Artigo dominical

Aquele lá de cima
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

No tempo que foi papa, João XXIII, agora santo, morava e trabalhava nos seus aposentos no terceiro andar do Palácio Vaticano. Mais em baixo, no primeiro andar, era alocada a Secretaria de Estado. O secretário de Estado, de então, era o cardeal Tardini, antigo colaborador de papa Pio XII. Esse cardeal levava muito a sério o seu trabalho, sem deixar de brincar, algumas vezes, como bom romano. Por isso, conta uma anedota, quando o papa João XXIII o chamava de repente, ele exclamava:

– Aquele lá de cima me chama de novo… – e corria.

Essa frase se tornou tão corriqueira que chegou aos ouvido do próprio papa João. Assim, um belo dia, o Santo Padre chamou o cardeal Tardini, à parte, e lhe disse:

– Meu caro cardeal, gostaria de precisar uma coisa: “Aquele lá de cima” é o Senhor de todos nós, o Eterno Pai lá no alto dos céus. Eu, entretanto, sou apenas “aquele do terceiro andar”. Depois de uma breve pausa, sorrindo, concluiu: – Por favor, não faça confusão de hierarquias!

Neste ano de 2014, assistimos à canonização de dois papas: João XXIII e João Paulo II. Em outubro, já foi anunciada a beatificação também de papa Paulo VI. Desta forma, a própria Igreja reconhece a inestimável colaboração e dedicação desses pontífices. A eles devemos a decisão e a conclusão do Concílio Vaticano II, assim como a concreta implantação de quanto os Padres do Concílio tinham pensado e decidido. Estamos falando de um evento – o Concílio Vaticano II – acontecido cinquenta anos atrás. Para os mais jovens é muito difícil poder fazer uma comparação entre a situação da Igreja antes do Concílio e o caminho de reformas e de renovação que foi aberto já durante os anos do Concílio e logo em seguida. No entanto, as “portas” e as “janelas” que aquele evento escancarou nunca mais foram fechadas e o “ar novo”, tão desejado, pelo papa João XXIII continua a soprar abrindo novos horizontes e inspirando a constante conversão da Igreja.

A partir daqueles anos, mudou a própria visão de Igreja, ou melhor, voltou a ser bíblica e atual. Mais do que uma estrutura orgânica e hierárquica, a Igreja foi reapresentada como Povo de Deus a caminho na história. Este “povo” de batizados não está à parte, separado do resto da humanidade, pelo contrário, deve colaborar, segundo às comparações evangélicas, como sal da terra, luz do mundo e fermento na massa, para que a história da humanidade inteira se torne a única e grande história do amor de Deus com todos os seres humanos de todos os tempos, condições e lugares. Esta Igreja é, ao mesmo tempo, humana, porque constituída de pessoas concretas e limitadas, e divina porque animada pelo Espírito Santo. Até o fim da história ela é chamada a ser a testemunha e a constante anunciadora do amor do Pai para com todos. Se hoje falamos de “nova evangelização” e de “conversão pastoral” o devemos ao impulso que o Concílio Vaticano II deu à missão de toda a Igreja.

Entre os caminhos abertos vale a pena lembrar a grande reforma litúrgica, o maior incentivo ao conhecimento e familiaridade com a Palavra de Deus, o diálogo ecumênico e o reconhecimento do papel dos leigos dentro, mas também e, sobretudo, fora das estruturas eclesiais. Todos os documentos das Conferências do Episcopado Latino-americano e Caribenho que se seguiram àquele Concílio revelam, também, o grande esforço das Igrejas deste continente para aplicar as reformas e as novidades daquele evento singular. O Vaticano II foi um dom de Deus que ainda está produzindo os seus frutos.

Na solenidade dos santos apóstolos São Pedro e São Paulo, renovamos o nosso afeto com a nossa Igreja, dela não só fazemos parte: nós somos hoje o rosto desta Igreja que peregrina na história. Diziam São Cipriano e Santo Agostinho: “Não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe”. Os filhos devem apresentar, ao menos um pouco, a beleza da própria mãe. Sem esquecer que todos, também se importantes e santos, passamos, mas “Aquele lá de cima” permanece para sempre. Palavra de São João XXIII

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