Uma crônica e um poema de Rui Guilherme

Insônia
Rui Guilherme

Sinto inveja, saudável inveja, de quem come e não engorda. Mais, ainda, de quem anuncia que vai dormir; joga-se na cama; repousa a cabeça numa fronha perfumada com cheiro-do-Pará e, incontinenti, adormece.

Para mim, a dificuldade para conciliar o sono é constante. Mormente quando tenho de acordar cedo para viajar: ou quando tenho hora marcada para despertar. Nessas circunstâncias, é comum eu varar a noite sem pregar olho.

Da cama para a rede; da rede, para o banheiro; do banheiro, de volta à leitura. Sono que é bom, só tomando tranqüilizante – o que não é prudente fazer, diante do risco de perder a hora na manhã que teima em não raiar.

Deitar; apagar a luz; afofar o travesseiro; arrumar a coberta, são operações que repito. O sono, porém, cadê?

Não adianta tentar contar carneiros. Os ovinos, solidários aos universitários, estão em greve. Não dão sinais de vida.

Rezar é muito bom. Aplaca a ansiedade, eleva o espírito. Mas não trouxe o sono.

Forço a memória para lembrar letras de velhas músicas: sambas-canção, boleros melosos, até o coral da 9a. Sinfonia de Beethoven, com os maravilhosos versos da Ode à Alegria de Schiller, que repito várias vezes: “Freude schöner Götterfunken / Tochter aus Elysium”, e por aí vai, como dizia o comandante Barcellos, que governou o Amapá. Nada tem o condão de me jogar nos braços de Morfeu.

Fazer, o quê? Escrever este desabafo à moda de crônica, frustrada tentativa de acalanto. E, como não deu certo, só resta tomar uma ducha, fazer a barba, correr para o aeroporto, alçar-me aos céus e seguir destino.

Rui_Guilherme1

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