Poeta em destaque: Arilson de Souza

Você consegue imaginar alguém envolvido com números e fórmulas de repente no meio de uma aula de matemática escrever um belo poema? Parece difícil ou quase impossível, mas não para o poeta e professor de matemática Arilson de Souza. Este negro simpático, bonito, bom papo, que tem tanta intimidade com os números e com as letras. “Tenho duas grandes paixões: passar conhecimentos e escrever”, diz ele. Para ele qualquer hora é hora de escrever, seja dia, noite ou madrugada. “Às vezes acordo de madrugada com uma poesia na cabeça e ja vou escrevendo”, conta. E se a poesia vem quando está dando aulas, envolvido com cálculos e fórmulas? Ah, não tem problema. Ele dá uma paradinha e rabisca no papel os versos. E já fez várias poesias assim.

Para ele, escrever é uma necessidade tal como se alimentar. “Escrevo diariamente, pois assim como o alimento me energiza o corpo, a poesia energiza a minha alma. Faço poesia para dar vazão aos meus sentimentos, minhas poesias retratam meu momento, é como se elas fossem uma fotografia minha , só que “por dentro”, uma fotografia dos meus sentimentos”, explica.

Ele escreve desde a adolescência, mas só há pouco tempo começou a publicar. Para isso usa as redes sociais. Diz que antes engavetava seus poemas por insegurança, por achar que não gostariam de seus versos. “Quando conheci você Alcinéa, a Jô Araújo, o José Pastana, o Marven Franklin fiquei animado, deixei a timidez de lado e passei a publicar nas redes sociais”. E agradou, Agradou tanto que sua poesia é bastante elogiada e hoje ele é chamado para declamar em vários eventos culturais.

No final deste mês ele terá a inesquecível experiência de autografar uma obra. Trata-se de uma coletânea do Movimento Afrologia que reúne os melhores poemas produzidos no Amapá voltados para o negro. O Movimento Afrologia visa valorizar a cultura negreira, sua religião e subjetividade.

Preta é a pele.
Pele da vida.
Vida de negro.
Negro da vida.
Alma sem cor.
Cor sem discriminação.
Discriminar causa dor,
e dor não rima com coração.
Coração, alma,vida…
Encaixe perfeito!
Pele, cor, preta…
Sem preconceito!
(Entrelaçadas – Arilson de  Souza)

Ano que vem, Arilson publicará seu primeiro livro solo. Um retrato de seus sentimentos. “Minhas poesias retratam muito o meu momento. Se estou triste escrevo coisas tristes; se estou alegre escrevo coisas alegres. Minhas poesias têm meus sentimentos”, conta.
Além de escrever muito, Arilson lê muito e dentre seus autores preferidos cita Carlos Drummond, Alcinéa Cavalcante, Vinicius de Moraes e Guimarães Rosa. Foi estimulado a ler pela mãe. “Minha mãe sempre me dizia que a leitura me levaria longe em todos os sentidos.” O primeiro livro que leu foi Dom Quixote. Além de escrever poemas, gosta de fazer letras de música, já fez até rock e de vez em quando faz um ladrão de marabaixo. Marabaixo, aliás, é outra de suas paixões.

E de verso em verso, de ladrão em ladrão, Arilson vai construindo uma bela carreira literária para orgulho dos amapaenses.

Reverso da saudade
(Arilson de Souza)

Já não lagrimo mais
pela saudade que em meu peito jaz.
Já não me importo tanto
com a dor que outrora motivou meu pranto.

Entendi que mais bem me faz,
partículas de efêmera felicidade,
ao invés da nostalgia oriunda da perdurável saudade.

Pois, mesmo que hoje, as aflições das reminiscências
se externem como algo sem fim,
Ainda assim, amanhã haverá flores no jardim!
Ainda assim, ofertarão rosas e jasmins!
Ainda assim, as águas correrão para o mar!
Ainda assim, haverá tempo para amar!

  • Encantei-me com seus poemas. Sou autora de uma trilogia onde abordo exatamente este contraste (ou seria harmonia) entre o poeta versus matemático:l) Geometria também e poesia. 2) Sólidos geométricos em versos e rimas e 3) o poeta e o matemático. Que peço licença para publicá-lo neste espaço. o Poeta e o Matemático
    Há tempos percebi
    que dentro de mim vivem personagens vários,
    ora em conflito,ora em harmonia. Interdependentes
    como siameses.Suas vidas entrelaçando-se,
    miscigenando-se sem lisura, sem finura, sem fissura.
    Conflitos, contrastes, semelhanças, inconciliáveis
    diferenças,arengas, pendengas, encrencas.
    A um tempo uma paixão avassaladora como sói
    ser este sentimento sem pé nem cabeça, rédea solta:
    linha tênue entre loucura, demência, compostura
    mistura de êxtase e dor, pendor,furor, fuga, ida sem volta.

    Entre tantos, dois sobressaem-se, atropelam-se.
    conflitantes, complementares, conciliantes, contrastantes.
    Exigentes, maleáveis, intransigentes, enquadrados
    Mas eu os adoro.
    O MATEMÁTICO. Altivo,por vezes petulante. Sintético.
    Amante das Exatas,para ele não há enigmas.
    Stricto sensu, lato sensu.
    Exibindo altaneiro seus algarismos e uma profusão de sinais.
    Por vezes, traje a rigor, óculos de grossas lentes – sinal dos anos somados.
    Outros, mais jovens, rabo de cavalo – para que se pentear?
    Irreverência…Calça jeans desbotada, desfiada, é claro.
    Tênis, talvez da 25 de março.
    Camisa com frases de um inglês dúbio.
    Ousadia inconsequente. Juventude a aflorar.

    Para que usar a letra “X” na multiplicação. Basta um ponto.
    Há, ainda, chaves {impedindo a entrada de intruso}
    Os parênteses (ainda bem que não são parentes).
    Que as vezes mordem a língua da gente.
    Os colchetes [para abotoar os coletes, os corceletes, esconder bilhetes].
    Outros símbolos , confesso são lindos, como o “infinito”.
    Que imita um oito deitado, delgado, sensuais curvas.Que folgado!
    Tenho a sensação que sempre uma maliciosa piscadinha,
    para a aluna gostosona, gostaria de mandar.
    “Somatório” sem ele a estatística não funciona.
    Raiz quadrada, cúbica.No meu quintal só vi raiz redonda.
    Não é engraçado?
    Alguns adoram nomes mais aristocráticos
    para seus símbolos nominar.
    O “Lemniscata do suiço BERNOULLI.
    Este simbolo é um laço de fita bem grande, feito com esmero,
    a enfeitar os cachos da aluna Ana, define o poeta.
    “Leminiscata´é um símbolo formado por uma curva plana fechada,
    consistindo de dois laços simétricos que se encontram em um nó.
    Representa a curva algébrica do quarto grau de equação cartesiana.
    Bernoulli é considerado o pai do cálculo exponencial”
    Indignado, intervem, enfático, o matemático.
    – E quem será a mãe??? O poeta não conseguiu ficar calado.
    – Este assunto não é de sua alçada, poeta ignaro!
    O matemático já estava ficando irritado.

    Meu Deus, uma arenga, bem no meio do meu poema!

    Produtos notáveis. Radicais, logarítimos, tabela periódica,
    probabilidade, teoremas, percentagem, fórmulas e mais fórmulas…
    Desespero dos estudantes!
    E, agora, na era virtual, adora o @.
    Malandro, sempre vem acompanhado do” ponto com.”
    Média geométrica, média aritmética ponderada. Moda…
    Mas o que mais me intriga é o tal de expoente zero.
    Este danado faz tudo virar um.

    Sinal de divisão virou dois pontos, até razoável.
    Incógnitas…. Fração: dividendo em cima, traço,
    divisor logo abaixo.
    Pronto. Matemático também é maleável.
    Defende suas teorias, fórmulas, cálculos sem fim,
    o dia inteiro a nos atormentar.
    Inventou até um jeito de medir o tempo.
    E agora a vida não pára.
    Não foi só pra avacalhar?

    Retas, curvas, paralelas que se encontram no infinito,
    Como?! Afinal o infinito não tem fim.
    Pêndulos, prá lá e prá cá. Ângulos. Bissetriz
    Ah, Como era irresistível aquela colega
    de requebrado andar, estonteante olhos verdes
    que para o professor se insinuava,
    provocando suspiros e uma vontade louca de sorver
    Cada imperceptível resíduo do perfume importado
    da menina-mulher Beatriz,
    olhar lascivo, pose de atriz.

    Mas eu sou fã, mesmo, é do POETA. Seus amores…
    Parceiros ideais, coloreando a vida,encaixe perfeito.
    Horas a fio.Na penumbra, ao sol abrasador, sonhador,
    ou ao relento, em noite enluarada.
    E, no dizer do poeta, sobre o alvor da manhã
    desvirginando a madrugada.
    Lá está ele. Lá estamos nós, em todo ou em lugar algum.
    Travesseiros macios espalhados, amassados…
    Pra que luar?
    O sereno, suave, delicadamente pousando nos corpos suados
    que se confundem na relva.
    A rolarem, descompassados.
    Sobre o sereno, ou sobre o cetim do lençol,
    o aconchego do amor, depois do amor.

    Adoro as peripécias do poeta. Seus poemas, versos, textos, rima sátira, crônicas, estórias. A registrar para gerações futuras,
    o instante, o agora. Dá-se,até,ao luxo de soltar palavrões
    que em certos momentos nos lava a alma,
    extravasa nossa inadmissível humana ira.
    Vulcão em erupção.

    Mesmo mudo, seus sentimentos fluem.
    Faz em silêncio seus poemas. Cantigas doces, líricas.
    que deslizam,em cadenciado ritmo, no rosto da amada,
    em forma de mornas e sentidas lágrimas.
    Cristais adornando a tez da morena ou da loura, suavemente.

    Cada um escolheu sua morada.
    Os números adoram deambular pelo emaranhado de neurônios.
    Cuidados para um curto-circuito não provocar.
    O poeta escolheu o coração que, anseia, não pára de pulsar.
    É de lá que faz jorrar – incessante- seus versos, suas rimas.
    Descarrega sua adrenalina.
    Versos transbordantes de tristezas, mágoas
    decepções, esperança, vontade. fé, vitórias.
    E quando,por descuido, abre a guarda, nocaute certeiro.
    Beija a lona. Busca desesperada por ar, que lhe escapa.
    A luz apagou. Ao redor da sua cabeça,
    a girar, um carrossel de estrelas.
    Forças e músculos o abandonam.
    Estendido no chão, qual boneco de pano, sem pose,
    Expõe entranhas esfarrapadas, no centro do rinque.

    Será esta a verdade do homem?
    Será isto o “viver”
    Corpo e alma.
    Mente e coração.
    Razão e emoção;
    Cair e levantar.
    Criar, sentir, amar.
    Rir e chorar.

    Busca eterna do olhar divino que acalma,
    acalanta, acolhe. Revigora.
    Sempre de braços abertos
    para receber o poeta, o matemático.
    E toda a humanidade,
    prodigalizando a paz.

    Maggá
    Enviado por Maggá em 06/06/2012
    Reeditado em 08/06/2012
    Código do texto: T3709519

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  • Percebi na visão poética do Poeta Arilson de Souza, a valorização de seu expressar de seu “EU lirico”,mesclando elemento dos mundos das sensações peculiares subjetivas de sua vivencia com o reconhecimentos das relações com os elementos naturais que lhe dão todo um cenário cotidiano para as suas expressões de seus valores que lhe a negritude lhe proporciona como visão de mundo e de sua identidade poética. valeu a leitura do texto!

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