Chá da tarde

Tão-somente as reticências
Acyr Castro

Há que evitar a lentidão do meio da semana.
Fugir da nostalgia. Esquecer dores e ais.
Não pensar na tristeza nem na estrela lá no alto.
Ler nos jornais apenas a boa nova,
o obsoleto, o que não fere mais.
Nada de exumar melancolias ou saudades;
ficar ao léu, afastado vento.

Permitir da vida só as reticências.
E matizar o vácuo, distante do lembrar.
Fazer do pensar tão-só uma sonata,
sem remorsos.
A solidão uma jornada a olvidar
e, passageira, a escrever.

Um poema de Drummond

Ausência
Carlos Drummond de Andrade

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Amar e ser amado

Amar e ser amado
Castro Alves

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz… que pensamento!

Chá da tarde – Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me
Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesse toda nos teus braços…
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Chá da tarde – Uma lembrança de Verão

Uma lembrança de Verão
Val-André Mutran

Se um dia pudesse voltar no tempo…
Ouviria que seja por encanto o sussurrar do vento.
Leria muito mais Pablo e Spinoza à fórmulas de Kent.

Se um dia me fosse permitido olhar o tempo…
Repararia o corpo perfeito dos bem acabados ateus
que não reparam santos, pois, movem-se como Deuses.

Se um dia me fosse concedido ouvir o tempo…
Calaria, circunspecto, ouvir Callas após o Ato final.

Assobiaria besteiras para espantar a sina.

Se alguma vez conhecesse o encanto…
Confraria um trato: o de adiar a fome, aviltar a vontade,
esquecer a dor, levitar no agora;
encantar-me com a noite: perder-me de amor pelo dia.
Se apesar de tudo e só peço haja não me for permitido…

Que a morte venha tântrica, semântica, pois é tempo de trabalho
Muitos me esperam
Poucos me verão…
…No Inverno.

(Val-André Mutran, poeta e jornalista paraense, há vários anos residindo em Brasília)

Chá da tarde – O pão de cada dia

O pão de cada dia
Thiago de Mello

Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção construída no trabalho
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.

Será?

“Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como
a água bebida na concha das mãos?”
(Mario Quintana)

Poética

Poética
Francisco Dantas

Meu bem-querer,
não te assustes.
Eu sou teu anjo:
sem asas
sem auréola
sem curriculum vitae
e sem santidades.

Sou humano e mortal,
determinado, porém,
a velar por ti
com toda a força
dos sentimentos
dos meus versos.

Cantiga para Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana
Paulo Mendes Campos

Sei lá porque eu canto!
Nem sei se é canto… ou espanto…
Talvez cante sem querer…
Talvez pra ver… ou não ver…
Ou viver… ou reviver…
– Eu não tenho o que fazer.