Chá da tarde

Definição
Paulo Mendes Campos

O tempo não é a fonte
jorrando dois jatos d’água
de uma carranca bifronte.

Não é pesado nem leve
Não é alto nem rasteiro
Não é longo nem é breve.

Nem tampouco o passadiço
suspenso entre dois vazios
como frágil compromisso.

O tempo é meu alimento
Meu vestido, meu espaço
Meu olhar, meu pensamento.

Eu não vou perturbar a paz

EU NÃO VOU PERTURBAR A PAZ
Manoel de Barros

De tarde um homem tem esperanças.
Está sozinho, possui um banco.
De tarde um homem sorri.
Se eu me sentasse a seu lado
saberia de seus mistérios
ouviria até sua respiração leve.
Se eu me sentasse a seu lado
descobriria o sinistro
ou doce alento da vida
que move suas pernas e braços.

Mas, ah! eu não vou perturbar
a paz que ele depôs
na praça, quieto.

Bom dia!

Explicação

Vivo do ato de escrever
sobre tragédias
e espetáculos
sobre o candidato vitorioso
e o derrotado
sobre o deputado corrupto
e o governante que finge ser honesto
sobre a exportação da mandioca
e a importação da farinha
sobre a fome
e a riqueza
sobre o real
e o dólar.
Perdoa-me, Anjo,
não sobrou tempo
para escrever
um poema de amor.
(Alcinéa)

Razão de ser

Razão de ser
Paulo Leminski

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

Poema de domingo

Diário de bordo
Jaci Rocha
De conversar com as nuvens
e com o vento frio de março
Parti! Com minhas asas e cactos
Tudo o mais deixei para trás …

Debaixo do braço
trouxe ainda meu caderno de versos
E um pequeno dicionário
De onde rabisquei certos significados…

Vou à procura de absurdos,
Aventurar no fantástico do mundo
Criar um diário de bordo
E cada dia, conhecer algo novo…

ah! vou juntar-me às andorinhas
e perder o medo de avião
Navegar pelos mares de maio
E em setembro conhecer o verão!

Jaci Rocha – que inclusive está de aniversário hoje – , é advogada e poeta. Seus poemas são de uma leveza impressionante. Para conhecer mais e se encantar  visite o blog A Lua não dorme (clique aqui), onde Jaci publica poemas seus e de outros autores e belas imagens

Faz escuro mas eu canto

Faz escuro mas eu canto
Thiago de Mello

Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
vai ser lindo ouvir o povo cantar
Vale a pena não dormir para esperar,
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada vem o sol quero alegria.
Que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado defendendo o
coração.
Vem comigo, multidão, trabalhar pela alegria
que amanhã é outro dia.

Ah, virose meretriz – Por Juraci Siqueira

Meu poetamigo Juraci Siqueira foi derrubado pela virose. Ele, que tudo transforma em poesia, mesmo de cama  rede  pegou papel e caneta e fez hoje essa:

AH!, VIROSE MERETRIZ!
(Antonio Juraci Siqueira)

Ela levou-me pra cama
e fez comigo o que quis!…
Meu corpo doi, posto em chama…
Ah!, virose meretriz!

Dor no peito, na garganta,
catarreira, calafrio…
O boto já não levanta
nem pra se banhar no rio!…

Dor nas costas, tosse braba,
olho ardido e coisa e tal…
Se a virose não acaba,
eu acabo no hospital!…

Prazer, sou Maria

Prazer, sou Maria

Dá licença, seu moço,
que eu agora vou me apresentar:
Sou Maria,
mulher guerreira,
não puxo briga
mas não corro de bicho-papão
nem tenho medo de coroné metido em fardão.


Sou Maria,
mulher simples e humilde
mas tenho alguns tesouros.
Não sou dona do mar
mas conheço os segredos da floresta
e marimbondo de fogo não vai me ferrar.


Sou Maria,
mulher poeta e jornalista.
De noite escrevo versos,
de dia escrevo notícia.
Minha caneta é liberdade
a consciência o meu guia.
Sou doce, mas valente,
nem tente me calar
pois não tenho medo da sua gente.


Me ajoelho só pra Deus.
Santo e poeta eu olho com o coração
e político da tua laia
eu olho de cima pro chão.


Pra quem é do bem
eu digo: “Vem comigo, amor”
Pra quem é do mal
eu só sei dizer “Xô”.


Encerro minha apresentação
te fazendo um pedido:
Fica lá no teu quadrado
deixa em paz o povo tucuju
ou eu viro Maria mal-educada
e te mando…

(Alcinéa Cavalcante)

Um domingo assim

DOMINGO

Eu preciso de uma manhã
dourada de domingo
para sair por aí
assoviando numa bicicleta azul.

Eu preciso de uma tarde de domingo
enfeitada com arco-íris
para atar uma rede na varanda
e embalar meus sonhos
lendo Quintana
e ouvindo Caetano.

Eu preciso de uma noite clara de domingo
para sentar na calçada
desenhar o mapa das estrelas
e jogar conversa fora com os vizinhos.

E depois dormir
feito criança
sem compromisso
para o dia seguinte.
(Alcinéa Cavalcante)