Artigo dominical

A abstinência e o jejum
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Todo ano, chegando a semana antes da Páscoa, volta a questão da abstinência das carnes na Sexta-feira Santa. Assistimos de um lado à alta dos preços do pescado e do outro à preocupação sincera do povo católico em respeitar as normas propostas pela Igreja. Vou lembrar rapidamente as tais normas e depois tiraremos as devidas dúvidas.

No Catecismo da Igreja Católica, nº 2043, podemos ler: “O quarto mandamento (“Jejuar e abster-se das carnes, conforme manda a Santa Mãe Igreja”) determina os tempos de ascese e penitência que nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adquirir o domínio sobre os nossos instintos e a liberdade de coração”.

O Código de Direito Canônico orienta: “…observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta-feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”. “Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os sessenta anos começados. Todavia os pastores das almas e os pais cuidem que sejam formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados à lei do jejum e a abstinência, em razão da pouca idade.” (cf. cân. 1249-1251). Por jejum se entende não tomar mais que uma refeição completa, permitindo-se, porém, algum alimento outras duas vezes ao dia.

O sentido e o valor da abstinência das carnes e do jejum não estão simplesmente em cumprir uma obrigação, mas, sobretudo, em entender o seu valor educativo. Quem nunca sabe renunciar a nada, incluindo fumo, bebida, televisão, internet…, deveria perceber o valor de se tornar mais livre a respeito dessas coisas. De outra forma, acabamos sendo dependentes delas e, portanto, dominados por elas.

Buscar alternativas saudáveis aos “vícios”, ou às “dependências”, não somente nos torna mais livres, mas talvez nos permite perceber que podemos ocupar o nosso tempo e, afinal, a nossa própria vida, com outros interesses, não necessariamente materiais.

Devemos entender, portanto, que a renúncia espontânea e alegre a alguma comida,  bebida, ou a algo que nos prende demais, é uma forma simples para retomarmos a nossa liberdade e afirmarmos, em primeiro lugar, para nós mesmos, o que é mais importante: satisfazer as nossas necessidades e os nossos caprichos ou dominá-los, inclusive, para reconhecer quanto falta de comida, bebida e afeto a tantos irmãos e irmãs carentes.

Cada um de nós, portanto, examine a própria consciência, veja o que pode fazer, para que a Sexta-feira Santa não seja um dia triste, de inúteis discussões ou de gastos desnecessários, e sim uma oportunidade para refletir um pouco mais, descobrir a beleza do silêncio interior e exterior e, para quem acredita, também de oração, lembrando e contemplando a vida e a morte daquele que os cristãos insistem em chamar de Senhor e Salvador: Jesus Cristo!

Por um dia, não será difícil encontrar alternativas alimentares para substituir a carne – por exemplo – talvez seja mais difícil nos solidarizar com algum gesto concreto com aqueles que estão enfermos, abandonados, solitários ou passando fome. Deve ser o nosso amor a nos tornar criativos para que também novas formas de jejum e penitência continuem a nos educar à liberdade, à fraternidade e à partilha.

  • Perfeito o que Dom Pedro escreveu. Lindo. Acrescento que o jejum, serve também para refletirmos sobre como estamos nos alimentando.

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