Minha madrinha Zilah Porpino faleceu hoje aos 100 anos em Belém

Zilah com os filhos. A foto é de fevereiro deste ano quando ela completou cem anos

Faleceu hoje em Belém, aos cem anos de idade, Zilah Porpino, minha madrinha de batismo. Era viúva de José Porpino – que foi alto funcionário do Território do Amapá, além de jogador de volei e basquete da seleção amapaense. Era mãe de Marísia (já falecida), Conceição, Marly, Marilia, Guaracy e José Ricardo. Era avó do advogado Marcelo Porpino.

Zilah Porpino, com o tataraneto Lucas no colo, ladeada pela filha Marly e bisneta Brunna

Zilah era uma pessoa admirável, alegre, conversadeira e culta. Há muitos e muitos anos mudou-se para Belém, mas volta e meia vinha a Macapá, visitar a filha Marly, os netos e amigos. E era tão bom reencontrá-la, abraçá-la, tomar a bênção e ouvir suas histórias, nas quais sempre meus pais eram citados.

Quando ela completou 92 anos de idade, escrevi esse texto:

“Bença, madrinha
Minha madrinha de batismo – ou como dizia o poeta Isnard, “madrinha de água benta”- Zilah Floresta de Souza Porpino completou ontem 92 anos de idade, alegre e cheia de vida, rodeada por filhos, netos, bisnetos e tataraneto.

Ah, como eu gostaria de estar pertinho dela festejando a data, celebrando a vida. Bateu aquela vontade de abraçá-la, beijar sua face, acariciar seus cabelos e dizer “bença, madrinha” . Em troca eu receberia seu carinho e um largo sorriso. E ouviria histórias da época que ela morou em Macapá e, com certeza, ela me contaria muitas coisas bonitas dos meus pais, seus compadres, Alcy e Delzuite.

Madrinha Zilah sempre foi uma mulher elegante, conversadeira e alegre. Dela só tenho boas lembranças. Doces lembranças. Tão doces como um bolo confeitado que ela me deu cheinho de bombons.
Eu estava fazendo seis anos. Meus pais fizeram uma festinha pra comemorar. Zilah presenteou-me com o bolo confeitado. Era um bolo lindo: branco, azul e róseo. Depois dos parabéns, quando parti o bolo –  surpreeeesaaaaa! Ele estava recheado de bombons. Parecia mágica. Minhas coleguinhas ficaram encantadas e eu também. Nunca tínhamos visto nem comido um bolo recheado de bombons. Aliás, daquele tipo foi o único que vi em toda minha vida. Talvez por isso, a lembrança desse bolo ainda esteja tão viva quase 50 anos depois. Entre uma camada e outra, havia um recipiente feito com uma massa doce e branca cheinho de bombons de frutas – que no sul chamam balas. Quando cortei apareceu aquela enorme quantidade de bombons, embrulhadinhos em seus papéis originais. Daí passamos a chamar para as balinhas de fruta de “bombom do bolo da tia Zilah”.

O mano Alcione comentou ontem no blog Repiquete que lembra as conversas de Zilah com mamãe, com muitos cafés e risadas no fim da tarde na nossa casa. Eu também lembro. E muito! As duas, em cadeiras de balanço no pátio ou na calçada, tomando café, conversando e rindo.
Certa vez, Zilah chegou de Belém e, claro, um dos primeiros compromissos dela era o fim de tarde em demorada e alegre conversa com mamãe. Logo  mamãe me avisou: “Tome banho cedo e se arrume que sua madrinha chegou e vem nos visitar.” Avisei para as coleguinhas que naquela tarde só poderia brincar até às cinco. Quando madrinha chegou eu ainda estava no banho. Me arrumei, me perfumei e fui lá fora falar com ela. As duas nas cadeiras de balanço colocando os papos em dia e rindo, como sempre. Me aproximei, tomei a bênção (bença, madrinha), ela me abraçou, me beijou, me fez perguntas sobre a escola, depois abriu o cordão que tinha no pescoço, tirou dele o pingente e me deu, dizendo que não teve tempo de comprar um brinquedo, mas me presenteava com uma jóia que duraria muito mais que uma boneca ou panelinhas. Até hoje tenho esta jóia. É uma estrela de ouro amarelo com um pequeno rubi no centro. Dizem que uma jóia é para sempre, mas para sempre mesmo é o afeto que tenho por Zilah.
Bença, madrinha.”

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Há pouco tempo, numa das últimas vezes que ela veio em Macapá, presenteou-me com uma pérola legítima e linda. Repetiu o gesto de quando eu era criança: abriu o cordão que tinha no pescoço, tirou dele o lindo pingente de pérola e me deu de presente. Guardo esta pérola na mesma caixinha onde guardo a estrela de ouro amarelo com um pequeno rubi. Mas o seu nome Zilah eu guardo no coração.
De onde você estiver me abençoe, madrinha, e descanse na paz de Deus.

  • Muito emocionante!
    Uma personagem de uma bonita história de vida , que no Amapá se escreve com vidas abençoadas que chegam a 100 anos.

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