Bom dia!

O que o vento não levou
Mario Quintana

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento…

A um poeta – Olavo Bilac

A um poeta
Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Poesia – Drummond

Poesia
Carlos Drummond de Andrade

Gastei uma hora pensando um verso
que a caneta não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Um poema de Márcia Luz

Paradoxo
Márcia Luz*

Nossos olhos se cruzaram
através de uma grade
Tivemos a opção da escolha
que liberdade ela nos trouxe
Ali decidimos nosso destino,
dançamos, roçamos nossos corpos,
unimos nossos rostos, levemente nos beijamos,
rodopiamos no salão,
sentimos a respiração suave um do outro
e fomos aplaudidos
A grade que aprisiona é a mesma que liberta
Que paradoxo
O mar foi testemunha da nossa alegria de viver
O céu cúmplice de um amor que lutava para chegar
A brisa, responsável pelos afagos, beijos e amassos
O 114 foi o Artigo do Código do Amor
que nos levou ao êxtase completo
Aprendemos novos valores,
nova maneira de viver e amar
Que paradoxo
A grade que nos libertou na escolha
nos prendeu no Amor
Pois tudo ficou tatuado na Alma.

*A poetisa Márcia Regina dos Reis Luz  (foto)nasceu em Caxias/Maranhão. É formada em Letras, pela UEMA – Universidade Estadual do Maranhão e Direito, pelo UNICEUMA – Universidade Ceuma.
Tem obras premiadas, inclusive com participação em Coletânea, com a poesia UTOPIA; SERÁ AMOR fez parte do concurso literário; TRAÍ-ME, teve a 2ª colocação no Concurso Literário de Contos e Poesias; SAUDADES, fez parte do Festival de Poesias promovido pelo Departamento de LETRAS do UNICEUMA; LASCÍVIA fez parte do 18º Festival de Poesias promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA – Universidade Federal do Maranhão; PARADOXO fez parte do 19º Festival de Poesias promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA.
Atualmente está se dedicando ao livro de poesias que pretende lançar, brevemente.
Adora ler, escrever e ouvir músicas, apreciando todos os gêneros musicais.

Verdade

VERDADE
(Carlos Drummond de Andrade)
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Amar e ser amado

Amar e ser amado
Castro Alves

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz… que pensamento!

Sem Mandamentos

Sem Mandamentos
Osvaldo Montenegro

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
de rostos serenos, de palavras soltas,
eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol.
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí.
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz.
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer.
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer serenata na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração.
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
para escrever a música sem pretensão
eu quero que as buzinas toquem flauta doce
e que triunfe a força da imaginação.

Chá da tarde

Dedução
Maiakóvski

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

Chá da tarde

Tão-somente as reticências
Acyr Castro

Há que evitar a lentidão do meio da semana.
Fugir da nostalgia. Esquecer dores e ais.
Não pensar na tristeza nem na estrela lá no alto.
Ler nos jornais apenas a boa nova,
o obsoleto, o que não fere mais.
Nada de exumar melancolias ou saudades;
ficar ao léu, afastado vento.

Permitir da vida só as reticências.
E matizar o vácuo, distante do lembrar.
Fazer do pensar tão-só uma sonata,
sem remorsos.
A solidão uma jornada a olvidar
e, passageira, a escrever.