Você já comeu feijão muçunga?

Estava dando uma olhada na cozinha para fazer uma sopinha de feijão, boa pra tomar quando o tempo está frio como hoje.
De repente lembrei do feijão muçunga que minha mãe costumava fazer e que em junho de 2008 eu resolvi fazer pela primeira vez.  Enquanto ele estava no fogo, fiz um texto no meu antigo blog ( http://alcinea-cavalcante.blogspot.com). Agora dei uma vasculhada no arquivo, encontrei-o e resolvi postá-lo aqui.
Eis:

FEIJÃO MUÇUNGA
Hoje é feijão muçunga
, anunciava minha mãe na hora do almoço.
E a gente fazia aquela carinha de desprezo, mas não tinha jeito. Ou comia ou não brincava. Entre ficar o resto do dia trancados em casa e comer muçunga, claro que eu e meus irmãos ficávamos com a segunda opção.

Nunca tive a curiosidade de procurar no dicionário o significado da palavra muçunga. Quem sabe faça isso agora?

O amapaense, como todo brasileiro, come feijão todos os dias. Mas nas bandas de cá feijão tem que ter charque e calabresa. Se tiver uns pedacinhos de bacon ou de bucho, melhor. Quanto mais entulho, melhor ainda. O que não vale é o feijão cozido só na água, sal, cebola, tomate, chicória e algumas folhas de couve. Esse tal de feijão muçunga (argh!) ninguém merece.

Nunca soube os motivos que levavam mamãe a volta e meia nos servir feijão muçunga. Falta de dinheiro para comprar os ingredientes? Falta de tempo para ir ao armazém? (Naquela época ainda não havia supermercado por aqui). Ou estaria ela tentando nos acostumar a ingerir menos venenos? Ela nunca explicou e nós nunca perguntamos. Mãe a gente não questionava. Só obedecia.

Pois bem. Há algum tempo decidimos aqui em casa ir eliminando devargazinho os venenos de nossa alimentação. Diminuímos consideravelmente os enlatados e embutidos. Galinha só de quintal (desses frangos de supermercado cheios de hormônios e antibióticos passamos longe). No nosso quintal fizemos uma modesta horta, assim pelo menos uma pequena parte das verduras e legumes que ingerimos não têm agrotóxicos. A horta ainda é pequenina, tem pouca coisa, mas já é um bom começo. E assim, a cada dia, a gente busca melhorar um pouquinho nossa alimentação. Agora chegou a vez de mexer no feijão, fazê-lo mais saudável.

Feijão com charque, calabresa, bacon e outras porcarias só será permitido uma vez por semana, depois só uma vez por mês, até chegar o dia em que ele sumirá definitivamente de nossa mesa.

Hoje é nosso primeiro dia de feijão mussunga. A responsabilidade de fazê-lo coube a mim. Filho e marido ficam na expectativa. Enquanto escrevo o muçunga tá lá fervendo na panela. Depois eu conto pra vocês se ficou bom ou não.

(Hoje eu conto pra vocês que o “muçunga” ficou tão bom que de junho de 2008 pra cá já fiz inúmeras vezes)

  • Como todos os dias esse feijão, mais sem identificá-lo. Não conhecia essa palavra, entrei no google, as referências apresentadas retornam à Alcinéa Cavalcante. Observação: Cozinho o feijão em água e sal. Depois frito a cebola, acrescento o feijão, rasgo a couve, adiciono à panela e tampo-a. Pronto, fica uma delícia. Beijos…

    Aurea Batista de Sá Viana.

  • Hummmm bota carirú na mistura… Adoro o feijão “natureba”, agora aprendi um novo nome “muçunga”. Minha mãe faz com carirú, moranga, quiabo, couve… Salivandoooooooo ao escrever, lembrando do tempero de D.Help(minha mãe).

  • “O que não vale é o feijão cozido só na água, sal, cebola, tomate, chicória e algumas folhas de couve. Esse tal de feijão muçunga (argh!) ninguém merece.” É exatamente isso o feijão MUÇUNGA, sem os entulhos, como voce diz. O feijão preguiçoso, aquele que a cozinheira ou cozinheiro não querem ter o trabalho de colocar uns pedaços de JABÁ, BUCHO, ETC.
    Feijão muçunga é o feijão saudável. Sua mãe tinha ou tem razão?

  • Sempre defendi essa iguaria, como a mais brasileira delas. Não sabia o nome, mas creio firmemente que é bem mais saudável. Parabéns! Vou acrescentar o verbete ao Dicionário de Amapês e creditar a vc. bjos.

  • Tudo de bom esse feijão. Observei que com o friozinho que fez hoje aqui, nos fez lembrar do passado, estava deitada com frio e senti vontade de comer “bolinho de chuva” com café e lá fui eu para a cozinha lembrar da minha mãe, que em dias frios, não deixava de fazer essas delicias e servir com café quentinho em São Caetano de Odivelas, onde vivi minha infância e parte da adolescência. Saudades da minha mãe que está em ODIVELASS!!!.

  • Muito bom, quando for a sua terra quero comer um delicioso feijão, sem ser o tal muçunga. Vale também vir a nossa terra comer um delicioso peixe com arroz de cuxá.

  • Alcinéa, eu não sabia que o feijão preferido das minhas filhas era chamado de muçunga aqui na minha casa ele faz sucesso e acredito que o da sua mãe também.

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