Há 64 anos – Revista do Amapá e República do Cunani

Dia desses enquanto  esperava o sono chegar fiquei folheando minha modesta coleção de revistas antigas. E hoje resolvi reproduzir aqui o editorial da edição número 8 Revista do Amapá, de novembro de 1948.
A revista era uma publicação do governo do então Território Federal do Amapá e nesta edição trazia como matéria de capa a história da vila de Cunani, que chegou a ser, por um curto período , um país independente.
Moedas da República do Cunani ficaram por muitos anos expostas no Museu Histórico-Científico Joaquim Caetano da Silva, em Macapá. De lá foram roubadas. (Sim. Aqui se rouba tudo)
Uma das grandes atrações da vila eram os sinos da capelinha, feitos na França. Uma verdadeira obra de arte.
Cunani, que fica a cerca de 300km de Macapá, está abandonada. Nem em época de campanha política a comunidade é visitada.
Neste editorial a revista diz que a história do Amapá clama por estudiosos. Passados mais de 60 anos podemos dizer que a nossa história ainda clama por eles.
O Amapá é carente de historiadores, é carente de obras sobre sua rica história.
Dito isto, vamos ao editorial:

O sino do Cunani

A história do Amapá clama por estudiosos. Aqui e ali encontram-se referências ligeiras a um passado cheio de aventuras, de lutas e de sonhos. Mas os episódios desenrolados na imaginação dos que caminharam pelos seus rios e estradas interiores, correndo atrás de pepitas, carregando a bateia, descendo nas ravinas das montanhas para, turvando os igarapés, buscar no seu leito a pinta do ouro, ainda não tiveram o seu escritor. É mina que está por explorar.
Nossa capa constitui um exemplo vivo. Ali está o sino do Cunani, da sua capela pequenina, porém rica de tradição. Foi fundido na França, com o melhor bronze, especialmente para a Nossa Senhora do Cunani. Obra de arte perfeita, construída com carinho exemplar.
Cunani tem sua lenda no mundo. No fim do século passado e no princípio do presente serviu de motivo para comentários internacionais. Quando o Amapá atraía milhares de aventureiros à busca de filões auríferos, assistiu lindas festas e alimentou grandes ambições.
Duas vezes tentaram transformar esse lugarzinho em país independente. A primeira foi em 1886, durante a visita do célebre naturalista Henri Coudreau. Os franceses ali residentes elegeram-no Supremo Magistrado da Nação do Cunani. Conta Elisée Reclus que Paris em peso desabou às gargalhadas com esta idéia da eleição do sábio de Vauves para a presidência de um país sem súditos!… O caso é que logo após S. Excia. cercava-se de uma comitiva respeitável e seleta: foi fundada a ordem nacional Étoile de Cunani, mas esta instituição continha mais comendadores, cavaleiros e titulares do que habitantes havia em Cunani… Um belo dia o Ministro das Colônias da França, diante dos protestos do Governo brasileiro, com a penada eficaz de um decreto, fazia riscar do mapa a República de Cunani … (Alfredo Gonçalves).
A segunda ocorreu em 1903. O francês Adolfo Brezet proclamou a República do Cunani, abrangendo todo o território ex-contestado. Mas os seus áulicos tiveram sua ilusão desfeita pela Polícia de Belém.
Cunani teve também a sua moeda, cunhada na França, como possuía cerâmica original.
Hoje apenas a capela guarda a lembrança do passado glorioso. As telhas da cobertura e os tijolos do piso vieram de Marselha. Encontram-se no altar lindos castiçais e crucifixos.
Atrás da povoação acham-se os restos da linha de tiro, onde os soldados franceses faziam exercícios. Existem cafeeiros plantados no século findo que dão frutos.
Fala-se também que debaixo da capela há um subterrâneo. Alguns afirmam que ele é longo de vários quilômetros e vai até à serra do Cunani.
Aí fica um breve roteiro para os faiscadores da história amapaense. Cunani é um filão à espera de quem o descubra de novo.”

 

  • A história do meu município Calçoene Ap é muito rica mesmo e precisa ser reconhecida nacionalmente. Exelente artigo.

  • Meu Psi e avos viveram na vila de Cunani.Minha avo materna a pioneira Professora Alzira de Lima Santos.Una das primeiras moradoras dessa vila,lecionou por muitos anos.Dedicou muito tinha Amor por essa vila.Acho importantissimo manter a memoria de nosso Estado viva e principalmente a da Vila de Cunani.Todos precisam saber de sua importancia para a historia do Amapa.Tenho orgulho de minha Familia ser de la.Parabens pela materia excelente!

  • Bela materia !
    O Amapá é rico em histórias, lendas, mitos, “causos” e tambem algumas “istorinhas”. Porém falta ser pesquisada e divulgada por seus autores.
    Uma boa parte de nossa historia arqueologica está no estado vizinho, em belem, no Emilio Geoldi.
    Basta ir nas bibliotecas da UNIFAP e outras que tá la, um montao de TCCs falando sempre as mesmas pesquisas: Quilombo do Curiaú (que tem historiador amapaense que diz que nunca foi quilombo), O populismo de Janary Nunes, a festa de são tiago (mazagão velho), Marabaixo como manifestação cultural de um povo, A transformação do TFA em Estado do Amapá, enfim, sao pesquisas q já estáo “batidas”, alias, tem orientador que nem faz fadiga em orientar seus discentes !
    Mais olhem bem: – Para se pesquisar precisa de investimentos financeiros, e isso é, creio eu, o maior problema para o pesquisador.
    Certa vez, ouvir da boca de um colega historiador: “O Amapá nao tem história, tem piada”.
    Falando em história abandonada, é só dá uma passadinha lá no municipio de Amapa e veremos o abandono geral da base aerea da 2ª guerra. mundial. Existe até um Projeto do GEA para transformar a base aerea em museu, excelente ideia, mais precisa sair do papel.
    Boa noite !

  • Querida Alcinea, minha familia é da vila do cunani. Minha tinha uma vila la dentro chamada Vila Tomazia e toda vez que vejo uma reportagem de lá, eu me emociono. Minha avó tem muita vontade de voltar lá, mas é precaria a estrada ate la. Todo ano tem a festa na vila e é tao bonita 🙂
    Meus familiares ainda moram la e nao me canso de dizer q tenho raizes naquele lugar tao bonito 🙂 Adorei a materia!

    • Minha Familia e da Vila de Cunani.Minha Mae e meus tios nasceram la.Minha svo Vitoria Santos Gurjao,Meu Avo Hilario dos Santos Gurjao.Meu Pai Benicio dos Santos Gurjao.Viveram muitos anos de suas vidas la..Minha Bisavo Materna Professora Alzira de Lima Santos lecionou desde o governo de Janary Gentil Nunez.Deu s vida pela Educacao e trabalhou muito pela Vila de Cunani era muito conhecida.Tem uma escola com seu nome em Homenagem pela vida dedicada a Educacao no Municipio de Tartarugalzinho.Onde tambem viveu durante muito tempo.Parabens pela excelente materia.Me orgulho de minha Familia ter vivido ai.O povo Amapaebse precisa saber o quanto a Vila de Cunani foi importante psra a Historia do Amapa.

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