Artigo dominical

Mingau intragável
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

No tempo em que os eremitas viviam no deserto, um deles, bem idoso, ficou doente e não conseguiu se alimentar por vários dias. Um dos seus discípulos foi visitá-lo e lhe pediu licença para preparar-lhe alguma coisa para comer. Encontrou uma vasilha com farinha de trigo e decidiu cozinhar um pouco de mingau. Acima do fogão estavam pendurados dois pequenos frascos. Num tinha mel e no outro um óleo fedorento que servia para a lamparina. O irmão confundiu os frascos e colocou o óleo fedorento no mingau. O velho experimentou a comida, não disse nada e esvaziou a tigela. O irmão insistiu para que tomasse mais mingau, pois precisava se alimentar. O ancião fez um grande esforço e engoliu a segunda tigela. Pela terceira vez, o discípulo insistiu para que tomasse mais um pouco de mingau e lhe encheu novamente a vasilha. A esta altura, porém, o idoso se recusou e, com muita delicadeza, disse:
– Obrigado, mas não agüento mais.
O jovem insistiu dizendo:
– Aproveite que é gostosa. Eu também vou comer um pouco junto com o senhor.

Quando experimentou o mingau logo percebeu o que tinha acontecido e caiu com o rosto no chão pedindo desculpa ao ancião:
– Pobre de mim, ó pai, o senhor vai passar mal e a culpa é toda minha!

Mas o santo idoso respondeu:
– Não te aflijas tanto assim, irmão, se Deus tivesse querido que eu tomasse o mel, você o teria colocado neste mingau.

Parece mesmo uma história de outros tempos, contudo pode nos ajudar a entender o sentido dos quarenta dias de Jesus no deserto e, mais ainda, o tempo da Quaresma que estamos começando.

Na Bíblia o tempo no deserto é sempre tempo de preparação para uma missão ou para algo de novo que vai acontecer. Mais difícil é a missão, mais exigente será o treinamento. Maior é a novidade, mais se torna necessária a preparação. A respeito da missão única e irrepetível de Jesus talvez seja mais fácil entender. Mas onde está a novidade?  O novo, o inédito, é a Páscoa do Senhor. É para esse momento que nos preparamos ao longo da Quaresma. Isso acontece todo ano, é verdade, mas mesmo assim temos dificuldade de deixar que a novidade da Páscoa ilumine e norteie a nossa vida.

Tem algo, em nossa fé, que parece loucura. A primeira é que Deus possa escolher a ser um como nós: pequeno, frágil, mortal. Isso contemplamos no Natal. Agora vamos reconhecer que a morte na cruz também é, no dizer do apóstolo Paulo, louca e escandalosa. Quem aguardava triunfo e poder ficou decepcionado. Jesus nunca entrou e nem vai entrar na lista dos homens mais ricos do planeta! A vitória dele é outra, muito mais difícil: vencer o mal na raiz, morrer para vencer a morte. Assim chegamos à terceira verdade impensável e inimaginável antes: a ressurreição.

No segundo domingo da Quaresma, ouviremos no Evangelho que também os apóstolos tiveram problemas para entender o que significava “ressuscitar dos mortos”. Também quando Jesus lhes falava da cruz, o próprio Pedro reclamou e muitos o abandonaram. Talvez por causa disso também foi traído e entregue nas mãos dos poderosos.

Entender que a verdadeira riqueza da vida é saber doá-la, e a verdadeira grandeza está no amor incondicional sempre é e será difícil. Num mundo e numa sociedade marcados pelo pecado, pelo egoísmo, pelos ídolos da riqueza, do prazer e do poder, parece cada vez mais duvidoso acreditar que se possa ser feliz na vida também subindo o Calvário com Jesus, ajudando-o a carregar a cruz, porque o reconhecemos em cada irmão sofredor e excluído.

Nunca será fácil, espontâneo, imediato o esforço e o sacrifício para que outros sejam felizes, tenham vida e vida plena.

No entanto, isso não é impossível. Todos os dias tantas pessoas fazem da própria vida um dom. São pais e mães cuidando bem das suas famílias. São profissionais da educação, da saúde, da vida pública, colocando a sua competência a serviço da juventude, dos doentes, do povo que lhes deu a confiança. São pessoas simples e generosas que decidem ajudar os outros sem ganhar nada, sem aparecer, no silêncio, na paciência, na perseverança, na oração. Alguns têm mais fé, outros menos. Todos, porém, com certeza tem muito amor no coração.

É a eterna luta entre o bem e o mal, até o dia em que, de uma vez por todas, o amor vencerá o ódio, a compaixão vencerá a indiferença, o perdão ganhará sobre a vingança. Essa vitória já começou com a Páscoa de Jesus, a sua vida doada, a sua morte no Calvário, o túmulo vazio da ressurreição. Os quarenta dias são poucos para entender, acreditar, confiar e acompanhar o Senhor. No entanto não devemos ter medo, vamos segui-lo, porque o que ele fez por nós, sem reclamar, foi muito mais do que engolir um mingau intragável.

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