Artigo dominical

O rosto de Deus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

         Um homem tinha decidido dedicar toda a sua vida aos outros. Visitava doentes, socorria necessitados, sempre ajudava quem precisasse. Todos os seus dias estavam cheios de ações de generosidade e caridade. Certa vez, porém, encontrou uma pessoa que o parou e lhe disse:

– Amigo, tem certeza de que a tua caridade não seja egoísmo? Talvez satisfazendo as necessidades dos outros satisfaças primeiramente o teu orgulho.

– Os meus esforços são sinceros – replicou o homem – eu quero mesmo ajudar.

– Talvez tenhas esquecido de Deus! Achas mesmo que vais resolver os problemas de mundo inteiro? – insistiu o desconhecido.

De fato, o homem quase nunca pensava em Deus, porque não tinha tempo de tão ocupado que estava cuidando dos necessitados. Tocado por essas palavras, o homem largou tudo, retirou-se num lugar deserto e, na solidão e no silêncio, dedicou-se completamente à meditação e à contemplação. Certo dia, no entanto, passou por lá uma pessoa. Parecia alguém conhecido, mas não teve tempo de lembrar quem era, porque o estranho o investiu com palavras duras: – O que fazes aqui sozinho? Falas com Deus? Não te achas muito privilegiado? Não estás vendo quantos milhões de pessoas estão com fome, doentes, machucados à beira das estradas da vida?

O eremita começou a chorar porque entendia todas as razões daquele que estava falando, mas quando levantou a cabeça ele já havia desaparecido. Então seus olhos se abriram. Viu os lírios dos campos que nem fiam e nem trabalham, mas Deus os reveste de beleza incomparável. Ao mesmo tempo, viu o bom Samaritano tomando conta do ferido na estrada de Jericó, o único a parar entre os tantos que passavam por ali indiferentes. Resolveu voltar para o mundo e decidiu dedicar a noite à oração e à adoração de Deus e durante o dia se entregava a todo tipo de caridade sem limites ou preferência. Foi assim até o fim da sua vida. Quando entrou no Paraíso e viu o rosto de Deus teve a impressão que era o mesmo semblante daquele desconhecido que o tinha ajudado a encontrar o caminho certo da sua vida. Também os pobres que socorreu pareciam ter o mesmo rosto de Deus.

No domingo da Assunção de Nossa Senhora ao céu contemplamos a glória de Maria. Dela admiramos a generosidade, o seu sim incondicional ao projeto de Deus. Com ela queremos aprender a meditar a Palavra e a guardar no coração os acontecimentos através dos quais o Senhor sempre nos revela o seu amor. Com ela também esperamos um dia participar da alegria do céu. Com Maria, enfim, nós todos, pequenos e humildes servos, queremos cantar as maravilhas que o Senhor faz quando nos deixamos guiar por seu coração amoroso e por sua vontade libertadora.

Foi e sempre será olhando para Jesus e Maria que muitos irmãos e irmãs decidiram e decidem responder, livremente, ao chamado para entrar na vida religiosa. Neste domingo, nós queremos refletir, rezar e agradecer pelas vocações religiosas, de maneira especial pelos religiosos e religiosas presentes e atuantes em nossa Diocese. No entanto são tantas as formas com as quais se apresenta a vida dos Irmãos e das Irmãs consagrados que podemos ficar confusos. De fato, a diversidade da vida religiosa é a mais clara manifestação dos dons – ou carismas – que o Divino Espírito Santo sempre suscita ao longo da história humana que é também a história do nosso encontro com Deus salvador. Cada um de nós tem dons pessoais; são as nossas capacidades recebidas gratuitamente e que, se quisermos, podemos colocar generosamente a serviço dos outros na família, na profissão, assumindo responsabilidades dentro e fora da Igreja. Igualmente existem dons que são dados a grupos inteiros de pessoas. Assim nasce e cresce a vida religiosa na sua maravilhosa variedade. Ao redor de uma pessoa ou de um pequeno grupo, reúnem-se outros buscando realizar um serviço específico na Igreja, na sociedade ou, simplesmente, ajudando-se uns aos outros para crescer na santidade.

Riqueza, sucesso, afirmação individual e muitas outras coisas que o mundo nos leva tanto a desejar, não combinam com a vida religiosa. Esta se entende somente à luz da parábola do homem que vendeu tudo para adquirir o campo com o tesouro do Reino e do único e decisivo mandamento do amor a Deus e ao próximo. Por amor a Deus, os religiosos servem aos pobres e amando os pobres fazem das suas vidas um louvor ao Deus da vida. É o “como eu vos amei”, de Jesus que motiva a vida religiosa. E o “sim” de Maria encoraja a superar a fragilidade humana.

  • Acho praticamente impossível incutir na cabeça de uma pessoas de que “Riqueza, sucesso, afirmação individual e muitas outras coisas que o mundo nos leva tanto a desejar, não combinam com a vida religiosa”, a começar pelos líderes.
    Veja o Papa, rodeado de riquezas no Vaticano. Por que não vende todo aquele ouro e dá aos pobres, como sugere uma passagem bíblica?
    Além disso, uma das causas do movimento protestante, encabeçado por Lutero, foi a venda de indulgências. Afinal, não é isso que se vê hoje nessas igrejas evangélicas neopestecontais, principalmente a Universal? Pelo que vejo nos programas transmitidos pela televisão, quanto maior a contribuição, maior o efeito do milagre.

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