Artigo dominical

Duas estrelas
Dom Pedro José Conti –Bispo de Macapá

Um tempo atrás, vivia um homem muito austero que tinha feito a promessa de não tocar nem no alimento e nem na bebida até o pôr do sol. Ele acreditava que o seu sacrifício fosse agradável a Deus, porque todas as noites, sobre a montanha mais alta daquele lugar, resplandecia uma estrela muito luminosa. Certo dia, o homem decidiu subir a montanha e um rapazinho insistiu para ir com ele. No meio do caminho, devido ao calor e ao esforço, os dois tiveram sede. O homem disse ao menino para tomar a água, mas ele falou: “Tomarei somente se você tomar também”. O pobre homem ficou sem jeito; não queria quebrar a promessa, mas também não queria fazer sofrer o rapaz. No fim, tomaram água juntos. Aquela noite o homem não tinha coragem de levantar os olhos para o céu. Temia que a estrela tivesse desaparecido para sempre. Grande foi a sua surpresa, quando olhou o c& eacute;u, viu que resplendeciam nele duas estrelas.

No terceiro domingo de Páscoa, encontramos, no evangelho de João, mais uma “aparição” pós-pascal de Jesus ressuscitado. Desta vez na beira do mar de Tiberíades. É uma página cheia de simbolismos bíblicos. Tem algo de comum e algo de extraordinário ao mesmo tempo. Talvez seja esta a mensagem que podemos reconhecer: a vida nova da Páscoa não está – e nem deve estar – fora ou longe do nosso dia a dia. Ela deve iluminar e transformar o nosso cotidiano. O simples dessa página evangélica é, em primeiro lugar, o trabalho dos pescadores. Voltaram ao que sabiam fazer, ainda não estavam prontos para o novo. Voltaram lá, por onde tudo iniciou. São somente sete, uma pequena comunidade. Porque tudo começa pequeno. Comum também é a busca do alimento. Sem comida é impossível sobreviver e trabalhar. O p róprio Jesus pergunta se tem “alguma coisa para comer”. Não pode faltar o necessário, mas também precisamos daquele alimento que somente ele pode oferecer: é ele mesmo, feito “comida e bebida” para nós. Extraordinária é a pesca, como também as brasas, o peixe e o pão que Jesus já tinha preparado na beira do mar. No entanto, sentar-se juntos à mesa, como irmãos, como família, partilhando alegrias e desafios, esperanças e dificuldades deveria ser sempre o gesto comum dos amigos. É “o discípulo que Jesus amava” a reconhecer o Senhor. Nos surpreende, porém, o mergulho na água de Pedro, após ter vestido a roupa. Talvez uma antecipação simbólica da nova missão dele e de todos os batizados revestidos de Cristo, renovados e confirmados. Por fim, temos a pergunta essencial de Jesus a Pedro: “Tu me amas?”. E a resposta sincera dele: “Senhor, tu sabes que eu te amo!” Somente por amor e nunca por interesse ou poder é que Pedro poderá apascentar o rebanho do Senhor. Na nova comunidade de Jesus Crucificado e Ressuscitado toda missão, responsabilidade e serviço só deverá ser motivado e sustentado pelo amor. Não podia ser diferente para os discípulos daquele que nos “amou até o fim”. O novo e o repetitivo, o corriqueiro e o marcante se entrelaçam.

Com isso, o evangelista João nos apresenta um retrato realista da comunidade dos discípulos de Jesus. A Igreja tem uma missão extraordinária, deve ser sinal e germe do Reino presente na história, continuar a oferecer a Palavra de Vida e os Sacramentos, testemunhar o mandamento do amor, a nova e única lei que Jesus deixou. Tudo isso junto com as fraquezas humanas, consciente de que os primeiros a ter que se converter e mudar, a gastar as suas vidas por amor, devem ser os próprios cristãos batizados e alimentados pela santa Eucaristia. O que o Senhor nos pede não são compromissos ou promessas extraordinárias, prática, ou correntes de orações milagrosas nas quais acabamos confiando mais que na própria gratuidade e generosidade do amor de Deus. Não nos salvaremos pelos nossos jejuns ou por qualquer outro merecimento inventado ou imaginado por nós. A caminha da é longa e difícil. Cansamos. Temos fome e sede como todos os seres vivos. A única diferença é que, por graça de Deus, sabemos onde encontrar a fonte da vida e da alegria, o alimento que não perece. É Jesus, luz do mundo. Quando praticamos o bem, um pouco da sua luz resplandece também em nós.

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