Artigo dominical

O Senhor ressurgiu, ressurgiu de verdade
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Saudar alguém que encontramos pela rua, é sinal de educação. Responder é também questão de boas maneiras. O que iríamos dizer se alguém, no tempo pascal, saudasse-nos com as palavras:

O Senhor ressurgiu! E nós respondêssemos: Ressurgiu de verdade!? Talvez achássemos tudo isso meio esquisito. Mas não é bem assim pelo mundo afora.

Os nossos irmãos cristãos ortodoxos, não somente usam essa saudação, como alegremente a respondem. Dá para imaginar como seria? Nós cristãos chegando ao ambiente de trabalho, à escola, à praça, à igreja e nos cumprimentando uns aos outros com essas palavras? Tudo é questão de costume. Pelo jeito, um costume bem antigo e tão enraizado que continua até hoje, apesar das mudanças sociais e políticas ocorridas naqueles países, sobretudo nos do Leste europeu, onde a maioria dos cristãos professa a fé ortodoxa.

Proclamar repetidamente: “O Senhor ressurgiu! Ressurgiu de verdade!” talvez fosse, também para nós, uma boa maneira para nos cumprimentar e, muito mais, nos ajudar a entender aquele acontecimento único na história que os cristãos chamam de ressurreição de Jesus. Se entendermos esta ressurreição como a simples volta à vida normal de um defunto, toda a história de Jesus teria acabado com uma nova morte dEle e, dessa vez, definitiva. Mas a ressurreição de Jesus é algo totalmente novo que as próprias testemunhas tiveram dificuldade em explicar.

Como em outros passos dos Evangelhos, também no caso da ressurreição quem a escreveu teve que usar uma linguagem acessível que pudesse, ao menos um pouco, descrever algo de tão novo e surpreendente. É por isso que as chamadas “aparições pós-pascais” nos deixam perplexos. Como pode entrar com as portas fechadas quem diz não ser um fantasma e ter carne e ossos? (cf. Jo 20,19 e Lc 24,36-41). Pela dificuldade de expressar o totalmente novo, devemos dizer que foi tudo inventado, e a mentira mais colossal da história chegou até nós?

É nessa altura que entra em jogo a nossa fé. Não porque não sabemos mais o que dizer, mas porque o acontecimento da Páscoa de Jesus vai além de todas as nossas palavras e tentativas de explicação. Se pudéssemos dizer tudo sobre a ressurreição de Jesus, ela nada mais seria do que um simples acontecimento, talvez extraordinário, mas, afinal, algo que ainda estaria sob o controle dos nossos raciocínios e das nossas ideologias. Mas, não é assim: a Páscoa de Jesus, o seu mistério de morte e ressurreição, o seu amor total e a sua vida absolutamente nova, não se encaixam em nenhum dos nossos esquemas. Ela é e sempre será uma alegre surpresa para quem estiver aberto às maravilhas de Deus (cf. Lc 24,41).

As consequências de tudo isso são simples. Mais do que tentar “domesticar” a Páscoa e fazê-la entrar nos nossos esquemas, nós cristãos, que afirmamos acreditar na ressurreição de Jesus, devemos nos deixar questionar e transformar por ela, justamente como aconteceu com aquele grupinho de medrosos apóstolos e de mulheres choronas. Tudo mudou na vida deles e delas. De pescadores de peixes se tornaram pescadores de gente. De desanimados se tornaram testemunhas da esperança. De apavorados e fujões se tornaram mártires. De calados e escondidos se tornaram pregadores incansáveis da Boa Notícia.

Para os cristãos, a ressurreição de Jesus não é, portanto, um acontecimento do passado, mas um desafio de hoje: provar com a nossa própria vida que o que Jesus ensinou e viveu não acabou; pelo contrário, ainda é a razão de vida, de amor, de sacrifício e doação para tantas e tantas pessoas sinceras e confiantes.

Justamente porque Jesus venceu a morte é possível acreditar numa vida mais humana e fraterna contra toda exclusão e humilhação. É possível acreditar na força vencedora do amor e da paz, contra todo ódio, vingança, orgulho e arrogância. É possível acreditar na força dos pobres, dos fracos, dos pequenos, dos derrotados, dos desconhecidos, dos sofredores. Tudo isso porque Jesus também morreu na cruz condenado, excluído, espoliado de tudo e ainda caçoado, porque a força de Deus não está no poder, mas no amor que somente pode doar a vida e não tirá-la, aceitar ser humilhado para não humilhar.

Esta é a vida nova de Jesus ressuscitado. Crer nEle significa crer também na maneira que Ele escolheu para viver e morrer. Não há outro caminho para nós também podermos participar da sua ressurreição a não ser praticar a sua palavra e a sua eucaristia, testemunhando o seu amor para com todos.

Não tenhamos medo de proclamar que Jesus ressurgiu. Talvez não respondam os “grandes” deste mundo, mas com certeza os pobres, os fracos, os perseguidos e os caçoados de ontem e de hoje, responderão junto com os homens e as mulheres de fé sincera e comprometida: “Ressurgiu de verdade, aleluia!”.

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