Salada de frutas – Belíssimo texto poético de Luiz Jorge

Salada de frutas
Luiz Jorge Ferreira
Quando eu era criança, quando eu muito pedia minha mãe fazia salada de frutas.
Lá no quintal de casa, havia dois tipos de frutas…banana prata e banana Nanica.
A mamãe cortava dentro de uma vasilha de plástico, pedaços diferentes de banana prata…os menores ela chamava de Morangos, os médios ela chamava de Pêssegos, e os maiores que ela chamava de Manga.
Os pedaços maiores de Banana Nanica ela chamava de banana Prata, e os menores pedaços de Banana Nanica, ela chamava de Banana Nanica, mesmo.
Essa era a minha salada de frutas predileta, quando ela lagrimava feliz por eu estar feliz…e suas lágrimas se misturavam a salada, eu mesmo que não visse, adivinhava que ela lagrimará pelo sabor que elas davam a deliciosa sobremesa.
Até que um dia eu plantei uma noite em nosso quintal…essa noite foi adubada pelos meus desejos, e a noite deixou crescer muitas espécies de frutas, a melancia, o melão, o figo, a ameixa, e eu conheci a minha predileta a maçã…
Depois já não precisava que a minha mãe cortasse as duas espécies de bananas em pedaços diferentes para simular frutas, eu mesmo cortava as bananas, e as cobria com um pano e elas mesmo se transformavam nessas frutas que existiam na noite que eu havia plantado no quintal.

Hoje é o Dia Internacional do Poeta

“Qual seria o anel do poeta,

se o poeta fosse doutor?
– Uma saudade brilhando
na cravação de uma dor”
(Catulo da Paixão)

Se alguém te perguntar o quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo… (Mario Quintana)

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)

Mas o que vou dizer da Poesia? O que vou dizer destas nuvens, deste céu? Olhar, olhar, olhá-las, olhá-lo, e nada mais. Compreenderás que um poeta não pode dizer nada da poesia. Isso fica para os críticos e professores. Mas nem tu, nem eu, nem poeta algum sabemos o que é a poesia. (Garcia Lorca)

O poeta é um jornalista da alma humana. (Affonso Romano de Sant’Anna)

Eu não forneço nenhuma regra para que uma pessoa se torne poeta e escreva versos. E, em geral, tais regras não existem. Chama-se poeta justamente o homem que cria estas regras poéticas. (Maiakovski)

Não sou alegre nem triste: sou poeta (Cecília Meireles)

Minha poesia é cheia de imperfeições. Se eu fosse crítico, apontaria muitos defeitos. Não vou apontar. Deixo para os outros. Minha obra é pública. (Carlos Drummond)

Dever do poeta é cantar com seu povo e dar ao homem o que é do homem: sonho e amor, luz e noite, razão e desvario. (Pablo Neruda)

Amapá 80 anos – O coreto da praça da matriz

1935 – Coreto da Praça da Matriz (hoje Veiga Cabral). No coreto se apresentavam as bandas de música da Guarda Territorial e do Mestre Oscar. Foi ouvindo estas bandas que interpretavam de forma magistral clássicos da música que muitos casais começaram a namorar e casaram, aí pertinho do coreto mesmo, na bicentenária igreja de São José.

O poeta Arthur Nery Marinho – que veio para o Amapá em 1946 – chegou a tocar  neste coreto e relembra a velha praça nesta poesia publicada no livro “Sermão de Mágoa”, em 1993.

Praça Antiga
Arthur Nery Marinho

Velha praça, velha praça,
tenho saudade de ti.
Não da bonita que estás
mas da que eu conheci.
A praça do tio Joãozinho
e do seu Naftali:
o primeiro era Picanço
e o segundo Bemerguy.
A praça do João Arthur
também a praça do Abraão,
a praça que outrora foi
da cidade o coração.
A praça em que se jogava
todo dia o futebol,
esporte que só parava
quando já dormia o Sol.
Parece que isto foi ontem,
mas tanto tempo passou,
o que deixou de existir
minha saudade gravou.
Vejo a barraca da Santa,
vejo ali o ABC.
Há muito tempo não existem
mas a minha saudade os vê.
Da igreja o velho coreto
eu avisto, neste ensejo.
Do mestre Oscar vejo a banda
e lá na banda eu me vejo.
Eu considero um castigo
não apagar da lembrança
o que me foi alegria
e agora é desesperança.
Velha praça, velha praça,
renovaste e linda estás.
Não tens, porém, a poesia
do que ficou para trás.

Viagem – Jadson Porto

Viagem
Jadson Porto

Eu me preparei!
Organizei tudo
Hora, dia, de onde sair
Para onde ir.

Quase tudo pronto
Documentos arrumados
Assento marcado
Destino traçado.

É hora de embarcar
A viagem começará
O piloto pronto está
Acomodado, a viagem iniciará.

Com o livro aberto
Duas viagens ocorreram
Uma em trânsito, é certo
Outra em páginas, decerto.

Dois pilotos conduzindo
Um, o manche comanda
Outro, a imaginação demanda

Quanto ao passageiro…
Enquanto paisagens e nuvens passam
Páginas e imagens dançam.

Já que hoje é Dia do Amigo vamos de poema para os amigos

Poema para o amigo
É possível que eu te conte
uma história de príncipes e fadas
que escutarás com o olhar perdido na infância.
Ou que te conte uma piada tão engraçada
que rolaremos de tanto rir.
Nossas gargalhadas contagiarão os passantes
e de repente todo mundo estará rindo
sem nem saber por quê.
É possível
que eu faça um café com tapioca e te chame
pois café, tapioca e amigo tem tudo a ver.
É possível que eu chegue na tua casa sem avisar
só pra te ofertar uma rosa que acabara de nascer
e te oferecer um Johrei.
É possível que eu te ofereça uma música no rádio
ou te mande, pelo Correio,
uma carta numa folha de papel almaço.
É possível que eu te ligue
no meio da noite
no meio do dia
a qualquer hora
– mesmo na mais imprópria –
só pra dizer:
Amigo, eu amo você.
(Alcinéa Cavalcante)

Poema com destino à Noruega – Alcy Araújo 

Poema com destino à Noruega
Alcy Araújo 

Eu ando com a cabeça baixa e dolorida
tateando na sombra dos guindastes
o corpo flácido das mulheres das docas
dentro da noite no cais.

Por que passam por mim tantos
marinheiros, navios, ondas balouçantes?

Se eu pudesse
descansaria a cabeça dolorida
num saco, num fardo, numa caixa,
depois escreveria um poema simples
e montava-o na onda com destino à Noruega.
E a moça loira que o lesse ao sol da meia-noite
não saberia nunca que sou negro, fumo liamba
e tenho as mãos revoltadas e calosas.

(Do livro Autogeografia – Macapá-AP – 1965)

Retrato – Cecília Meireles

Retrato
Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?