Urgência uma ova!

Milton Sapiranga Barbosa

Desde que me entendo por gente, acreditava que serviço de emergência era feito da maneira mais rápida possível, sem burocracia, um piscar de olhos, por exemplo. Por anos e anos continuei alimentando esse modo de pensar: que uma emergência se sobressaía a todos os outros serviços, com absoluta prioridade. Puro e ledo engano.       Quando realmente precisei colocar à prova a eficácia do atendimento de emergência, oferecido pela Polícia Militar através do telefone 190, tive a maior decepção e, pior, por três vezes seguidas.

A primeira aconteceu num domingo, quando me dirigia para a feira do Perpétuo Socorro, as proximidades do ancoradouro do bairro Santa Inês, um carro, tendo ao volante um rapaz de 19 anos aproximadamente, trafegava em alta velocidade, no sentido sul, conduzindo duas jovens, sendo que uma delas, que ia do lado do motorista, mostrou um copo com bebida, como um gesto de oferecimento. Não liguei e continuei pedalando minha magrela rumo ao ex-igarapé das mulheres, onde compraria uma sarda, tucunaré ou uns piaus para o assado de domingo.

Ia eu tranqüilo pela orla, quando passando uns 10 metros do trapiche Eliezer Levy, avistei o carro e os jovens que antes passaram por mim oferecendo um trago. Estavam eles sentados na calçada do quebra mar, tendo ao lado um litro de vodca, já pela metade. Uma das jovens me pareceu até ser menor de idade. Como bom cidadão, pensando que ao sair dali, pelo estado etílico do trio, poderia acontecer algum acidente grave, acionei o 190, com a esperança que uma viatura fosse enviada até o local e tomassem as providências que a situação requeria. A moça de plantão, parecendo do tipo das que atendem as promoções de programas de TV, quis saber a chapa, a cor e a marca do carro e mais, como os jovens estavam vestidos, se estavam fazendo arruaça etc

Mesmo intrigado com todas aquelas indagações, cumpri o ritual exigido pela atendente e fui embora. Quase chegando à feira, passei em frente a uma delegacia do cidadão, onde estavam três policiais. Contei o que estava se passando. Eles disseram que dois guardas do batalhão de trânsito estavam às proximidades da feira e que eu fosse até eles contar o mesmo que havia dito a eles. Fui, e um deles fez uma ligação pedindo uma viatura e logo pensei que aquilo não ia dar em nada. Dito e feito. O serviço de emergência 190 não mandou nenhuma viatura, os policiais, cinco no total, também não quiseram percorrer os 200 metros, que era a distância que eles se encontravam da feira de pescados no Perpétuo Socorro.

Peixe comprado iniciei o retorno pra casa e vi que os jovens continuavam lá, tranqüilos, tomando umas boas talagadas de vez em quando. Passei por eles, pedindo a Deus que nada lhes acontecesse, nem a terceiros,  quando retornassem para suas casas.

Essa foi a primeira decepção com o um nove zero, que quando acionado via celular, aparece no visor do aparelho uma mensagem: TENTANDO SERVIÇO DE EMERGÊNCIA. É verdade, tentando, mas não sendo atendido como deveria ser, com urgência, urgentíssima.

A segunda decepção que tive ao acionar o serviço de urgência atendido pelo 190 da PM-AP  foi numa manhã se  segunda feira, quando me dirigia para cumprir minha jornada de trabalho na Rádio Cidade. Manhã tranqüila de sol, família com saúde, senti que o dia ia ser bom e foi, graças a Deus, apesar de mais uma vez constatar que e o serviço de emergência do 190 não é confiável.

No caminho pra rádio, na rua Claudomiro de Moraes notei um rapaz, em atitude suspeita, parado em frente ao prédio do antigo Aninga, que por alguns anos serviu para  abrigar menores delinqüentes. Minha desconfiança aumentou quando um outro rapaz chegou apressado em uma bicicleta e  entrou direto no prédio abandonado, sendo seguido pelo outro que, certamente,   aguardava  sua chegada.

Percebendo que ali alguma coisa  errada estava acontecendo, acionei o 190.  Como eles  estão vestidos? Ainda estão lá dentro? Foram algumas das indagações feitas pela atendente. Cumpri o ritual de fornecer detalhes sobre a dupla e a moça informou que ia pedir que umas das viaturas que   atuam na área fossem  até o local. Fiquei aguardando. Passados 15 minutos, a viatura não chegou,   e os rapazes foram embora,  levando uma sacola, provavelmente  com drogas ou produtos de roubo praticado na noite  anterior.

A terceira  decepção com o 190 ocorreu domingo,  dia  primeiro de novembro, quando novamente  me dirigia a feira do Perpétuo Socorro.

Pedalando  minha bike pela orla do Santa Inês, deparei com dois rapazes e uma moça  ingerindo bebida alcoólica e apresentando  visíveis sinais que haviam passado à noite  na farra (e olha que disso eu entendo muito bem). Como sei que  álcool  e direção  não combinam e que é melhor prevenir que remediar, liguei para 190, relatando o que estava acontecendo. Outra vez tive que ouvir uma enxurrada de perguntas e como das outras vezes, mesmo tendo fornecido todas as informações pedidas,   deu em nada. Dei bom dia  e deixei pra lá, desligando o celular, continuando minha viagem  rumo  a feira, desta feita para comprar uns caranguejos porrudos,  capturados na região do Sucurijú. Quando cheguei próximo a Fortaleza, encontrei, fazendo sua caminhada matinal, o meu amigo Ranolfo Gato e comentei o ocorrido, do pessoal bebendo e a minha decepção com o serviço de urgência 190. O Ranolfo, então contou que momentos antes, ao passar em frente a área de quiosques da beira rio, encontrou com três rapazes que bebiam em uma barraca que funciona no local, sendo  que um deles, ao ver passar uma senhora com suas duas filhas, levantou  e  mostrou  o bilau para  elas. O Ranolfo, que vinha logo atrás, pediu que  eles  respeitassem  as mulheres  e que  ia avisar a polícia, e seguiu seu caminhar, já que dois  deles  levantaram da mesa em atitude ameaçadora.  Em meu retorno, voltei a  encontrar com  o Ranolfo, que perguntou se  a polícia  tinha  havia passado onde os três rapazes bebiam. Respondi que não, pois eles ainda estavam lá, na maior tranqüilidade da paróquia. Se  meu amigo, assim como eu, acionou  o 190, também  deve estar decepcionado com o atendimento de urgência da PM. Urgência uma ova!

  • Adorei. Isso já aconteceu comigo. E quando a polícia vem atender a emergência, não acontece nada. o bandido ainda fica rindo da nossa cara.

  • Um conhecido do bombeiro, que trabalha naquele centro integrado (sei lá…), disse que se a nossa vida depender da chegada de uma viatura, a gente morre e ela não chega.

  • No Sábado dia 07/11, houve uma festa de halloween da choperia, ao entrar vi o filho do Coronel Calandrini entrando com umas garotas e mais dois armário atras( Seguranças) falei com o pessoal que trabalhava na portaria soube que o moleke já tinha aprontado por lá, e por esse motivo o Pai mandou dois Policiais Militares, isso mesmo!! dois PMs fazer sua segurança!! e nos o povo contamos com uma unica segurança! a de Deus e rezando para não precisar do 190. è o desgóesverno apresentando o seu modelo de segurança publica ao primeiro mundo, primeiros os meus, depois o povo…o povo Amapaense que se …….

      • Wllian, na crônica procurei mostrar o excesso de burocracia, que impede o cidadão de ser atendido com urgência pelo 190. Ontem mesmo, no Fantástico, uma reportagem mostrou a enxurrada de perguntas que a atendente do 190 faz e ainda fornece informações erradas para os policiais. Urgência, pelo que entendo e vc também, é um serviço que tem que ser prestado com ultra rapidez, ou não é? Um abraço.

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