Isaías Carvalho deixa o PT e diz que o partido trocou o calor das ruas por cargos

Após mais de 20 anos filiado ao Partido dos Trabalhadores o ex-vereador Isaías Carvalho deixa o partido reclamando que a direção  sufoca e isola as lideranças retirando destas todas possibilidades crescimento, de mudança e renovação política. Na sua carta de desfiliação, assinada hoje, ele lamenta o fato do partido ter largado o calor da rua e do povo em troca de cargos e o conforto dos salões refrigerados.

Eis a íntegra da carta:

Carta Aberta de desfiliação do PT
“Quando já não somos capazes de
mudar uma situação, Somos
desafiados a mudar a nós mesmos”
Guiado pela ética e esperança, persigo meus ideais. Me filiei ao Partido dos Trabalhadores (PT) no dia 28 de março de 1996 e em 2018 eu faria 22 anos no partido onde construí uma vida inteira dedicada à luta social e a organização política. Durante todos esses anos acreditei e trabalhei pelo partido.

No PT, já fui presidente do Diretório Municipal de Pedra Branca do Amaparí por dois mandatos, eleito o vereador mais jovem do Brasil em 2000 e reeleito em 2004, fui candidato a prefeito em
2008, candidato à deputado estadual por duas vezes. Hoje, estou Secretário de Relações Internacionais na comissão executiva estadual, e nos últimos12 anos já fui secretário agrário e secretário e de formação política por dois mandatos.
Me encantei com o PT da década de 80, 90, o mesmo que no Amapá foi o primeiro do Brasil a disputar o segundo turno para governador do Estado em 1990 e tinha um papel protagonista de condutor das lutas sociais, comandava os principais sindicatos que faziam oposição, tinha muita força e ao longo dos anos foi enfraquecendo, até chegar ao ponto de os companheiros perderem o espaço de diálogo, debate e de não haver clima sequer de sentar à mesa com alguns dirigentes em uma reunião da executiva.
É muito difícil admitir que chegou à hora de seguir sem o PT. Sim, estou saindo por que não posso depositar todas as minhas esperanças em um partido político e por acreditar que existem outras formas de fazer política: no movimento social, sindical, cultural… Política se faz na rua, da mesma forma como foi constituído e dado origem a este que é o maior partido de esquerda da América Latina.
Respeito o PT que me confiou importantes projetos e causas, tanto na luta do dia a dia, quanto à frente de mandatos. Sou grato pela formação, pela convivência com companheiros tão valorosos e pela experiência que levo para a vida. Valeu à pena servir até o momento e ser servido.
Lamento o fato de há muito tempo o partido ter largado o calor da rua e do povo em troca de cargos e o conforto dos salões refrigerados.
Esse episódio fez com que pessoas que não possuem um projeto de sociedade se encastelassem dentro da estrutura partidária, prejudicando a todos. O PT do Amapá atualmente sobrevive do prestígio nacional do presidente Lula e. do tempo de TV que temos, dos programas que foram
implementados nos governos Lula e Dilma. Temos uma direção que sufoca e isola as lideranças retirando destas todas possibilidades crescimento, de mudança e renovação política. A prova disso é que todos que saíram do PT em anos anteriores se viabilizaram eleitoralmente, a exemplo do Senador Randolfe e do Prefeito Clécio, na capital, que buscaram outros caminhos em outros partidos.
Venho lutando contra essa condição política que o PT tomou nos últimos anos, deixando de ser um partido de massa, militante, forjado nas lutas sociais e se transformando em um partido cartorial, que não debate, não discute e não organiza a luta dos trabalhadores.
É importante dizer que nunca pensei em sair do PT. Aqui eu tenho uma vida inteira, duas décadas de história e referência política. Mas, infelizmente a falta de perspectiva para 2018, 2020 me levou a tomar essa difícil decisão. Confesso que estou temeroso, com o que me reserva o futuro e também por que tenho o PT como uma espécie de religião, com seus fundamentos, princípios e um estatuto invejável.
No PT eu deixo muitos amigos, companheiros com quem caminhei por muito tempo. Estou saindo para não mudar de lado e não deixar de acreditar em uma outra sociedade, mais fraterna, mais igual, sendo fiel aos meus ideais, aos princípios éticos e morais que me norteiam e me conduziram até aqui e principalmente aos meus companheiros de luta e de vida.
Macapá, 05 de novembro de 2017.
Isaías Carvalho

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