Artigo dominical

Os olhos do coração
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um homem chegou à idade adulta e resolveu fazer uma faxina geral no seu coração. Muitas coisas inúteis estavam lá desde a juventude. Assim, jogou fora velhos bagulhos como a Poesia, a Fantasia, a Sensibilidade e a Maravilha. Achou-se mais leve e viveu muitos anos, na luta da vida, sem nenhuma preocupação. Chegou, porém, a velhice e o homem percebeu que tinha uma doença estranha: não conseguia mais ver as coisas nas suas justas dimensões. Algumas lhe pareciam grandes demais, outras tão pequenas que desapareciam. Os médicos prescreveram-lhe óculos de todos os tipos, mas inutilmente. Um dia, já curvo e cansado, andava pelo parque da cidade, quando encontrou um homem cego que caminhava com o seu bastão, de cabeça erguida e com um largo sorriso no rosto.

– Por que está sorrindo, amigo, apesar da sua cegueira? – perguntou o velho.

– Porque hoje tem um sol maravilhoso aqui no parque, mil flores nos jardins e mil pássaros cantando no céu! – respondeu o cego.

– Mas como o senhor sabe se não pode vê-los?

– Com os olhos do coração, ou seja: a Poesia, a Fantasia, a Sensibilidade e a Maravilha. Eu não tinha esses olhos, mas um dia os encontrei pendurados num galho. Alguém deve tê-los jogado fora. Daquele dia em diante, vivi feliz, apesar da minha enfermidade.

Ouvindo aquilo o velho sentiu-se morrer. Contudo ainda tinha forças e tornando-se humilde pediu ao cego:

– Se eu me agarrar ao seu casaco, o senhor vai me mostrar as coisas que está vendo?

– Com muito prazer, respondeu o cego, para mim é um grande prazer mostrar aos outros a realidade. – E os dois, juntos, partiram para descobrir o mundo.

Com certeza muitos estão se perguntando a razão dessa história para refletir sobre o evangelho deste domingo, no qual Jesus nos conta a bem conhecida parábola do Semeador. Simples, em lugar de comentar a parábola, vou tentar responder à pergunta: por que Jesus ensinava desse jeito?  Nos evangelhos encontramos muitas parábolas e isso nos deixa entender que esta foi uma forma peculiar de Jesus ensinar. Foi só um artifício didático ou algo mais? Poucas vezes Jesus dá a explicação das parábolas, prefere convidar a ver e a ouvir, com boa vontade, para compreender o sentido das suas palavras. Por que ele não ensinou de uma forma mais clara e direta? Vamos lembrar que Jesus estava falando do Reino de Deus, portanto queria nos fazer conhecer algo do próprio Deus. Com i sso fica a questão: como falar de Deus aos homens de ontem, de hoje e de sempre? Outro detalhe determinante é que os Evangelhos nos apresentam muito mais Jesus agindo do que falando. Em algumas horas, bem sabemos, ele se cala (Atos 8, 32, cfr. Is 53,7) não fala mais.

Em primeiro lugar, as parábolas “revelam e escondem” ao mesmo tempo. Ou se preferem, revelam aos poucos, mas também deixam entrever que tem muito mais, mas muito mesmo, para buscar e descobrir. O Reino de Deus não é algo que está pré-determinado ou pré-definido, é algo em construção como todas as relações amorosas. É algo que está acontecendo ainda e do qual podemos participar se tivermos olhos para ver e ouvidos para escutar. Para quem o busca de coração sincero, para quem arrisca confiando na sua Palavra, Deus se revela, se manifesta, se deixa encontrar. O ser humano é “capaz de Deus”, pode conhecê-lo, mas aos poucos, dando passos na “penumbra da fé”. Jesus sabia disso, conhecia a condição dos seus ouvintes. Ainda hoje, e sempre será assim. Deus se descobre aos poucos; e mais o con hecemos, mais dá vontade de conhecê-lo, até chegarmos a entender que já éramos conhecidos e amados por Ele.

Outra questão extremamente importante é a liberdade humana. Jesus falou, explicou, mas de uma forma que os seus ouvintes podiam aceitar ou recusar os seus ensinamentos, assim como nós também hoje. Quem não gosta de fazer perguntas na vida e quem não busca respostas questionadoras, pode sorrir das parábolas de Jesus. Quem não admite que Deus possa ter vindo ao nosso encontro, para nos ajudar a entender o sentido da vida e nos ensinar o caminho certo, achará tempo perdido emprestar ouvido às suas palavras. Ficará criticando os detalhes, achando aquelas “histórias” mal contadas, sem gosto e sem graça, sugestões piedosas para sentimentais. Quem acha que sabe e já entendeu tudo terá muita dificuldade a se deixar surpreender palas parábolas de Jesus. Sem dúvida não é fácil para ninguém ser o bom terreno da parábola deste domingo, onde a semente da Palavra produz frutos abundantes para o Reino de Deus.

Poesia, Fantasia, Sensibilidade e Maravilha são indispensáveis para enxergar as medidas certas das coisas e dos acontecimentos da vida. Servem para poder discernir o que vale mais e o que vale menos. Falta apenas acrescentar o Amor e os nossos olhos e ouvidos se abrirão para contemplar e participar do grande e maravilhoso projeto de Deus.

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