Bom dia com poesia

Procura

Eu estava lá quando o sol
jogou sorrisos dourados no rio-mar.

Eu ainda estava lá
quando uma estrela riscou o céu
e um pescador apanhou uma estrela do mar.

Por testemunha tenho um bem-te-vi
que bem me viu
quando as andorinhas bailavam no ar.

Quis fundir ouro com prata,
estrela cadente com estrela do mar
e cantar um canto novo
para sair bailando contigo.
Mas
tu não estavas lá.
(Alcinéa Cavalcante)

Tem pato na corda!

TEM PATO NA CORDA!
Antonio Juraci Siqueira

Minha terra tem mangueiras,
maniçoba e tacacá,
os patos que aqui patetam,
não patetam como lá!
E nessa arena de corda
todo pato passará
porque, neste mundo ingrato,
quem ainda não foi pato,
na certa, um dia, será!

Em Belém, no mês de outubro,
não há festança mais bela!
Vem pato do mundo inteiro
para cair na esparrela!
De pato o Círio transborda:
tem mais pato junto à Corda
do que dentro da panela.

Há patos pra todo gosto,
disso nem pato discorda.
Além do pato do Círio
que tantos patos engorda,
tem o pato marionete
que só levanta o topete
se outro pato puxa a corda.

Existe o pato mané
que só entra em bonde errado
porque vive dando bola
a qualquer papo furado.
Acredita em curupira,
boiuna, boto encantado…
Com tudo o mané concorda
e está sempre indo na corda
de político safado.

Há outro tipo de pato
que cultiva a malandragem:
não tem onde cair morto
mas se diz de alta linhagem.
Vive no fundo do poço
com a corda no pescoço
e ainda conta vantagem.

Tem o pato prepotente,
sujeito mal-encarado,
que alardeia aos quatro ventos
nunca ter sido enganado.
Porém o grande barato
é que não se achando pato
torna-se pato ao quadrado.

Do ninho de uma serpente
veio ao mundo um tipo novo:
esse bicho diferente
com tentáculos de polvo
é, na verdade, o anti-pato
que se esconde num mandato
só para enganar o povo!

E eu, por viver entre patos,
pato também me tornei
mas na corda dos meus versos
outros patos apanhei.
Arrimado em minha pena
faço a minha própria lei
sem responder por meus atos
porque na terra de patos
quem posa de cisne, é rei!

E tenho dito!
(Do livro: “Os Versos Sacânicos II “)

Meio-dia

MEIO-DIA
Para onde vai
esse menino de andar tristonho
com uma camisa verde desbotada amarrada na cabeça?
Ele não caminha em direção ao sol.
Caminha sob o sol.
O sol queima.
O asfalto queima.
As lágrimas queimam.
Para proteger a cabeça tem uma camisa verde desbotada.
Para proteger os pés um par de tênis surrado.
Mas quem – ou o que – pode protegê-lo da tristeza que aflige seu coração
e se derrama em lágrimas queimando sua face?
(Alcinéa Cavalcante)

Razão de ser – Paulo Leminski

Razão de ser
Paulo Leminski

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

(Do livro ‘Melhores Poemas de Paulo Leminski’, organização de Fred Góes, editora Global)

Olhares – Conceição Maciel

Olhares
Conceição Maciel*

Olhares em chamas,
Em ardentes promessas,
De prazeres implícitos.

Olhares que seguem,
Perseguem sonhos,
Corações feridos.

Olhares que se entregam,
Às promessas e juras
Desejos proibidos.

Olhares que magoam,
Decepções sofridas,
Promessas não cumpridas.

Olhares que se vão,
Despedidas que machucam,
Amores perdidos.
(Poesia publicada na antologia da CBJE- Câmara Brasileira de Jovens Escritores)

*Conceição Maciel é membro da Academia Capanemense de Letras e Artes (ACLA)

O Auto-retrato

Hoje 113 anos do nascimento do poeta Mario Quintana

O AUTO-RETRATO
Mario Quintana (1906-1994)

No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
as coisas que não existem
mas um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

(Do livro “Apontamentos de História Sobrenatural”, lançado em 1976)

No dia 31 de julho de 1906 nascia em Alegrete (RS) o poeta Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana
Paulo Mendes Campos

Sei lá porque eu canto!
Nem sei se é canto… ou espanto…
Talvez cante sem querer…
Talvez pra ver… ou não ver…
Ou viver… ou reviver…
– Eu não tenho o que fazer!

No caminho com Maiakóvski

No Caminho Com Maiakóvski
Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

Um poema de Mario Quintana

O AUTO-RETRATO
Mario Quintana

No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
as coisas que não existem
mas um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

(Do livro “Apontamentos de História Sobrenatural”, lançado em 1976)