Cronistas do blog

A solidão humana
Cléo Farias de Araújo

Olhando o muro que o pedreiro acabou de fazer na minha casa (mais de 3 m. de altura), senti, a princípio, um grande alívio por concluir mais uma etapa na proteção do meu pequeno patrimônio. Mas à noite, do lado de dentro do terreno, ao fechar o portão, vendo aquele emaranhado de ouriços sobre a nova construção, senti um grande bolo no estômago, pelas prisões que a modernidade nos reserva. Fiquei ali, intermináveis minutos, a contemplar duas obras: a do pedreiro e a do Arquiteto Maior. Constatei a estupidez dos homens, pois no afã de se defender, acabam por fazer exatamente o contrário. E o resultado é um amontoado de descrenças, desconfianças, inseguranças e outras emoções perversas, desaguando na tristeza e na solidão.

Por outro lado, olhando a obra de Deus, vi que a imensidão do céu não tem cercas. Deus não as criou e muito menos os muros. O vento anda livre, em que pesem as modificações que o progresso impôs. O amor ainda corre solto entre as pessoas, entrando e saindo da vida delas, quando quer. Os abraços e beijos também não têm muros ou abismos que os impeçam de ser trocados.

Meditando acerca da liberdade nas coisas que Deus criou, voltei ao tempo de garoto, quando minha cidade era livre. As casas não tinham muros (ou eram bem baixinhos servindo como bancos, tal qual no caso do IETA). Algumas, só cercas, daquelas feitas com estacas de acapu, mas que era possível se ver tudo. Mesmo elas, que protegiam o patrimônio particular, deixavam o vento desfilar livremente.

Recordei quando cortávamos caminho pelos imensos quintais dos vizinhos. Esse ato gerava uma interação natural e constante, pois diariamente nos cumprimentávamos. Circulávamos sempre pelos quintais, sem sermos incomodados. Às vezes, com nossos familiares, indo à missa ou a um acontecimento social. Os quintais, na época, serviam até de vetor para as mensagens. Não raramente, ao passar pela propriedade vizinha, levávamos recados a alguém, que morava próximo. Em outros casos, não deixávamos de olhar como a filha do vizinho estava ficando “boa”. A ausência de obstáculos nos bairros facilitava até o começo de um namoro ou a continuidade dele, quando o romance era escondido dos pais. Por esses terrenos, circulavam muitos bilhetes ou recados verbais. Também aproveitávamos para catar cobre, alumínio e garrafas nas redondezas. Outro ponto importante era a facilidade pra se jogar peteca, fura-fura ou correr atrás de papagaios perdidos nos laços.

Conhecíamos cada palmo dos quintais de nossa cidade, principalmente os do bairro onde morávamos. E ao passar perto de uma árvore frutífera, colhíamos nossa merenda. Haviam os cajus encapados com sacos de papel (não sei por quê, já que papel não é empecilho pra passarinho); os maracujás de rato (mais gostosos e mais doces que os outros), nos quintais por vezes abandonados ou que não via enxada há algum tempo; das goiabeiras da casa do Caramuru, com suas goiabas grandes. Por terem sido plantadas nos fundos do terreno, as frutas pendiam para o nosso quintal. Ali, diariamente, dávamos nossa contribuição na colheita.

Existiam outros lugares pródigos em abastecimento: Lagoa dos Índios; o  complexo do aeroporto, com seu abacaxizal, a lixeira, onde juntávamos tucumã, jerimum e tampinhas para jogos de botão e os lagos, onde pescávamos; na Mata do Rocha; na área do seu Manoel Mosquito (que criava um peixe-boi), assim como no terreno ao lado do Ginásio Feminino (onde hoje está o SESI). Lembro de serem locais de visitas freqüentes, na coleta de material que não tinha outra serventia. Já só interessava aos moleques, pois o que ali fora jogado, dava apenas pra ganharem algum trocado e custear os luxos da época: picolé, revistas, cinema, ou quando chegava uma atração na cidade (circo, ou na vinda do grande lutador baiano, Valdemar Santana, que se digladiou com os bambas da luta livre do TFA, num ringue construído às pressas, no descampado ao lado da UBMA).

No trajeto para a escola, fazendo compras ou simplesmente pra brincar, nossos caminhos sempre incluíam os quintais. Relato aqui, cinco quintais muito importantes para mim: No bairro do Trem, o da dona Maroquita, onde morei; os das casas da Tia Cota, mãe do Pixata, do Balalão/casa do Alcione (contíguos) e o do Professor Lima Neto (pai do Antonnei), na Favela. Tinha também o do seu Rerrê Cobrinha, no Jesus de Nazaré. Os pais aturavam a gritaria dos moleques porque, jogando bola, de certa forma, “capinávamos” aqueles espaços.

A imaginação viaja longe por caminhos e fatos que não voltam mais. Se saudosismo é pecado, minha certeza é a de que não serei condenado sozinho.

Ah, ainda sobre as cercas nos quintais, oportuno citar Benjamin Franklin: “O homem é solitário porque, ao invés de construir pontes, edifica muros”.

  • Sim, como a Hanna disse, já nascemos no tempo dos muros altos e da prisões que chamamos inocêntemente de lar, e o triste é perceber q como os jovens estão acostumados a esse tipo de vida não tem como isso se modificar para melhor, o que resta é desejar que Macapá não se torne uma cidade cheia de gente maliciosa, q nossos prédios não desabem ou q nossa terra não seja aind amais prejudicada pelas árvores como o pinho e o eucalipto.
    Linda demais a sua crônica, Seu Cléo. ^^

  • Ah, mano velho. Que generosa a sua belíssima crônica. É maravilhoso ver o quanto a poesia é sua companheira; o quanto Macapá está umbilicalmente atrelada a ti. Cheguei a sentir o cheiro e o sabor dos cajus do quintal do Rê-Rê Cobrinha, quanto resgatar a própria cobrinha e seu nada algoz (da cobrinha é claro) o dono do quintal. Esqueceste somente de fazer as conexões com o Zé no quintal da Snake Vita (pisando na mão do Zé por baixo das estacas de acapu) e no quintal do Détil Monte (quando o Zé estava roubando coco, pois as goiabas não bastavam). Esses são os prós e os contras das cercas. Beijo. Te amo. Irene.

    • Sou feliz por ser daqui. A biologia errou, ao me fazer nascer noutro lugar. Mas Deus, suma bondade, me trouxe para o lugar mais lindo e prazeroso que há na terra. Te amo.

  • Tenho muitos e muitos elogios para dar a esta crônica.Porque ela nos abre um pouco os olhos.Que o mundo hoje está cheio de muros e cercas.Mas para o amor não vemos nenhuma cerca.Olhamos para o céu e não há nenhuma barreira que possa nos impedir.Somente o coração rancoroso.
    Eu devo lhe dar os PARABÉNS.Você merece.
    Ganhou mais uma fã.

    • O grande Mestre Jesus nos mostra sempre que amar é o caminho. O ódio é um ácido que corrói muito mais o frasco que o contém, que o terreno onde é jogado. Obrigado pelo incntivo.

  • Parabéns, meu amigo roqueiro!! A crônica ficou linda e super sensível…nos mostra o quanto era bom aquela vizinhaça pacata, as brincadeiras ingênuas! Infelizmente não pude aproveitar essa época com a mesma doçura, já nasci em um tempo de muros enormes e grades nas janelas e portas…Mas fico feliz em saber que um dia as coisas já foram mais meigas, brandas e ternas.

  • Parabéns pela crônica. Com muita sensibilidade você nos leva a refletir sobre nossa realidade. Penso que o importante é derrubarmos nossos “muros” interiores.
    Voltei e ainda moro em Jesus de Nazaré. E você?

  • Oi ;), gostei do texto, muito bom mesmo pra refletir e tal, mas penso que no fim das contas o que vai valer mesmo, são as pessoas que estarão conosco atras desses muros, fazer oq? ñ é o ideal, + só podemos nos agarrar nisso, infelizmente!

    bjs, adoro vc!

    • Cara, vc filosofou bonito! Mas, no tempo da DSG as pessoas de bem podiam circular livremente. O pão e o leite eram entregues nas casas, de madrugada e ninguém os roubava. Prisões foram feitas pra quem?

      • Hehehe… na verdade sempre fomos prisioneiros da regras impostas, mas a prisão da alma é inexistente, o bom coração, as pessoas de bem são libertas por natureza de idéias. Prisões físicas são apenas barreira concreta da intolerância, o SENTIMENTO de liberdade é abstrato, a SENSAÇÃO de liberdade é concreta.

        • Que lindo! Ainda que não tenha vivido nesse período de paz e de inocência, fico feliz que pessoas tão especiais como vc e meus pais tenham tido esse privilégio.
          Verdadeiramente só Deus para guardar nossas vidas e nossos lares. “se Deus não estiver protegendo nossas casas em vão vigiam as sentinelas”(biblia)

          Abraço e continue a escrever, pois, seus textos são muito bons e nos fazem esquecer um pouco esse mundo tenebroso já que “mundo jaz ao malíguino” (biblia).

  • Boa Cléo, parabéns pelo texto. No meio tempo de moleque só um quintal na favela era respeitado por toda molecada. O do tio Antônio Cirino, que era ao lado da casa da dona Maria, mãe do Rural. Roubar uma fruta ou pegar um papagaio no seu quintal, sem cerca, diga-se, nem pensar. Nos outros, nós deitavamos e rolavamos. Bons tiempos. Um abraço

    • Oi, Mestre Milton. obrigado pela força. Espero sempre contar com o mestre, a fim de aperfeiçoar meus escritos. É por causa dos quintais sem cercas que vou muito à Serra do Navio, me abastecer de mais felicidade. Deus te abençoe sempre!

  • O João, meu irmão, tem razão, hoje somos nos que vivemos atraz do muro para nos protejer, é o progresso que nos impõe esta soluçao, e aos poucos vamos nos isolando. Tempo bom era o nosso! Félicitations

  • Adorei todos os texto que voce já postou.Você tem mesmo o dom. Parabéns!
    A idéia desse texto é ótima para refletirmos se “nos isolando” esteremos mesmos seguros ou dando mais um passo para a nossa solidão.

  • Oi Cleo…parabéns pelo texto.
    Realmente, o mundo está bem diferente daqueles nossos bons tempos.
    Outra coisa amigo: preciso me comunicar via e-mail com vc, por favor me escreva para jolasil@gmail.com informando o seu endereço eletrônico.
    Fico no aguardo…grande abraço

  • Voltando a tempos passados, lembra que até o muro do cimitério era baixo e esse negócio de muro alto é liberdade invertida. Um abraço

    • Oi, João. Vc tem razão (rimou). Naquele tempo, respeitava-se o espaço alheio e as pessoas mais velhas. Ô tempo bão!

  • Gostei muito do texto, parabéns pai! Infelizmente os muros são “levantados” atualmente como recurso de proteção da sequela da infeliz vontade de alguns que não sabem a hora de parar, ou até mesmo pelos invejosos que, não se contentando com o que tem, acham bonito ganhar coisas do modo “fácil”: roubando.

  • O mundo sem quintais é inconcebível. Os quintais sem cercas, desejável. Por que não refazemos tudo? O que falta para que o vento livre, circule novamente entre nós? Já raiou a liberdade no horizonte do país?

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