Homenagem ao Poeta

A Confraria Tucuju vai homenagear, no sarau de sexta-feira,30, o poeta Arthur Nery Marinho (1923-2003).
Uma homenagem justíssima a este poeta, músico, jornalista e desportista que nasceu em Chaves (PA) mas aos 23 anos de idade veio para o Amapá e nunca mais saiu daqui. Cantou, tocou e escreveu as coisas desta terra como se fosse a sua terra natal.
Compadre de meus pais, Arthur Nery Marinho frequentava muito nossa casa. Lembro-me que quando eu era criança eu ficava boaquiaberta ouvido-o declamar suas poesias para minha vó Elvira Araújo.
Nossa casa tinha uma grande varanda, onde minha vó, paralítica, passava a maior parte do dia em sua cadeira de rodas rezando, cerzindo, lendo, fazendo crochê… o poeta chegava, cumprimentava-a e começava a declamar (outro que costuma fazer isso era o Cordeiro Gomes, mas em outro post eu conto). Eu corria para ouvi-lo e a poesia que eu mais gostava era Auto-Retrato, que está publicada no livro Sermão de Mágoas. Ele dava tanta vida ao poema que eu, na inocência da infância, jurava que ele tinha o corpo todo marcado de cicatrizes.
Uma das imagens que ficaram gravadas na minha retina é o poeta levantando a barra da calça ao dizer o verso “E por toda parte a perna cortada.” Eu arregalava os olhos na tentaviva de ver os golpes em sua perna e morria de pena dele. “Isso deve doer muito”, eu pensava.
Só na adolescência fui entender o Auto-Retrato do poeta.

Cresci, fiquei adulta,  meus pais se separaram, morreram e meu contato com o poeta foi rareando. Mas nas poucas vezes que nos encontramos após a morte de meu pai sentia o enorme carinho que ele tinha por mim e isso me fazia muito feliz.

Poucas vezes estive na casa dele. Era uma casinha tão aconchegante, na rua mais tranquila do bairro Jacaré-acanga, bem na frente de uma pracinha. Pensava com meus botões: todo poeta deveria morar num lugar assim, onde há paz, verde, crianças jogando bola, gente enamorada e canto de passarinhos. Uma das vezes que estive lá foi para convidá-lo a sair na escola de samba Unidos do Buritizal, em 1992, cujo enredo era “Alcy Araújo – o poeta do cais”. Fazia pouco tempo que Arthur tinha passado por uma delicada cirurgia na cabeça. Mas mesmo assim ele topou. Enfrentou o desafio de ir para a avenida, sambar em homenagem ao compadre, na comissão de frente da escola que estreava no carnaval. E estreou em alto estilo: foi a vice-campeã.

Outras vezes encontrei com ele embaixo da mangueira da Sead. Ele costumava dar uma paradinha ali quando ia falar com os secretários de Estado em busca de apoio para a publicação do livro “Sermão de Mágoa”. E foi ali, embaixo daquela mangueira, numa manhã de sol bochechudo e céu azulzinho de 1993, que ele me deu a boa notícia: finalmente Sermão de Mágoa ia ser publicado. Já estava no prelo. Vibrei. E foi também embaixo da mangueira que ele me deu um exemplar do livro tão logo saiu da gráfica, antes do lançamento.

O poeta Arthur Nery Marinho faz parte da primeira geração dos modernos poetas do Amapá.
Nascido em Chaves (PA), em 27 de setembro de 1923, veio para o Amapá em 1946. Ao lado de Alcy Araújo Cavalcante, Álvaro da Cunha, Aluízio Cunha e Ivo Torres, Arthur desenvolveu importantes projetos culturais.
Está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia da Amazônia e na Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica.
Foi vice-presidente da Sociedade Artística de Macapá, diretor do Jornal Amapá, presidente da Federação Amapaense de Desportos (hoje FAF) e sócio-fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa São José e do Grêmio Literário e Cívico Ruy Barbosa.
Em 1993 publicou o livro de poesias “Sermão de Mágoa”. Morreu em 24 de março de 2003 e alguns meses após sua morte a Associação Amapaense de Escritores fez o lançamento do livro de poemas e trovas “Cantigas do Meu Retiro”.

O Sarau será no Sesc Centro (Av. Padre Júlio Maria Lombaerd, esquina com a rua General Rondon), a partir das 20h. Além da homenagem ao poeta haverá show da banda Afrobrasil, exposição dos artistas plásticos Wagner Ribeiro e Miguel Arcanjo, comercialização de artesanato, obras literárias, CDs e DVDs de artistas regionais.

Um poema de Arthur

Paisagem amazônica

Para escrever
meu revoltado verso,
jamais dei a volta ao mundo,
meu Senhor!

Vim pelas margens dos igarapés,
onde o sorriso
é doentio e triste
e a ignorância há séculos persiste
e é pálida
e mirrada a própria flor.

Mais poemas de Arthur Nery Marinho aqui, aqui, aqui e aqui.

  • fui casado com a rosaura, filha do “seu” arthur, e se ele foi brilhante como poeta, como sogro foi fantástico…sou fã de sua poesia, de seus versos, como por exemplo, perguntas ao papai noel: papai noel, onde estais? onde estais papai noel? onde estais que não me escuta? onde estais? onde estais que não me escuta? onde estais papai noel? Saudades eternas do “seu” arthur…

  • Obrigado pela homenagem. Sou neto de Arthur Nery Marinho. Sou filho da Rosaura.
    Esse homem ajudou a formar o meu caráter.
    Hoje moro em Curitiba. Mas nunca esqueço que sou amapaense e que meu avô contribuiu com a cultura neste estado.

    • Edivaldo, imenso prazer tê-lo no meu blog.
      Gosto demais da Rosaura. Meus pais (Poeta Alcy Araújo Cavalcante e Professora Delzuite Cavalcante) eram padrinhos da Rosaura.
      Beijos

  • Os grandes poetas nossos caminhavam pela nossa cidade onde os transportes urbanos eram escassos. Ou se locomoviam em bicicletas. Assim faziam seu pai Alcinéa, assim fazia seu Arthur, imagens de pais/ poetas que trago na memoria junto à imagem de meu pai cantor. So depois percebi que, esse caminhar calmo de ambos não era um simples caminhar: eles estavam fabricando poesia a cada passo que davam. Quantas pérolas li hoje aqui! Frutos da alma de poeta. bj

  • Infelizmente, sites e blogs de literatura amapaense (poesias, prosas, crônicas, contos) são poucos. Pior ainda, são pouquíssimo visitados. O que me leva a pensar que o que é mais imediato tem mais relevância e aqui se encaixa com perfeição os assuntos políticos. Por outro lado, podemos ficar descansados. Nos dois principais blogs do Estado (Repiquete e Alcinéa, assim como no principal site local, do Corrêa Neto) há links para blogs e sites de escritores/poetas amapaenses. No caso dos comentários nos posts culturais, acredito que se devem ao próprio desconhecimento e/ou desinteresse pela literatura que aqui se produz – nunca por falta de artistas, muito menos por qualidade das obras. Também acredito que o mesmo acontece em outros estados, onde os blogs/sites que abarcam assuntos mais imediatistas (política, esportes, novelas, reality shows, música) ganham disparado daqueles que lidam diretamente com o jornalismo sério e com a cultura de um modo geral. Quanto à homenagem ao grande poeta Arthur é mais do que merecida. Também tenho o “Sermão” (já com a capa meio carcomida) e não me canso de me maravilhar com sua poderosa e niilista caneta. Um dos meus preferidos é “Perguntas a Papai Noel”, onde o desencanto com Santa Claus (o tal em versão ianque) se mostra de uma forma comovente, totalmente desprovido de algum tipo de condescendência que tal personagem requeira. Ler Arthur me fez repensar o próprio papel da poesia e, naquilo que me diz respeito, muito de sua particular linha de trabalho caiu-me como um bálsamo, se não influenciando, pelo menos servindo como salvo-conduto para minha empreitada pelos caminhos da Poesia.

  • Realmente.Assiste total razão.A observação é pertinente. Porquanto, é raríssimo se observar comentários sobre os posts versando sobre cultura. principalmente os que versam sobre a cultura amapaense – o que é uma lástima -, posto que a cultura é um fator, dentre outros, aptos a mensurar o preparo de um povo

  • Pingback: Tweets that mention Alcinéa Cavalcante » Homenagem ao Poeta -- Topsy.com

  • Interessante os seus comentários sobre o Arthur Marinho. Me deu imensa curiosidade de conhecer o “Auto-Retrato”. Vou tentar adquirir o Livro “Sermão de Mágoas”. Será possível encontrar na banco do Dorimar ?

  • Alcinéia, parabéns pelo post que nos permite conhecer um pouco mais sobre o poeta Arthur Marinho.
    Parabéns pelo seu blog sempre preocupado em divulgar a literatura amapaense e não deixar cair no esquecimento os poetas e escritores que já foram para o andar de cima.
    Uma coisa que lamento é que nos posts culturais quase não se vê comentários, ao contrário dos post sobre política, ou melhor, politicalha. Sinal que quanto a culturA o amapaense deixa muito a desejar e esta falta de cultura reflete-se na escolha dos políticos confirmando o ditado “cada povo tem o governo que merece”.

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