Cronistas do blog

O junta-prato e a coisa mais cruel
Cléo Farias de Araújo

Num final de tarde de verão, recebi a visita de uma das minhas irmãs, pra jogar conversa fora e fazer um junta-prato, que consiste em cada família ou grupo de amigos fazer uma iguaria em sua casa e levar para a de quem se vai visitar. Aí, quando todos chegam, vira uma festa, pois, a preços módicos, podemos desfrutar de um banquete com vários tipos de comidas, cada uma com tempero diferente, pois foram concebidas por diversas mãos.

As meninas (como até hoje chamo minhas irmãs e mamãe) foram chegando uma a uma e se entregando ao prazeroso ato. Elas se esmeram na feitura dos pratos e na arrumação da mesa. Enquanto isso, eu e meus cunhados fazemos o fogo e nos encarregamos dos trabalhos mais pesados, como carregar mesas, cadeiras e similares. Depois, esperando todos chegarem, armamos outra mesa, para desfrutar de um carteado ou dominó.

Isso tudo demora até as patroas dizerem a frase mágica: Podem avançar! Aí a coisa parece que vira verdadeira bagunça, pois todos querem se servir primeiro. É um tal de passar a rasteira nos outros, pra chegar logo na mesa e pegar o melhor pedaço. A festa sempre ocorre na maior descontração. Uns contam piadas, outros imitam alguém e assim vai.

Num desses junta-prato, após a primeira leva (rodada de comidorias, como diria a minha avó) vi o Piguirim correndo pra geladeira. Isto despertou minha atenção, fazendo com que eu acompanhasse seu trajeto.

Ali mesmo, diante do refrigerador, constatei que, após tomar quase um litro de água, de uma só vez, o amigo ficou lagrimando e arfando.
Retornando à mesa de baralho, ele revelou que havia queimado a língua, com um pedaço de jerimum quente.
Esse comentário provocou uma enquete: O que será que, por conta da gula, causa a queimadura mais cruel?
Maria disse:—Só vale o que se come, pois é caso de gula!
Maróca, uma das organizadoras, sugeriu algumas regras e todos concordaram. Por fim, a brincadeira começou.
Zé louro foi o primeiro a votar: —Eu acho que é queimadura de jerimum. Não viram como ficou o Piguirim?
Ximba deu seu veredito: — Penso que é quiabo, pois é liso demais.
Piguirim concordou: — É quiabo, com certeza!—Dando a entender que já havia queimado a boca outras vezes.
Rose disse, curta e grossa: —É com caribé.
Nira revelou, acrescentando: É… mas pior que isso, é cabeça-de-galo! Ninguém consegue fazer o ovo voltar.
Tio Cacá, falou: —É queimadura de mingau de aveia. A gente se engana com aquela capa dura e, ao meter a colher, vem a realidade.
Lelê, toda alvoroçada, se pronunciou: É de maxixe!
Mas Dona Raimunda, do alto de sua experiência e abaixando a bola de todos, proclamou: —É queimadura de goma de tatacá! Além de extremamente quente, ela é cruelmente lisa. Basta descer um pouco, o resto vai imediata, rápida e cruelmente pela garganta, até chegar às tripas. Parece que a pessoa engoliu o inferno inteiro. E não adianta querer se arrepender, pois goma não tem rédeas. Não dá pra puxar de volta!

Depois dessa revelação, percebi que as pessoas passaram a comer mais cuidadosamente, sendo que outros, antes de matarem a fome, esperaram a comida esfriar no prato.
Após todos se empanturrarem com os quitutes e com a chegada da preguiça pós banquete, esticamos as cadeira preguiçosas no terreiro, para escutar rádios estrangeiras, como fazíamos na infância. Noite estrelada, barrigas cheias, o receptor de rádio reproduzindo músicas orquestradas do Ray Connif e Billy Vaughn, fez com que muitos dormissem, comprovando que esta é a melhor terra do mundo pra se viver. Afinal, ainda podemos desfrutar de muitos costumes da infância: no caso presente, fazer junta-prato, contar estórias e escutar rádio no terreiro. E que a vida seja eternamente feliz.

  • A cronica está bem realista e muito boa.Embora eu acredite mais na Dona Raimunda.
    Meus parabéns!!!!

  • Parabéns, cronista, pelo tom tucuju com que relata casos q refletem nosso jeito de ser. Sou professora de Língua Portuguesa e utilizo seus textos para inspirar futuros cronistas.

    • Excelente crônica! Essa é a vida que muitos querem, mas poucos têm. Escutar músicas orquestradas e ainda no rádio transglobe no terreiro de casa é receita de longevidade que nenhum estresse é capaz de anular.

  • Isso é verdade, as vezes fico me perguntando por que eu nao espero para comer mais cuidadosamente? antes de matar a fome esperar a comida esfriar no prato.
    Eu já constatei isso varias vezes.
    Mas dentre todas as coisas, eu gostei muito do texto e espero mais texto por ae, para que possamos nos divertir nas tardes lendo as suas maravilhosas cronicas.
    bjoooos

  • Grande Cléo, concordo plenamente contigo, goma de tacacá quente é terrível, quando chega na garganta não tem como cuspir, escorre pelo esôfago e para no estômago deixando um rastro de ardor que não tem água que dê jeito, só resta lagrimar, pois nem chorar dá pois ai´que dói mesmo.
    Essa tragédia já aconteceu comigo lá na Dona Bebé e lá me explicaram que a função da goma quente no tacacá não é pra tomar, serve apenas pra não deixar esfriar o tucupi. é isso mesmo? Abraços do amigo e colega Sidou Miccione

    • Oi, Sidou. Não sou grande conhecedor da culinária indígena, no tocante a especificidades no preparo e/ou funções dos ingredientes. Porém, vou perguntar aos demais amigos e depois te respondo, ok?

  • é meu amigo cleo,sou o alfeu irmao da alfa,sou seu amigo tambem .faz tempo que nao nos falamos e concordo com o pessoal que esta sua cronica esta muito boa parabens,eu estou rindo ate agorakkkkkkkkk

  • Oi!Cléo,Parabéns! Adorei a crônica! QUE TALENTO!Imagino a dor ao engolir a goma quente! Mas EU JURO que eu estou morrendo de saudades do nosso tacacà… E COM CERTEZA, vou queimar a lìngua, assim que eu puder chegar em Macapà!rsrs
    Um enorme abraço do outro lado do Oceano Atlântico!

    • Oi, Patrice, saudade de vc e dessa inteligência q tive o prazer de conviver por algum tempo. Volta logo, pois o Amapá precisa de pessoas iguais a vc, um caráter ímpar. Ao retornar, vem participar da “boca da noite”. Abração!

      • OBRIGADA pelo elogio!NOSSA! “Até parece”…rsrsrsr!
        Com certeza quando estiver em Macapà vou participar da “boca da noite”!
        Fique com DEUS!
        Um abraço.

  • Parabéns Pai! Como participante de muitos desses (junta-prato), onde colocamos a cadeira em frente a nossa casa e sentamos para compor algumas canções também, posso com toda certeza confirma sua frase: “comprovando que esta é a melhor terra do mundo pra se viver.” E concluo com a seguinte frase: “E com pessoas maravilhosas como você”. Parabéns pela Crônica.

  • Caríssimo Cléo, talvez vc não se recorde mais de mim. Fomos da banda do CA. Linda crônica estou rindo sozinho até agora. Grande Abraço.
    Robson Sá

  • cleo, nao lhe conheco pessoalmente, mas sempre que possivel estou lendo seus comentarios e cronicas…temos unm grupo de amigos com os quais juntamos as panelas aos domingos…e um otimo exercicio de amizade, quando em familia entao e excelente…bela cronica!!! quanto a queimaduras estou com a da abobora..abracos

    • Mas não despreze as “receitas do Ruy, do Sapiranga e de outros participantes. Afinal, todos possuem bastante experiência no tema.

  • Cléo,goma realmente é cruel.
    Parabéns pelo texto, me fez lembrar de muitos momentos bons, de tempos maravilhosos.

  • Bom, como vocês podem perceber meu grande amigo Cléo entende das coisas, nossa terra tem palmeiras onde canta o Sabiá as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.
    Ps: quando vai ser o próximo ajunta prato?
    Um forte abraço para você e família.

  • Oi, Cléo.
    Legal o tema. Minhas manas aí em Macapá sempre fazem isso, principalmente em aniversários. Como hoje vivo na diáspora, só participo quando estou na terrinha. Na cidade grande isso é mais complicado devido a distância e trânsito engarrafado.
    Só mesmo na época do Círio.
    Bateu uma saudade de outros tempos quando você falou no Ray Conniff e no costume de ouvir o rádio.
    Um abraço,

    • Oi, Mestre Aloísio. Fico muito feliz qndo vc participa do blog, pois sempre contribui com palavras abalizadas. O junta prato é um dos motivos da longevidade de quem o pratica, pois facilita a liberação dos hormônios serotonina e endorfina, deixando as pessoas mais felizes. É por esse e outros motivos que digo: O Amapá é a melhor terra pra se viver. Obrigado pela disposição e ensinamentos, Aloísio.

  • Cléo, farofa são micropartilulas que acabam com língua e mucosa bucal, já tive a experiência! Mas goma descendo goela abaixo deve ser muito “cruel”, doí só de pensar. Mais uma vez parabéns, leitura de 1ª suas crônicas.

    • Caro Zanjo, prefiro NÃO SUGERIR q vc experimente queimadura de goma. Parafraseando a D. Raimunda, “goma não tem cabelo e, por conta disso, não dá pra puxar de volta”. Brigadão pelo comentário.

  • Gostei! E os nomes me são familiares,né não? ^^ Ah pai, pior que queimadura de macaxeira frita não tem(pode perguntar pro Demé, que ficou um tempão com o “céu da boca” queimado)!

  • Olá Cléo,
    Acredito que as mais cruéis são as de maxixe e abóbora, no entanto, elejo maxixe, pois, creio que quem já comeu cozido, dificilmente não experimentoutal tal dissabor.
    Saúdo-o pelo post, pois, com a vida estressante que se leva hoje, reunir tantos familiares e amigos para tais eventos é uma grande felicidade.
    Sds,

      • Sensibilidade, criatividade e solidez é a essência do seu trabalho , meu caro Cléo. Tenha certeza que você tem ótimos interlocutores com um ótimo nível de reflexão.

  • Oi amigo Cléo. Beleza de crônica. podiam ter incluído uma golada de nescau quente. Queima pra burro. Parabéns, um abraço.

    • Mestre Milton, vc sempre tem razão. Porém, dessa vez, não desprezarei a opinião da dona Raimunda, que possui doutoramento em queimaduras por gula. Obrigado pelo incentivo. Deus abençoe.

  • Espectacular Cléo!! fizemos muito isso. infelizmente com o tempo, alguns mudaram de cidade, aí ficou difícil,mas não tem nada melhor no mundo, do que o convívio em família.Em época de festas,(natal) se elegia uma casa por ano, daí, nos reuníamos pra juntar os pratos.Iam chegando aos poucos, e lá pelas oito da noite, já estávamos por alí nos aperitivos, e como diria Odorico Paraguassú, nos beberitivos tb, ao chegar a meia noite, ceiávamos e brindávamos,
    aí era até a manhã do dia seguinte, quem dormia em sofá, quem dormia no chão…na varanda, na rede, engraçado que tinha lugar para todos.Já de manhã lá pelas nove, já tinha um abanando o fogo para o churrasco, e a festa continuava o dia todo. tenho muitas saudades!
    Ah!! quanto a queimadura, realmente, a goma é a pior, quantas vezes engoli goma quente por ser gulosa…é o inferno mesmo.

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