Homenagem a quem merece

Ele só andava de calça branca de linho, camisa branca mangas compridas, sapatos pretos impecavelmen1978 Waldemiro Gomesate engraxados e cinto preto. E não se separava nunca do seu guarda-chuva preto.
Morava numa casa toda branca, parecia uma casa encantada que despertava a curiosidade de toda a molecada da pequena cidade de Macapá. A primeira vez que estive lá – acho que eu devia ter uns onze ou doze anos de idade – era como se eu estivesse realizando um sonho e podia me sentir superior aos outros colegas.
Fiquei encantada com a casa que de tão branca me pareceu ter sido pintada com nuvens das tardes de verão.
Nas paredes, poesias emolduradas e alguns desenhos do boto, saci-pererê, iara, curupira, feitos por sua filha Maria do Céu. Livros e cadernos de anotações em todos os cômodos, em cima de todos os móveis mostravam a sede de conhecimento e a sabedoria daquele homem. No quintal, plantas medicinais, árvores e uma criação de galinhas.
Estive lá acompanhando minha mãe que buscava uma informação que não lembro sobre o que. E aquele homem falava de remédios medicinais, de poesia, de minérios, da fauna e da flora amazônica e tantos outros assuntos dos quais eu nada entendia. E ficava boquiaberta diante dele.
Mais tarde comecei a visitar o Museu Histórico-Científico Joaquim Caetano da Silva, do qual ele era diretor. Ia ali pra conversar com ele, pra aprender tanta coisa e para ouvi-lo tocar serrote. Sim! Ele tocava serrote e eu que naquela época pensava que serrote só tinha utilidade para os marceneiros e carpinteiros. Ele tinha tanta paciência com os jovens, adorava conversar e nos ensinar. Gostava de nos mostrar como a Amazônia era rica e nos falava das madeiras, dos óleos, dos minérios, das plantas, dos rios e das lendas.
Ensinava que se pode fazer tudo que se quer e contrariando os agrônomos provou que era possível cultivar uvas no Amapá. E ali, na frente do Museu, em plena avenida Fab (a avenida principal de Macapá) plantou dezenas de pés de uva.
Naquela época em Macapá só se via uva nos livros escolares (lembram da lição “O Ivo viu a uva”?). Não deu outra. A molecada se dividia em dois grupos: um ficava conversando com o “doutor” para distrai-lo, enquanto o outro roubava as frutas. Um assobio informava que tarefa havia sido cumprida com sucesso. O grupo que estava lá dentro se despedia apressadamente e partia para a pracinha do Hospital Geral, onde se juntava ao outro, para saborear as frutas
Mais tarde o museu mudou para uma sala do Macapá Hotel. Eu já me considerava íntima do cientista e pedi para trabalhar ali com ele. Eu era menor de idade, mas implorei que me deixasse trabalhar de graça com ele porque o que eu aprenderia ali valeria muito mais do que qualquer salário, do que qualquer dinheiro. Ele topou. E muito do que sei e do que sou devo a ele.
O Museu era visitado por pessoas de todas as classes. Era gente em busca de remédio fitoterápico, gente em busca de informações sobre tanta coisa, gente vinda do exterior atrás de um remédio que ele produzia com a planta “pata de vaca” para combater o diabetes.
Quem é do Amapá já deve ter percebido que eu estou falando de Waldemiro Gomes. Cientista, poeta, jornalista, músico,  nascido em Belém em 4 de dezembro de 1895. Fez seus estudos no Brasil e em Portugal, especializando-se em Botanica Médica, Parasitologia, Química e Fisica Médica, Antropologia Cientifica e Fisiológica, Agricultura, Apicultura, Extração de Princípios Ativos Vegetais e Histologia dos Vegetais. E colocou todo seu conhecimento à disposição do Amapá, depois de ter assessorado vários cientistas, entre eles Gaspar Viana, no Rio de Janeiro.
Waldemiro Gomes chegou ao Amapá em 1935 e não abandonou mais esta terra. Fez o primeiro mapa de ocorrências minerais da região do Amapari, montou e dirigiu o Museu Histórico-Científico Joaquim Caetano da Silva, catalogou igarapés do Amapá, fez inúmeros estudos e pesquisas sobre de madeiras, minerais, fibras e óleos industriais.
Waldemiro Gomes morreu em 21 de agosto de 1981. Foram 46 anos dedicados ao Amapá. Estado que muito lhe deve e que ainda não lhe prestou uma grande homenagem. Quando Waldemiro Gomes morreu, o governador da época deu seu nome ao Museu de Plantas Medicinais. Mas no governo Capiberibe o nome do museu foi mudado e Waldemiro Gomes foi rebaixado para nome de uma salinha do Museu do Desenvolvimento Sustentável.
O Amapá é injusto e ingrato com este grande homem. O Amapá já prestou homenagens a quem nunca fez nada por esta terra, já homenageou gente que nunca colocou os pés aqui e já deixou de homenagear muita gente que merece ser homenageada.

  • Estava visitando o seu blog e resolvi clicar nos Especiais – Uma homenagem e tive a grata surpresa de ler a homenagem maravilhosa que voce fez ao cientista do Amapá, profº Waldemiro Gomes. Conheci o profº Waldemiro no antigo Macapá Hotel e fui aceita por ele para ser sua assistente de pesquisa no Museu Joaquim Caetano da Silva durante quatro anos, ficando com ele até o dia de sua despedida terrena, dia 21/08/1981. Sou testemunha viva do grande cientista, poeta e ser humano maravilhoso que era o profº Waldemiro. Foi mais que um chefe, foi um segundo pai, amigo, sempre procurando fazer com que eu absorvesse o máximo de conhecimento de seu gande e incomparável legado. Após sua morte, procurei, dentro das minhas limitações, dar prosseguimento ao seu trabalho de fitoterapia e homeopatia e, em 1988, após um árduo trabalho com vistas à sensibilização e reconhecimento junto às autoridades governamentais da época e o Conselho de Cultura, foi finalmente criado Museu de Plantas Medicinais Waldemiro de Oliveira Gomes que continuou existindo dentro do Instituto de Estudos e Pesquisas do estado Amapá-IEPA (nome do atual IEPA, criado em 1991), que ficou sob a minha responsbilidade administrativa até 1994. A mudança da nomenclatura do Museu Waldemiro Gomes só ocorreu após 1995 e até hoje não entendi o porquê. Não que o Sacaca não merecesse ser homeageado mas todo o trabalho ali desenvolvido ao longo de várias décadas sempre foi por esforço e total dedicação do Profº Waldemiro Gomes. Espero que um dia essa injustiça seja reparada. Congratulo-me com a sua homenagem.

  • vc acredita que eu o conheci, e cheguei a ir na casa dele, não lembro que idade eu tinha, mas lembro que na casa dele tinha um monte de azulecho com fotos e pinturas. ele era uma pessoa muito simples. Ele sim precisa de ser lembrado, assim como, o meu sogro Amazonas Tapajos, que fez tanta coisa pela radio difusora e nunca fizeram qualquer coisa, que eu lembre, pa ele ser lembrando, lembro que uma vez o Gov. Barcelos falou p ele que iria um dia colocar o nome dele em uma rua de macapá, mas q eu saiba, até hj não vi nada. E uma pena, e outros mais que ficou no esquecimento.

  • Não conheci a história deste grande homem, mas, seu relato parece voltar o tempo, poucoa tem a capacidade de escrever com tanta maestria. QUE BOM QUE POSSO TER ACESSO A TUDO ISSO.

  • Parabéns pela biografia do Dr. Waldemiro Gomes, o mais legitimo e verdadeiro herói do Amapá, quando criança por volta dos 12 anos, por volta de 1980, tive a oportunidade de morar próximo de sua casa aqui na Hamilton Silva, minha tia Aurina Barreto chegou a trabalhar na casa dele, era um gênio, empalhava animais, que ficavam expostos na Fortaleza de São de Macapá, era um cientista brilhante, um exemplo para as novas gerações posso afirmar que naquela ocasião não tinha a exata grandeza deste ilustre brasileiro, Alcinéia sua escrita abre a possibilidade de se homenagear pemanentemente gente da nossa história que estão esquecidos. continue nos brindando com seus textos

  • Quando criança, ia sempre lá no Hotel Macapá onde ele tinha seu “museu”. Lamento o desaparecimento do local e deste homem culto e importante para o Amapá. O Zilomar Ferreira é aquele que se formou advogado e morava no laguinho próximo à sede dos Escoteiros? (aproveitando este espaço, visitem meu blog: http://dinizbotelho.blogspot.com/). Obrigado.

  • Boa tarde,Alcinéa.
    Lamentavelmente nossos heróis também morrem
    Felizmente alguns corações generosos e mentes brilhantes (como os seus) os trazem à nossa lembrança para que fiquem e eternamente nos acompanhem.
    Tive a honra de conhecê-lo (o Dr. Waldemiro) e, ao visitá-lo, li alguns de seus poemas ao som de alguma música, também de sua autoria, assobiada por ele.
    Ouvi o som do serrote e até hoje quando conto para meus netos, quase não acreditam.
    Provei das uvas que vc menciona mas, cá pra nós, eram muito azedas.
    Estou no Recife há mais de 30 anos mas antes de visitar o Oriente Eterno, quero passar bons tempos na minha terra do coração.
    Um beijo saudoso e até breve.

  • Muito bom garota! O professor Waldemiro merece reconhecimento maior, que um simples nome de salinha. Conheci, para minha felicidade, esse grande e generoso homem. Nos 28 anos sem o mestre Waldemiro Gomes, dia 25 agosto, vamos torcer para que alguma autoridade preste uma homenagem digna para o professor Waldemiro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *