Do fundo do baú

Fui buscar no fundo do baú esta crônica do poeta, escritor e jornalista Georgenor Franco, 3º Príncipe dos Poetas do Pará e ex-Presidente da Academia Paraense de Letras,publicada no jornal Folha do Norte, de Belém do Pará, em julho de 1956.

O POETA DO CAIS
Georgenor Franco

Foi entre goles de bagaceira e copos de cerveja que Alcy Araújo me mostrou os seus primeiros versos. Depois juntos, eu, ele e Carlos Lima gastávamos pestanas e consolidávamos experiência no plantão de revisão da Folha do Norte. Lá pela madrugada, os três saiam, estômago vazio e a alma cheia de sonhos, rumo ao Bar 3 de Maio, àquela época ainda exposto ao luar e à chuva. Sentávamos, comiamos um legítimo filé, dois ovos estrelados, farofa, arroz e pão, por Cr$ 2,50. Depois, assim forrados,bem nutridos voltávamos e enveredávamos pelos caminhos que metiam medo a Augusto dos Anjos e pelos quais nós,os eternos sonhadores,encontrávamos sempre motivos para versos, para crônicas e para boemia.

Alcy, cabeleira enorme,unhas agudas,corpo de balanço, amava sempre as docas e o cais. Eu e Carlos Lima entendíamos que ele deveria melhorar o seu padrão de boemia, valorizar a sua poesia e deixar um pouco as docas e o cais. Mas, quem pode fugir à fatalidade de seu destino, ao determinismo de seus sentimentos?

A vida, depois, nos separou. Eu e Carlos Lima enveredamos pela vida bancária, torcendo talvez, em parte, a vocação. Mas, a exigência de substituir, de melhorar o padrão de vida nossa e dos que viviam sob a nossa dependência econômica, exigiam a mudança de profissão.

Carlos Lima deixou a imprensa, levando no cérebro todo o enrendo de um romance que até hoje ainda não escreveu. Eu, sem deixar a imprensa, que não sou homem para deixar assim uma mulher tão sedutora e de tão variadas atitudes e surpresas tornei-me bancário e, é entre números e telegramas, que vou escrevendo versos na conformidade dos motivos que se apresentam.

Alcy ficou por aí entre prosas, galeões, docas e cais. Tememos até, eu e Lima, amigos de sempre que Alcy naufragasse não vencido pelas ondas do mar da Baia de Guajará, mas, pelas ondas violentas de uma boemia desregrada, que estava talvez, a comprometer o seu próprio valor poético.

Certo dia, Alcy nos disse que ia embora. Álvaro da Cunha o chamava para o Amapá. E ele ia. E se foi. Que, de entrada enveredou pela doca, não se discute, e nem podia ser de outra maneira.

Mas Alcy, como acontece com todos os poetas empolgou-se pelo dinamismo de Janary Gentil Nunes, respirou o ar das montanhas na cahoeira do Paredão e na Serra do Navio, bebeu cachaça, comeu camarão seco em toda parte, conviveu com o Bena e compreendeu que precisava fazer algo. E se fez gente. Mostrou sua capacidade de trabalho, deu provas claras e evidentes de sua inteligência e, poeta que é, conquistou as simpatias do governo do Amapá. E lá está ele, pai de dois filhos, esposo de uma digna mulher exercendo as funções de oficial de gabinete do governador.

Sempre o mesmo: gordo, baixo, cabelos poéticos, unhas agudas, coração enorme, calma absoluta, sinceridade plena. Um espírito de poeta no coração de um sonhador.

Mudou de vida, mas não mudou de gênio. E, por isso mesmo, continua a ser o poeta das docas e dos cais, das mulheres que se vendem deixando sempre sem preço o conteúdo humano da alma.

Quando a delegação da Academia Parense de Letras esteve em Amapá, em junho último, Alcy Araújo juntamente com Álvaro da Cunha ficou à disposição dos poetas paraenses.

Que a sua poesia cresceu, que o seu valor literário aumentou, que a sua capacidade de criar evoluiu, não se discute.

E a prova de tudo isso está nos poemas que abaixo se vão ler, e que fazem parte de um livro que Alcy Araújo, vai publicar ao qual deu o título sugestivo de CAIS.  O primeiro é:

O POETA ADOTA UM NOVO CAIS
Há uma canção permanente em meus ouvidos
– São as ondas batendo nas pedras do cais
do velho cais natal que abandonei.
Não é saudade não, meu cais antigo.
É esse desejo de fuga, essa inconstância intinerante
de marinheiro, de onda, de verso…
Por isso vim agora, cais natal.
Não de ingratidão, não; é esse desejo de paisagem
de rever outros portos.
Não bem rever, assistir aí parto de outro cais.
– um cais mais novo, mais humano, mais pesado,
mais carregado de idealismo e de  metais,
com apito de locomotivas egressas
do ventre da montanha,
– um navio imenso fecundando as entranhas
de outros navios menores,
na cópula pesada do minério.
Não mais bares das docas.
– agora o barracão
Não mais os marinheiros bêbados,
– agora o operário suarento.
Não mais o ranger obsoleto dos guindastes
– agora a sinfonia das modernas britadoras.
O poeta aguarda o nascimento,
fumando mil cigarros
a porta da maternidade do progresso.

E agora, depois de um poema social, outro que retrata a tragédia de tantas vidas fracassadas e de tantos destinos incompletos:

PENSÃO ALEGRE
Corpos cansados, olhos inexpressivos,
numa exposição sem cor.
Pecaminosa homenagem aos viciados,
O teu corpo, a tua voz, o teu cigarro
e a minha poesia agonizando.
Depois só ficou o teu silêncio,
eu e tu, uma lâmpada no antro
e o teu cigarro moribundo se esvaindo
em espirais de fumo.
As tuas mãos cairam desamparadas
como estrelas sem vida
na interminável corrida dos abismos.
O bom gordo que fumava charuto
havia te oferecido uma bebida cara
Bebeste quando querias comer.
O senhor gordo não ficou
e eu também ia embora
Estavas desamparada…
Não ia ficar ninguém…
E amanhã, amanhã, como seria?

  • “Certo dia, Alcy nos disse que ia embora. Álvaro da Cunha o chamava para o Amapá. E se foi. (…) empolgou-se pelo dinamismo de Janary Gentil Nunes”.
    Antes da leitura da crônica, passei pela matéria sobre a escola “Lima Neto”, meu professor de História no Colégio Amapaense e vizinho no então bairro da Favela. E fiquei matutando sobre o Amapá daquela época onde quase tudo estava por fazer (e muito foi feito).
    Hoje, quando andamos por Macapá, principalmente pela área central, percebemos as mudanças, cujas raízes foram plantadas por esses pioneiros, que para cá vieram, arregaçaram as mangas e botaram a mão na massa.
    Muito há por fazer, ainda. Mas o trabalho da semeadura está registrado – letras, arte, poesia, concreto.

  • Artista de fino quilate,Alcy fez um imenso favor às palavras, usando-as em seu mister. Por sua dinâmica competência, poderia dispor de qualquer forma de expressão, que estabelecira comunicação e convenceria os interlocutores.

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