Memorial Amapá – O emocionado discurso de Abraham Zagury

Discurso proferido por Abraham Zagury em 12 de setembro de 2015 por ocasião da reinauguração da Praça Isaac Zagury

Ilustríssimo senhor Clécio Luiz, Prefeito de Macapá.
Ilustríssimo senhor Walter do Carmo, Presidente do Memorial Amapá
Queridos amigos.

Senhores eu poderia começar com a poesia “Gracias a la vida” , de Violeta Parra, fundadora da música popular chilena, imortalizada na voz de Mercedes Soza, com os versos que aqui ouso traduzir

Graças à vida que me deu tanto
Me deu dois olhos que quando os abro
Perfeitamente distingo o preto do branco
E no alto o céu com seu fundo estrelado

marileiaPor aqui vejo confirmada a identidade que cedo assumi e jamais abandonei. Entretanto, apesar de poder parecer repetitivo a alguns que já me ouviram em outras ocasiões escolho iniciar com as palavras de Elie Wiesel, prêmio Nobel de Paz em 1986. “Toda história tem que ser contada desde o começo. Somente o começo tem sua própria história, seu próprio segredo. É assim, foi sempre assim, e o homem nada pode fazer. Nem mesmo a morte tem poder sobre o começo”. Porque está é exatamente a expressão do que desejo aqui dizer.

Começamos aqui. Aqui construímos os alicerces de nossas vidas.

Conhecemos e convivemos com os pioneiros: Janary Nunes, Coaracy Nunes, Hildebrando Maia, Amílcar Pereira, Sabóia, as famílias Alcolumbre, Perez, Picanço, Bezerra, Serrano, Borges, Abdala e Zagury, liderada pela, minha avó Sarah que com pulso firme e muito amor empurrou os filhos para o respeito e a fraternidade. Assistimos a inauguração do Hotel Macapá, do Hospital, do Aeroporto e da casa do Governador. Infelizmente não consegui aprender a nadar com o capitão Euclides na piscina Territorial. Assistimos a implantação de projetos que nos inspiraram para vida como a Turma do Buraco, a Olaria e os banheiros públicos, tão necessários às cidades grandes.

Vivemos aqui no tempo em que não havia energia elétrica e que as ruas eram cobertas de piçarra, em que o cemitério era muito longe e a fazendinha era muito, mas muito mais distante ainda.

Aprendemos aqui o orgulho de ser brasileiro desfilando no sete de setembro na Fortaleza de São Jose de Macapá e estudando a luta de Cabralzinho para preservar o território brasileiro.

Agradeço ao Dr. Lobato, médico do Amapá, que fez o diagnostico que modificou minha vida. Através dele Macapá me devolveu o braço minimizando os efeitos da paralisia infantil. Lembro de outros médicos pioneiros Diógenes, Tancredi, Amilcar, Saboia e Alberto. A doença me levou a cidade maravilhosa e lá identifiquei o grande amor por Macapá na imensa saudade que senti. Meus irmãos também seguiram esse caminho em busca de melhor futuro. Fomos afastados do jogo de peteca e dos papagaios, do Rio Amazonas, das árvores altas com suas frutas derrubadas com baladeiras. A saudade era intensa.

Quando retornávamos de ferias voltávamos a comer manga com o querido amigo Amiraldo em frente a sapataria do seu Mundoca, aos nossos animais de estimação a praticar o futelama onde seguramente me destaquei pelos inúmeros tombos.Entre essas maravilhas que só quem viveu aqui naqueles tempos poderá entender posso acima de tudo identificar as bases da nossa formação moral e ética, principalmente na miscigenação, na ausência de preconceito. A cidade transpirava amor, solidariedade, progresso e fraternidade. Víamos, sobretudo na amizade do meu pai com a figura forte do seu irmão negro, nosso querido tio Casemiro. Irmãos, mas irmãos mesmo, desses que não traem e que perdoam os erros. Irmão negro do meu pai branco e judeu. Nos amávamos o tio Casemiro. Eu o amava tanto que um dia passei pó de carvão na pele para ficar igual a ele. Eu queria ser igualzinho a ele. Com eles entendi que o mundo era de todos, que o preconceito mata e o respeito pelo diferente une e enche o coração de alegria. Como sabem somos judeus e naquela época a religião era aprendida “de ouvido”. Na verdade fazíamos uma inocente confusão. Acompanhávamos procissões e guardávamos o shabat. E como isso nos fez bem!

Se sofríamos uma distenção muscular e não encontrávamos o médico minha mãe apelava para a rezadeira, um pouco cristã, muito musical e umbandista misturando preces, música e credos. Lembro de certa vez ter perguntado se nós não éramos da “religião da estrelinha” ao que minha mãe respondeu com um “fica quieto, menino, que ela está rezando pelo bem”. Pelo Bem”, vejam que maravilha neste momento em que no mundo se mata em nome de Deus.

Aprendemos com os macapaenses que unir é muito bom e que todos são iguais.

Entendemos aqui a sociedade como um todo. Vimos com nossos próprios olhos como as pessoas se misturavam e se ajudavam e nenhuma diferença fazia a cor da pele, religião ou dinheiro. Essa Incrível e fascinante mistura se cristalizava nas fogueiras de São João, quando judeus, árabes, cristãos, negros, brancos, nordestinos, jovens e velhos – se tornavam compadres sob a benção do santo. Foi nesse lugar, com essa gente abençoada, que aprendemos a importância de não segregar, de não dividir, de unir. Dessa conjunção surgiu a vontade de servir, de ajudar, de integrar seja no plano pessoal e familiar seja nas ações maiores que pela vida realizamos.

Terminados os estudos primários, nossos pais identificaram nosso futuro no Rio.

Que saudade do Barão do Rio Branco e do Grupo Escolar Alexandre Vaz Tavares. Embarcamos num DC3 da Companhia aérea Cruzeiro do Sul. Será que alguém ainda lembra dessa companhia que era orgulho para a cidade e que oferecia “segurança, conforto e rapidez” e levava cerca de 16 horas de Belém ao Rio ? Lembro bem do velho aeroporto de Macapá. E que hoje é o grande aeroporto Alberto Alcolombre amigo de infância. Quantas vezes invadimos essa área para dirigir a velha e boa Rural Willis do meu tio. Lembro bem do seu João com suas bandeirinhas e do meu tio Moisés liderando embarques e desembarques.

Vivendo no Rio nos sentíamos macapaense e morríamos de saudade.

Na verdade peço que perdoem esses incontroláveis saudosistas que se orgulham do progresso da cidade, mas que procuram com olhos ansiosos os velhos amigos, as antigas ruas, lojas e praças que frequentaram na infância. Desejamos caminhar pela Av. Amazonas, assistir ao grande Clássico Macapá Esporte Clube contra Amapá Clube na pracinha em frente a “casa dos padres”, queremos rever o grande meio campista Faustino, irmão da nossa querida Tereza Tavares e nos deliciar com seus incríveis passes. No nosso devaneio queremos saborear “Flip Guaraná” no terraço do Macapá Hotel, escutar a Rádio Difusora de Macapá ”uma voz que falava para o mundo”. Tomar um tacacá na banca da Dona Dica. Caminhar pelo Trapiche Eliezer Levy.

Queremos chamar todos de “maninho”.

Mas, sobretudo desejamos relembrar e sentir a rede de solidariedade que se estendia por toda esta cidade.Quereremos rever no nosso sonho os “gente boa” da nossa infância e assim homenagea-los: o “seu” Brito com quem plantei o primeiro coqueiro anão da cidade e que chorou comigo quando a arvore foi arrancada, os excelentes jogadores de futebol, Avertino e Aristeu, meu querido primo Mair, o Pintor com sua inacreditável lista, o Cupim de Ferro, que tinha esse apelido pela maneira como destruía os automóveis que dirigia, a minha querida tia Juliana, ex-escrava, que ainda me arranca lágrimas quando relembro que no leito de morte com mais de cem anos, pediu para me ver. Queremos rever nosso pai o “seu Isaac”, que exultava com os empregos que gerava e com o sucesso dos inúmeros agregados que incentivou, amou e ajudou a educar. Queremos abraçar nossas professoras a quem devemos tanto, Acinei Garcia, Orlandina, Sonia Salles, Carmelita e a incansável professora Zenar que um dia me disse com firmeza que querendo se podia tudo, inclusive escrever com a mão esquerda, o que foi extremamente importante na minha vida. Queremos nos sentir como o avô Leão Zagury pioneiro que acreditou nessa terra. Caminhar pela Praça Barão com meu amigo Alberto Alcolombre , com o Aberto Braga,com o bom goleiro Olivar, com o Emanoel Pinheiro médico de renome em SP e enquanto caminhar sonhar com as moças bonitas que povoaram nossos sonhos . E tantos outros e tantas outras coisas.

Como não amar uma cidade capaz de produzir seres humanos diferenciados, solidários e generosos como nossa fiel amiga Dos Anjos e nossa maninha Cezarina.

Como não amar uma região que nos dias de hoje, onde a tônica é a destruição, guarda a beleza de 300 espécies de orquídeas.

Obrigado, muito obrigado.

Obrigado ao Memorial Amapá, na figura desse incansável Valter do Carmo por nos trazer aqui antes da nossa partida. Vocês reuniram nesse lugar os descendentes de um homem que amou essa terra com todo coração e nos ensinou a ama-la da mesma forma.

Queridos amigos, só podemos entender esta homenagem através do amor que temos por essa cidade. Podemos dizer sem medo que em todos os dias da nossa vida sonhamos com essa terra e trouxemos o testemunho dos nossos filhos aqui presentes.

Em minha casa tenho uma saleta onde pelas manhãs exatamente às 7 horas me recolho para ler e sonhar. Meus filhos chamam esse lugar de Macapá é lá que guardo minhas mais preciosas lembranças; um quadro que retrata a casa Leão do Norte, pedras de manganês, uma lembrança do marco do equador e uma peça da velha olaria. Assim volto para cá todos os dias e recordo os gostos,o cheiro e os sons desta cidade.E choro pelos que amei. Choro pelo quanto eu não pude dizer a meus pais e a meu irmão e a essa terra abençoada o quanto os amei e amo e agradeço pela base sólida de amor e respeito às diferenças.

Se merecemos esta honraria não é seguramente pelos lugares que ocupamos na nossa trajetória profissional, mas por ter divulgado e amado essa cidade.

A todos nós nos proclamamos amapaenses sem aqui ter nascido. A todos os lugares distantes desse planeta que visitamos por conta da profissão marcamos a posição do Amapá, mostramos o Amapá no mapa, contamos das belezas do Curiaú. Fizemos o que nos foi possível para que enxergassem essa terra maravilhosa. Aceitamos essa homenagem como um tributo

a trajetória da nossa família nesta terra que se iniciou quando um menino de 15 anos fugido da discriminação no Marrocos aqui chegou em 1879 e encontrou a liberdade. Imediatamente declarou que essa era a sua terra e aqui constituiu sua família. Tornou-se oficialmente brasileiro e em 1905 recebeu a patente de Capitão da Guarda Nacional e com os amigos os coronéis Coriolano Jucá, José Serafim Gomes Coelho, José Antônio Siqueira, jornalista Mendonça Júnior procuraram estabelecer as bases para o futuro. Meu avô Leão montou seu estabelecimento comercial, fundou a primeira farmácia e com o padre Júlio Maria Lombard um internato feminino. Viúva muito cedo minha avó Sarah fez às vezes de medico, construtor e enfermeirafoi por muitos chamada de Mãe Sarah. Meu pai Isaac e seu irmão Moisés empreendedores ampliaram o estabelecimento comercial, trouxeram para cá a primeira revendedora de automóveis, a representação de uma companhia de aviação e fundaram a primeira fabrica de guaraná o “Flip” de quem muitos temos saudade. Em todas essas atividades a prioridade nos empregos era para os “filhos da terra” “que muito precisavam”. Acreditem senhores, alguns desses empreendimentos eram mantidos sem retorno financeiro. Além disso, meu pai na falta de outros mais graduados substituiu por varias vezes o Juiz da cidade.

A eles dedicamos às homenagens que hoje recebemos.

Queridos amigos tenham certeza de que esse homem que vos fala em nome de toda a família Zagury considera este momento mais emocionante e feliz do que quando recebeu o titulo de Cidadão Carioca, Cidadão do Estado do Rio de Janeiro ou a Cruz do Mérito no grau de Comendador e também muito superior em termos de emoção ao de sua posse como Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes ou de Presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, função que ora exerce porque aqui estão nossas raízes. Porque aqui é minha Macondo.

Muito Obrigado

Nós saímos do Amapá, mas o Amapá não saiu de nós.

  • Caros amigos.Peço ,se possível que retifiquem.O discurso acima é meu Leão Zagury e não do meu querido irmão

  • Valeu a pena ter ido por muitas razões, mas estar presente ,conhecer e ouvir os discursos dos Zagury valeu a pena para a vida toda. Agora
    Tenho muito mais motivos para ajudar a conservar a memoria e a praça.

  • Seu discurso foi realmente emocionante. Cada frase desperta sentimentos e lembranças indescritíveis. Minha mãe, a profa Zenar, deve estar feliz de fazer parte do alicerce da sua vida. O sorriso, a gentileza e a simpatia da sua mãe, minha querida tia Clemência, também fazem parte do alicerce da minha e de muitas outras vidas, com certeza. Gostei muito de ver sua foto. Sempre gato.

  • Queridos primos,senti ñ estar com vcs.nesse momento tão importante de nossas vidas mas sinto que vcs.bem traduziram nas palavras o que Macapá nos diz.Eu também me sinto parte desse contexto,cheguei aí em 1.11.1954 para morar com vcs.tinha eu apenas17 anos incompletos,no dia 28.12. eu os completaria,então a tia Clé fez um jantar para me apresentar à familia Zagury,nesse dia tive a felecidade conhecer o Mair e resto da história todos sabemos,nos discursos proferidos por vcs.disseram todo sobre o nosso carinho por esse rincão que me abraça enquanto estivermos nesse plano,sem mais delongas agradeço a D’us por fazer parte dessa história.

  • Se fez justiça. E muita justiça. Um povo sem memória, que não preserva seus ancestrais, não é digno de existir.
    Que nossos pioneiros sejam lembrados e reverenciados.

  • Texto maravilhoso. Li emocionada, com lágrimas na face. Obrigado por todas as famílias que construiram nossa história, o “jeito de ser do povo daqui…”

  • pessoas como essa que precisamos em nosso amapá, eu gostaria de ter vivido nessa epoca mas ainda peguei uma macapá muito boa que podiamos dormir com portas e janejas abertas, mas o progresso de hoje nos priva disso parabens leão vc me fez chorar com esse seu maravilhoso discurso de acradecimento vc e muitos amapanses merecem essas omenagens parabens pelo seu pronunciamento apesar de não ser amapaense mas me considero por viver 32 anos nessa terra querida onde fiz muitos amigos no futebol tenho duas filhas amapaenses e figo muito feliz quando acontece coisa desse tipo em nossa macapá..

  • Um Grande Homem é aquele que ao se tornar Humilde, se torna ensinavel …e consegue ver bem alem da porta ! …Discurso emocionante, falou pelo coração !

  • belo texto, expressa o reconhecimento e a gratidão de quem sabe o que é ser “verdadeiramente amapaense”. Parabéns pelas lindas palavras.

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