Alcinéa Cavalcante

Liberdade de expressão!
Macapá - Amapá

Bate-papo com a estrela Ana Martel

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/07/11 as 3:14 pm

Ela é branca no samba, é bossa-nova, respira notas musicais, canta, compõe, toca violão, escreve poesias… é mãe, esposa, mulher guerreira, socióloga, funcionária pública.

“A música não entrou na minha vida, foi a minha vida que entrou na música”, diz. Ela é Ana Martel, cuja intimidade com o palco começou quando tinha cinco anos de idade e se apresentou num programa de calouros que era realizado aos domingos no Santana Esporte Clube,em Santana. Pequenininha teve que subir numa cadeira para cantar para alcançar o microfone. Desinibida, olhou para a banda e deu a voz de comando: “1, 2, 3… agora!”. E agora Ana Martel vai brilhar em Juiz de Fora (MG), nas duas últimas semanas de julho. Ela ganhou uma bolsa para estudar Canto no Festival Internacional de Música Colonial e Barroca Brasileira, onde também se apresentará, a convite dos maestros Antonio Carlos e Erivaldo Fraga, com uma das orquestras que se formam durante o Festival, regidas pelos mesmos cantando uma canção de sua autoria acompanhada também de um Coral, além de outras clássicos da MPB.
Na semana passada, eu, os amigos Marcelo Barbosa e Zanjo Goulart e  Naiara Martel (filha da Ana)  decidimos fazer com ela um bate-papo para o blog. E ela topou. Onde vai ser, onde não vai ser… Marcelo – que   é casado com filha de libaneses e adora comida árabe – sugeriu o Bibblos e todos concordaram.

Marcelo Barbosa e Zanjo Goulart

No sábado, às 20h, estávamos todos no Bibblos para jantar e bater papo com a estrela. Um bate-papo descontraído e recheado de sorrisos e gostosas gargalhadas.


Foi assim:

Como foi que a música entrou na tua vida?
Não. Foi a minha vida que entrou na música.

Como assim?
Acho que já nasci cantando e com cinco anos de idade já estava me apresentando em programas de calouros em Santana.

Você tem idéia de quantos shows já fez?
Aaaah, não sei exatamente. É impossível dizer quantos shows eu fiz. Foram muitos. Mas fiquei um longo período sem fazer nenhum show. Foram 8 anos que fiquei sem cantar.

Por que?
Fui ter filhos, (risos)!!! Além disso, minha jornada de trabalho era intensa como bancária…E ter filhos e tempo para criá-los é maravilhoso. E outra coisa boa que me aconteceu neste período foi aprender a tocar violão, ainda toco mal (risos), mas serve para compor.
E comecei também a escrever poesia, me dediquei muito a estudar música. Fiquei longe dos palcos, mas nunca distante da música. Nessa época  morava em Belo Horizonte.

Quer dizer que não cantou em Belô?
Só cantava para os meus filhos. Ninava as crianças cantando Tom Jobim, Boca Livre, Gilberto Gil …

Show mesmo só quando voltou para Macapá?
Sim. E foi com a Vanildo Leal na Banda Brind’s.

Você já cantou em barzinhos, em barzão, já fez grandes shows… mas é verdade que já cantou também no meio da fumaça vinda de churrasqueiras e com o cheiro de churrasco impregnando nos teus cabelos, tua roupa?
(gargalhadas) É verdade. Isso aconteceu numa expo-feira aqui em Macapá. Fizeram um palco grande, bonito e iluminado para os artistas que vinham de fora, mas para os cantores regionais era um palco baixinho, pobre, cercado por aquelas bancas de churrasquinho. Não tinha nem platéia, só passantes…

Um total desrespeito ao artista amapaense.
É.

Mas eu soube que você é capaz de recusar até um alto cachê para fazer um show se não tiver uma boa platéia. É verdade?
Se eu tiver que escolher cantar pra uma boa platéia, mesmo sem ganhar muito ou ganhar muito e não ter quase ninguém me assistindo, escolho a primeira opção feliz da vida.Pois faço o que gosto – que é cantar. Dizer que não preciso de cachê é mentir, mas o fundamental e que tenha platéia. Foi assim no show do meu aniversário: Era uma platéia imensa,  maravilhosa  e eu estava muito feliz. E é isso que vale, isso é mais gratificante do que um cachê altíssimo.

Então você canta de graça?
Canto. Mas repito: não que eu não precise de dinheiro. Mas se uma escola me chama para fazer um show eu vou lá e não cobro um tostão e ainda presenteio a escola e alunos com meus CDs. A contrapartida que eu exijo é que a minha música se transforme em material de estudo naquela escola.

Você participa na próxima semana do famoso Festival de Inverno de Juiz de Fora. Como surgiu esse convite?
Fora minha atividade de cantora, sou aluna da escola de música. Conheci o maestro Erivaldo Fraga num show meu,quando ele veio aqui em Macapá ministrar uma oficina  e  conheceu meu trabalho. Ele rege uma das orquestras neste festival de inverno. Na primeira vez que fui participar do festival em julho de 2010, fui como convidada. A cidade respira música nesta época e este ano, eu ganhei, desta vez, uma bolsa para fazer  aulas de canto.

Quando e onde é a sua apresentação?
Formam-se umas quatro ou cinco orquestras no Festival, além disso, há as orquestras convidadas.
As apresentações acontecem todos os dias, em vários locais, como praças, no meio da rua do comércio, no teatro da Escola, shoppings e no teatro da cidade. Ainda não sei a agenda. Ano passado me apresentei com a orquestra no shopping porque  precisei vir antes do final. Este ano, como estava na incerteza do dia da minha ida, marcaremos quando eu chegar lá.

Qual a primeira referência musical que tu tens?
Samba. Quando eu participei pela primeira vez do Clube do Guri, minha mãe me fez cantar um samba enredo… Eu tinha cinco anos, cantei em cima da cadeira, pois os microfones não baixavam (risos).

E a poesia como veio?
A poesia veio primeiro que as letras de música. Era minha forma de me expressar artisticamente. Comecei a escrever poesias na época em que morava em BH.

Sua poesias já foram musicadas?
Sim. Quando voltei para Macapá o Zé Miguel pegou uma poesia minha  e falou que daria uma boa música. E deu! Fala sobre o Curiaú. Essa música inclusive foi tema de uma tese de doutorado.
E continuo escrevendo poesias. Uma delas virou a canção “Poesia da Poesia”. Foi musicada pelo Álvaro Gomes e Alan Gomes

Como você vê o sumiço do cd no mercado?
Hoje em dia toda a divulgação que se tem na internet massifica, deselitiza, divulga seu trabalho… e o artista tem que saber fazer ao vivo.
O trabalho de estúdio é diferente. Se o CD sumir, sempre restará uma mídia… e tem o show! Registrar é preciso, mas o show, pra mim, é o mais importantte!

Estúdio ou palco?
Palco. Nada pode pagar a sensação de estar num palco.

Que conselho você pode dar pro pessoal que está começando?
Só faça se tiver amor.

Qual a música que você mais gosta de cantar, a música que não pode faltar nos teus shows?
“Amor até o fim”, do Gilberto Gil. Está no meu repertório desde o primeiro show.

Qual você não cantaria de jeito nenhum?
Ahhhhhh, tem muitas.  Nosso ouvido é  poluído com muita coisa ruim e eu não vou contribuir para aumentar ainda mais essa poluição.

O que a Ana Martel escuta?
BBB (risos) –  Bossa Nova, Beatles e Bituca (Milton nascimento)

Dos artistas locais, quem tu mais admiras?
Joãzinho Gomes.

Como é o teu dia-a-dia?
Acordo e rezo logo. Vou trabalhar, vou pra academia, volto pra trabalhar… À noitinha quando chego em casa curto meus filhos, meu namorido, estudo música e componho. Os fins de semana são da família e amigos.

Artigo dominical

Postado por: Alcinéa Cavalcante em 17/07/11 as 12:06 am

A erva venenosa
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Um eremita passou sessenta anos afastado de tudo e de todos. Até então tinha levado uma vida de mortificações, alimentando-se somente de legumes e de uma erva venenosa, que crescia perto de sua choupana. Após tanto tempo, estava perdendo a coragem porque não fazia nenhum dos milagres extraordinários que, como haviam lhe contado, faziam os outros Padres do deserto. Resolveu, portanto, deixar a solidão e ir morar na cidade para conduzir uma vida mais cômoda. Mas Deus vigiava e, antes que realizasse o seu plano, enviou-lhe um anjo que lhe disse: “O que você pensa e o que você fala? Quais maravilhas podem superar o milagre da sua vida? Quem lhe deu as forças para agüentar todos estes anos neste lugar? Quem abençoou a erva venenosa com a qual se alimenta e faz que se torne inofensiva? Fique no lugar onde está e rogue a Deus que lhe dê a humildade”.

Fortalecido pelas palavras do anjo, o santo eremita ficou naquele lugar até o dia de sua morte.

O evangelho deste domingo nos diz que Jesus “nada lhes falava sem usar parábolas” (Mt 13,34). Cumpre-se, assim, a palavra do salmo 78 no versículo 2. Das três parábolas apresentadas, a mais conhecida e discutida, talvez, seja a do joio e do trigo. Quantas vezes essas palavras são usadas para explicar que o bem e o mal existem, juntos, na vida e é muito difícil separá-los, e que  também não cabe a nós julgar e condenar? Sem dúvida seríamos completamente cegos se não enxergássemos as tantas coisas erradas que acontecem, como também se não reconhecêssemos as boas. A nossa existência é uma mistura de bondade e de maldade, de virtudes e de defeitos, de alegrias e de tristezas, de vida e de morte. Cada pessoa, que se considera boa, precisa ficar alerta para não tornar-se m á. Mas também ninguém é tão mau que não possa fazer alguma coisa boa, em algum momento da sua vida. Depende das circunstâncias, das ocasiões e dos exemplos que temos à nossa frente. Contudo a parábola, parece-me, pode nos revelar, como sempre, muito mais.

Se de um lado Jesus quer nos dizer para sermos conscientes do mal que nos atenta e que também cresce conosco e ao nosso redor, do outro lado em nenhum momento da parábola o joio e o trigo se confundem. Tanto é verdade que os empregados se oferecem para arrancar o joio. É sinal que o joio e o trigo são bem visíveis e reconhecíveis. A separação, o julgamento e a fogueira acontecerão só no final. Por enquanto, o joio e o trigo crescem juntos, mas não se confundem ao ponto de não conseguirmos distingui-los mais. Com isso, penso que o Senhor nos ensina a sermos realistas, ainda se não vivemos no céu onde só há coisas boas) mas também não estamos ainda no inferno (onde há somente coisas más). Cabe a nós, neste tempo da história humana que nos é doado, fazer crescer o bem, isto é, construir um mundo melhor. Mais d o que ficarmos reparando as ervas daninhas o tempo todo – em geral sempre são os defeitos e as culpas dos outros – devemos nos esforçar para crescermos bem como o bom trigo, fruto da boa semente. Muitas vezes perdemos tempo para falar mal dos outros, querendo arrancar o que julgamos estar errado no mundo. Deus tem mais paciência e esperança do que nós. Ele é o dono do tempo e dá chance a todos. A questão, portanto, é procurarmos ser, cada vez mais e melhor, o bom trigo que cresce, nunca desanima e firma as suas raízes perseverando até o momento final.

Talvez a maior tentação que experimentamos hoje seja o desânimo, no sentido de achar já perdida a luta contra o mal. Nesse caso, é sinal que o joio já contaminou a nossa esperança. Ao contrário, ser cristãos realistas significa ter consciência da força do bem, mas, ao mesmo tempo, da força do mal e, com isso, das nossas limitações humanas. Podemos errar e deixar crescer em nós mesmos mais o joio do que o trigo.

Ainda bem que o Senhor, na sua bondade, nos dá o tempo necessário para crescermos. E, sobretudo nos garante que a semente é boa e os frutos também serão bons. Ele nos dá a força para continuarmos no caminho certo apesar das dificuldades, das tentações e dos fracassos. É como a erva venenosa do eremita da história. Quem dava um jeito para que não o matasse? O bom Deus! Conviver com as coisas erradas é difícil, mas não ser sufocados e nem desanimar é mais obra de Deus do que nossa. “Não tenhais medo” repetiu tantas vezes Jesus.

Nada de desejar uma vida mais cômoda, com menos dificuldades. Vamos nós também ficar onde estamos, enraizados no Senhor Jesus, combatendo o bom combate do amor, da justiça e da paz. O Reino é de Deus e vai crescer como a semente de mostarda que se torna árvore e a massa que recebe o fermento. Mas essas são as outras parábolas do Evangelho deste domingo.