Cronistas do blog

No Bar Crepúsculo    
Cléo Farias de Araújo

Era sábado, dia 26 de setembro. Eu e uns amigos combinamos de tocar num bar chamado Crepúsculo, na frente da cidade. Cheguei lá por volta das nove e meia da noite. O baterista e o baixista da banda já se encontravam no local. Entrei, afinei minha guitarra, montei microfone, meu site de pedais e conectei tudo ao amplificador. Esperamos apenas o outro cantor chegar. Enquanto aguardávamos, entre um ou outro comentário dos colegas, percebi um olhar diferente, partindo de alguém numa das mesas do local. Naquela mesa estavam duas pessoas, um casal, pra ser mais exato. Pela aparência, calculei que ambos não eram de Macapá. A moça era de pele alva, um verdadeiro alabastro (como diria Isnard Lima) e cabelos pretos, parecendo serem pintados. Como a mesa situava-se em local um pouco afastado, não elenquei tantos detalhes. Estava analisando os dois estranhos, quando o baixista chamou minha atenção, apontando a chegada do músico que faltava. E lá fomos nós quatro animar a festa. Concentrado no trabalho que fazíamos, não olhei mais para quem me chamara à atenção.

Após algum tempo, para minha surpresa, sem quê nem pra quê, vi novamente aquela pessoa passar bem próximo a nós. Como, naquele momento, tocávamos uma música bem ensaiada, pude executá-la e, ao mesmo tempo, acompanhar a trajetória da moça. Observei que ela vinha em nossa direção. Subiu ao palco improvisado e, com gestos, pediu para cantar a música que a gente tocava naquele momento. Em seguida, pediu que tocássemos a canção “Anywhere”. O rapaz pediu o contrabaixo e pôs-se a executar a canção. Incrível como a voz da moça era idêntica à da gravação original. Isto fez com que o bar, repentinamente, enchesse de gente. Todos queriam saber de quem era aquela voz. Como o palco estava na penumbra e considerando a distância entre os músicos e o público, ninguém conseguiu, ao certo, concluir de quem se tratava. Com o final da música, a convidada agradeceu, sempre com gestos, indo em direção à sua mesa. No final da tocata, enquanto os demais colegas desligavam e guardavam o material do show, dirigi-me até onde estava a dupla de artistas. Durante a conversa, entre o inglês e o portunhol, pude saber que eles estavam de passagem para a Europa. Que pararam em Macapá, porque, do avião em que estavam, viram imagens muito interessantes e decidiram aterrissar aqui. Revelaram ter estado na Fortaleza de São José e que desejavam conhecer o Marco Zero do Equador, no que me prontifiquei a levá-los.

Embarcamos em meu carro e fomos contornando a Beira, rumo à zona sul da cidade. Ao chegar próximo ao local, minha convidada logo identificou o monumento-chave. Fiquei intrigado com aquilo e indaguei, em bom portunhol:

—Como usted tiene la certeza de que és eso el local exacto?

— I see in the net.—Respondeu.
Com isto, fiquei certo de que nada ou quase nada mais no mundo é segredo.

Após fotografarem o local, perguntaram onde mais poderiam ir, a fim de provarem algo da culinária local. Foi aí que os levei até o distrito de Fazendinha. O adiantado da hora facilitou estacionarmos o carro lá no final, bem próximo ao rio-mar. Sugeri comermos filhote ao molho de camarão. Enquanto esperávamos, pedi, como entrada, bolinhos de piracuí e suco de cupuaçu.

A comida veio em pouco tempo e meus convidados fizeram bom uso do garfo, repetindo até encherem o buchão. Depois, nos dirigimos à beira da praia e ficamos ali, sentados na areia, contando estrelas. Vez por outra, eles cochichavam entre si. Uma das frases que pude decifrar, foi que aqui o céu ainda é limpo e o ar, respirável.

Lá pelas três horas da manhã, fizemos o caminho de volta até o hotel onde os dois estavam. Ali chegando, disseram que iriam direto pro aeroporto. Mais uma vez me ofereci pra levá-los e eles aceitaram. Assim, entre muitas bagagens, levei-os ao local de partida. Lá chegando, se despediram de mim, me passaram números de telefones e e-mails e prometeram estar no próximo Rock’n Rio, onde combinamos de nos encontrar. Ainda registramos algumas poses nas máquinas digitais minha e deles. Isto selou nosso breve encontro. Em seguida, partiram rumo a Europa, como haviam planejado. Fiquei me perguntando: Como foi que tudo começou? Como foi possível conhecer essas pessoas, vindas de lugar tão distante? De onde eram, com exatidão? Como foram encontrar exatamente a mim? Só me dei conta de ainda estava no aeroporto, quando fui abordado por um batalhão de pessoas, com máquinas e blocos de papel, me instigando a responder por que eu deixei aqueles dois irem embora sem um registro sequer da passagem deles por Macapá. Eu, no meu silêncio, apenas pensei: “É… não há registro por vocês, mas, por mim…”

E fui embora, me beliscando pra ter certeza de que eu ainda estava no planeta terra e que aquilo tudo foi verdade. Ao chegar em casa, olhei o avião em pleno vôo e desejei, mentalmente, boa viagem a eles.

  • Meus Parabéns
    A história é muito legal e se passa na melhor cidade do Brasil!
    Fico feliz que o autor dela tenha escolhido a MELHOR BANDA DE ROCK DE TODOS OS TEMPOS( em minha opinião), para os personagens desta belíssima crõnica!
    Amei de coração!!!
    Cá entre nós
    Seria deivertido e muito legal ver a Amy Lee comendo filhote ao molho de camarão e suco de cupuaçu. Puxa vida! só de imaginar me dá arrepios. ^.^
    Bom Amei a cronica! Meus parabéns meu querido.:D

    • Obrigado, querida. Espero ver de novo, teus escritos publicados neste espaço. Vc escreve muitíssimo bem.Se vc mandar, tenho certeza que nossa Embaixadora Cultural divulgará, com a importância devida.

    • Ê, Mário! Nunca fumei nada. Mas sonhar em encontrar um artista famoso e participar um pouco da sua vida é algo que não faz mal a ninguém. Agora, se o sonho se tornar realidade, a coisa se torna melhor ainda.

  • Escrito interessante. Me fez lembrar de quando o (procurado nacionalmente, por ter matado Dana de Teffé)Leopoldo Heitor esteve aqui e o Delegado Lismar Cardoso o prendeu.

    • Oi, Sílvia. As fotos às quais me reportei são das pessoas que integram a banda que se apresentou naquele dia. Obrigado pelo incentivo.

    • Oi, Sílvia. As fotos, às quais me reportei, registraram as pessoas que integram a banda com a qual me apresentei naquele dia. Obrigado pelo incentivo.

  • Crônica bem bolada. O melhor é que tudo isso pode ser verdade. Quantos estrangeiros passam incólumes por nossa terra?

  • Cléo, amei sua crônica, realmente, nos( ampaenses e paraneses) somos hospitaleiros: são nossas raizes. Ja tive experência como essa, o João que o diga, nossa casa esta sempre aberta aos amigos e amigo dos amigos, um bom fim de semana p/você e sua familia

    • Oi, Ilka. Realmente somos educados e nossa alegria aumenta quando encontramos um parente ou amigo, principalmente em outra paragem (outro lugar). Isto, porque o povo daqui, esteja onde estiver (como é o teu caso, do João, Roque, Róbson, Aluízio, Aloísio, etc.) sente-se na obrigação de bem receber. Abração.

  • Fiquei maravilhado com sua história. E muito mais pela sua hospitalidade. Espero conhecer você quando voltar a minha terra querida. Oh Macapá, que saudades de tu.
    Açai, peixe frito, beira-rio que maravilha… Estou no momento em Uberlândia/MG. E morrendo de saudades da minha terrinha. AMO MEU NORTE.

    • Valeu, Olívio. Você sabe que essas iguarias só existem por aqui. Mesmo sendo de fora, quem já provou um prato bem preparado, não esquece jamais. Tenho um amigo que mora em Madri, ao qual fico atentando, falando assim: Olha, Cléber, hoje sonhei contigo. Pô, cara! a gente tava comendo maniçoba, pato no tucupi, tacacá, etc. Aí ele me escroteia e desliga o telefone.

  • Cléo, esse relato parece um sonho, mais o importante que quem viveu esta emoção foi você.Obrigado por dividir esse fato que ocorreu em sua vida com os leitores desse blog que adimiram seu trabalho.

    • Black Swan
      Achei legal sua rima ^.^
      Ele simplismente( e maravilhosamente) falou da nossa diva do rock!
      Agora… ja pensou se essa história tivesse acontecido com a gente?( eu, vc e o autor da crônica)
      Ficar perto da Amy?
      Jesus!!!

  • Caro Cléo, Olha você aí de novo.
    Quem lhe conhece sabe de sua simplicidade, bom papo e capacidade de fazer amigos.
    Hoje no mundo não existe mais nada desconhecido e você pode estar virtualmente onde desejar. No que se refere principalmente à Amazônia e Macapá por ser fronteira com as Guianas é mais conhecido ainda. Uma vêz por semana passeio pelo´céu de Macapá através do Google Earth, e inclusive coincidentemente, hoje antes de ler sua crônica, naveguei pelo Marco Zero, Lagoa Dos Indios e nossa Rua Almirante Barroso. Os europeus e americanos gostam muito do Brasil e na Região Amazônica, o Amazonas leva grande vantagem relativa ao turismo,
    mais pela seriedade e infraestrutura, apesar de aqui também existirem ONGs.
    A banda da moça bonita é realmente a citada pelo Roque e Waldeck, é um rock que não agide aos ouvidos e seus clipes são de excelente qualidade, uma bela viagem.
    Sds,

  • Gostei muito. Ao ler estava imaginando cada cena,imagino que esse encontro foi fantastico! da proxima vez deixa que eu belisco o senhor, eu faço questão 😀

    • Oi, Catatéia. Não precisa beliscar. Nesse dia eu estava bem acordado (estava tocando). Tenho várias fotos desse evento.

    • Oi, meu caro Almir. Eu estava sóbrio. Naquele dia eu estava tocando uns rock’s com os amigos Dadá(no baixo); eu,na guitarra; Róbson (violão) e picapau (bateria).

  • Cleo, independentemente de ser ou não a vocalista do Evanescence. fico orgulhoso por sua postura hospitaleira e gentil, própria dos amapaenses de raiz. Eu mesmo já fiz muito isso. Pena que a recíproca não ocorra quando precisamos sair da cidade. Morei em Joinville 2 anos e quase entro em depressão por falta de amigos. Antes, eu tinha muita vontade de conhecer a Europa, mas de tanto ouvir relatos de grosseria e falta de educação ocorrida com amigos em muitos países daquele continente, desisti. Eu lá vou gastar dinheiro pra ser maltratado? Não. Fico por aqui mesmo…

    • Amigo Roque…nossa educação não pode ser deixada de lado. Temos berço, sim. Tratar bem aos outros é coisa que nossos pais nos ensinaram…e bem. Então, mostremos nossa educação. Afinal, cada um dá o que tem. Nóis é cabôco, mais num é jumento. Sabêmu si comportá, num é?

    • Roque nem todos são mal educados e grosseiros, depende da hora e o espaço onde você esta, as pessoas que ja passaram por aqui levaram uma otima imagem da França e da europa, um bom fim de semana p/você com aquele sorriso que você conhece.

    • Será verdade? Vc sabia que os Beatles e o príncipe Charles já estiveram em Belém? …e que Juan Perón e Leopoldo Heitor estiveram em Macapá?

    • Grande comandante. Aquelas derivadas pela ponta direita, fizeram de vc um grande baluarte do time Marinho. Prazer te ver por aqui.

  • fiquei curiosa… quem eram? é interessante como isso acontece muito em nossa querida Macapá, pessoas que não a tinham como destino acabam se encantando com o local.

    • Verdade, Val. Um amigo me contou que, cera vez, indo para a Suíça, perdeu-se no aeroporto de Paris. Pensando ter perdido o vôo que o levaria aos alpes, deu-se com um bater nos ombros e uma voz lhe dizendo: Relaxa, cara! Eu também vou nesse avião. E não é que o cidadão também era de Macapá? Mundo pequeno, não?

    • E aí, amigão! Ha quanto tempo, né? Se vc identificou as personagens é porque decifrou que o mundo não tem fronteiras, sobretudo nas asas de um avião, como é o teu caso. Mundo pequeno. Hoe se está num lugar e, no mesmo dia, em outro. Às vezes nossos sonhos também nos levam aos lugares mais longínquos, onde apenas a mente viaja. Um abração.

      • Amigo Cléo. É incrível como muitas das vezes, a constante mudança da visão externa da janela do meu escritório de trabalho, abre um horizonte infinito em nossas mentes. Tudo começa no pensameno, mas são nas letras que se materializam. Que obra prima da nossa literatura. O interessante é que um simples questionamento gerou diversos comentários, mostrando a maturidade, a empolgação, a sensibilidade, a insensatez, enfim, uma salada de pensamentos. Que pena que nosso pré claro Adálvaro Vitório só participa da discussão nos nossos sonhos. Forte abraço.

    • Fábio, o importante é que se renderam às iguarias amapaenses. Dia desses, meus sonhos revelaram que eles até me telefonaram pedindo que eu lhes mandasse açaí com peixe assado (rsrsrsrs).

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