Chá da tarde – Se tu viesses ver-me

Se tu viesses ver-me
Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesse toda nos teus braços…
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

Chá da tarde – Uma lembrança de Verão

Uma lembrança de Verão
Val-André Mutran

Se um dia pudesse voltar no tempo…
Ouviria que seja por encanto o sussurrar do vento.
Leria muito mais Pablo e Spinoza à fórmulas de Kent.

Se um dia me fosse permitido olhar o tempo…
Repararia o corpo perfeito dos bem acabados ateus
que não reparam santos, pois, movem-se como Deuses.

Se um dia me fosse concedido ouvir o tempo…
Calaria, circunspecto, ouvir Callas após o Ato final.

Assobiaria besteiras para espantar a sina.

Se alguma vez conhecesse o encanto…
Confraria um trato: o de adiar a fome, aviltar a vontade,
esquecer a dor, levitar no agora;
encantar-me com a noite: perder-me de amor pelo dia.
Se apesar de tudo e só peço haja não me for permitido…

Que a morte venha tântrica, semântica, pois é tempo de trabalho
Muitos me esperam
Poucos me verão…
…No Inverno.

(Val-André Mutran, poeta e jornalista paraense, há vários anos residindo em Brasília)

Chá da tarde – O pão de cada dia

O pão de cada dia
Thiago de Mello

Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção construída no trabalho
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.

Será?

“Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como
a água bebida na concha das mãos?”
(Mario Quintana)

Poética

Poética
Francisco Dantas

Meu bem-querer,
não te assustes.
Eu sou teu anjo:
sem asas
sem auréola
sem curriculum vitae
e sem santidades.

Sou humano e mortal,
determinado, porém,
a velar por ti
com toda a força
dos sentimentos
dos meus versos.

Cantiga para Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana
Paulo Mendes Campos

Sei lá porque eu canto!
Nem sei se é canto… ou espanto…
Talvez cante sem querer…
Talvez pra ver… ou não ver…
Ou viver… ou reviver…
– Eu não tenho o que fazer.

Madrigal

Madrigal
Manuel Bandeira

A luz do sol bate na lua…
Bate na lua, cai no mar…
Do mar ascende à face tua,
vem reluzir em teu olhar…

E olhas nos olhos solitários,
nos olhos que são teus… É assim
que eu sinto em êxtases lunários
a luz do sol cantar em mim…

Com licença poética – Adélia Prado

Um poema de Moraes Moreira

Sombra
Moraes Moreira

Nem tudo aquilo que assombra
À escuridão nos reduz
Ouvi dizer que onde há sombra
É certo que haverá luz

Iluminar esses cantos
Será o nosso desejo
Pra revelar os encantos
Daquilo que eu nunca vejo

E mesmo que a sujeição
Se torne um mal que não fito
Teremos sim afeição
Pra combater o neófito

Apesar da nossa sede
Nesses momentos de dor
Fique reparando a rede
Não vai pro mar pescador