Artigo dominical

O Resgate
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Após um naufrágio, o único sobrevivente agradeceu a Deus por estar ainda vivo e ter conseguido se agarrar à parte dos destroços para poder ficar boiando. Esse único sobrevivente foi parar numa pequena ilha desabitada e fora de qualquer rota de navegação. Apesar da solidão e das dificuldades o homem não se desesperou e agradeceu novamente. Com muito esforço conseguiu juntar algum material e construiu um pequeno abrigo para poder se proteger da chuva e dos animais. Lá também guardou os poucos pertences que tinha conseguido salvar. Quando conseguia um pouco de comida sempre agradecia ao Senhor. Um dia, porém, ao entardecer, voltando da busca de alimentos, encontrou o seu barraco em chamas. Tudo estava perdido. Desta vez ficou desesperado. Chorou e gritou a Deus: – Por que o Senhor fez isso comigo?  De tanto gritar e chorar acabou adormecendo de cansaço.
Ao amanhecer do dia seguinte foi despertado pela presença de alguns marinheiros que lhe disseram: – Viemos resgatá-lo.
– Mas como vocês souberam que eu estava aqui?
– Pela fogueira que o senhor acendeu ontem à noite –  responderam-lhe.
É uma pequena história bem conhecida. Há momentos na vida que são verdadeiras incógnitas. Não entendemos mais nada. Temos a clara sensação de ter perdido o controle da situação. Contudo, na maioria das vezes, as coisas vão se ajeitando e abrem-se, para nós, possibilidades antes impensadas. Com certeza já experimentamos que para começar algo de novo, é necessário mesmo que, de uma maneira ou de outra, o velho desapareça. Só acontecem mudanças verdadeiras quando temos  coragem de jogar fora tudo aquilo que não nos deixa caminhar e crescer.
Evidentemente não estou falando de pessoas a serem descartadas. De jeito nenhum. Estou falando daqueles costumes, vícios, idéias, relacionamentos, que estão enraizados tão fortemente em nossa vida, em nosso dia a dia, que achamos impossível sair dessas situações. Pensamos que por ser assim, sempre o será. Acomodamo-nos na mediocridade ou mesmo no erro. Chegamos até a gostar porque pensamos que poderia ser muito pior. Às vezes é o nosso relacionamento com uma pessoa, muito perto de nós, que esfriou e se transformou em rotina. De repente essa pessoa nos deixa para sempre. Aí descobrimos quanto nos faz falta e quanto erramos ao não valorizá-la como merecia. Precisava que ela morresse para reconhecer o bem que nos fez por tantos anos? Não podíamos nós mesmos ter renunciado aos nossos pré-conceitos, ao nosso orgulho e aberto mais o nosso coração. Talvez, agradecido mais. Ah, se pudéssemos recomeçar tudo de novo.
O mesmo vale também em relação a Deus. Alguns acham impossível uma nova aproximação. Já decidiram que não tem fé, que não adianta. De fato pararam de buscar, desistiram de questionar-se. Poderiam dar a volta por cima, com mais humildade e disposição. Não querem, porque deveriam renunciar às suas encardidas convicções. Outros se consideram pessoas com muita fé, simplesmente por terem conservado alguns costumes cristãos, por terem algumas imagens de Santo em casa, ou por serem amigos de algum padre. Nesse caso, a fé existe, mas parou no tempo. Fossilizou-se em alguns gestos dos quais essas pessoas nem lembram mais o sentido. Se quisessem, valeria a pena recomeçar tudo de novo, com mais entusiasmo e mais alegria. O verdadeiro Deus é sempre surpreendente. Nunca acabamos de conhecê-lo como mereceria e como Ele gostaria ser compreendido e amado.
Esses pensamentos podem nos ajudar ao reiniciar o Ano Litúrgico. Com o primeiro domingo de Advento, preparamos-nos para celebrar o Natal de Jesus, mas muito mais devemos aprender a acolher o Senhor sempre de novo. Advento também é tempo de conversão e de renovação, mas não sem alguma renúncia de nossa parte. Jesus quer nos ajudar, quer nos salvar do mal que está enraizado em nós. Precisamos, porém, fazer uma fogueira com tudo o que não presta na nossa vida para chamar a atenção dele e para provar que queremos mudar de verdade. Maior será a fogueira, mais facilmente ele chegará até nós.

  • “Os politeístas podiam ter todos os defeitos do mundo, mas nunca travaram guerras religiosas. O deus chaveiro de um era tão bom quanto o deus torradeira do outro. Se o povo do deus bolinha de gude ganhasse uma guerra contra o povo do deus clipes de papel, esse último rapidamente concluía que o deus clipes de papel não era de nada, abraçava o deus bolinha de gude sem pensar muito e a vida prosseguia bela.

    Bíblia de JerusalémAté que um certo povo do deserto se recusou a adotar a religião do conquistador e disse: sua vitória sobre nós não quer dizer que o seu deus, que nem existe, derrotou o nosso, que é o único; quer dizer que o nosso deus, que é único, está nos punindo por algo que fizemos mas, mesmo assim, escravos e subjugados, nós acreditamos que ele nos ama e nós o amamos de volta.

    Com essa vitória do self-denial sobre a lógica mais rasteira, começa a história do monoteísmo.” Fonte:http://www.sobresites.com/alexcastro/prisoes/religiao.htm

  • Muito boa a reflexão. Seria bom se todos do governo Waldez, assembleia, ministério público, tre lessem para se humanizar e fazer o que é correto diante de Deus.

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