Um poema de Mario Quintana

O AUTO-RETRATO
Mario Quintana

No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
as coisas que não existem
mas um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

(Do livro “Apontamentos de História Sobrenatural”, lançado em 1976)

Bom dia com poesia

Dedução
Maiakóvski

Não acabarão com o amor,
nem as rugas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

Bom dia!

Oração da Felicidade
Henrique Vieira

Que todas as crenças religiosas sejam respeitadas, e até mesmo a não crença religiosa.
Que possamos comungar na crença da humanidade, da diversidade, do bem comum.
Que seja declarada justa toda forma de amor.
Que nenhuma mulher seja alvo do machismo estrutural.
Que a juventude negra não seja alvo do extermínio.
Que Marias Eduardas não sejam assassinadas dentro da escola.
Que Marquinhos da Maré não sejam assassinados indo para a escola.
Que Marielles possam chegar em segurança nas suas próprias casas.
Que todo agricultor tenha uma terra para plantar,
que todo sem-teto tenha uma casa para morar.
Que os indígenas sejam respeitados nas suas crenças.
Que as fronteiras acabem e as armas caiam no chão.
Que a felicidade venha sobre nós, respeitando toda dor e consolando toda lágrima, porque felicidade de verdade só é possível sob a bênção da comunhão.
Amém, axé, e o que de mais universal existe: amor.

Macapá Cinderela

Macapá Cinderela
Aracy Mont’Alverne

Nesta singela narração,
Fiz um poema de uma história,
Fazendo a comparação
De uma cidade humilde
Do interior do Brasil
Como uma pobre menina
Que de repente tornou-se
Muito famosa e gentil!

Macapá já foi outrora
Uma menina do mato…
Tão pequena, tão franzina,
Doentia, retraída,
E que vivia esquecida…
Muito pálida e quieta,
Era quase analfabeta…

Mas um dia apareceu
Na linha do seu destino
Um homem forte e bondoso
Que a protegeu e ajudou.
Trabalhador, caridoso,
A menina transformou.
Não sei se alguém o conhece,
Mesmo de nome aqui,
Esse de quem vos falo,
É o Coronel Janary!

Hoje a menina está moça
E ainda está crescendo,
Já é por todos notada,
Está se desenvolvendo,
E quando ouve dizer
Com toda admiração,
Que é São Paulo ou Brasília,
Do Brasil Coração
Ela toda ufana diz: –
“Eu também sou importante,
Sou a cabeça do país!”

Vive feliz, tem de tudo,
Cresceu muito, ficou forte,
É a CINDERELA DO NORTE!
Tem saúde, tem escolas
Para se aperfeiçoar,
Tem ouro e joias bonitas…
Até não usa mais chita!
Vem gente lá de outras terras
Aos grupos, lhe visitar,
É gentil, não é orgulhosa,
A todos sabe tratar
E na terra onde vive
Sob o sol do Equador,
Não teme o frio intenso
E nem morre de calor!

É morena, é tão formosa,
Educou-se, está famosa,
É das dez mais elegantes
Do lindo Brasil gigante…
É tão bonita e gentil!…
E querem saber de uma?
– Macapá está pensando
Que já vai se preparando
Para ser MISS… BRASIL!

Balada para fazer recomeços

Balada para fazer recomeços
Luiz Jorge Ferreira*

Meu coração é louco.
Eu sou destro, ele é canhoto.
Olha sempre para o alto, é míope, mas quer enxergar Andrômeda.
Domingo diz que vai estar em Janeiro.
Eu sou Julho.

Meu coração é cabisbaixo quando recorda do passado.
Anunciou aos muros em ruínas que tem uma máquina do tempo.
E jorra sangue para meu cérebro.
Para que eu enxergue a alma.
Ama as Músicas das outras décadas.
Dança sozinho quando eu me aproximo do espelho.

Meu coração é louco.
Já criou Deuses, já desceu ladeiras, já fez monólogos, para pulgas Norte-americanas, falado em Esperanto.

Hoje me pregou uma peça…quis sair de mim
batendo descompassado,ao Som de uma Canção do Jards Macalé.

Onde vais?…perguntei.
Gritei …Quo Vadis.
Em latim.
…se tu fores de mim.

Nunca mais eu serei eu. Ameacei gritando aos ventos que sacudiam as venezianas.
Ele riu…e voltou…escondendo um par de Asas, que só me mostrou quando choveu sal em Outubro.

(Fonte: Blog De Rocha)

*Luiz Jorge Ferreira é poeta, cronista, contista, escritor e médico Tem vários livros publicados e faz parte  da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (Sobrames). Nasceu no Pará, mas viveu a infância e juventude em Macapá. Há muitos anos reside em São Paulo

Eu e a brisa

Eu e a brisa
José Inácio Vieira de Melo*

Eu dizia à brisa:
traz tua água aos meus lábios,
molha meu corpo com tua fresquidão,
traz para mim toda felicidade possível.

Vem, cativa meu coração
com tua música de ventos
e guarda muitos beijos neste rosto
dourado pelas brasas do sol.

Traz algarobas,
traz em teu galope o sabor da chuva,
e faz as goteiras cantarem
e veste de perfume as areias.

E a brisa me dizia:
está tudo anotado, tudo desenhado,
agora, é só tatuar!

*José Inácio Vieira de Melo é jornalista, poeta e produtor cultural. É coordenador e curador de importantes eventos culturais. Tem dezenas de livros publicados e poemas traduzidos para vários idiomas.
Nascido em Alagoas, ele mora há alguns anos na Bahia

Um poema de Cora Coralina

Ofertas de Aninha (Aos Moços)
Cora Coralina (1889-1985)

Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.

Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.

Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências do presente.

Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Chá da tarde – Um poema de J.G. De Araújo Jorge

LIBERDADE
J.G. De Araújo Jorge
(20/05/1914 — 27/01/1987)

A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
como os caminhos soltos pela terra,
como os pássaros livres pelos céus.

Ela é o sol dos caminhos ! Ela é o ar
que os enche os pulmões, é o movimento,
traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento.

Minha crença, meu Deus, minha bandeira,
razão mesma de ser do meu destino,
há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino.

Liberdade: Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas,
há de ferir-me os pés pelos caminhos.

Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, – que importa?
Quero viver por esse ideal lutando,
quero morrer se essa utopia é morta !

Os reis magos – Olavo Bilac

Os reis magos

Olavo Bilac

Diz a Sagrada Escritura
Que, quando Jesus nasceu,
No céu, fulgurante e pura,
Uma estrela apareceu.
Estrela nova … Brilhava
Mais do que as outras; porém
Caminhava, caminhava
Para os lados de Belém.
Avistando-a, os três Reis Magos
Disseram: “Nasceu Jesus!”
Olharam-na com afagos,
Seguiram a sua luz.
E foram andando, andando,
Dia e noite a caminhar;
Viam a estrela brilhando,
sempre o caminho a indicar.
Ora, dos três caminhantes,
Dois eram brancos: o sol
Não lhes tisnara os semblantes
Tão claros como o arrebol
Era o terceiro somente
Escuro de fazer dó …
Os outros iam na frente;
Ele ia afastado e só.
Nascera assim negro, e tinha
A cor da noite na tez :
Por isso tão triste vinha …
Era o mais feio dos três !
Andaram. E, um belo dia,
Da jornada o fim chegou;
E, sobre uma estrebaria,
A estrela errante parou.
E os Magos viram que, ao fundo
Do presépio, vendo-os vir,
O Salvador deste mundo
Estava, lindo, a sorrir
Ajoelharam-se, rezaram
Humildes, postos no chão;
E ao Deus-Menino beijaram
A alva e pequenina mão.
E Jesus os contemplava
A todos com o mesmo amor,
Porque, olhando-os, não olhava
A diferença da cor …