A carta, o homem, eu e o tempo

A carta, o homem, eu e o tempo
Ruben Bemerguy

Ruben_8-150x150Não conheço quem na vida tenha escrito uma carta só e pronto. Quem escreve uma carta, escreve outras tantas. Não é o hábito de escrever que faz com que se escrevam cartas. As cartas são escritas porque movem almas, e almas não vivem sem esse exercício álmico. Também não sei daquele que tenha lido a mesma carta uma vez só e pronto. É que a alma de quem lê carta, igualzinha a alma de quem escreve, carece do mesmo exercício álmico. Dizem também, não sei se verdade é, que os escritores de cartas predizem vidas.

Contam que um dia um homem quis escrever uma carta. Na carta ele queria contar uma história que há muito colecionava nas mãos. Ele, desde criança, vivia em núpcias secretas com essas mãos. Foi a destra, por exemplo, quem descosturou-lhe o casto.  Foram elas que fingiram não olhar os olhos do homem, quando do homem singravam luzes quase brancas e roucas que aos poucos aquietam-se em assoalhos molhados de sóis. Mãos mesmas que cavaram os subterrâneos palcos, por onde aquele homem passaria a imprópria existência. Eram íntimos assim. As mãos só lhe negavam escrever cartas, qualquer carta, mesmo que fossem mãos versadas em eruditas letras.

É que elas sabem que só os escritores de cartas assinam palavras exatas, embora eu não acredite em palavras exatas. Mas, como não importo para as mãos e elas sequer me ouvem, nenhum préstimo tem o que penso ou o que deixo de pensar.

Então sem pressa o homem lançou vistas ao céu e viu nele o reflexo de algo assemelhado a um papagaio empinado pelo tempo, navegando em linha de um algodão delgado, quase transparente a olhos que fossem destreinados nessa arte. Quis se ir, porque lá imaginara que toda carta haveria de ser escrita escape dos limites que as mãos assinalaram. No rumo, o homem mimava o tempo.

Eu, que nem o homem, mesmo quando imantava a Lua com meu fado, quando desabrido, quando desnudo de toda armaria, quando de véspera envelopava sonetos viris, também mal acostumei o tempo. Eu o bercei e o aninhei por muito tempo. Fiz de tudo para habituá-lo ao silêncio. Fixa-lo. Proibir-lhe a desenvoltura dos movimentos assíduos, para que nunca mais fosse adiante. Seríamos iguais, eu e o tempo. Mas o tempo, feito as mãos, foi indiferente a tudo. Quando eu nasci, o tempo não era tão vulgar assim. Supõe o tempo que tudo a ele retorna, sem qualquer ordem, pigarro ou resmungo.

É curioso, mas o tempo, ainda que ubíquo, seguramente egocêntrico e libertino, para dizer o mínimo, tal como as mãos, também não redige cartas e esse é o seu maior castigo. O tempo tem a vida que pediu a deus e disso ninguém duvida, mas carta ele não escreve. Bem-feito. Quem conserva a vida em urna e já no primeiro gemido espia incinera-la, não pode escrever cartas. Isto é evidente. Admiro deuses que punem fraternalmente o tempo.

Ah! foram assim tempos difíceis os  que bercei e aninhei o tempo.

Mas o homem, diferentemente de mim, não. Crê no tempo. Sequer enxerga a punição que se lhe infringe  e ainda teima que o tempo pode lhe escrever as tais cartas. Aliás, melhor dizendo, acho que a crença do homem no tempo não passa de um pretexto. Essa crença não é mais do que exercício de expiação do homem. O certo é que de pé em pé ele lá está ao encontro do tempo ritmado no cabeceamento do papagaio empinado.

Quando vejo homens como o homem do qual falamos, firmo que o tempo é mesmo parasitário. O tempo se alimenta, sem clemência, dos que nele creem e é assim que põe a todos em cárcere. Que me socorra uma palavra que desacate o tempo e suas artesanias. Uma só. Tivesse eu essas poucas sílabas e tornaria à vida e  ao ventre do amor-próprio, dizendo-lhe resumido o que penso. Se não as tenho, então, nem uma coisa, nem outra. Estou a mercê de uma palavra que o maltrate na regra que merece.

Minha aversão ao tempo é tamanha que, confesso, até pensei em sitiá-lo. Tenho pronta uma cilada para cada minuto dessa caça. Primeiro, encontraria o tempo. Depois, sem que percebesse, esconderia do tempo todas as manhãs e todas as tardes. Da noite, só consentiria a ele a escuridão. Provocaria atroz sonolência. Teria a sua posse. Descobriria cedo que o tempo é curvo e autofágico. Uma vez exaurido pela quebra do ritmo de seus entretempos, apoiaria meus lábios nos seus lábios e, sôfrego, tragaria seus líquidos ferozes com a volúpia que o tempo ensina. Na hora exata armaria meu relâmpago em ângulo impecavelmente reto e, sem temer imprevisto algum, o pousaria nos canais do tempo.  Embrasados e justapostos nus quedaríamos sem épocas até concluída essa combustão.

Quanto ao homem, sei que permanece responsavelmente atento ao tempo que empina o papagaio. Para ele, só no tempo encontrará o escritor de cartas e só assim desguardará as histórias que abriga nas mãos. Isso é respeitável. Mas para mim, faria melhor se não aguardasse pelo encontro do tempo. Se o entrincheirasse, se erguesse barricadas e se o embaraçasse em seu território, então o homem seria o tempo e o tempo a palavra, infantaria e carta.

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