Dezembro – José Inácio Vieira de Melo 

Dezembro
José Inácio Vieira de Melo 

Dezembro chega
tocando sanfona,
trazendo esperança
para esta criança
abandonada.

Dezembro chega
e a vida é um arco
que me arremessa,
flecha de fogo,
rumo às aguas.
Dezembro chega
e eu sou um peixe
nadando nas brasas
até criar asas
e ser faísca de pássaro.
Dezembro chega
e eu, louco de amor,
louvo o Menino Deus,
e ele passa unguento
nas minhas chagas.
Dezembro chega
e eu pego a estrada,
vou ao meu país,
vou ver meus pais,
terra sagrada dos Kariris.
Dezembro chega
tocando sanfona,
é Luiz Gonzaga
louvando Jesus
em todas as plagas.

Hoje teve poesia na Justiça Federal

Hoje a manhã foi repleta de lirismo e poesia na Justiça Federal no Amapá.
O Movimento Poesia na Boca da Noite estendeu lá o Pano da Poesia e encantou estudantes, autoridades e servidores com belíssimas declamações de autoria de poetas amapaenses.

Poeta Arilson, bibliotecária Gilvana, poetas Raquel Braga, Adélia Figueiredo, Ricardo Pontes e Wilson

Foi um momento mágico.Além das declamações, teve varal de poesias, sorteio de livros de autores amapaenses e distribuição de chocolates com trechos de poemas.O Movimento Poesia na Boca da Noite agradece o convite feito pela Justiça Federal, a forma como foi tratado e como tudo foi muito bem organizado e se coloca à disposição sempre que a Justiça Federal quiser e puder repetir estes momentos.

Esboço – Luiz Jorge Ferreira

Esboço
Luiz Jorge Ferreira

Era um tempo mágico em que se acreditava em sonhos.
O amanhã nasce
Na verdade eu o retiro do bolso sob as luzes do candeeiro amarelado
Que desenha com suas sombras encharcadas de fuligem
Quadriláteros sucessivos como faces risonhas
Ou ensaios de estranhos choros calados.

Tudo nos conduz a um tempo de pisadas fortes no corredor
O tempo acorda o menino que a vida não acordou
Sob a réstia de luz que se projeta preguiçosamente entre anos deixados para trás, o pai olha absorto que seus projetos expostos se descubram sonolentos.
Enquanto a vida lá fora rebelde como um bravio potro, galopa pelas esquinas, sem se ater aos Semáforos, pois voar não é sua sina, mas preferia que fosse…

Um poema de Luiz Jorge Ferreira

Reflexo
Luiz Jorge Ferreira

Vamos passar no Ontem
Vista sua calça Jeans, a mais desbotada, aquela com que você se sentou várias vezes na calçada, para falarmos de um amanhã, que hoje, Ontem já é.

Noutro dia uma chuva fininha ensopou meus olhos, enquanto uma saudade sua tomou minhas mãos e levou-me ao quintal onde sob o voo desajeitado dos Zangões que atabalhoadamente circularam o Sol.

Minh ‘alma sentada jogava cartas com o espelho.
Os grafites no muro da Igreja sem sons de sino.
Testemunhas são que eu procuro caminhos entre as minhas digitais.
Que enfileiro manhãs e lhes jogo o Sol das lágrimas que sequei chorando por mim.
Sob os passos tortos e ímpares.
No chão os passos que eram sombras, agora são
rumos cicatrizados…
Poderiam me levar ao passado.
Poderiam me fazer dançar Tangos e Fados, inúteis vezes, diversas vezes, em vários recomeços, inumeráveis vezes, ilusionamente só.

Dois poemas de Ferreira Gullar

Tela – Aluízio Botelho da Cunha

TELA
Aluízio Botelho da Cunha

O pincel fixou sombras escuras
nas sobrancelhas da moça
e deu um tom de tardes prematuras
nos olhos claros
da clara judia.
(Também já esbocei olhos e sóis,
subjugando curvas
sobre rosto oblíquo)

Dei traços de luz
em cabelos cor de noite,
e auroras nasceram
do sol ardendo,
houvesse, embora,
eclipse solar.
Se eu modelar, um dia,
novas dimensões da tua presença,
atrairá teu corpo
a lei da gravidade dos sentidos.

(Extraído da antologia Modernos Poetas do Amapa – Macapá-AP, 1960)

Natural – José Queiroz Pastana

Natural
José Queiroz Pastana

Pouco importa
Que teus vestidos
Sejam de cetim
Ou de seda
Que teus dentes
Sejam de ouro
Ou de prata
Que tua cor
Seja branca
Preta
Ou apache
O que importa
É o teu jeito natural
De ser flor do campo
Cheirosa como o jasmim.

Com licença poética – Adélia Prado

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é dobrável. Eu sou.

Motivo – Cecília Meireles

Motivo
Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.