Um poema de Márcia Luz

Paradoxo
Márcia Luz*

Nossos olhos se cruzaram
através de uma grade
Tivemos a opção da escolha
que liberdade ela nos trouxe
Ali decidimos nosso destino,
dançamos, roçamos nossos corpos,
unimos nossos rostos, levemente nos beijamos,
rodopiamos no salão,
sentimos a respiração suave um do outro
e fomos aplaudidos
A grade que aprisiona é a mesma que liberta
Que paradoxo
O mar foi testemunha da nossa alegria de viver
O céu cúmplice de um amor que lutava para chegar
A brisa, responsável pelos afagos, beijos e amassos
O 114 foi o Artigo do Código do Amor
que nos levou ao êxtase completo
Aprendemos novos valores,
nova maneira de viver e amar
Que paradoxo
A grade que nos libertou na escolha
nos prendeu no Amor
Pois tudo ficou tatuado na Alma.

*A poetisa Márcia Regina dos Reis Luz  (foto)nasceu em Caxias/Maranhão. É formada em Letras, pela UEMA – Universidade Estadual do Maranhão e Direito, pelo UNICEUMA – Universidade Ceuma.
Tem obras premiadas, inclusive com participação em Coletânea, com a poesia UTOPIA; SERÁ AMOR fez parte do concurso literário; TRAÍ-ME, teve a 2ª colocação no Concurso Literário de Contos e Poesias; SAUDADES, fez parte do Festival de Poesias promovido pelo Departamento de LETRAS do UNICEUMA; LASCÍVIA fez parte do 18º Festival de Poesias promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA – Universidade Federal do Maranhão; PARADOXO fez parte do 19º Festival de Poesias promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da UFMA.
Atualmente está se dedicando ao livro de poesias que pretende lançar, brevemente.
Adora ler, escrever e ouvir músicas, apreciando todos os gêneros musicais.

Verdade

VERDADE
(Carlos Drummond de Andrade)
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Amar e ser amado

Amar e ser amado
Castro Alves

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz… que pensamento!

Sem Mandamentos

Sem Mandamentos
Osvaldo Montenegro

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
de rostos serenos, de palavras soltas,
eu quero a rua toda parecendo louca
com gente gritando e se abraçando ao sol.
Hoje eu quero ver a bola da criança livre
quero ver os sonhos todos nas janelas
quero ver vocês andando por aí.
Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
eu até desculpo o que você falou
eu quero ver meu coração no seu sorriso
e no olho da tarde a primeira luz.
Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
eu quero um carnaval no engarrafamento
e que dez mil estrelas vão riscando o céu
buscando a sua casa no amanhecer.
Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
rasgar a noite escura como um lampião
eu vou fazer serenata na sua calçada
eu vou fazer misérias no seu coração.
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
para escrever a música sem pretensão
eu quero que as buzinas toquem flauta doce
e que triunfe a força da imaginação.

Chá da tarde

Dedução
Maiakóvski

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.

Chá da tarde

Tão-somente as reticências
Acyr Castro

Há que evitar a lentidão do meio da semana.
Fugir da nostalgia. Esquecer dores e ais.
Não pensar na tristeza nem na estrela lá no alto.
Ler nos jornais apenas a boa nova,
o obsoleto, o que não fere mais.
Nada de exumar melancolias ou saudades;
ficar ao léu, afastado vento.

Permitir da vida só as reticências.
E matizar o vácuo, distante do lembrar.
Fazer do pensar tão-só uma sonata,
sem remorsos.
A solidão uma jornada a olvidar
e, passageira, a escrever.

Cantiga para Mario Quintana

Cantiga para Mario Quintana
Paulo Mendes Campos

Sei lá porque eu canto!
Nem sei se é canto… ou espanto…
Talvez cante sem querer…
Talvez pra ver… ou não ver…
Ou viver… ou reviver…
– Eu não tenho o que fazer!

O anel de vidro

O anel de vidro
(Manuel Bandeira)

Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
-Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.

Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…

Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo na alma a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…

Sábado de poesia, afeto e amigos

O sábado foi de poesia ternurando a tarde de céu azulzinho e espalhando lirismo na noite enfeitada por uma Lua Cheia e pelo planeta Marte.
Um belíssimo sarau, com poetas amapaenses e paraenses, foi realizado na Biblioteca Pública Elcy Lacerda e continuou no pátio da minha casa.
Presença ilustre do poeta Antônio Juraci Siqueira, considerado um dos maiores trovadores do Brasil e autor de mais de cem livros.