Capitão caverna

CAPITÃO CAVERNA
Rui Guilherme

Nestes tempos de pandemia, os noticiários focam sem cessar no número de infectados pelo corona vírus, nos óbitos em razão do Covid 19, na situação caótica dos sistemas de saúde no Brasil – hoje, o segundo país do mundo em número de vítimas – e nos exemplos de países como a Nova Zelândia, onde os males causados pelo vírus foram minimizados pela adoção de medidas de prevenção traçadas por governantes sensatos e fielmente obedecidas por um povo cidadão repleto de civilidade, e o contraste com outros lugares, como os países da África nos quais a doença avança com a força e a letalidade de um tsunami.

No cenário de aflição desenhado pela infecção viral prevalecente no Brasil, um dado trágico vem somar-se: a reunião do presidente da República com seus ministros e a revelação das boçalidades praticadas pelas mais elevadas autoridades do Poder Executivo nacional, agora postas a lume pela decisão do ministro Celso de Melo em divulgar o vídeo do famigerado encontro.

Na início da década de noventa reuni-me a colegas advindos de vários lugares de nosso país que compuseram a primeira turma de magistrados do Estado do Amapá. Não é demais lembrar que, em 1991, fazia três anos da edição da Constituição Federal de 1988, mercê da qual o até então Território Federal do Amapá foi alçado à categoria de novel Estado da Federação Brasileira.  .

Quando nós, os primeiros juízes de direito titulares e substitutos tomamos posse de nossos respectivos cargos, já faziam parte do em formação Tribunal de Justiça do Estado do Amapá sete desembargadores, dos quais somente o eminente colega e amigo Gilberto Pinheiro, atual decano da Corte Estadual, é o único a permanecer em atividade. De nossa turma, era eu um dos mais velhos, com 48 anos. A maior parte, todavia, era constituída de jovens com menos de trinta.

Já eu estava como titular da Vara Cível da Comarca de Santana no ano de 1992 quando fomos, os juízes de Macapá, na época comarca de terceira entrância, de Santana e Laranjal do Jarí, segunda entrância, convocados para uma reunião com o então Corregedor Geral de Justiça,  o desembargador Mário Gurtyev de Queiroz, que continua em atividade como atuante advogado na capital amapaense. Perante os novéis magistrados de 1º grau, lembro que surgiu uma pergunta sobre como deveria o juiz proceder perante seus jurisdicionados, ao que o desembargador corregedor usou de uma expressão que me calou fundo, ao ponto de mantê-la até hoje viva na lembrança. Ao pontuar para seus colegas, o corregedor disse que aquilo que a sociedade esperava de seus juízes era que agissem sempre sem arrogância, sempre imbuídos da mais firme vontade de servir sem pretender se impostar como pessoas acima e além do homem comum, mas que nunca perdessem de vista – e aqui a expressão textual usada pelo desembargador Mário – que era imperioso observar a “majestade do cargo exercido”.

O Presidente da República é também chamado de primeiro magistrado brasileiro. Isso se deve àquela sua condição de representante máximo do Estado perante a comunidade internacional. Os Ministros de Estado são cidadãos escolhidos pelo primeiro mandatário para, pelo perfil de competência profissional e história de vida de cada qual, ocupar as pastas que irão atuar na implementação das políticas de estado.Deles se espera ações que ajudem o grande navio a singrar os mares da vida coletiva da maneira mais adequada para que os passageiros – no caso, mais de duzentos milhões – façam uma viagem tranqüila naqueles quatro anos do mandato em que o timoneiro e seus imediatos ditarão o que de melhor se espera para o bem de todos.

O Capitão Caverna é um personagem das histórias em quadrinhos. No desenho animado, é um troglodita que possui uma clava que lhe confere poderes especiais, podendo até voar empregando a sua arma. Mas, em que pese os superpoderes, o Capitão Caverna é um troglodita de maus modos e de frequentemente pésimo humor. O trato com ele é difícil, por causa de seus maus modos.

O atual primeiro magistrado da República Brasileira é um capitão. Dele ninguém espera, nem mesmo seus mais fiéis seguidores, que aja como um capitão caverna, usando maus modos, comportando-se com arrogância e boçalidade, a proferir palavras de baixo calão e dirigindo-se a seus ministros em reuniões do gabinete de governo como se eles fossem a soldadesca rude e incapaz de entender linguajar escorreito, adequado para o trato entre pessoas de boa educação, cultas e probas.

O capitão já levou à ombreira três estrelas. Nenhuma gemada, tanto que é oficial intermediário, e não oficial superior, condição a que ascenderia se tivesse sido promovido a major. Contudo, oficial que é, e oriundo da AMAN, ao trocar o espadim de cadete quando foi declarado aspirante a oficial, e ao chegar ao oficialato como segundo tenente, já deveria estar suficientemente esclarecido que invariavelmente se exige de um oficial um comportamento de cavalheiro, e não de um truculento carregador de placa-base do morteiro 81.

Entre seus ministros, o capitão presidente conta com diversos oficiais generais. Pelo exercício da presidência da República, e enquanto se mantiver no mandato, tornou-se comandante em chefe das Forças Armadas. Assim, mesmo sendo oficial intermediário capitão, atingiu um patamar que o torna superior hierárquico dos oficiais generais da Marinha de Guerra, do Exército e da Força Aérea. Mas que não aja o presidente, na volúpia das alturas a que foi alçado, como o soldado raso a que se refere um dito corrente na vida castrense: todo general insiste em afirmar que é um soldado. O ruim é que muitos soldados insistem em pensar que são generais.

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