O cabo do machado- Dom José Conti

O cabo do machado
 Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

As velhas árvores da floresta eram muito orgulhosas delas mesmas. Altas, grandiosas, chamavam a atenção dos que passavam e todos as admiravam. Certo dia, chegou um homem que estava precisando de um cabo de madeira forte e do tamanho certo para o seu machado. Por ser muito educado, ele perguntou antes às velhas árvores qual delas devia se sacrificar para conseguir o cabo. Explicou que machado sem cabo não servia para nada. As velhas árvores reuniram o conselho e, depois de muitos ruídos de ramos e mexer de folhas, sentenciaram que o homem devia cortar uma jovem árvore lá à margem da mata. O homem foi lá, cortou a pequena árvore e, depois de alguns acertos, o cabo de que precisava estava pronto. O homem, feliz da vida e sem pedir mais nada para ninguém, começou a cortar, uma por uma, as velhas árvores. Elas, caídas no chão, perceberam, tarde demais, o erro que tinham cometido. Chorando diziam umas às outras: – Se tivéssemos sabido, teríamos defendido a nossa irmã mais nova.

Vivemos em tempos nos quais se fazem muitas previsões sobre o que pode acontecer. A meteorologia nos diz se vai chover ou se teremos tempo firme. As bolsas de valores projetam o tamanho dos lucros para os investidores nunca perder o seu dinheiro. As pesquisas sobre as intenções de voto, pretendem nos dizem, de antemão, qual será o resultado das eleições. Também Jesus, no evangelho deste domingo parece nos convidar a planejar o futuro da nossa vida. O faz com o exemplo de quem quis construir uma torre, mas calculou errado o material e, por isso, não deu conta de acabar a construção. Será motivo de chacotas. Igualmente, um rei quis partir para a guerra contando com as suas forças para ganhar. Depois, porém, descobriu que o outro exército era mais forte e numeroso. Foi prudente, resolveu desistir e negociar a paz. Será que Jesus quer que sejamos frios calculistas ou negociadores interesseiros? São comparações. Jesus quer que, dito com palavras simples, não passemos vergonha. O que está em jogo não é a construção de uma torre, mas o crescimento do Reino de Deus. Não se trata de vencer uma guerra com armas e soldados, mas de ganhar a luta contra o mal que está dentro e fora de nós. Ele nos convida, simplesmente, a fazer uns cálculos, a pensar bem, para ver se daremos conta ou não da empreitada.

Nesta altura, seria mesmo para ficar desanimados. Quando teremos inteligência e capacidade para construir o Reino da justiça do amor e da paz? Um Reino, este, que é “de Deus” porque deixa vislumbrar já aqui na terra um pouco da perfeição e da plenitude divina. Quando teremos forças para vencer a guerra contra o mal e o pecado em todas as suas formas cada vez mais disfarçadas e sofisticadas? Nunca! É a resposta certa, a não ser que…façamos o que Jesus também nos diz no evangelho deste domingo. Se contamos com pais, mães, mulheres, filhos, se confiamos no dinheiro, nos bens e no poder que temos, juntaremos sim uma numerosa turma, mas estaremos fazendo cálculos inúteis. O único que pode “vencer” o mal e completar a obra que iniciou é ele mesmo, o Senhor Jesus, o crucificado que ressuscitou e venceu a morte. Somente quando deixarmos de contar com as nossas forças, de nos sentirmos capazes, quando entregarmos tudo nas mãos dele, aí sim, algo novo – o Reino de Deus – acontecerá. Tudo será novo. As nossas famílias não serão mais empecilhos ou campos de batalha, mas laboratórios do Reino, na comunhão e na paz. A desistência do nosso orgulho nos fará enxergar as necessidades do outro, nos tornará humildes, capazes de aprender, de recomeçar, de partilhar saberes e alegrias. Os bens materiais, as riquezas da natureza, os frutos da inteligência humana, não serão desprezados, porque são criaturas e dádivas de Deus. Também não serão só explorados, serão usadas para o bem de todos, dos pequenos, dos pobres e famintos. A cruz a ser carregada é aprender a doar a vida, a fazer do amor uma semente de vida nova.

As velhas árvores, calcularam mal e perderam tudo. Nós também, não queremos doar nada e deixamos escapar o tesouro do Reino. Vão rir de nós.

O ganhador

O ganhador
Dom Pedro José Conti –
Bispo de Macapá

Chegou o dia tão esperado dos Jogos da Juventude, uma competição esportiva entre os alunos dos colégios da cidade. João Pedro com os seus 14 anos, alto e for te, sabia que tinha chance de ganhar, na corrida, a prova de velocidade. Mário, seu colega, era, porém, o seu maior adversário. Era mais baixo, mas muito rápido. Os pais dos alunos enchiam as arquibancadas do estádio e torciam por seus filhos. A primeira prova foi dos 200 metros rasos. João Pedro correu bem, passou na frente e ganhou de Mário. Ficou feliz pela medalha e os aplausos. Depois, houve a prova dos 100 metros. João Pedro estava lá para correr e Mário também. De novo, ele partiu bem e estava decididamente na frente, mas, quando faltavam poucos metros para a chegada, parou e deixou a corrida. Assim Mário ganhou. Depois da premiação, os pais de João Pedro lhe perguntaram:
– Por que você fez isso? Teria ganho novamente!
– Certo, mãe, mas eu já tinha uma medalha e Mário nenhuma!< /span>
Palavras bonitas. Foi coisa de adolescente ou gesto singelo de amizade?

O evangelho deste domingo, Lucas nos propõe uma grande lição de humildade de duas formas diferentes. A primeira diz a respeito aos lugares dos convidados numa festa. Naque le tempo, como hoje, quem se achava importante queria, evidentemente, alguma posição de destaque. Queria, de fato, que todos os demais presentes reconhecessem o seu valor. No entanto, Jesus alerta que, num evento, sempre pode chegar alguém ainda mais importante e que os donos da festa lhe peçam para ceder a ele, ou a ela, o primeiro lugar, conforme os critérios mundanos da fama, do sucesso, da riqueza ou da posição social. Nesse caso, com os lugares ocupados pela lógica da ambição, só poderiam ter sobrado as últimas vagas. Seria um rebaixamento vergonhoso para quem se considerava merecedor de atenção. Jesus sugere agir de maneira contrária. Melhor escolher o último lugar, assim, se o dono da festa achar por bem colocar você mais na frente, esse reconhecimento será uma honra. Autoestima é ter consciência do valor e da dignidade própr ia e de cada ser humano; não significa, porém, avaliar-se acima da realidade e, no fundo, ser obcecados pelo orgulho de si mesmo.

Na segunda parte do evangelho, Jesus continua o seu ensinamento. Um belo sinal da humildade verdadeira de uma pessoa aparece quando ela organiza, por exemplo, uma festa. Se convida os amigos r icos, ou somente pessoas importantes, significa que ela também se considera parte desta classe social “superior”. É fácil distribuir honrarias, elogios e favores quando se espera receber de volta tudo o que foi dado. Isso não tem nada a ver com generosidade, simplesmente foi um agradar quem poderá devolver até mais no momento oportuno. Para os seguidores de Jesus deveria ser diferente, eles não devem agir acompanhando os critérios deste mundo. Devem aprender com Deus, que é generoso com todos, e com ele mesmo, Jesus. O discípulo deve agir com gratuidade, sem esperar recompensa. Acontecerá assim somente se convidar para um almoço ou um jantar os pobres, os pequenos, os que nunca terão como lhe dar algo em troca.

Nesse caso, sim, será pura generosidade, porque o amor verdadeiro viaja de mão única. Se esperar algo em troca, terá mais o gosto de interesse que de doaç&at ilde;o. No entanto, o próprio Jesus fala em recompensa. Certo, mas essa “recompensa” não será a curto prazo e nem calculada. Será o prêmio que Deus Pai reservará para os seus “filhos”, ou seja, aqueles que, de alguma forma, mesmo sem saber, doaram algo aos irmãos pela simples e maravilhosa alegria de fazê-los felizes. Humildade, portanto, é acreditar que somos muito amados sem merecer, que já recebemos muito e, por isso, procuramos aprender a doar, ao menos um pouco, do que nos foi derramado com largura no coração. Melhor perder uma medalha e ver o outro sorrir que estufar o nosso peito de orgulho. Uma “derrota” útil, porque se transforma em grande vitória sobre a nossa inútil soberba.  

O furo na parede

O furo na parede
Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Havia uma casa de espessas paredes, construída há muito tempo no alto do monte. Estando isolada não era servida pela rede elétrica. Uma bela manhã, o velho camponês que a habitava, viu subir até a sua propriedade um carro cheio de material.

– Estamos para passar uma linha elétrica pelo planalto. Ela vai ficar perto da sua casa. O senhor gostaria de ser ligado a ela?

– Certamente! Seria maravilhoso! Terei enfim luz todas as noites, corrente para a serra e o torno, as imagens da televisão o dia inteiro!

– Mas as paredes da sua casa são espessas. Teremos que fazer um furo para a linha passar.

– Isso nunca! Vai fazer barulho, encher tudo de poeira! Na minha casa vocês não vão entrar! Não vão mexer nas minhas paredes! E o camponês teimoso, por não aceitar fazer uma brecha em sua carapaça de velhos hábitos, ficou sem luz em sua casa. Preferiu ficar no escuro e no escuro ficou.

Peço desculpa por contar uma historinha boba no domingo no qual encontramos uma das páginas mais lindas e comprometedoras dos evangelhos: a parábola do bom samaritano. A “compaixão” é a brecha que abre o nosso coração e deixa entrar a luz de Deus Amor. Dos três homens que encontraram o desafortunado caído no chão, somente um se deixou envolver, comprometeu-se e gastou do que era seu para ajudar. Somente ele se tornou “próximo” de verdade do ferido. Os outros dois, apesar da sacralidade e respeitabilidade do ofício, passaram adiante. Todos nós sabemos que é muito fácil encontrar desculpas para tentar justificar o nosso coração de pedra. Para muitos, hoje, a “compaixão”. É uma fragilidade sentimental. Para Jesus era só amor ao próximo, sem enfeites ou holofotes, sem tantas leis, verbas, projetos, ONGs e tudo mais. Algo, enfim, ao alcance de todos. Basta um coração amoroso e compassivo. Um coração “humano”, a imagem e semelhança do coração de Deus.

No final do trecho evangélico, ficamos sabendo que o mestre da Lei, que tinha feito a pergunta, entendeu o ensinamento. A ele, e a todos nós, Jesus diz: “Vai e faze a mesma coisa” (Lc10, 37). “Fazer”! A parábola do bom samaritano não é simplesmente um bom conselho ou uma orientação moral, é a exemplificação da identidade do cristão. “A vida eterna” é mais do que um prêmio ou uma herança para o outro mundo, após a nossa morte. Ela é a presença de Deus em nossa vida agora, deve ser a luz que ilumina e dá sentido ao nosso agir no dia a dia. O que virá depois será pura gratuidade de Deus da sua infinita misericórdia e bondade.

Nós, cristãos, tomamos muito a sério o “mandamento” de Jesus: “Fazei isso em minha memória”. Fazemos isso em todas as missas. É a “memória litúrgica” de Jesus à qual deveria corresponder a “memória existencial”, porque não pode ter separação entre o que cremos e celebramos e o que vivemos. Quem tem dupla personalidade está doente. Deve se deixar curar. E a cura vem do outro “mandamento” que Jesus nos deixou também na Última Ceia, antes da sua paixão e morte. No fim do lava-pés, Jesus perguntou aos discípulos se tinham entendido o seu gesto e, à resposta afirmativa deles, disse: “Dei-vos o exemplo, para que também vós façais assim como eu vos fiz” (Jo 13,15). De novo, um “fazer”! A fé cristã é mais que um conjunto de do utrinas e práticas religiosas. É uma maneira de encarar a vida humana com todas as suas belezas e fraquezas, com seus anseios e esperanças, mas também dúvidas e incertezas. Toda escolha traz um risco e revela em que confiamos mesmo. Se nos tornamos próximo dos sofredores é sinal que acreditamos no amor fraterno, que a nossa esperança não está tanto nas coisas e nos bens materiais, mas na possibilidade do coração humano de se tornar como deveria ser, fraterno e não inimigo, solidário e não indiferente. A luz da nossa vida não pode ser o dinheiro ou o último lançamento tecnológico ou a mais badalada diversão, só pode ser a capacidade de amar e fazer o bem a que precisar. Isto é possível a todos, cristãos e não, “homens de bem” e malfeitores. Basta abrir uma brecha. A luz do amor, que é Deus, entrará.

Pode ficar com o troco

Pode ficar com o troco
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Tem coisas que todos sabemos, mas que custamos a reconhecer. Por exemplo: quando nos relacionamentos pessoais e familiares começa a entrar o interesse através da troca de favores ou com promessas de dinheiro, algo quebrou. Este é o testemunho de uma mãe: “Certo dia, de muito calor, na hora da merenda, preparei quatro potinhos de sorvete para os me us filhos. Chamei-os e disse que podiam comprá-los com um abraço. Formaram uma fila. Os três pequenos me deram um aperto rápido e foram embora com o seu sorvete. Voltaram a brincar. Quando chegou o meu filho adolescente, o último da fila, me deu dois abraços. – Pode ficar com o troco – me disse sorrindo. Quase chorei.”
No Domingo da Santíssima Trindade só podemos falar do amor. O Amor grande demais que é o próprio Deus, assim como ele se fez conhecer: Pai, Filho e Espírito Santo, mistério de comunhão perfeita. Mas também, o amor simples, cotidiano, quase corriqueiro, que, sustenta a nossa vida. No fundo, nenhum amor verdadeiro é pequ eno ou inútil. Todo gesto de amor, de doação, de acolhida, é um sinal que o Amor existe, que ainda não foi sufocado pelo egoísmo e sobrevive apesar de tudo. Basta reconhecê-lo, admitir que nos faz falta e não ter medo de oferecê-lo. Todos somos carentes disso e todos podemos doar um pouco de amor sincero. Ser cristãos significa acreditar não somente no Amor de Deus do qual nada pode nos separar (Rm 8,35 ss), mas também na nossa possibilidade de experimentar e comunicar amor.
Na véspera deste domingo teremos algumas ordenações presbiterais em nossa Diocese. Agradeçamos ao Senhor da messe pelos operários que nos envia. Depois, na quinta-feira seguinte, celebraremos a Festa do Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Sairemos em procissão com a Eucaristia pelas ruas das nossas cidades. Para muito s, hoje, aceitar ser padres na Igreja Católica pode parecer uma loucura e uma procissão um resquício folclórico de tempos passados. Não cabem aqui discussões. No entanto, um pouco de razão estes nossos irmãos podem ter, Papa Francisco e eu concordamos. Se um jovem pensa em ser padre para ter uma vida cômoda, se tornar importante e, quem sabe, fazer carreira na Igreja, está totalmente enganado e ficará rapidamente desiludido. Igualmente, se a procissão de Corpus Christi fosse semelhante a uma passeata qualquer e tivesse como finalidade a propaganda, também estaríamos todos muito equivocados. Espero que nada disso passe pela cabeça dos ordenandos e dos organizadores das procissões. Os padres da Igreja Católica, antes de muitas outras tarefas e missões, celebram a Missa, oferecem, para que seja distribuído aos fiéis, o Pão da Palavra e o Pão da Vida que é o próprio Jesus nos sinais que ele mesmo nos deixou para que o fizéssemos em sua memória. Além disso o padre pode dizer a quem pedir perdão: – Os teus pecados estão perdoados. Vá em paz e não peque mais. Como Jesus dizia cheio de compaixão e misericórdia.
Estou misturando tudo, é verdade, mas agora volto à Santíssima Trindade porque, junto com o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, este é o grande mistério de amor do nosso Deus. Quem não acredita que o amor é possível e que amar é o único caminho para a verdadeira alegria , pode continuar a pensar diferente. A fé também, como o amor, só é verdadeira se é gratuita, isto é, buscada, pedida e acolhida como um dom do próprio Deus. Ser padre não é somente a resposta consciente a um chamado, é também um presente precioso que deve ser resguardado para que se torne um dom também para todos, cristãos ou não. Esta é também a lição da Eucaristia. O Corpo dado e o Sangue derramado de Jesus andam juntos com o lava-pés e as palavras do Senhor: “Sabendo isso, sereis felizes se o praticardes” (Jo 13,17). Por isso, não tenho receio a repetir que todo amor verdadeiro é grande e vai junto com a gratuidade. Tem a doçura do afago de um pai, de uma mãe, de um irmão, tem o aperto do abraço de um filho, tem sempre a alegria do coração. Sem troco. Sem nada em troca

‘Mamãe te amo!’- Dom José Conti

‘Mamãe te amo!’
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Uma criança, de mais ou menos dez anos, ia todos os dias à praia e escrevia na areia: “Mamãe te amo!”. Depois olhava as ondas do mar apagar as palavras e corria embora, sorrindo. Um velho, meio triste, passeava também, todos os dias, naquele lugar; via o menino fazer aquilo e pensava: “Que bobagem!” Mas um dia, resolveu aproximar-se dele e lhe disse:

– Não tem sentido você escrever “Mamãe te amo!” na areia, porque depois as ondas apagam tudo cada vez! Por que não diz logo isso para ela? – A criança levantou e respondeu:

– Eu não tenho mais a minha mãe. Deus a levou consigo, como as ondas fazem com as minhas palavras. No entanto, eu volto aqui todos os dias para lembrar a ela e a Deus que não se pode apagar o amor de um filho por a sua mãe. O velho se ajoelhou e, com os olhos molhados de lágrimas, escreveu na areia: “Conceição te amo!”. Era o nome da esposa, falecida havia pouco tempo. Depois, pegou na mão da criança e juntos viram aquelas palavras desaparecer.

Neste Quarto Domingo de Páscoa, temos muitos assuntos para refletir: é o Dia das Mães, mas também o Dia Mundial de Oração pela Vocações e o Domingo do evangelho do Bom Pastor. O evangelista João faz dizer a Jesus que as suas ovelhas o conhecem pela voz. Ele também as conhece todas, e elas o seguem. Poucas coisas revelam a familiaridade entre as pessoas. Uma delas é a voz. Hoje a tecnologia nos permite ver, pelo celular, com quem estamos falando. Ficou ainda melhor. Além da ouvir a voz de quem está do outro lado, podemos ver a expressão do seu rosto. Se não somos atores consumados ou mentirosos profissionais, tudo contribui para nos ajudar na nossa comunicação. Podemos partilhar alegrias e tristezas, lágrimas e consolações, medo e coragem, afagos e… insultos, infelizmente. Parece que estamos perto, também se enormes distâ ncias nos separam. Sempre, porém, tem um segredo, chama-se sinceridade. Por educação, falamos e respondemos a qualquer um, mas a poucos abrimos o nosso coração e com poucos brincamos. Nisso sempre estará a diferença entre aqueles e aquelas que se reconhecem pela voz e os demais. Assim, nesta maneira simples, todos nós sabemos em quem podemos confiar e, também, de quem é melhor… desconfiar.

Se acreditamos nele, a “voz” de Jesus nos chega através das palavras daqueles que nos amam, os nossos pais e amigos; através dos pastores e educadores chamados a acompanhar e guiar o rebanho. A “voz” de Jesus nos chega pelos apelos dos pobres e excluídos. Às vezes são gritos por socorro. São fortes e somos tentados a tampar os ouvidos. Outras vezes, são vozes tão fracas que, se não pararmos para prestar atenção, passam totalmente despercebidas. Por fim, a “voz” de Jesus deveria ecoar em nossas vidas pelas suas Palavras guardadas e transmitidas pela comunidade dos seus amigos e seguidores. É através de todas essas “vozes” que o Senhor continua a nos chamar pelo nome, continua a nos convidar a segui-lo e nos pede uma resposta pessoal, livre, alegre e responsável. Ele não quer um bando de fanáticos que batam palmas a q ualquer suspiro do seu ídolo. Não quer “escravos”, mas amigos, porque não é um patrão cobrador. O Bom Pastor quer pessoas conscientes e felizes de acompanhá-lo até no caminho da cruz, porque sabem o que ele faz e por que (Jo 15,15). Rezemos pelas vocações todas. Precisamos de “bons pastores”, padres, religiosos, religiosas, missionários e missionárias, mas também de bons pais e mães, de profissionais honestos e competentes. Precisamos de políticos e governantes com coração de pastores, comprometidos com o bem comum, com o povo mais humilde, sempre escutando a voz dos pequenos e esquecidos. Nesta altura, penso nas vozes das nossas mães, nos seus conselhos e nas suas orações. Penso nas palavras de bênção delas para os filhos, obedientes e desobedientes, os de perto ou os de longe. Mas penso també m nas suas lágrimas pelos filhos surdos aos apelos delas, às súplicas para que deixem os caminhos errados. O tempo pode apagar as palavras, mas não o amor. Igualmente, sempre seremos ovelhas amadas pelo Bom Pastor.

A aprovação da PEC do Orçamento Impositivo e o fim do complexo de pires na mão

A aprovação da PEC do Orçamento Impositivo e o fim do complexo de pires na mão
Por Simone Palheta

O Senado aprovou em dois turnos a PEC 34/2019, conhecida como PEC do Orçamento Impositivo, que prevê a obrigatoriedade da execução das emendas de bancadas por parte do Executivo.

Cabe lembrar que desde 2015 as emendas individuais já faziam parte do que se chama “Orçamento Impositivo”, ou seja, de execução obrigatória, com fundamento na EC 86/2015.

A proposta aprovada, que ainda segue para Câmara dos Deputados, caminha como mais um passo na independência do Poder Legislativo para com o Executivo no que diz respeito à aplicação do orçamento.

Não é difícil puxar à memória histórias e “causos” de parlamentares que tinham que pegar chá de cadeira e fazer acordos em ministérios para terem suas emendas liberadas. Laurentino Gomes retrata histórias de casos onde parlamentares tinham que agradar o Rei para obterem seus favores.Tal fragilidade fazia com que o Governo Federal tivesse um controle dos parlamentares, pressionando-os a apoiar pautas governistas. O resultado disso foi por muito tempo uma oposição tacanha e intimidada.

Com a aprovação, as Emendas de Bancada, que são aquelas emendas decididas em conjuntos pelos parlamentares, como aconteceu por exemplo com o Hospital Universitário, passam a ser de execução obrigatória, impedindo que o Executivo use a autorização para intimidar o Legislativo.

Pelo texto aprovado, os Estados terão direito a um bilhão cada, em um prazo de três anos, sendo que o Amapá terá trezentos milhões por ano apenas com verbas de Emendas de Bancada, para serem executados sem necessidade de aprovação do Executivo. É um avanço para o Brasil!

Assim, aquela ideia de que parlamentar de oposição não traz recurso para o Estado ou, de que FAZER OPOSIÇÃO AO PRESIDENTE PREJUDICA O AMAPÁ, cai por terra! Ganha a população e fortalece a democracia.

Tendo a obrigatoriedade da execução das emendas individuais e de bancada, a relação entre o Parlamento e o Executivo se institucionaliza ainda mais, ficando livre dos vícios da má e velha política.

Registro a luta incansável de nossos Senadores Randolfe Rodrigues, líder da oposição e Davi Alcolumbre, atual presidente do Senado.

Doravante, os parlamentares da base de apoio do governo, não farão mais com a sombra do interesse nos recursos, assim como, os parlamentares de oposição, poderão exercer seu papel fiscalizatório sem sentirem-se intimidados ou acanhados pela caneta do ordenador de despesas.

Esperamos que assim, o Brasil e o Amapá alcance uma consciência política mais evoluída e que o posicionamento dos nossos parlamentares seja baseado em seus deveres constitucionais e não pela necessidade do “Pires na mão” em prol do Amapá.

*Simone Palheta é Doutora em Direito pela UFMG, Professora da Universidade Federal do Amapá e pastora evangélica. Simone é membro da Academia Amapaense de Letras Evangélicas

Artigo dominical

Duplica a dose
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Um médico sábio disse: – Os melhores remédios são o amor e o cuidado.
– Mas o doente perguntou: – E se não funcionarem?
O médico sorriu e respondeu: – Duplica a dose!
Com o terceiro domingo da Quaresma, iniciamos o próprio deste ano litúrgico no qual estamos lendo o evangelho de Lucas. É o evangelho da misericórdia de Deus manifestada de tantas formas por Jesus em sua vida terrena. Não que os outros evangelistas transcurem o tema da misericórdia, mas Lucas é particularmente atento a esse assunto. No evangelho deste domingo, podemos perceber facilmente a novidade da mensagem de Jesus.
Algumas pessoas trazem a ele a notícia triste da crueldade de Pilatos com os galileus. O próprio Jesus, na sua resposta, lembra outra tragédia: a queda da torre de Siloé, que tinha causado 18 vítimas fatais. As perguntas que o povo se fazia naquele tempo são sempre as mesmas, são as nossas também: por que eles e não outros? Será que eles mereciam morrer daquele jeito? Por que eles e não eu? Será que eu vou escapar? Se somos sinceros, não temos respostas. Ou, se temos, delas surgem outras perguntas. Por exemplo, se respondemos que tudo foi um acaso ou uma fatalidade, deve ríamos admitir que a nossa vida está pendurada no vazio e no imponderável. Nada sabemos, nem do hoje e nem do amanhã. Eis, pois, a nova pergunta: se tudo já está decidido, nós somos somente bonecos nas mãos do nada ou de um ser caprichoso e imprevisível? Um “deus” assim não é muito entusiasmante. Como acreditar e confiar em alguém que não sei o que pensa e o que quer? Também as respostas que Deus quis assim ou, pior , que ele precisou daquela pessoa que morreu, não nos satisfazem. Queremos saber mais. Jesus, no entanto, não responde com raciocínios intelectuais ou afirmações altissonantes. Conta uma parábola.
Primeiro, porém, nos convida à conversão, ou seja, a mudar a nossas ideias mesquinhas sobre Deus. Ele não é um jogador de dados, um justiceiro ou alguém que, simplesmente, não liga para nós. É um Pai amoroso que doa a vida aos seus filhos amados, os acompanha com carinho e, sobretudo, tem muita, muita paciência. Este é o sentido da parábola da figueira que, pela intercessão do vinhateiro, ainda receberá os cuidados por mais um ano. Mas o segredo está nos frutos. A utilidade, ou inutilidade, da planta depende dos frutos. Igualmente o sentido da nossa vida não está na quantidade d os anos, no acúmulo de riquezas ou de grandes sucessos. O valor da vida, que passa para qualquer um, depende dos frutos de bondade e de amor que conseguimos produzir. Até os sofrimentos, mais ainda se forem por causa do Evangelho ou pela fome e a sede de justiça, são frutos agradáveis a Deus. Por isso, a vida vale apena ser vivida. Não sabemos a sua duração, mas o rumo o conhecemos e o Caminho também. O vinhateiro que int ercede e se compromete a colocar mais adubo na pobre figueira, antes condenada ao corte, é o próprio Jesus. O “adubo”, perdoem a comparação, é o seu exemplo, as suas palavras, a sua própria vida, a sua esperança. A esperança de Jesus? Isso mesmo. Porque apesar da nossa cabeça dura, das nossas dúvidas, ainda o vinhateiro diz: “Pode ser que venha a dar fruto!” Onde podemos encontrar um Deus tão bondoso e compassivo? Foi Jesus que veio no meio de nós para que o conhecêssemos e, sobretudo, o amassemos.
Tudo isso é simplesmente maravilhoso. Nós estamos doentes de celebridade, de “selfies” e holofotes. Queremos aparecer. Poses e aplausos podem satisfazer o nosso orgulho, mas talvez não sejam frutos tão bons. Que tipo de pessoas nós somos: doces, amigas, confiáveis e generosas, ou chatas, egoístas, arrogantes e invejosas? Graças a Deus, quantos frutos bons existem por aí produzidos, na humildade e no silêncio, por tantas pessoas anônimas, solidárias e fraternas. Simplesmente “humanas”, capazes de aproveitar bem das suas longas ou curtas vidas, sem medo de Deus, porque, quando forem chamadas, terão tantos frutos bons para lhe oferecer, tantos que, talvez, nem elas sabiam. Em todo caso, uma “dose dupla” de Jesus e do seu exemplo não faz mal para ninguém, ao contrário…

Tristeza Não Tem Fim  

Tristeza Não Tem Fim
Alcione Cavalcante

Consegui meu objetivo: mostrei que o Carnaval não é uma festa de loucos, mas sim uma das mais sadias manifestações populares. (Villa-Lobos,1941)

 O carnaval da Bahia vai gerar 1,8 bilhões em renda, cerca de 250.000 empregos diretos, 450 milhões em impostos estaduais e municipais, cifras elevadíssimas ainda não apuradas em investimentos na rede hoteleira e de outros serviços, inclusive de saúde para atender as demandas da festa. De modo ainda mais veemente soam os números do Rio de Janeiro e do avanço do carnaval de São Paulo, este último, que já vinha em constante evolução quanto ao carnaval da Escolas de Samba surpreende com o exponencial crescimento da festa de rua assumida pelos blocos. Mesmo Belém, onde o carnaval agonizava, vem dando mostras de recuperação de vigor e ensaia reaver o prestigio popular dos anos 80/90, onde destacavam-se a Quem São Eles?, o Rancho Não Posso me Amofiná e a Arco-íris, entre outros.

Enquanto isso nosso Estado estabelece trajetória rigorosamente inversa. Assistimos a festa popular desenhar-se deliberadamente de forma descente em relação ao passado recente, onde esta manifestação de cultura recobria-se de prestígio, evoluía de braços dados com o poder público e a mídia, além de desfilar de forma harmônica e ritmada com grande parte da população, enquanto que outra externava suas paixões nas arquibancadas do Sambódromo.

Hoje não há mais o frenesi benfazejo das expressões de arte popular, concebidas nas mentes dos artistas e nos barracões das escolas, traduzidos na avenida na criatividade e pujança das alegorias. Não mais o rebuliço inventivo dos aderecistas e dos ateliês de cultura. Não mais as reuniões preparatórias das diretorias de harmonia, comandadas por Manoel Torres e Maranhão, Lino e Alemão, Ricardo Gonçalves e Paulo Flecha, entre outras feras. Às vezes necessariamente chatas por tratarem de interpretação de regulamentos, mas sempre resultavam em processo criativos engrandecedores dos desfiles das escolas de samba.

Não mais os belos ensaios e os arroubos perfeccionistas dos mestres de bateria, seus ritmistas, passistas e o encanto generoso da sempre primorosa preparação e apresentação das rainhas de bateria. Que dizer da composição, ensaio e apresentação dos sambas de enredo e a interpretação emocionada e emocionante de seus puxadores? Não mais a preparação secreta da encenação elegante e bela das comissões de frente. Já era a leveza e o fascinante sincronismo que compõem a apresentação dos casais de mestre sala e porta-bandeira. Como não lembrar até mesmo dos churrasquinhos de gato e das caipirinhas caprichadas vendidas durantes os ensaios e eventos das escolas. Recordar ainda os ensaios técnicos, que no caso de Piratas da Batucada era quase e mesma emoção “na vera” do desfile principal.

O frenesi hoje se dá nos aeroportos onde parte da mesma elite local, que responsável pela agonia do carnaval do Amapá, se vangloria de curtir em outras capitais a mesma festa que renega por aqui.

Só para lembrar, mais de 100 microempreendedores individuais atuavam na Levada Zona Sul promovida por Piratas da Batucada na orla do Santa Inês.

Pra usar um mote atual.  Estamos de passo errado na marcha da cultura popular.

Dívida pública, Previdência e desenvolvimento – Por Davi Alcolumbre

Dívida pública, Previdência e desenvolvimento
O Congresso, livremente, irá fazer a sua escolha
Davi Alcolumbre*

O primeiro artigo da nossa Constituição define a República como a união indissolúvel dos estados, dos municípios e do Distrito Federal. A Federação assim formada busca construir uma sociedade melhor, desenvolver o país e promover o bem de todos. Não há exagero em enxergar a Federação como um organismo, cujo bemestar depende do funcionamento harmônico de cada uma de suas partes. Se uma delas não está bem, o todo é prejudicado. Hoje, uma parcela crescente dos estados apresenta problemas de endividamento e delicado quadro fiscal.

Entre 2010 e 2016, suas receitas primárias se mantiveram praticamente constantes, enquanto o lado das despesas cresceu em proporção maior do que a evolução do PIB brasileiro. Segundo avaliação do Tesouro, a capacidade de pagamento dos estados está cada vez menor. Só 13 deles apresentam nota de risco adequada para receber garantias da União em operações de crédito, ou seja, têm o risco de inadimplência aceitável.

No fim do ano passado, um relatório de uma empresa de consultoria indicava que só 6 dos 27 governadores eleitos iniciariam seus mandatos em situação financeira confortável. Esse cenário atual deve-se em parte à crise econômica deflagrada em 2008. Para fazer frente à desaceleração da economia, tanto a União quanto os estados entraram em situação de desequilíbrio fiscal, com expansão exacerbada das despesas e perda de receitas. A solução para aumentar gastos, sem o respectivo aumento de receita, foi o endividamento.

Agora, o peso dessas dívidas se faz sentir com mais força, por se combinar com os gastos vinculados, em que os governos são obrigados à aplicação de percentuais mínimos das receitas em áreas específicas, como saúde e educação, além das despesas obrigatórias de caráter continuado como os dispêndios previdenciários. Não há como evitar os ajustes necessários e a avaliação de propostas sensíveis, sendo a primeira delas, a Previdência.

Espera-se que a economia gerada pela reforma atinja R$ 4,5 trilhões nos próximos 20 anos, aliviando o estrondoso déficit fiscal que nos aflige atualmente. O Senado Federal está atento a esse cenário. Na condição de representante dos estados no Poder Legislativo, esta Casa se colocará como caixa de ressonância das demandas estaduais, procurando auxiliar na obtenção de soluções para esses problemas urgentes.

No Senado, receberemos a proposta da nova reforma logo depois que a Câmara votar, mas acompanharemos, passo a passo, o andamento das discussões dos deputados. O Congresso tem que, democraticamente, ouvir o povo brasileiro, debater e deliberar. O governo já fez a sua escolha, o Congresso, livremente, irá fazer o debate e irá fazer a sua escolha também. Os senadores querem ajudar o país, mas querem o debate.

A Casa vai dialogar, ouvir a sociedade e votar o que os senadores entenderem como uma reforma boa para o Brasil. Os cidadãos podem estar seguros de que o Senado fará seu papel em um amplo debate. Não há dúvidas de que a reforma da Previdência é uma vontade coletiva, um interesse público. Basta lembrar-se de que os estados estão sofrendo muito para honrar suas folhas de pagamento.

Nesse sentido, a reforma adquire vital importância para o equilíbrio e a sustentabilidade das finanças públicas. Lutaremos pela recuperação das contas públicas e pela construção de um novo Brasil, firmado em sólidas bases econômicas e fiscais. A partir desses pilares, poderemos ocupar, no curto e médio prazo, nosso devido lugar entre as nações mais desenvolvidas.

*Davi Alcolumbre é presidente do Senado