Poeta em destaque – Arthur Nery Marinho

“Meu coração é público, senhores!
É como o botequim dali da esquina.
À turba não ilude.
Sempre há de ter lugar aos sofredores,
pois, sendo núcleo da mais triste sina,
tem calma e tem virtude.”

Poeta, músico, jornalista e desportista, Arthur Nery Marinho nasceu em Chaves (PA), em 1923,  mas aos 23 anos de idade veio para o Amapá e nunca mais saiu daqui. Cantou, tocou e escreveu as coisas desta terra como se fosse a sua terra natal.

Arthur1

“Que saibam pois, meus filhos, sem sigilo,
que fui isto, fui isso e fui aquilo,
porque não tive o dom de ser lacaio”

Compadre de meus pais, Arthur Nery Marinho frequentava muito nossa casa. Lembro-me que quando eu era criança eu ficava boaquiaberta ouvido-o declamar suas poesias para minha vó Elvira Araújo.
Nossa casa tinha uma grande varanda, onde minha vó, paralítica, passava a maior parte do dia em sua cadeira de rodas rezando, cerzindo, lendo, fazendo crochê… o poeta chegava, cumprimentava-a e começava a declamar (outro que costumava fazer isso era o Cordeiro Gomes, mas em outro post eu conto). Eu corria para ouvi-lo e a poesia que eu mais gostava era Auto-Retrato, que está publicada no livro Sermão de Mágoas. Ele dava tanta vida ao poema que eu, na inocência da infância, jurava que ele tinha o corpo todo marcado de cicatrizes.
Uma das imagens que ficou gravada é o poeta levantando a barra da calça ao dizer o verso “E por toda parte a perna cortada.” Eu arregalava os olhos na tentaviva de ver os golpes em sua perna e morria de pena dele. “Isso deve doer muito”,  pensava.
Só na adolescência fui entender o Auto-Retrato do poeta.

Cresci, fiquei adulta,  meus pais se separaram, morreram e meu contato com o poeta foi rareando. Mas nas poucas vezes que nos encontramos após a morte de meu pai sentia o enorme carinho que ele tinha por mim e isso me fazia muito feliz.

“Se alguém me pergunta onde é que moro,
prego mentira e de vergonha coro,
pois não moro nem dentro de mim mesmo”

Poucas vezes estive na casa dele. Era uma casinha tão aconchegante, na rua mais tranquila do bairro Jacaré-acanga, bem na frente de uma pracinha. Pensava com meus botões: todo poeta deveria morar num lugar assim, onde há paz, verde, crianças jogando bola, gente enamorada e canto de passarinhos. Uma das vezes que estive lá foi para convidá-lo a sair na escola de samba Unidos do Buritizal, em 1992, cujo enredo era “Alcy Araújo – o poeta do cais”. Fazia pouco tempo que Arthur tinha passado por uma delicada cirurgia na cabeça. Mas mesmo assim ele topou. Enfrentou o desafio de ir para a avenida, sambar em homenagem ao compadre, na comissão de frente da escola que estreava no carnaval. E estreou em alto estilo: foi a vice-campeã.

Outras vezes encontrei-o à sombra da “mangueira da Sead”. Ele costumava dar uma paradinha ali quando ia falar com os secretários de Estado em busca de apoio para a publicação do livro “Sermão de Mágoa”. E foi ali, embaixo daquela mangueira, numa manhã de sol bochechudo e céu azulzinho de 1993, que ele me deu a boa notícia: finalmente Sermão de Mágoa ia ser publicado. Já estava no prelo. Vibrei. E foi também embaixo da mangueira que ele me deu um exemplar do livro tão logo saiu da gráfica, antes do lançamento.

“Quero sonhar que vou pelos caminhos
jogando rosas, destruindo espinhos,
deixando luz em cada escuridão”

O poeta Arthur Nery Marinho faz parte da primeira geração dos modernos poetas do Amapá.
Nascido em Chaves (PA), em 27 de setembro de 1923, veio para o Amapá em 1946. Ao lado de Alcy Araújo Cavalcante, Álvaro da Cunha, Aluízio Cunha e Ivo Torres, Arthur desenvolveu importantes projetos culturais.
Está na Antologia Modernos Poetas do Amapá, na enciclopédia Brasil e Brasileiros de Hoje, na Grande Enciclopédia da Amazônia e na Coletânea Amapaense de Poesia e Crônica.
Foi vice-presidente da Sociedade Artística de Macapá, diretor do Jornal Amapá, presidente da Federação Amapaense de Desportos (hoje FAF) e sócio-fundador da Sociedade Esportiva e Recreativa São José e do Grêmio Literário e Cívico Ruy Barbosa.

Arthur Marinho tocou no coreto da antiga Praça da Matriz. Num de seus poemas relembra assim:
“Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.”

arthur3Em 1993 publicou o livro de poesias “Sermão de Mágoa”. Morreu em 24 de março de 2003 e alguns meses após sua morte a Associação Amapaense de Escritores fez o lançamento do livro de poemas e trovas “Cantigas do Meu Retiro”.

arthur2Arthur e o presidente da Associação Amapaense de Escritores, Paulo Tarso

  • Sempre que leio estes Poemas…de um dos cinco precursores da excelente POESIA que se pratica no Amapá… Eu lembro das palavras do Professor Munhoz… Em suas aulas dentro da Matéria Português…
    O Amapá tem sorte para formar bons Pintores e Escritores…e o Joaci Mont’alverne…completava…músicos também.
    Fernando Canto…Isnard…Luiz Jorge…Manoel Bispo, e os demais
    colegas…olhavamos os Poemas escritos no Quadro Negro… Como se víssemos Fadas!

  • Eu gostaria de ter conhecido o meu avô,eu realmente me dá agonia saber que ele morreu um ano depois de eu nascer e não ter tido a oportunidade de escrever junto a ele e cantar para o Arthur o quanto que ele me faz falta hoje em dia

  • Alcinéa, que boa lembranças e saudades v. me passa ao falar de Arthur Néri Marinho e desfilar o seu currículo. Eu, como cria adotivo de sua irmã, Áurea Marinho Dias, no início de minha juventude em Macapá, frequentei a casa do Mestre Arthur Marinho e, nas tertúlias familiares, ouvi ele declamar suas pelas poesias. Foi em sua casa que conheci seu pai Alcy, de quem também me tornei grande admirador, a exemplo do mestre Marinho.
    Tive a honra e alegria de trabalhar com os dois no Gabinete do Governador. Marinho como Chefe de Gabinete do Governador Terêncio, seu pai como Redator, juntamente com Paulo Conrado. Eu era datilógrafo e os três me davam expedientes para eu ir treinando na redação de ofícios, memorando e outros expedientes. E, assim, bebendo cultura na fonte. desses três profissionais, passei a gostar, tanto que acabei criando um programa estudantil na Rádio Equatorial e comecei a escrever para os jornais de Macapá. Seu escrito trouxe-me grandes lembranças e saudade daquela época. Parabéns pela matéria e um forte abraço do amigo e admirador, Viana.

  • O IBOPE não acerta no Amapá. Faz “acertos”. Vai ajustar na próxima rodada, Pra não ficar muito mal. Aliás como fez em 2012. Depois vem a desculpa de que a pesquisa mostra um momento.Que o voto volátil e o eleitor um “porra louca” que diz pra pesuisa uma coisa e na hora de votar faz outra. Não dá.
    Alcione

  • Emocionante homenagem. A simplicidade do Arthur era cativante. Me lembro de seu silêncio envolve,nte, quase mágico nas rodadas do Clube dos 13 embaixo dos cajueiros dos fundos do nosso quintal,
    Bjs
    Mano

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