Artigo dominical

Os dois inimigos
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Numa aldeia moravam dois homens que viviam continuamente em guerra entre eles. Qualquer pequeno pretexto servia para brigar. A situação se tornou insuportável para eles e para os moradores do pequeno povoado. Os anciãos, depois de ter experimentado várias soluções, disseram a um dos dois:

– O único jeito agora é que você suba à montanha e veja a Deus.

– Tudo bem – respondeu o homem – Mas aonde eu vou?

– É muito simples, basta subir ao monte e lá verá a Deus.

O homem partiu sem hesitação e depois de alguns dias de fadigosa subida, chegou. Deus o estava esperando e, pode parecer inacreditável: Deus tinha o rosto do seu vizinho. O que Deus disse ao homem ninguém soube, no entanto quando ele voltou na aldeia era outra pessoa. Contudo apesar das boas maneiras e da sua vontade de reconciliação com o seu vizinho, as coisas continuavam indo de mal a pior, porque o outro sempre encontrava motivos para brigar. Os anciãos disseram:

– Ele também precisa subir ao monte para ver a Deus.

No começo, o homem não queria ir, mas depois concordou e partiu. Lá em cima, ele também viu que Deus tinha o rosto do seu vizinho. A partir daquele dia, tudo mudou e a paz voltou naquela aldeia.

Como sempre, nas histórias que contamos, podemos fazer acontecer até o impossível. Com Jesus, porém, algo de absolutamente novo aconteceu, e sempre pode acontecer. O  evangelista João diz: “Ninguém jamais viu a Deus; o Filho foi quem o deu a conhecer” (cfr. Jo 1,18). Jesus é o revelador (literalmente o “narrador”) do Pai! Em outro trecho Jesus diz a Felipe: “Quem me viu, tem visto o Pai” (Jo 14,9). Portanto, quem encontrar Jesus – o Filho – e o conhecer, isto é, o aceitar na sua totalidade, tem a possibilidade real também de conhecer a Deus – o Pai. Por sua vez, no evangelho deste domingo, Festa de Cristo Rei, escutamos que Jesus se identifica com o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu, o doente e o preso. Quem socorrer algum desses sofredores por causa da pobreza, da necessidade, da fragilidade e da condenação o terá feito ao próprio Jesus. Com ele, Deus se fez um de nós – trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, agiu com vontade humana, amou com coração humano – (Gaudium et Spes 22); agora e para sempre ele pode ser encontrado nos pequenos, nos pobres, nos sofredores. Jesus quis nos alertar sobre as primeiras necessidades do ser humano: comida, roupa, saúde, dignidade.  Os nossos irmãos e irmãs, que estão nessas situações desumanas, sempre deverão ser os primeiros a serem socorridos por aqueles que se declaram seguidores do Senhor Jesus.  Ninguém pode ser esquecido, considerado descartável e jogado fora. Nesse sentido, qualquer um de nós pode realizar gestos concretos de solidariedade, porque todos os dias alguém bate à porta da nossa casa ou do nosso coração pedindo socorro. O impossível de “ver”- encontrar a Deus – se realiza nos gestos de amor para com o nosso próximo.

Podemos ir mais longe. Se abrirmos um pouco o leque das pobrezas, das doenças e das prisões, é bem provável que descubramos bem mais necessidades ao nosso redor. Hoje existem mais infelizes do que pensamos. O mundo das drogas, por exemplo, revela dependência e escravidão do lado de quem as consome; ganância e cinismo por parte de quem enriquece explorando a fraqueza alheia.  A solidão clama por aproximação e amizade. A busca exclusiva do próprio bem-estar fecha a pessoa numa redoma hermética onde a indiferença e o egoísmo não deixam sair e nem entrar nenhum grito por justiça ou compaixão. É a ilusão de quem pensa que isolamento e insensibilidade proporcionam felici dade e alegria. Lembramos também a irresponsabilidade de quem se acha no direito de fazer o que bem quer, não importa se outros vão sofrer ou morrer. Essas pessoas atuam como se nunca tivessem que prestar contas a alguém do seu insensato agir. Será que pode ser feliz quem pensa somente e sempre em si?

Devemos reconhecer que estamos ainda muito longe das maravilhas do Reino: a justiça, o amor e a paz. Jesus, porém, nos revelou o segredo de Deus: aproximar-se tanto do outro, ao ponto de carregá-lo nos seus sofrimentos e na suas necessidades. Ir ao encontro do próximo é também ir ao encontro de Deus. Um Deus, portanto, que tem o rosto do nosso irmão.

Talvez estejamos precisando todos subir mais ao monte da fé para encontrar a Deus e descobrir o rosto dele. Ou talvez bastasse lembrar que o nosso irmão sente fome e sede como nós, padece por causa da indiferença e precisa de um pouco de atenção como todos. Se reconhecermos em cada vizinho o rosto de Deus, um dia ele também o reconhecerá no nosso. Assim seremos irmãos de verdade e o Reino da justiça, do amor e da paz continuará acontecendo.

  • Quem um dia não desfilou garboso nas datas cívicas de 07 e 13 de setembro não foi completamente um bom aluno, tive a honra e o privilégio de ter participado desses eventos e hoje ainda me dá mais orgulho de ver um de meus primogênitos fazendo parte desta maravilhosa tradição, e sempre vou apludir chorosamente ele tocando na banda da escola D. Pedro I de Mazagão. Parabens e “QUEM NÃO CHORARIA COM TAMANHA EMOÇÃO?”

  • O Bispo captou bem a essência do comportamento do homem moderno: egoísmo, egoísmo, egoísmo…os pais não sabem mais ensinar limites, respeito…o que está acontecendo com os pais de hoje? Estão errando muito…

    • Simplesmente não há mais a presença do pai e da mãe. Ambos saem pra trabalhar e quem cria o filho é o mundo. Há casos em que a mãe, logo após o período legal de amamentação, deixa o filho na creche pra ser criado por estranho. Como manter o controle sobre a criação deste jeito?

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