Cronistas do blog

Joca da Cidade Jóia
Cléo Farias de Araújo

O telefone toca e eu atendo:

— Léo… é você? Aqui é o Joca…

— Ei, Joca! Há quanto tempo não te via, nem falava contigo…

— É verdade, Léo. Nem mesmo por telefone. Ainda mais agora que moro no sudeste.

— Nem pela net… Mas… me diz uma coisa: O que é que tu fazes aí, longe da gente?

— Ah… minha vinda pra cá é fruto de um fato curioso: meu filho, que já morava aqui, tinha um carro que estava no meu nome. No momento de vender, tive que vir, por causa da documentação.

— E o que tem a ver a venda do carro com a tua mudança?

— É que eu gostei do clima e fui ficando, ficando…

— Então esqueceste que nosso pedaço de chão precisa de pessoas iguais a você? Que o trabalho no rádio não pode olvidar essa maravilhosa voz, que tantas vezes embalou nossas tardes e ajudou a cultivarmos nossos sonhos?

— Não! Não esqueci de nada disso. Porém, de um tempo pra cá, parece que outros ventos bateram e eu preferi realizar diversos projetos, há muito adormecidos.

— Joca, você se sente realizado?

— Olha, Léo, realizado o homem nunca está, pois é o ápice da insatisfação. Por conta disso, sempre caça algo novo pra fazer.

— E você não pretende mais voltar pra cá?

— Sinceramente? Não! Aqui a cidade é limpinha, as ruas pavimentadas e bem arborizadas, o clima é ótimo, os recursos públicos são usados corretamente, a saúde da população é dez. Tudo é só o filé! Os shoppings são abarrotados de novidades. Aqui tem de tuuuuuudo!

— Joca… e quanto à culinária? Como é que um cabôco papa-açaí se vira no sudeste?

— Bem… a gente vai vivendo. Aqui, aprendemos a comer corretamente. Incluímos muitas frutas em nosso cardápio diário. Tem figo, pitaia, pêssego, jaboticaba; as verduras e legumes são fresquinhos. Desde que vim pra cá, já emagreci 10 kilos, saudavelmente. Nunca mais gripei ou peguei dengue. Malária? Nem pensar!

— Ah… pelo visto, aí é terra de longevidade, de felicidade… é primeiro mundo mesmo!

— É Léo. Infelizmente não posso dizer muita coisa boa daí.

— Então tá, Joca. Vou desligar porque preciso entrar em contato com o bar que sempre nos atende lá na beira do rio. Aquele, lembra?

— Eu não acredito que tu ainda vais ao mesmo lugar de sempre!

— É, Joca, no de sempre. Vou lá porque a cozinheira ainda é a mesma do tempo em que tu moravas aqui. Sabes que aquele camarão no bafo e a dourada frita, crocante, acompanhada do açaí-papa com farinha baguda…

— Nem me fale, não sou mais o mesmo. Essas coisas já esqueci. Mudei meus hábitos!

— É, Joca. Então… até outro dia. Hoje à noite, quando for jantar com a turma, vou dizer que você mandou lembranças.

— Tá bom, até mais ver.

À noite, lá pelas nove, ao chegar ao boteco da Raimunda, quem eu vejo sentado e comendo as iguarias que encomendei?

— Mas… é você, Joca? Mundo pequeno, não? Você não tava em…?

— É Léo. Depois que baixei o telefone, não pude afastar da cabeça as imagens da nossa terra. A coisa foi tão forte, que parece que eu sentia o gosto das comidas, o cheiro no ar, tudo! A boca começou a marejar e os olhos… Aí a Maria disse pra eu largar de besteira e voltar.

— Mas… e aquela história de hábitos mudados e tudo o mais?

— Ah, Léo… cabôco é igual urubu do ver-o-peso. Noutro lugar pode estar tudo arrumadinho, bonitinho, sem defeito. Mas lá não tem… o que estás vendo agora. Na verdade, eu tinha uma vontade danada de vir, mas a vergonha de reconhecer essa saudade é que me impedia. Eu tava odiando tomar só chula, como se fosse açaí de primeira, comer peixe sem gosto e louco pra falar: alvará, batispaiado, sumano e suprimo. Assim, peguei o avião e cheguei de tarde. Agora senta aí e corre a comer, pois senão vai acabar!

  • “… Amo tudom isso! Não EXISTE lugar melhor que nosso Paraíso, o Amapá…boa páscoa a todos…”

  • Texto muito bom. Quem ama sua terra nunca deixará de sentir falta, ainda que esteja longe. Seria bom se todos os filhos do Amapá lessem esse texto para ver o que é amar um lugar.

  • Olá Cléo. Admiro muito seus escritos, se você não sabe, guardo muitos deles nos meus arquivos por representarem épocas de visão de mundo distintas e vividas por nós. Queria saber escrever assim como você, mas mesmo não tendo tanta habilidade assim, me atrevo dizer que todo texto é um retrato cultural de um ambiente específico temporal, e toda vez que deparo com suas produções, sempre aprendo alguma coisa, uma vez que toda literatura é geradora de conhecimento. Parabéns.

  • Parabéns, Cléo pelo talento e sensibilidade ao descrever nossos costumes, hábitos e riqueza cultural. Não há amapaense que não se identifique com tuas narrativas. Parafraseando Alcinéa te mando um bjo com sabor d açaí…

    • Querida Liane, costumo dizer que, o que a Biologia errou (me fazendo nascer em Belém), a Geografia corrigiu (me trazendo ainda pequeno pra Macapá). Eu teria que viver aqui, pra sempre. Cabôco só gosta de comer o que presta (açaí, jabá, peixe d’água doce, …)

  • Sempre é tempo de pensar e repensar sobre coisas que nos dão prazer, porém nem sempre temos a oportunidade de poder voltar para apreciar o que gostamos e tivemos vontade de fazer. Felizes somos nós que ainda bem jovens temos a oportunidade de fazermos o que queremos, como: dançar aos sábados,tomar banho de rio no meio da semana, andar de bicicleta nos finais de tarde, encontrar com os amigos na feira do produtor, às terças e quintas e ainda no final do mês dar-se ao luxo de comer peixe frito e camarão, num final de noite, com a família e os amigos. Mas digo que, para que se colher esses frutos, foram necessários dias de não poder comer a comida caseira e sim um sanduba dos mais baratos feito pelo melhor cachorreiro amigo—intitulado Paissandu—filar a bóia de um vizinho legal (são tantos que é melhor não comentar para não esquecer de nenhum) que sabia de nossas necessidades. Talvez, por isso é que damos muito valor às coisas bem simples e prazerosas que temos na lembrança. Quem não passou por determinadas situações não tem esse sentimento, não é mesmo?

  • Muito legal Cléo. Macapá é assim: quando chove é inverno; quando faz sol é verão. Temos até as duas estações em um mesmo dia. Cidade abençoada por Deus. Parabéns.

    • É isso aí, Jeremias. Nosso pov sabe o que é realmente bom. Que maravilha vivermos aqui. Obrigado pelas palavras.

  • Morar longe da minha Macapá, nao significa que ela saiu do meu coração, ela continua viva nas minhas lembranças de uma infância maravilhosa. Voltar pra Macapá eh como voltar sempre para a minha casa, onde sei que vou encontrar todos da minha família. A origem cultural nao se perde com o tempo, so reforça a saudade…

  • Ola Cleo,
    Adorei sua crônica, e bateu uma saudade danada da nossa terra, principalmente da nossa culinaria. Eh! me aguardem ?? Uma Santa et Feliz Pascoa para vc e sua familia

    • Oi, Ilka. Macapá ficou menos alegre com a saída da “moça com um sorriso nos lábios”. Mas, como toda mãe, sempre espera de braços abertos, o retorno dos filhos. Feliz páscoa!

  • Macapá é sem dúvida o melhor lugar para se viver. Eu amo este lugar e não quero jamais sair daqui, nem se alguem me oferecesse dinheiro, essa cidade me acolheu de braços abertos e me recebeu como se eu tivesse nascido aqui e me fez sentir em casa. Macapá, como eu amo esta morena.

    • Ah se eu pudesse adivinhar… esperava um pouco mais e acrescentava este apaixonado comentário por nossa terra.

  • Cleo, parabéns pelo texto, leio todos os que voce posta no blog. Tenho parentes que moram em São Paulo e todas as vezes que viajo sempre levo na bagagem uma caixa de isopor com peixe, açai, farinha e tucupi. Esta é uma forma dos mesmos matarem a saudade da culinária da nossa querida Macapá.

    • Obrigado, Edielson. É assim mesmo que fazemos: entupetamos o isopor com iguarias do norte, a fim de abastecer nossos parentes e amigos que estão na diáspora (como diz o Mestre Aloísio). O prazer de agradarmos os nossos queridos vale mais que qualquer trabalheira.

  • Valeu, Cléo.
    Texto muito bom, que bate forte o coração de quem está na diáspora. E o açai com camarão e peixe frito são bem representativos das nossas coisas, evocando nossas raízes.
    Achei interessante o Dicionário de “Amapês”; não conheço. Lembrei que, há algum tempo atrás, lí um livro com o título “Falar Tucuju: Desde o tempo do ronca”, do João Nobre Lamarão. Muito engraçado, morri de rir.
    Olha, vai juntando as crônicas e lança um livro.
    Um abraço do amigo
    Aloisio

    • Oi, Mestre Aloísio. VC sempre tem razão e eu não costumo discordar dos Mestres. Porém, vc está bem próximo daqui e, vez por outra, vem alegrar a cidade com a tua chegada. brigado pelas palavras. Feliz páscoa! Do fã: Cléo.

    • Quanto ao Dicionário, estou preparando uma 2ª edição (a 1ª saiu em 2002-esgotada). Quando estiver prnoto, terei imenso prazer em te enviar um exemplar. Abração.

    • Róbson… é por isso que não deixo Macapá, por nada. Quando viajo, finjo que não fui. Quando retorno, digo: até que enfim. Chula, nem pensar.

  • Cleo, Parabéns pela crônica. Tenho parentes em São Paulo e todas as vezes que viajo sempre levo na bagagem uma caixa de isopor com peixe, açai, farinha e tucupi. Esta é uma forma de matar a saudade da nossa terra.

  • O senhor está certo pai, do que vale a paz e tranqüilidade sem a felicidade simplória de sermos nós mesmos.

  • Cléo,vc precisa lançar um livro! Sua crônica està MARAVILHOSA…
    Vc me fez rir muuuuiiiitoooo! Estou me sentindo um “JOCA”!rs
    Ameei:”Como é que um cabôco “papa-açaì se vira…” rsrsrsrsrssr

    FELIZ PASCOA!
    FIQUE COM DEUS!

    • oi, Patrice. fiz esse texto, pensando em muitos amigos que tenho fora do Amapá, incluindo vc, pessoa tão querida. A tua sorte é que, em breve, voltarás pra cá.Então, lembra do cheiro das nossa comidas e …feliz páscoa.

  • Até me emocionei com o texto, belo texto, nos faz voltar o olhar para e o que realmente é importante na vida de um amapaense, amizades, rio, culinária, musica, quem nunca viu jamais vai entender a vida do povo da floresta, parabéns ao autor, mas na verdade o autor poderia ser qualquer um que saiu daqui pra longe, pra morrer de saudades!

  • Boa Cléo. No momento que lia sua crônica, estava no trabalho justamente pensando no almoço do dia. Tainha salgada com açaí e aí fui mais cedo pra casa.Informe ao amigo Roque, que a frase bate espaiado é creditada a um treinador do time do Maruanum, que disse ao seu meio campista: “quando pegar a bola bate espaiado, que alguém vai receber o passe”.E ele tava certo. Parabéns e um ft abraço.

    • Mestre Milton, obrigado pela atenção. Tens razão na questão do verbete “Batispaiado”. Porém,o uso diversificou-se, tendo hoje sentido bem amplo, conforme expliquei ao Roque. Pena que vc não me convidou para o almoço. Mas não perco a esperança. Vou combinar com a Alcinéa para te fazermos uma surpresa. Sou teu eterno fã.

  • Assim não da, Cléo! Acabei de chegar aqui onde não tem nem camarão frito, nem açai, e, ao ler sua crônica, ja estou pensando que os proximos que vc vai encontrar sentados no barraco da Raimunda serão eu e o Daniel! Ainda mais comendo dourada frita com açai! Covardia esse conto, rsrsrs. Valeu, Cléo! Um abração!

    • Oi, Veneide. Mas Vc foi daqui semana passada. Mas, tens razão: saudade não escolhe hora. Quando voltarem, vamos marcar pra um jantar desses, ok?

  • Crônica interessante, realmente precisamos dar um pouco mais de valor a nossa cultura, tão rica, e aos bons escritores que o nosso Amapá possui! 🙂

  • Ou seja, o bom filho sempre à casa retorna. Se dentro do país ocorre isso, imagine o que sente um exilado no exterior. Cleo, o que é “batispaiado”?

    • Oi, Roque. “Batispaiado” é expressão de uso amapaense, que não possui tradução “ipsis litteris”. É mais ou menos: deixa correr, deixa acontecer. Tenho, em parceria com uma das minhas irmãs (Professora da UNIFAP), um dicionário (Dicionário de Amapês), devidamente registrado na Biblioteca Nacional, que elenca quase 3000 verbetes e “batispaiado” está lá. Um abraço.

  • Olá Cléo,
    Bom papo, só no que se refere a aplicação do dinheiro público e saúde nota dez, dá a impressão que o amigo estava no sudeste da Suiça ou coisa parecida, pois no Brasil isto é sonho.
    Sds,

    • Oi, Ruy. Tens razão. Mas existem, sim, algumas cidades no Brasil (Itanhaem, Gramado,por ex.) que mostram o bom uso da verba pública. o Mestre Ruy guarany, em seu blog, relata ter estado no sudeste, recentemente, e voltou falando maravilhas de onde esteve.

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