Artigo dominical

Desiste! Desiste!

Dom Pedro José Conti, bispo de Macapá

Como todos os anos o “pau de sebo” foi levantado no meio da praça. Lá em cima tinha alguns prêmios em comida e o mais valioso de todos: um cheque de R$2.000,00. Muito dinheiro para o povo pobre da região. Assim a fila dos concorrentes era cumprida, mas, naquele ano, o pau de sebo era mais alto do que de costume e os organizadores não tinham poupado a gordura. Subir era difícil demais. Um por um, os desafiadores tentaram. Chegavam perto da meta, cansavam, perdiam a coragem e começavam a descer. O povo gritava forte: – Desiste! Desiste ! – Porque se ninguém tivesse alcançado o prêmio, o “pau de sebo” seria derrubado e a comida dividida entre os participantes. O cheque ficaria para o ano seguinte. De repente, um rapazinho quis tentar. Até a metade foi bem, parou um pouco para respirar, e o povo começou a gritar para que desistisse. Porém o rapaz não se deixou intimidar. Com muito esforço, aos poucos, conseguiu chegar até o cume e arrancou o precioso envelope. Foi uma festa! O pai, a mãe e os irmãos abraçaram o vencedor. Um dos curiosos presentes quis saber de onde o rapaz tinha tirado tanta coragem com toda aquela gritaria para que parasse de subir. – Simples – respondeu o pai – Primeiro, meu filho é bom mesmo, segundo: ele é… surdo.
Fácil entender o sentido da história. Há vezes, na vida, que precisamos ouvir bem para agir corretamente, no entanto, em outras não dar ouvido é a nossa força.
Foi o que aconteceu com os seguidores de Jesus, conforme o evangelho deste domingo.
Muitos achavam que Jesus era demais exigente, portanto decidiram abandoná-lo. Essa era a opinião corrente. Aos poucos, as pessoas iam saindo e o grupo estava ficando reduzido. Então Jesus perguntou aos discípulos mais chegados se eles também queriam ir embora. Pedro respondeu por todos: – A quem iremos Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.
Sempre temos que tomar decisões na vida, algumas delas são tão importantes que representam uma opção fundamental que pode orientar toda a nossa existência. Uma dessas escolhas diz a respeito da nossa fé. Afinal acreditamos e procuramos viver conseqüentemente a nossa confiança em Deus, ou vamos ficar na dúvida o tempo todo e a vida toda? A pergunta de Jesus, portanto, não vale somente para os que estavam lá naqueles dias; ela ecoa ainda hoje para todos nós. Vamos seguir Jesus por perto ou nos vamos afastar dele de uma vez por todas?
Hoje é comum ouvir falar de desistência, sobretudo, da fé católica. Muitas vezes sou questionado sobre o chamado êxodo da Igreja. Os fiés estariam deixando a Igreja Católica e migrando em massa para outras expressões religiosas. Aqui não é o lugar para entrar nos detalhes das estatísticas e dos estudos a respeito desse fenômeno e a quem, afinal, esses visíveis abandonos atingem. Em geral as pesquisas falam de insatisfação com as instituições, inclusive as religiões mais tradicionais e organizadas. Para muitos, hoje, a escolha de ter uma “fé” é algo exclusivamente individual, desligado de qualquer comunidade. Assim a religiosidade fica confinada na esfera do privado e, por causa dessa mentalidade, acaba sendo, muitas vezes, uma mis tura de muitas crenças mais ao gosto do freguês e da própria utilidade do que seguindo uma motivação lógica rigorosa e coerente. Pode acontecer que pensando acreditar em tantas coisas, idéias e doutrinas, damos ouvido a qualquer um que use e abuse do nome de Deus, e acabamos esvaziando o próprio sentido da fé. Fica uma gororoba sem gosto.
Para os cristãos a fé tem um nome: Jesus Cristo, uma pessoa. Nós podemos mudar doutrinas e idéias amanhã, conforme as conveniências e as modas. Contudo uma pessoa não pode ser mudada segundo os nossos gostos. Ela é o que é. Cabe a nós descobri-la, com os olhos, os ouvidos, mas também com a inteligência e o coração; em nos deixar questionar por ela, como no amor e na amizade, até nos tornarmos íntimos dela. Até confiarmos nela de verdade.
Jesus não mudou as palavras para que os críticos dele não fossem embora. Ao contrário os questionou. O seguimento de Jesus sempre será uma escolha radical. Infelizmente, podemos traí-lo com as nossas infidelidades, mas ele não se deixa adocicar, corromper ou cortar em pedaços, para cada um de nós escolhermos o que mais nos agrada.
Ele continua tendo todo direito de nos perguntar se queremos ir embora. Se dermos ouvidos aos tantos “desiste” e “cai fora”, acabaremos encontrando uma desculpa para justificar a nossa saída. Podemos, porém, passar por surdos, não dando ouvido a críticas, zombarias e olhadas de comiseração. Quem quer alcançar a meta deve continuar com os olhos fixos nela, juntando forças e coragem. Como o menino surdo do pau de sebo. O prêmio vale a pena.

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