Cronistas do blog

A INGONORANÇA ASTRAVANCA U POGRÉCIO
Cléo Farias de Araújo

Mundim vivia tranquilo no interior. Pescava, balava, jogava bola, enfim, fazia as coisas próprias de moleques da sua idade. Mas, de repente, viu sua vida mudar completamente. Tudo isso porque o pai botou na cabeça que o filho teria que ser doutor.

—Ói, minino, você já tá cum onze ano i é priciso tumá um rumo na vida. Aqui na roça num há cuma você ter istôdo. Você vai sê dotô.

—Mas pai, num sinto farta de nada. Ocê mêrmo, quando assenta nu terrêro, à noite, pra dar um dedim di prosa cum u vizim ou pra escutar rádio, fala qui é filiz.

—Tá besta, é? Qué sabê mais qui teu pai? Isso aqui num é vida pra quem tem qui sê dotô. Tá arresorvido: semana qui vem, nós vai pra cidade!

—Mas pai, já sei ajuntá, nutupricá, dividí i tirá….

— Tá arresorvido i prôntu

No começo de janeiro daquele ano, Mundim veio pra capital, com a família, em busca de um mundo melhor. Venderam o que podiam, como na música “A triste partida”, de Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré.
Chegaram à tardinha na estação e por lá ficaram. À noite, a esposa de Raimundo (o pai do garoto), deu uma batata doce cozida pra cada membro do clã, a título de jantar. Por lá dormiram, sentados no chão ou sobre os sacos de farinha que, como eles, aguardavam destino melhor. No dia seguinte, ao chegar à cidade, Mundão conseguiu alojar a família na casa de hospedagem do Governo. Após acomodar os seus, saiu pra procurar trabalho. Terra estranha, tudo diferente de seu pedaço de chão. Mas suas mãos calejadas e a vontade de vencer na cidade davam-lhe redobrado ânimo. O que conseguiu, de imediato, foi capinar quintais. Aqueles terrenos, medindo 20×60, eram nada, diante dos estirões que lavrava no interior.
Veio o tempo da matrícula escolar e dos então quatro filhos, apenas Mundim foi inscrito. Os demais não tinham idade escolar (antigamente só entrava na escola pública, quem contasse 7 anos).
As aulas vieram e o garoto apanhava todo dia. À noite, querendo “acompanhar” os estudos do filho, Mundão pegava o caderno com as atividades escolares e “tomava a lição” do menor.

—Quanto é dois mais dois?

—É quatro, pai.

—É…. pódi sê, pódi num sê.— E, na dúvida se o garoto acertara ou se o estava tapeando, a peia catava no moleque, pois o pai não sabia taboada.
Todo dia era a mesma coisa: as roupas eram sustentadas pelos remendos; a comida era parecida com a do filho pródigo (só restos); dormir, era no chão mesmo; dinheiro? Nem pensar.
Passados uns dois anos, Mundim parou pra pensar em como estava sua vida e a de sua família. Nada melhorara, desde que saíram da roça. Estavam relegados a uma situação sub-humana. Tomou uma decisão: voltar pro interior. Porém, um problema aí residia: como conseguir dinheiro para custear seu sonho?
Aproveitando sua experiência no escambo de mercadorias do campo, começou a vender picolé, fabricado pelo dono da taberna da esquina. Essa atividade possibilitou aquinhoar quase um salário mínimo por mês. Desse dinheiro, todo dia guardava, secretamente, um pouquinho.
Após certo tempo vendendo picolé, Mundim vendo que já juntara o suficiente para as passagens, comida e dinheiro para as primeiras despesas, voltou na surdina para o local onde nasceu. Ali trabalhou duro, aceitando todo tipo de serviço. Não descansava nem no domingo. Depois de dois anos, escreveu uma carta que mandou ao pai, pelo caminhão da linha, dizendo assim:

“Querido pai,
Você pode pensar que fui um covarde, não enfrentando a luta contra a cidade grande, batalha que você teima em querer vencer. Mas eu quero dizer que o que me afastou daí não foram as surras diárias que o senhor me dava, mas aquelas que a esperteza e cretinice das pessoas tidas como letradas e doutores me aplicaram. A cada dia que passava, me sentia mais triste, ao ver como a gente lutava num terreno cruel, sem dinheiro, comida decente ou mesmo um lugar que fosse nosso para, ao fim do dia, poder descansar.
Você queria que eu fosse doutor, estudando com os grandes da cidade. Aí encontrei pessoas boas, como a dona Antonia, que, sempre que podia, nos dava café com pão. Mas conheci outras que prefiro esquecer.
Por diversas vezes, quando vocês pensavam que eu já estava dormindo (o que não era verdade), vi você e a mamãe chorando, olhando para um ponto distante, com saudade da nossa terra. Toda vez que eu recebia um xingamento ou via você e a mamãe se matarem driblando a humilhação, persistindo nas migalhas que sobravam dos ricos, aumentava a minha certeza de que aqui na roça é que estava a verdadeira felicidade. Foi isto que me fez retornar.
Já comprei nosso sítio de volta, pois o dono anterior o deixou abandonado. Ainda estou pagando as prestações, mas tenho certeza que conseguiremos. Toda noite, ao chegar em casa, afastava o cansaço, substituindo pela saudade de vocês.
Quero dizer que trabalhei muito e que, com as desventuras da cidade e a lida no campo, já posso me considerar um homem, apesar de ter apenas 15 anos. Sou, o que podemos considerar, um doutor da roça. Tenho razoável experiência nas coisas do nosso lugar. Aqui, sou feliz de verdade e a falta que sinto é de vocês. Voltem, pois descobri que esta é a vida que quero para nós, pra toda a eternidade.
Com saudade, seu filho”

  • Tinha que ser meu querido pai mesmo: com o humor e realidade na medida certa! ^^
    Parte dessa crônica me fez pensar nos questionamentos um tanto “medíocres” feitos a minha pessoa quando informo que sou de Macapá: “Você mora no meio do mato?”, “Lá tem jacaré?”, “Quais são as condições de vida desse lugar?”, etc. E a resposta sempre será: “Sim, por que lá ainda posso colocar a cadeira no pátio da minha casa e conversar com minha família sem ser incomodada, e ainda tenho certeza de que se sair pra passear eu voltarei sã e salva pra casa. Sim, moro lá e com certeza não existe terra boa no mundo como Macapá!

  • Oi, Cléo.
    Mais uma vez, uma crônica, assim como as do Sapiranga, que nos faz voltar no tempo.
    Acredito que, para quem, na infância, viveu no meio rural, o texto, bem construído, fala muito. Realmente, a adaptação na cidade não é fácil. O tempo adormece essas lembranças, mas de vez em quando elas vem à tona em situações como essa, da leitura de seu texto.
    Gostei do “balava”. Lembrei das várias tentativas de acertar nos passarinhos, mas eu era bem ruim de pontaria. Bem lembrada a música de Luiz Gonzaga. Suas músicas fizeram parte da trilha sonora dessa época.
    O final você deixou por conta do leitor. Parabéns.
    Um abraço.

    • o, Mestre Aloísio. São as lições que colhi e aindo alcanço junto a vc e ao Milton, que me lançam no caminho que hoje percorro. Quando falo de música, nunca deixo de lembrar de três professores: Aloísio, Manoel Cordeiro e Aldomário. Qunado cito o futebol, sempre lembro do Milton, Lelé, Palito e Perereca. Quando comento sobre escrever, Lembro de Araci, Aloísio, Milton e Alcy (rimou). Sei que parte do texto, muitos de nós experimentamos, pois sempre plantamos algo nos quintais de nossas casas. Obrigado pelo incentivo. do eterno aluno: Cléo.

  • A crônica do Cleo Araújo foi publicada na edição de hoje (quarta-feira), no Correio do Amapá. Recebeu merecidos elogios. Guardei um exemplar pra ele. Gostaria que informasse aos escritores o e-mail para que mandem material para o blog.
    Abgraço,
    Joseli Dias

  • Camarada Cléo Farias, isso acontece todos os dias com o nosso povo, pena que muitos fazem que é normal, as vezes os grandes homesns chamados inteligentes, induzem os leigos e ignorantes a sairem do seu lugarzinho (sua terrinha, com promessas mediocres, parabéns por você ter escolhido um tema tão inerente ao nosso cotidiano.

  • Parabéns Cléo,
    Você foi muito feliz ao abordar tal tema. É realidade e aqui mesmo no Pará acontece e está acontecendo agora, com muitas familias vendendo boas terras por bagatelas para projetos de plantação de dendê, no intuito de realizar o sonho de morar nas selvas de pedra e quando acordam, as bagatelas foram embora e o que se apresentam são a incerteza e a violência que fomentam a miséria nos bolsões das grandes cidades.
    O que faltam são projetos que valorizem o homem do campo no campo.
    Sds,

  • sua crônica aplica-se a realidade que se vive hoje, infelizmente ainda encontramos essa discriminação não importa onde….!!!
    PARABENS, continue você ira longe……..

  • por isso que continuo Cleo em minha ´roça´,pois aqui no Amapa,é a Terra de onde nao quero sair.Ja tive e ja pensei ate em ir embora,porque “os espinhos,a terra seca,a falta d´agua,os parasitas,as pestes,e tantas outras coisas ” que servem de impedimento para uma vida mais tranquila,me empurram para isto!mas penso que lá para as GRANDES CIDADES,a coisa esta mais predatoria que aqui na minha “ROÇA”!Tenho a esperança que o novo GESTOR da minha grande roça,seja capaz de arruma-la um pouco mais,afim de beneficia-la melhor para mim e para os outros que daqui tambem tiram o seu sutento!Estou feliz!pela esperança Cleo que se renovano meu coraçao,pois ha 8 anos,sofro tentando me firmar com nossa empresa e nossos funcionarios,apesar de sofrer amargamente com o governo que passou!Quero viver e ainda ver de onde o Camilo nos tirou e para onde ele nos levará!Minha confiança esta no Deus de minha salvaçao,que com sabedoria atende ao clamor de seus filhos que aqui moram;que clamam por dias melhores em nosso Estado(nossa roça)de onde coseguimos com trabalho e labor,tirar honestamente o sustento de nossas familias! Que Ele conceda ao Governador Camilo sabedoria,amor a Terra,tranquilidade no agir e responsabilidade por ter sido escolhido atraves da permissao Divina,governar este Estado;governar a minha roça!

    • Pô, cara, até q enfim consigo falar contigo. Obrigado pelas palavras, mas, como digo, estou ainda no começo dessa estrada. Manda teu email, pra conversarmos.

  • Eu adorei a história.Porque ela é meio engraçada.Mas ensina uma grande lição.
    Está de parabéns!

  • Ê vontade de morar na roça, vamos nos prendendo em necessidades que criamos e esquecemos das coisas simples da vida. Destruam os televisores!!!! Rsrsrs.

  • Cléo Farias é sem dúvida um cronista de primeira, que emociona os leitores com seus textos. Tomei a liberdade, em dezembro, de publicar uma crônica de natal, dele, que encontrei nesse blog. Aproveito a oportunidade para convidá-lo a enviar seus textos para o Correio do Amapá. O e-mail é redação@correiodoamapa.com.

    • obrigado pelas palavras. Ainda sou um aprendiz no maravilhoso caminho das letras. Gostaria de encontrá-lo para conversarmos sobro o assunto, inclusive, receber a cópia publicada do conto natalino.Meu email é cleofaraujo@hotmail.com.

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