Versos íntimos – Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Vem comigo!

Vem comigo!
Vamos sair por aí plantando alegrias.
Traz um pincel, eu levo a tinta
e pintaremos de verde-esperança
todas as venezianas daquela ruazinha
por onde tantas vezes
passeamos de corações dados.

Vem comigo!
Vamos plantar dálias, rosas e poesias na velha praça
onde dividíamos algodão-doce no arraial do padroeiro.
Naquele tempo a infância era tão doce
e a gente tinha medo de pecar.

Vem comigo!
Vamos plantar papoulas vermelhas e amarelas
nos canteiros da ladeira
para enfeitar a cidade
e alegrar  os passantes.

Depois – cansados e felizes – tomaremos um sorvete.
Eu te darei um beijo sabor tucumã
tu retribuirás com um beijo sabor açaí.

E o Anjo que nos acompanha
ficará cheinho de ciúme e disfarçando dará de asas
(tu sabes, poeta, os anjos nunca dão de ombros)
mas Deus sorrirá e acenderá estrelas na nossa estrada.

(Alcinéa Cavalcante)

Chá da tarde

A impertinência do celular
Sebastião Cunha

Na ternura do inesperado encontro
te aninho em meu ombro
e começo a te beijar,
recobrando o tempo perdido,
e o distanciamento sofrido…
Mas aí toca o teu celular.
Uma, duas, muitas vezes, com insistência,
em intervalos perversamente regular.
Mas, num gesto de impaciência
e um sorriso maroto,
desligas o celular.

Um poema de Paulo Leminski

Razão de ser
Paulo Leminski

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

(Do  livro ‘Melhores Poemas de Paulo Leminski’, organização de Fred Góes, editora Global)

Despedida – Ferreira Gullar

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

(Extraído do livro “Barulhos”, que reúne a produção poética de Ferreira Gullar entre 1980 e 1987)

Sem mandamentos

Sem Mandamentos
(Osvaldo Montenegro)

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
de rostos serenos, de palavras soltas,
eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol.
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí.
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz.
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer.
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer serenata na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração.
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
para escrever a música sem pretensão
eu quero que as buzinas toquem flauta doce
e que triunfe a força da imaginação.

Poeminha em noite de superlua

Poeminha em noite de super lua

Vamos namorar na praça, meu bem,
aproveitando este luar que se derrama sobre a cidade.
Abraçados contaremos história do espaço sideral
e embarcaremos numa nave brilhante
que nos espera no centro da praça.

Trocaremos juras de amor entre as estrelas
E lá do alto veremos a Terra
como um imenso bolo confeitado com anelina azul-ternura.

Vamos namorar na praça, meu bem,
e embarcar na nave brilhante
que pousará na superlua
onde com um lápis mágico faremos um desenho.

Já pensou, meu bem, na surpresa dos astronautas
quando virem na lua um coração com nossos nomes dentro?

(Alcinéa Cavalcante)

Via Láctea – Olavo Bilac

Via Láctea
(Olavo Bilac)

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”