Artigo dominical

Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Junto com a Quaresma começamos também a Campanha da Fraternidade. Este ano a CF é “ecumênica”, porque organizada pelas Igrejas que participam do movimento ecumênico. Aquelas igreja que, em poucas palavras, apesar das divisões, continuam acreditando e sonhando na unidade, confiando sempre na oração de Jesus: “Pai, que sejam um, como nós somos um” (Jo. 17,11b).
Com o tema Economia e Vida, a CF nos convida a refletir sobre a influência da economia na nossa vida pessoal, na vida da sociedade e também sobre a nossa fé. É por isso que no lema entram Deus e o dinheiro: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. São palavras que encontramos no evangelho de Mateus, quando Jesus constata a impossibilidade de amar, de verdade e ao mesmo tempo, dois senhores.
Amor verdadeiro somente para um Senhor. Ainda que façamos de tudo para disfarçar ou enganar a nós mesmos e aos outros, de fato, cada um de nós escolhe algo que motive a sua existência. Sem uma razão de vida o nosso dia a dia se torna vazio e não adianta preenchê-lo com qualquer coisa. Antes ou depois percebemos a inutilidade do que estamos fazendo, ou a infelicidade de ter jogado fora tempo, energias e, sobretudo, amor. Isso porque nós todos nos empolgamos e vivemos com intensidade o que amamos, no sentido de acreditar que aquelas coisas, atividades ou projetos nos estejam fazendo felizes e ainda mais nos farão satisfeitos ao longo da nossa vida. Todos nós precisamos crescer, estudar, trabalhar, conviver com as pessoas, com algum objetivo na vida, melhor se este for escolhido com consciência e responsabilidade por nós mesmos. De outra forma nos deixaríamos levar pelas circunstâncias, pela opinião dos outros, pelas modas. Quem não sabe o que quer, não alcança meta alguma e quem se deixa levar pelos outros está entregando a coisa mais preciosa que tem: ser o responsável da condução do barco da sua própria vida.
Hoje vivemos numa sociedade que exalta de maneira extrema o dinheiro e todo o poder que se pensa que ele proporcione; seja como sonho de bem-estar coletivo, seja como lucro de empresas e indivíduos. Temos a impressão de que tudo se transformou em mercadoria e, portanto, tudo tenha um preço. Só falta, às vezes, saber negociar. Ora, o dinheiro e o relativo lucro e poder não tem regras e menos ainda coração, a não ser aquelas leis do mercado que são as leis do mais forte, e com certeza não são as da justiça e da equidade.
Todos nós assistimos impotentes às articulações, às vitórias e derrotas da economia mundial durante a “crise” desses anos. Só deu mesmo para ver de longe o que os governos, os bancos e as empresas internacionais decidiam no sobe-desce das bolsas de valores. A maioria de nós também não entende quase nada do que está acontecendo, a não ser que perceba a gravidade da situação enfrentando aumentos de preços das mercadorias, ou até o desemprego. O que nos é proposto como solução, em geral, é o maior consumo, porque assim continuaremos a produzir – e a vender – para ter os empregos assegurados. Tudo como se fosse uma roda sem fim, e os recursos do planeta terra, que na maioria não são renováveis, fossem ilimitados. O que podemos fazer nessa situação?
A CF 2010, como sempre, é uma proposta de reflexão à luz da experiência que vivemos e da Palavra de Deus no qual acreditamos. Quando percebemos algo de errado, de desumano e de excludente para a grande maioria das pessoas, precisamos parar para ouvir o grito dos que não participam da festa, precisamos aguçar a mente e o coração para enxergar novos rumos da nossa vida pessoal como também da vida em conjunto, na luta para uma nova humanidade mais solidária e fraterna.
Não cabem aqui longas respostas a tantas interrogações, mas que seja urgente tomar algumas decisões todos nós entendemos, para não continuar a viver anestesiados pelo consumo e pela propaganda alienante. Devemos colocar em primeiro lugar a vida e a dignidade humana de toda pessoa. Precisamos humanizar a vida de todos, pobres e ricos, numa vida mais simples e austera, cheia de fraternidade e de paz.
Nesta altura quem não quer servir a Deus, sirva, ao menos, ao seu irmão com os mesmos direitos e deveres. No entanto se optar por servir ao Deus da Vida e do Amor, com certeza saberá amar mais também aos irmãos. O que não pode fazer é continuar a servir ao falso senhor que é o dinheiro. Esse ídolo levará à sua morte, a do planeta e a da humanidade inteira. Vamos mudar o rumo da história, antes que seja tarde demais.

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