Artigo dominical

Uma pedra inútil
Dom Pedro José Conti, Bispo Macapá

Um mendigo bateu à porta de um homem rico e pediu uma esmola. O rico não lhe deu nada e gritou para ele ir embora. O pobre, porém, insistiu. Então, o rico ficou zangado, pegou uma pedra e a jogou contra o pobre. Este recolheu a pedra e disse consigo mesmo: “Guardarei esta pedra até poder me vingar e jogá-la de volta contra ele”.

O tempo passou e a hora da vingança chegou. O homem rico cometeu um crime; foram-lhe tirados todos os bens e foi levado para a prisão. Quando estava caminhando pela rua, acorrentado e vilipendiado por todos, o mendigo o viu e o reconheceu. Avançou contra ele; retirou a pedra da sacola e levantou o braço. No entanto, parou um instante para refletir. Deixou cair a pedra no chão e disse consigo mesmo: “Por que carreguei esta pedra por tanto tempo? Quando ele era rico e poderoso, eu sentia raiva; agora sinto pena dele”.

Apresentei um exemplo fácil de historinha “catequética”: a colocação de um caso, ou de certa situação, para “ensinar”. Em geral, serve para oferecer um exemplo, para ajudar a tomar uma atitude; um incentivo a ter princípios morais para nortear a nossa vida. Tudo isso para lembrar, neste último domingo de agosto, o dia dos catequistas. Precisamos agradecer a todos esses nossos irmãos e irmãs que se esforçam para comunicar, da melhor maneira possível, o valor insubstituível do Evangelho, da fé cristã e da pertença à Igreja Católica.

Evidentemente, o modelo perfeito de catequista é o próprio Jesus. Ele sabia cativar as pessoas, entrar nas casas e nos corações. Sabia ser meigo e misericordioso, mas também, quando precisava, era forte e decidido; sem medo de ir na contramão da opinião comum ou, diríamos hoje, aquela “politicamente correta”, que agrada à maioria, mas nem sempre corresponde ao bem e à verdade.

Um exemplo desta catequese de Jesus aparece claramente no evangelho deste domingo. Talvez, falar de porta estreita e de esforço para entrar, possa parecer uma contradição com outros ensinamentos de Jesus. Na realidade, a explicação está na necessidade de praticar a justiça. Quem pensava em ter algum privilégio por ter sentado à mesa com Jesus está sendo alertado que isso não vai servir para entrar no Reino dos céus. Os que tiveram a possibilidade de ouvir Jesus falar em suas praças deviam ser os primeiros a entender a necessidade da conversão e não querer aproveitar desta oportunidade, achando-se íntimos do Senhor e seus preferidos. Quem não soube, ou não quis, acolher as palavras de Jesus, como incentivo à mudança de vida para o bem e a justiça, não poderá apresentar desculpas. Perdeu a oportunidade. Outros virão de todos os recantos da terra, merecedores de entrar no Reino, porque se esforçaram de vivenciar – conscientemente ou não – os ensinamentos do Mestre.

Ser catequista não é um privilégio para ter algum abatimento no compromisso cristão ou algum atalho para o Reino dos céus. É o contrário. A primeira “lição” que um catequista ou uma catequista oferece, muitas vezes sem perceber, é a sua própria vida. Dizia Santo Antão: “Nunca, jamais, proponha aos outros o que você mesmo não tiver antes praticado e experimentado”. Isto porque a fé cristã não é simplesmente um conjunto de verdades sobre Deus a serem explicadas. A fé é algo que mexe com a vida inteira da pessoa: orienta os seus sonhos, motiva os seus valores, sustenta as suas esperanças. Para esta vida e para a outra também, se acreditarmos mesmo no Deus da Vida. Talvez seja por isso que ser catequista é comprometedor e faltam catequistas, sobretudo para jovens e adultos que precisam de acompanhamento específico ao aproximar-se, pela primeira vez, da comunidade cristã ou ao voltar para ela, após ter dado algumas voltas na vida.

Talvez, para serem bons catequistas, alguns entre nós precisem somente jogar fora a pedra da timidez, da acomodação, da falsa humildade. Esforçar-nos para testemunhar e comunicar a nossa fé deve ser uma alegria, não um peso. Sem dúvida é um desafio que precisa de preparação. No entanto, vale a pena, sobretudo quando os discípulos se tornam melhores que os mestres.

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