Artigo dominical

Sem levantar tanta poeria
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Certo dia, um príncipe chamou ao palácio um vendedor de cavalos, que lhe trouxe dois magníficos animais aparentemente iguais. Ambos eram bem feitos, fortes e saudáveis. No entanto o dono do primeiro pedia um preço que era o dobro do preço do segundo. O príncipe chamou os amigos da corte e prometeu:

– Vou dar de presente os dois cavalos a quem souber nos explicar porque o primeiro vale o dobro do segundo.

Os cortesãos observaram bem os dois cavalos, mas não souberam dizer o porquê da diferença de preço. Nesta altura, o príncipe sugeriu que colocassem os dois animais para correr, assim, talvez, pudessem descobrir a diferença. Mesmo após terem dado várias voltas ao redor do palácio, ninguém conseguiu descobrir a diversidade entre os dois. Então o príncipe explicou:

– Devem ter reparado, com certeza, que, quando os dois corriam, o primeiro quase não deixava sinal de poeira atrás de si, ao passo que o segundo levantava uma enorme nuvem. É por isso que o primeiro vale o dobro do segundo: cumpre as suas obrigações sem levantar tanta poeira.

Saber fazer bem as coisas, sem muito barulho e sem chamar muita atenção, é uma grande virtude. É a mesma diferença que existe entre os que falam bonito, mas não fazem o que dizem e aqueles que, sem fazer discursos, cumprem o seu dever. A parábola de Jesus deste domingo fala de dois irmãos que o pai mandou trabalhar na vinha. O primeiro respondeu negativamente, mas depois se arrependeu e foi trabalhar. O segundo declarou a sua disponibilidade com um sonoro “Sim, senhor, eu vou”, mas depois não foi. Se os fatos valem mais do que as promessas somente o primeiro filho fez a vontade do pai. O outro ficou na conversa.

Vivemos na sociedade das aparências ou da imagem, para usar uma linguagem mais sofisticada. O que vale é o que se vê ou, ao menos, o que achamos estar vendo. Hoje os efeitos especiais enganam qualquer um. O mesmo vale para as palavras. Muitos ficam tão satisfeitos com as aparências, os discursos, os holofotes e  raramente se preocupam de conferir o que está por trás, ou se às palavras correspondem os fatos. Hoje tudo é maravilhoso, fantástico, ocasião que não pode ser perdida. Entramos tanto nessa jogada que, muitas vezes, compramos bens mais pela propaganda do que pela verdadeira utilidade; mais por ser um lançamento do que pela  necessidade e o autêntico valor do objeto.

Não muito diferente, muitas vezes, é a nossa maneira de viver a fé. Adoramos emoções, deixamo-nos levar pelos sentimentos, ficamos felizes porque vibramos. Não importa se a nossa vida está cheia de confusões, de contradições e, quem sabe, de escolhas erradas. Quem nos cobra atitudes éticas e morais, quem nos convida a mudar de vida passa por chato, insensível, legalista e exigente demais. Quem nos pede perseverança, compromisso, participação na comunidade decididamente é considerado fora da moda.

O que estou lembrando vale para o bem, mas também para o mal. Com a mesma superficialidade com a qual se pode endeusar uma pessoa ou uma situação, também se pode derrubá-la, torná-la o diaboem pessoa. Seo que vale mais é a manchete – e não a verdade objetiva – com a mesma facilidade somos levados aos aplausos ou ao repúdio. Grande e grave é a responsabilidade de quem constrói falsos ídolos ou destrói um inocente.

Precisamos tomar cuidado para não cair na armadilha ou no encantamento das palavras e das aparências. O bom senso e a honestidade nos obrigam a conferir a veracidade das afirmações e das informações, também se isso é difícil e laborioso. Mais fácil é acreditar em tudo e logo esquecer. Se era verdade ou mentira, não interessa. Quem ganhou, ganhou e quem perdeu, perdeu. Amanhã outro assunto ocupará as nossas conversas.

A parábola deste domingo é um convite bonito à sinceridade e à obediência. Afinal os próprios sacerdotes e anciãos do povo tiveram que reconhecer que somente o primeiro filho – o que foi trabalhar mesmo – cumpriu a vontade do pai. O segundo passou por fanfarrão. Encher a boca com o nome do Senhor ou com declarações de fé pode enganar os desprevenidos, mas não engana o próprio Deus. A vinha precisa ser trabalhada com suor e sacrifício; se ficarmos somente nas conversas o mato tomará conta dela e nunca virão os bons frutos que o dono espera. Grandes discursos são como levantar muita poeira. No início dá para esconder muitas coisas, mas quando a poeira baixar, a verdade vai aparecer. Melhor não levantarmos poeira desde o início, porque não temos nada para esconder. Palavras que correspondem a obras valem o dobro e muito mais.

  • Bem que o prefeito de Macapá poderia comprar muitos cavalos como esse primeiro e trocar por carros aqui no bairro Novo Horizonte I e II a situação aqui tá caótica há pelo menos 3 meses depois que a prefeitura começou a tirar o asfalto velho das ruas e avenidas esburacadas e esqueceu de recapear novamente as ruas,os moradores da rua Marabaixo,Alvaro Barbosa e muitas outras estão adoecendo de tanto respirar poeira.Por favor, Alcinéa divugue essa situação no seu blog,pos já não aguentamos mais.

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