Nos tempos da ditadura – As prisões de jornalistas e líderes sindicais no Amapá

Jornalistas Ernani Marinho, José Maria de Barros, Paulo Conrado e Agostinho Souza com o embaixador Lincoln Gordon, dos EEUU, o articulador do golpe militar.

Esse texto é de ontem, mas como ontem não atualizei o blog vai hoje. É muito interessante.

Recordar sempre é bom e preciso. Até prisões, desde que não nos envergonhem
Por Ernani Marinho

Tomei um susto hoje cedo ao perceber que o calendário me dizia ser 05 de abril. Aí imediatamente me transportei para o ano de 1964, quando num fim de tarde de domingo fui preso ao chegar para a primeira sessão do Cine João XXIII; as prisões, nesse período, eram ato normal e assustador. Uma prestação de serviço do Golpe Militar.

Terêncio Porto ainda no posto de governador nomeado por João Goulart, sob o indicação de Janary Nunes, viveu as primeiras horas do Golpe fiel a Jango, mas ao perceber que a sua deposição era irreversível, aderiu aos militares e passou a mostrar serviço, determinando prisões.

De imediato mandou prender os nossos líderes sindicais mais expressivos, justamente por serem os sindicatos a grande trincheira de Jango, recolhendo na Fortaleza de São José de Macapá os dirigentes sindicais Jorge Padeiro, Periquito e Chaguinha, além dos líderes estudantis Luiz Messias Tavares, José Ribeiro da Conceição, Hermínio Gurgel Medeiros e Antônio Montoril Sobrinho, militantes de esquerda identificados com as causas sindicais.

Mas as prisões não pararam, com ela alcançando outros segmentos, onde existissem adversários de Terêncio​, o que veio a atingir militantes da Imprensa , casos específicos de Elfredo Távora, Amaury Farias e José Araguarino, do jornal Folha do Povo, e eu, vinculado à A Voz Católica.

Preso num fim de tarde de domingo, fiquei recolhido numa grande área descoberta, ligando a ala administrativa das delegacias, na frente, às celas, atrás, no antigo prédio da polícia na Presidente Vargas, em frente à praça. Fiquei lá até perto de meia noite, quando me conduziram para o antigo prédio localizado em área da atual biblioteca Elcy Lacerda. Lá funcionavam a Chefia de Polícia, principais delegacias e sediava a tomada de depoimentos dos presos.

Fui ouvido exatamente da meia noite até às seis da manhã, cansado, com sono, com sede, com fome, e porque não dizer, com muito medo.

Só no correr do interrogatório fiquei sabendo o que pesava sobre mim. Além da atuação n’A Voz Católica, cobravam-me ter participado de reuniões na residência de Pauhiny Pinto para a constituição de Grupos dos11, inspiração de Leonel Brizola; participação ativa na greve do Colégio Amapaense, em protesto à demissão do prof Manoel Nogueira da direção do estabelecimento; atuação como secretário geral da UECSA, em dois mandatos de Haroldo Franco e um de Luiz Messias Tavares, na presidência; participado da organização de seminário nacional de estudantes, patrocinado pela UBES, com a presença de líderes estudantis cubanos, além do que, mais lamentável, ter sido alvo de deduragem de um dirigente de entidade estudantil, ao denunciar em depoimento “como influenciados ou doutrinados pelos cubanos os estudantes Luiz Messias Tavares, Hermínio Gurgel Medeiros, Marcílio Pena, Isnard Brandão de Lima Filho, José Ribeiro da Conceição, Ernani Marinho, Agenor Chermont, Paulo Pereira Cunha, Antônio Montoril Sobrinho, Gil de Oliveira Reis, João Eudes e Lucas Vale, os quais conferenciavam constantemente com os cubanos”.

Encerrado o depoimento fui levado de volta para o prédio onde ficavam às celas, às seis da manhã. Debaixo de uma mangueira que ficava em frente à Prelazia, estavam esperando que passasse por ali, após o depoimento, o meu irmão Horácio Marinho e o meu amigo Babá, o Aldony Araújo, o que de fato aconteceu.

Como entre os três policiais que me escoltavam na volta um deles era o Adonias Trajano, companheiro do tempo da natação, pedi-lhe que me permitisse falar com o meu irmão e o amigo. Concordou, recomendando: fala sem parar, andando, com eles caminhando ao teu lado, não muito próximos. Deu para pedir ao Horácio que levasse o Aldony lá em casa, para identificar e tirar tudo o que pudesse me
comprometer.

E foi o que me salvou, pois horas depois quando a polícia foi em casa para uma geral, nada foi encontrado que me comprometesse.

Após alguns dias depois fui solto.

Entrevista com o cérebro do Golpe

Meses depois, em setembro de 1964, participei de uma entrevista, juntamente com os jornalistas Paulo Conrado, José Maria de Barros e Agostinho Souza com o embaixador Lincoln Gordon, dos EEUU, o grande articulador do golpe militar.

O Paulo Conrado fez a primeira pergunta, levantando a bola para que o embaixador elogiasse a ICOMI e o governo militar.

A segunda pergunta, de José Maria de Barros, que indagava sobre seu empenho junto aos militares para evitar a cassação de Janary Nunes, já desagradou.

Fiz a terceira pergunta indagando se ele havia participado das articulações do golpe militar no Brasil como simples cidadão ou se representava os interesses dos EEUU, seu país. Foi o suficiente para cochichar com o dr Augusto Antunes, ao seu lado, e este dar por encerrada a entrevista, alegando que o curso que a mesma estava tomando consumiria muito tempo não suportável pela agenda.

Aí o embaixador Lincoln Gordon fez este teatro mostrado pela imagem (imagem postada na abertura do post), escrevendo uma mensagem aos amapaenses.

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