capa, o papel, a tipologia do livro? Não tenho a menor ideia. Agora quero saber tudo isso que esqueci.
Tô ansiosa.
Como resolver, onde encontrar, como comprar? Nada que não se resolve em tempos de internet.

Decido iniciar a busca pela Livraria Cultura. Tenho sorte. Tá lá no catálogo. Imediatamente faço a compra on line.

Agora é esperar que a Kombi dos Correios pare na frente da minha casa e dela salte o carteiro com uma caixa na mão. Uma caixa, que tenho certeza, guarda boas lembranças da minha infância; lembranças tão bem guardadas, tão escondidas, que nem lembro mais.

Alberto Manguel não releu “Cartas a um jovem poeta”, mas faz uma referência a ele. Lembro que o li há alguns anos. Uma rápida passada de olhos numa das minhas estantes e lá está ele esperando para ser relido.

Ok. Sento na cadeira de balanço, coloco os óculos e aguardando a chegada de Kim releio as cartas de Rainer Maria Rilke.

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