Apagão no Amapá foi um crime

Apagão no Amapá foi um crime
Por Randolfe Rodrigues

Na noite de terça-feira 17 de novembro, exatamente duas semanas após o início do suplício pelo qual passam os amapaenses em função do mais longo apagão da história, o Amapá se viu novamente mergulhado nas trevas, com mais uma interrupção geral do fornecimento de energia a quase 90% da sua população, incluindo a capital Macapá.

O martírio inaceitável dos amapaenses começou há 15 dias, na noite de 3 de novembro, quando um incêndio inutilizou dois transformadores da subestação operada pela empresa Isolux (Gemini/LMTE – Linhas de Macapá Transmissora de Energia). Deu-se início ao caos, já que simplesmente não havia nenhum backup ou plano B para continuar o fornecimento de eletricidade: o transformador reserva tinha ido para manutenção em dezembro de 2019 e nunca retornou.

O Operador Nacional do Sistema (ONS), a Aneel e o governo sabiam dessa vulnerabilidade, mas nada fizeram para exigir da empresa a operacionalidade da unidade reserva. Deixaram o Amapá numa estrada com os pneus carecas e sem estepe.

Foram quase quatro dias de apagão total em 13 dos 16 municípios do estado. Nesses dias instalou-se um caos generalizado, pois, sem energia, também passou a faltar água; caiu a comunicação por internet e telefone; não havia como abastecer os carros e os postos com gerador ostentavam filas intermináveis, o mesmo acontecendo nos caixas eletrônicos (máquinas de cartão não funcionavam).

Os danos se seguiram com os alimentos que se perderam nos refrigeradores. Empreendedores tiveram prejuízos incalculáveis, viram-se cenas lamentáveis como disputa para comprar gelo, desaparecimento de velas e água mineral das prateleiras dos supermercados, somente sendo encontradas a preços escorchantes.

Em outras palavras, reduziram-se a pó a dignidade e a cidadania do povo amapaense devido à irresponsabilidade de uma concessionária de serviços públicos e pela omissão do governo federal em fiscalizar o setor.

Observem o disparate: o Amapá produz em torno de 900 MW de energia em quatro hidrelétricas e consome aproximadamente 200 MW, exportando o excedente para o resto do país. Como pode um estado superavitário em energia ficar às escuras?

A energia foi sendo restaurada de forma precária, apenas a partir do sábado, dia 7 de novembro, com racionamento e rodízio que amenizou, mas ainda ficou longe de restabelecer a normalidade. Os horários divulgados não têm sido cumpridos. Para completar, há relatos de muitos casos em que a energia retorna com sobrecarga queimando equipamentos, dentre outros infortúnios.

Nosso mandato entrou com dois pedidos na Justiça Federal que foram acatados: o primeiro exigia que a Isolux restaurasse a energia em sua plenitude no prazo de três dias, mas a empresa não cumpriu e terá que arcar com multa de R$ 15 milhões.

Na outra decisão, se determina a prorrogação do pagamento de mais duas parcelas do auxílio emergencial, no valor de R$ 600, para que os amapaenses possam ser ressarcidos de seus prejuízos.

Lamentavelmente, o governo Bolsonaro informou que vai recorrer da decisão judicial, negando esse alento à população mais carente do estado.

Em qualquer país com um governo sério o ministro das Minas e Energia já teria sido demitido. As diretorias da Aneel e do ONS já estariam sentadas no banco dos réus por omissão criminosa. A Isolux (Gemini/LMTE) já tinha que ter tido sua concessão cassada, sendo obrigada a pagar pelos danos causados à população.

Seguiremos cobrando a solução definitiva e segura para o fornecimento de energia no Amapá e a punição exemplar aos responsáveis por este apagão criminoso.

*Randolfe Rodrigues é senador (Rede-AP)

O Amapá e a segurança energética – Por Ruy Smith

O Amapá e a segurança energética
Ruy Smith*

Com o Apagão instalado no Amapá, já experimentamos os efeitos advindos desse evento: colapso nos serviços públicos, nas atividades econômicas e no bem-estar do povo; e um esforço de guerra pra manter serviços imprescindíveis, como hospitais. A infra de energia amapaense não conta, por óbvio, com a tão desejada segurança energética!

Voltando um pouco no tempo, muitos lembram que o então senador Sarney, eleito por 3 vezes pelo Amapá, por anos a fio prometeu a chegada do linhão, trazendo energia abundante; sem energia o Amapá estaria fadado à estagnação econômica, era a tônica da época.

Vale dizer que o popular “linhão” é uma linha de transmissão integrante do SIN – Sistema Interligado Nacional, uma rede formada por produtoras de energia (hidrelétricas, térmicas, eólicas, etc.) e linhas de transmissão de energia elétrica cobrindo grande parte do território nacional. Aqui faço um parêntese: a minha impressão é de que todo o tempo que o linhão demorou pra chegar até o Amapá foi devido à falta de viabilidade econômica do empreendimento, com altos investimentos para a pequena demanda local; a partir do momento em que hidrelétricas foram se instalando no Amapá, as coisas andaram – viramos exportadores de energia, com as hidrelétricas amapaenses ligadas ao linhão!

Pois bem, com o linhão à porta, para o Amapá consumir a energia gerada em qualquer parte do país foi necessário construir uma interface que adequasse a energia transmitida pelo linhão àquele padrão já utilizado pela distribuidora local, a CEA. Tal interface, para 13 municípios atingidos pelo Apagão, é a subestação rebaixadora sinistrada. O Amapá veio a perceber que 80% de seus municípios sempre esteve  dependente de uma única via de transmissão (o linhão) e uma única subestação – esta com 3 transformadores, 2 danificados pelo fogo e 1 backup sem manutenção regular.

Portanto, sem um Plano B planejado, mesmo com hidrelétricas em operação no Amapá, o plano emergencial adotado pelo governo federal para estancar a fase aguda da crise consiste em fornecer energia direto da hidrelétrica Coaracy Nunes – a única que possui subestação rebaixadora própria e agora fornece energia à CEA sem passar pelo linhão – bem como, ter conseguido recuperar o transformador backup para reativar a rebaixadora de Macapá, contratar 45Mw de energia de geradores e trazer 1 transformador do Jari, que ficou sem cobertura, para instalar na rebaixadora de Macapá e  ampliar a oferta de energia. Os geradores estão sendo instalados e o transformador do emprestado do Jari está em montagem.

Óbvio que essas ações de emergência são necessárias para superar a fase aguda da crise, como já dito, mas não servem ao Amapá mesmo considerando um prazo relativamente exíguo. Explico: a UHE Coaracy Nunes possui produção sazonal e, mesmo com reservatório recuperado em pleno inverno, gera cerca de 20% da demanda; a rebaixadora de Macapá, agora contando com um transformador recuperado e outro do Jari, estará sem backup nos transformadores e, assim passível de eventual falha incontornável; os grupos geradores – que vieram para suprir parte da demanda e a única fonte de energia disponível para ampliar eventual demanda ao longo dos próximos meses – são soluções em desuso, caras e poluidoras.

O Amapá nunca teve segurança energética na era do linhão; teve sorte. Hoje, com as alterações emergenciais feitas no sistema, tem menos ainda. Urge que, ao mesmo tempo em que caminham as ações emergenciais, nossos parlamentares federais, o governador do Estado, os prefeitos dos municípios atingidos, usem esse momento de exposição nacional do problema energético amapaense para pressionar, com inteira razão, por medidas que possam trazer a segurança necessária. Nesse ambiente, 2 pontos creio que são essenciais: a recomposição das rebaixadoras de Macapá e Laranjal, e a construção de linhas de transmissão e rebaixadora, independentes,  formando um sistema alternativo ao linhão à partir das hidrelétricas que temos, cuja capacidade instalada alcança 3x o que consumimos.

A empreitada em busca da nossa segurança energética demanda bastante recurso e tempo. De onde virá o recurso é uma questão afeita ao convencimento político junto ao governo federal. Como será alcançada, é questão técnica de alçada dos especialistas do MME. A questão principal é que o Amapá não precisa mais passar por um Apagão, outra vez. Entretanto, nesses próximos meses, contaremos com a sorte!

*Ruy Smith é engenheiro mecânico e ex-deputado estadual

Deve trabalhar para viver – Dom José Conti

Deve trabalhar para viver
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Contam os monges anciãos que, certo dia, João, o pequeno, disse a um irmão mais velho:

– Quero ser livre das preocupações e não trabalhar. Quero adorar o Senhor sem parar”. Tirou a veste de monge e foi para o deserto. Depois de uma semana, voltou com aquele irmão. Quando bateu na porta, o monge, de dentro, sem abrir, perguntou:

– Quem é? – Respondeu:

– Sou João, teu irmão.

Mas o velho monge rebateu:

– João se tornou um espírito e não vive mais entre as pessoas!

João suplicou:

– Sou eu! Mas o irmão não abriu a porta e o deixou no desespero até a manhã seguinte.

Quando saiu lhe disse:

– Se és um ser humano deves trabalhar para viver.
João, o pequeno, se arrependeu e disse:

– Me perdoe, irmão, porque errei.

A parábola dos talentos, que encontramos no evangelho deste domingo, é muito conhecida e, como outras parábolas, presta-se a diversas leituras. A primeira mensagem está em continuidade com que refletimos nas últimas semanas: o Senhor nos quer “vigilantes”, ou seja, a espera da volta dele – que é a nossa própria vida nos dias que passamos neste mundo – e deve ser um aguardá-lo ativo, alegre e comprometido. Nada de preguiça, sonolência e acomodação. O exemplo mais prático para entender isso é o da entrega dos “talentos”, qualquer coisa eles representem. O certo é que somente quem soube multiplicá-los será premiado e chamado de servo “bom e fiel”. Quem, ficou com medo ou achou o “dono” severo e exigente demais e acabou enterrando o único talento recebido, será chamado de servo “mau, preguiçoso” e, enfim, “inútil”.

A essa altura devemos nos perguntar se o Senhor Jesus queria falar mesmo de bens materiais ou, sobretudo, de outros tesouros preciosíssimos que a todo custo devem ser traficados. Uma coisa não exclui a outra. Hoje entendemos, por exemplo, que a própria natureza é o primeiro “dom” que o Pai criador entregou à humanidade e que, com seu respeito e sustentabilidade pode, ou não, ser fonte de vida ou de morte para os habitantes do planeta. A “cura” da criação nos aparece cada vez mais urgente e de responsabilidade de todos. Uma humanidade digna de ser “humana” mesmo e não mera consumidora e exploradora de riquezas não pode mais pensar só no lucro da geração atual, deve saber enxergar mais longe se quiser preparar um futuro melhor para todos. De outra forma, nunca acabarão as guerras para o controle das riquezas e nunca haverá fraternidade e partilha.

Talvez precisemos redescobrir e reavaliar outros tipos de “talentos”, menos materiais, mas igualmente – ou mais – valiosos. Simples. Se achamos que o ser humano se satisfaz somente com o famoso “pão”, deixamos de lado outros bens. Jesus nos ensinou que precisamos também da Palavra de Deus, ou seja, de escutar sempre e de novo a proposta daquele que colocou em nossos corações muitos outros desejos e sonhos que nunca ficarão satisfeito com o que encontrarmos e construirmos neste mundo. Hoje, a grande questão do chamado “progresso” é que não pode mais ser somente material.

O “crescimento” pede novos equilíbrios com a natureza, novos relacionamentos mundiais, novo respeito pela existência de todos os seres vivos. Papa Francisco fala de “sobriedade feliz”. Lembra-nos que “tudo está interligado”. É simplesmente imoral querer construir “ilhas” de felicidade isoladas para poucos privilegiados. Seriam somente lugares de egoísmo e desprezo para os demais, numa vida triste cheia de barulho e superficialidade.

Penso que, afinal, seja esse o grande “trabalho” dos cristãos, daqueles que querem contribuir com a construção do Reino de Deus e não dos ilusórios reinos humanos. Temos um “tesouro” imenso, incalculável, de amor, de criatividade para organizar novas economias, novas fraternidades, novos relacionamentos. Sempre os cristãos sonharam com novas “cidades” mais semelhantes com a “cidade do céu”. Nunca faltaram profetas e mártires para isso. O pior é desistir de ser cristão ativos, cada um com as suas capacidades, numa comunhão de compromisso e bondade. Orar não é fugir, se esconder, mas saber para que se reza e, sobretudo, para que se vive.

As eleições e a demência brasileira

As eleições e a demência brasileira
Leonardo Torres*

O Brasil está cada vez mais demente: presidente com sentimento persecutório e contra vacina, senador fugitivo escondendo o dinheiro nas nádegas, candidatos canastrões que fazem estripulias para chamar atenção e conquistar votos. Enquanto isso, a fome e a miséria aumentam, as matas são incendiadas e as mortes pelo COVID-19 não cessam. E ainda, a aprovação do presidente cresce, por ter implementado um auxílio emergencial que não foi ele quem planejou.

Nem mesmo Kafka, Huxley, Saramago ou Shakespeare sequer imaginariam escrever um romance comparável ao que nosso país passa neste momento. Não somente porque os personagens que atuam no palco político são peculiares, mas também porque o público que os assiste atuar – os eleitores – também estão cada vez mais dementes.

A palavra “demente” provém “da-mente”. Aqui exclui-se qualquer conotação pejorativa da palavra. Vale lembrar Edgar Morin quando afirma que o ser humano é Sapiens e Demens, ou seja, pautado tanto pela racionalidade quanto pelas emoções e pela mente.

Apesar da neurociência já ter provado que é impossível separar a racionalidade das emoções, temos que tomar cuidado para não cair em racionalismos. De acordo com E. Morin, o racionalismo é uma razão tendenciosa, autoritária e paranoica, ou seja, são aquelas justificativas simples e fáceis de se entender que normalmente elegem e projetam suas emoções em um inimigo. Por exemplo: as fake news nas últimas eleições para presidente promoveram em grande parte da população brasileira um contágio desses racionalismos e suas emoções projetadas.

É possível escapar desse circo? Não, mas é possível e importante incluir nesta equação a variável da consciência e da racionalidade (sem ismos). Estas são responsáveis pela reflexão crítica dos acontecimentos atuais. E aquela frase de C. Jung: “até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”, coloca a responsabilidade desse circo demente de eleitos e eleitores nas mãos dos cidadãos. Nós, brasileiros, devemos saber se vamos continuar batendo palmas e incentivando os eleitos a dançar ou se usaremos nossas mãos para votar corretamente.

*Leonardo Torres é psicoterapeuta junguiano e palestrante

Omissão – Dom Pedro José Conti

Omissão
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Uma jovem se formou na universidade com as melhores notas. Logo, procurou um trabalho que lhe garantisse um bom salário, não exigisse muito esforço e garantisse bastante dias de folga. Com os seus conhecimentos profissionais e algumas amizades dos pais, encontrou o emprego como sonhava. Imediatamente mandou uma mensagem a um seu amigo e partilhou a sua felicidade. O amigo, porém, respondeu-lhe com palavras que talvez ela não esperava. Ele escreveu: “Tu não és somente sortuda, és também omissa”. Ele a questionou afirmando que achava um verdadeiro desperdício gastar as suas capacidades de inteligência e criatividade numa vida tão egoísta. A jovem refletiu e mudou de trabalho. Decidiu comprometer-se mais com a solidariedade; entendeu que devia cuidar melhor de si mesma e dos mais desfavorecidos. Convenceu-se que devia zelar pela natureza e todo ambiente de v ida. Enf im, abraçou projetos de justiça e de paz. Depois de algum tempo, escreveu novamente ao seu amigo e agradeceu. Estava feliz.

A página do evangelho de Mateus deste 30º Domingo do Tempo Comum nos apresenta mais uma pergunta traiçoeira a Jesus. Os fariseus, rigorosos observantes da Lei, queriam saber dele qual era o maior de todos os mandamentos, ou seja, aquele preceito ao qual todos deviam obedecer. Talvez esperassem que dissesse que era o respeito ao repouso do sábado, para que ficasse clara a absoluta obediência a Deus, que também descansou no sétimo dia. Assim Jesus poderia ser acusado de desobediência porque curava os doentes até no sábado. A luminosidade da resposta de Jesus contrasta com a obsessão cega dos fariseus pela Lei. Ele, simplesmente, lembrou a todos aquilo que já estava escrito na própria Palavra: os dois mandamentos do amor, a Deus (Dt 6,5) e ao próximo (Lv 19,18). O que ninguém esperava era que Jesus dissesse que o segundo mandamento, ou seja, o amor ao próximo fosse seme lhante a o primeiro, aquele de amar a Deus. Se queremos amar a Deus de verdade, o jeito certo, não será aquele de cumprir preceitos mais ou menos religiosos, devotos ou piedosos que sejam, mas devemos praticar a solidariedade e a fraternidade com os irmãos e irmãs necessitados, que encontramos nos caminhos e encruzilhadas da vida. O bem feito ao irmão sofredor é amor ao próprio Cristo (Mt 25,40) e o bem, recusado ao pobre, será considerado desprezo ao Senhor (Mt 25,45).

O mandamento do amor é único. Lembramos o que está escrito na Primeira Carta de João: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão que vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). Não tem desculpas e nem saídas sorrateiras. Jesus passava as noites em oração ao Pai, mas gastava o dia na pregação e no atendimento aos doentes e pecadores. Toda a sua vida foi uma doação, uma entrega, sempre gasta para o bem dos irmãos, nada guardava para si. O amor a Deus não se mede pelas longas orações ou adorações, porque corremos o perigo de contemplar a nós mesmos, as nossas emoções e imaginar um Deus satisfeito com isso. Do outro lado, um compromisso social sem o coração ardendo do mesmo amor compassivo e misericordioso de Jesus pode ser uma excelente ação assistencial, boa para satisfazer o nosso orgulho, mas sem alcançar a maior de todas as descobertas.

Com efeito, somente quando amamos os nossos irmãos sem julgá-los e sem esperar nada em troca, é possível fazer, ao menos um pouco, a experiência de como Deus é e como ele quis se fazer conhecer em Jesus: pura gratuidade, amor sem limites, amor até a cruz. Deixaremos, então, de rezar? Ao contrário, na oração encontraremos a força e a coragem de tocar nas feridas dos irmãos e irmãs, de carregá-los e de pagar o que falta para que reencontrem vida e esperança. Igualmente, podemos colaborar com tantas obras de solidariedade e justiça, mas nunca para promover a nós mesmos, algum partido, ou até a nossa Igreja. Por isso, Papa Francisco na Exortação Apostólica “Cristo Vive” lembra aos jovens, e a todos nós, as palavras de At 20,35: “Há mais felicidade em dar, do que em receber”. Este é o segredo de Deus, o segredo do amor e da verdadeira alegria.

Os nomes dos burros    

Os nomes dos burros    
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

O imperador Frederico II e seu irmão Henrique ficaram satisfeitos c om a aco lhida recebida num convento. Antes de partir, o rei perguntou ao guardião se tinha algum favor a pedir. O bom frade respondeu que sim:
– Peço que sua Majestade nos conceda colocar o hábito a dois novi&cc edil;os, a cada ano, apesar da lei que ordena o contrário.
–  Graça concedida – respondeu o rei. Aliás &ndas h; conti nuou – eu mesmo enviarei os dois noviços.
Nisso, olhou o irmão e lhe falou numa língua estrangeira par a n&atil de;o ser entendido pelos frades:
– Nós enviaremos dois burros para esses frades! Mas o frei guardi&a tilde;o, que tinha viajado bastante pelo mundo afora, entendeu as palavras do rei. Assim, de olhos baixos, o frei disse novamente ao rei:
– Já que o senhor é tão generoso, peço-lhe mai s um fav or: que possamos colocar aos dois noviços, que o senhor enviará, os nomes do senhor e do seu irmão. O rei e o irmão foram embora calados.
“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que &e acute; de Deus” (Mt 22,21) talvez seja uma das frases dos evangelhos mais repetidas e mais facilmente adaptadas a tantos interesses e circunstâncias. Mateus coloca essas palavras de Jesus durante uma conversa entre ele e os fariseus, decididos a deixá-lo em apuros. Se Jesus tivesse respondido que não deviam pagar os impostos ao imperador, teria sido denunciado às autoridades como desobediente e subversivo. Se, ao contrário, tivesse respondido que era justo pagar, teria significado subserviência aos opressores romanos e desagradado ao povo que não suportava o peso dos impostos. Jesus não tinha muitas saídas: a arapuca estava bem armada. No entanto, mais uma vez, Jesus respondeu colocando a questão num plano muito diferente. Simplesmente lembrou a todos o lugar de cada um: o de “César” e o de Deus, sem mistura, sobreposição ou confusão. É, justamente, quando algu&ea cute;m quer ocupar o lugar de Deus que as coisas começam a desandar. Nenhum ser humano, nem os “césares”, passageiros de todos os tempos, por grandes e poderosos que sejam, podem fazer isso. Desde o início: todas as vezes que um ser humano quis, ou ainda quer, ser “como Deus” (Gn 3,5) só acontecem desastres.
Parece que não aprendemos a lição. Continuamos orgulh osos e a rrogantes numa briga sem sentido. Com Deus não adianta disputar o poder, não porque ele é o “Todo Poderoso”, mas porque a ele o “poder” não interessa. Ele já desistiu de se impor. Desde a cruz de Jesus, ele escolheu ser o último, o perdedor, o excluído, para nos ganhar pelo amor e nunca pela força, o medo ou o castigo. Com isso, ele respeita até o fim a nossa liberdade, não nos obriga a acreditar e a obedecer. Deus não quer súditos, mas amigos, colaboradores na construção do seu Reino, “filhos” amados que o sirvam com júbilo e alegria. Pela história e pela experiência, sabemos que os “reinos deste mundo” se baseiam na força das armas, das leis impostas, das intrigas de palácio, ou, como está acontecendo hoje, sobre o poder econômico de quem visa o lucro a qualquer custo, mesmo se milh& otilde;e s de seres humanos morrem de fome ou conduzem uma vida miserável. O curioso na resposta de Jesus é que ele usa uma moeda com a figura e a inscrição de César para explicar o seu entendimento. Mais moedas circulavam, mais negócios eram feitos, mais aquela “figura” se tornava famosa e temida. Hoje os poderosos têm muitas outras maneiras de espalhar os seus retratos, ou, talvez, nem se preocupem mais com isso. Certos nomes de marcas e grifes estão nas praças de todos os países e em todas as línguas. Alguns talvez queiram colocar por lá também o nome de algum “deus” ou de alguma “igreja”, mas o Deus verdadeiro não precisa dessa propaganda porque nos deixou um letreiro que até os analfabetos podem ler: é a natureza, dádiva generosa da sua bondade. Temos também a voz do coração que Deus colocou em nós e que, se soubéssemos escutá-la mais, nos diria sempre para escolher o caminho da bondade e da paz, nunca do ódio e da violência. Talvez sonhemos que os nossos nomes entrem nas listas dos famosos, dos ricos e poderosos. Para quê? Se continuamos sendo “burros”, de cabeça dura e coração fechado.

Os fuxiqueiros – Dom José Conti

Os fuxiqueiros
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

Todo ser humano, que viva no meio de fuxiqueiros, qualquer coisa ele faça é destinado a perder. Se é pobre, é porque não soube administrar. Se é rico, é porque trambicou ou teve muita sorte. Se se ocupa de política, o faz só por interesse. Se foge da política, não é suficientemente experto para se meter nessa. Se não ajuda ninguém é mão de vaca. Se faz caridade, o faz para aparecer. Se ajuda na Igreja, com certeza deve ganhar alguma coisa. Se não frequenta nenhuma comunidade, coitado, está perdido. Se manifesta afeto, é um sentimental. Se não o manifesta é um ser frio e insensível. E assim por adiante… Ninguém escapa das murmurações. Só que antes o fuxico acabava na rua ou no bairro, hoje se espalha pelo mundo inteiro. A tecnologia inventou um nome novo, em inglês: fake news, mas nad a mudou. Gostamos de falar da vida dos outros.

No evangelho de Mateus deste domingo, encontramos a parábola dos trabalhadores da última hora. No final dela, Jesus diz palavras surpreendentes: “Os últimos serão primeiros; e os primeiros, últimos” (Mt 20,16). Injustiça ou novidade do Reino dos céus? Para entender basta ler o versículo 30 do capítulo anterior. Lá, Jesus disse algo parecido como conclusão da resposta que ele deu à pergunta de Pedro: “Olha! Nós deixamos tudo e te seguimos. Que havemos de receber?” (Mt 19,27). Naquela ocasião, Jesus havia prometido que, no “mundo renovado”, todos aqueles que tivessem deixado “casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos”, iriam receber “cem vezes mais” e “como herança a vida eterna” (Mt 19,29). Aparentemente um “super” prêmio para os fiéis seguidore s. Contu do “muitos” dos primeiros ficarão por últimos. Haverá farta recompensa, sem dúvida alguma, mas com uma prioridade diferente daquela que podia ser entendida como uma ordem de chegada. A parábola dos trabalhadores da vinha é, portanto, a exemplificação de uma “justiça” nova ou, melhor, da própria bondade de Deus.

Jesus apresenta uma situação comum naquele tempo, mas com uma sucessão de fatos e uma conclusão inéditas. Os donos das vinhas contratavam de manhã cedo os trabalhadores. A jornada era de sol a sol e a paga era de uma moeda de prata. O patrão da parábola, porém, continuou contratando ao longo do dia, até faltar só uma hora para o término do dia. De fato, alguns operários trabalharam bem pouco. Mais do que justo seria que ganhassem menos ou em proporção às horas trabalhadas. Mas não foi isso que aconteceu: todos receberam a mesma moeda. Injustiça ou generosidade do patrão?

Obviamente teve murmuração e a resposta do dono da vinha não deixou dúvidas: por que invejar a sua bondade? Ele não podia dispor livremente do seu dinheiro? É fácil entender que, por trás da parábola, está a polêmica de Jesus com os escribas e fariseu que se achavam “os primeiros” chamados e, portanto, os mais dignos herdeiros das promessas. Essa, podia ser também a tentação dos discípulos que sonhavam com um tratamento privilegiado. Jesus não nega a precedência do povo da Antiga Aliança, mas deixa entender que no Reino dos Céus a recompensa será para todos, também para os que chegarem depois ou bem na última hora. O relógio da bondade de Deus funciona de maneira diferente.

Continuamos o fuxico: se for assim, podemos ser tentados a ficar aguardando a última chamada. Se ao final a recompensa é a mesma, por que ficar suando o dia inteiro? Vamos aproveitar da bondade do patrão e ficar à toa por aí. Quantos “cristãos” deixam sempre para depois as coisas de Deus. Outros não, se engajam nas obras do Reino desde a juventude e labutam a vida inteira. É muito bonito quando esses irmãos e irmãs “da primeira hora” fazem isso sem pensar na recompensa. Estão sempre prontos a ajudar, não medem esforço na busca da verdade, da justiça e da paz. Basta-lhes saber que estão colaborando com o Reino dos Céus. Deve ser a alegria desses irmãos e irmãs a atrair outros para o trabalho na vinha do Senhor. Porém, se são eles e elas os “primeiros” fuxiqueiros da Comunidade, é porque n&at ilde;o s ão felizes. Afastam em lugar de cativar.

O valor da vida x o interesse obscuro da pequena burguesia

O valor da vida x o interesse obscuro da pequena burguesia
Valdice Holanda*

Interessante esse “debate” promovido pela Comissão de Educação da Câmara Municipal de Macapá – CMM sobre o retorno às aulas presenciais. Primeira observação a ser feita é a ausência de representação de trabalhador da educação, uma vez que a secretária de educação não nos representa.

Participaram do “debate” um conselheiro tutelar, um promotor de justiça (único que demostrou imparcialidade, e portanto, fez o contraponto), a secretária de educação municipal, a presidente do SINEPE (Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino) e um conjunto de profissionais da saúde, que foram uníssonas em dizer que as aulas presenciais podem e devem voltar, independente da existência de uma vacina.

Esses profissionais disseram que as aulas devem retornar porque o índice de mortalidade por Covid-19 entre as crianças é 37,5% vezes menor que em adultos, menos de 1%. A mortalidade é menor, mas existe. Portanto, pergunto aos pais: “Quem quer receber esse ‘bilhete de loteria’ premiado ao contrário?”.

Muitas falas em defesa de retorno às aulas presencias foram apoiadas pelo discurso dos efeitos psicológicos sobre a crianças, que já estão há muito tempo longe da “tia”. Do apelo que elas fazem para voltar à escola e poder ver a “tia” e os coleguinhas.

Houve até apresentação de estudo europeu com a indicação de que as escolas deveriam ser o último recurso que os governos deveriam usar para controlar uma pandemia. Os governos erraram. Melhor seria se tivessem mantido o ensino presencial e muito mais pessoas, morressem. Assim, a pandemia se encarregaria de fazer a tão sonhada “limpeza étnica” de Hitler.

Foi falado também que as famílias estão aterrorizadas, apavoradas, desinformadas e que aquele debate e as informações ali apresentadas eram para informá-las. “Só que não”, como dizem meus alunos.

Realmente senti falta de representação sindical do trabalhador da educação nesse “debate”. A transmissão e mortalidade entre crianças pode ser baixa, mas a escola não é formada apenas por crianças. Há os trabalhadores da escola, os familiares da criança e há crianças com comorbidades. Além disso, a recomendação das organizações de saúde, é manter o distanciamento social. “Como isso será possível em salas de aula superlotadas?”. Ainda tem o uso de máscara. Nem adultos, que tem maturidade, fazem uso correto desse item de segurança, imagine a criança, que não tem maturidade suficiente para compreender a importância da proteção facial.

A escola particular, que teve representação no “debate”, por meio do seu sindicato, garantiu as medidas sanitárias para o retorno. E a escola pública, que vive uma realidade totalmente diferente e precária, será que terá como garantir todas as condições e recursos necessários para a volta às aulas: medidor de temperatura, tapetes sanitizantes, adequada higienização das salas a cada troca de turno, equipamentos de proteção para alunos e profissionais da escola? Na escola pública falta papel higiênico, sabão e até pia nos banheiros. Aliás, até quando teremos sabão nas pias instaladas para o retorno às aulas? Será que os professores precisarão coletar para comprar o sabão e o álcool, quando acabar o que for disponibilizado pelo poder público? Sim, triste realidade da “tia coleta”, que já virou cultura nas escolas, para que o professor possa trabalhar.

Outra fala interessante foi a comparação com a abertura de bares e balneários. Levar a criança ao shopping ou ao balneário é facultativo a cada pai e de responsabilidade deste. Eu continuo em isolamento, pois entendo que a pandemia não acabou. Todavia, no caso de retorno às aulas, quem será o responsável quando a primeira criança morrer por contaminação na escola?

O retorno das aulas presenciais é importante? Sim, sem dúvida alguma. Entre tantos outros problemas, essa pandemia escancarou as desigualdades sociais existentes em nosso país, e mais especificamente em nossa cidade. São famílias que vivem em situação de submoradia, que são vítimas da exclusão digital, que não têm acesso à internet de qualidade, que têm apenas um aparelho celular (quando tem) para receber as tarefas dos vários filhos e esse aparelho não suporta tantos arquivos. Resumindo, ninguém melhor que o profissional da educação para saber a importância da volta às aulas, pois ele vivencia essa realidade diariamente. Esse profissional é quem melhor pode defender a notoriedade da escola como o caminho possível para a superação das desigualdades sociais, pois uma população que recebe educação de qualidade, forma uma nação rica. Quem não sabe, ou melhor, finge não saber, são os governantes, que buscam currais eleitorais, e oportunamente eles simulam fazer algo pela educação pública. Não será esse o verdadeiro motivo de retorno às aulas presenciais, antes das eleições municipais?.

Os professores também estão adoecendo psicologicamente. Esse não é um “privilégio” apenas das crianças. Nós também estamos sofrendo, longe de nossos ambientes de trabalho. Não estávamos preparados para essa pandemia. Ninguém estava. Tivemos que nos reinventar, enquanto professores. Aprender a usar ferramentas que não precisávamos antes, porque o contato era direto. Hoje, não temos uma jornada de trabalho definida. Trabalhamos a qualquer hora do dia, inclusive de madrugada, pois, muitas vezes, nossos alunos enviam suas demandas a qualquer hora. Não raramente, de madrugada.

Ainda que, muitas vezes, trabalhemos em escolas insalubres, sem as mínimas condições, queremos, sim, voltar às nossas aulas presencias. Hoje completo 21 anos de serviço público para o município de Macapá e já trabalhei em sala superlotada, mal iluminada, sem ventilação, suja. Ainda tive que ouvir da gestão que trabalharia muitos outros dias assim, pois não havia funcionário suficiente para fazer a limpeza na troca de turnos – um total desrespeito com o profissional. Agora, é inaceitável querer que eu trabalhe em uma sala lotada, em meio a uma pandemia, colocando a vida de meus pais idosos em risco – ambos têm 83 anos e comorbidades e sou a cuidadora deles.

Nós, professores, queremos voltar às nossas aulas presencias. Sabemos perfeitamente a importância da escola. Mas precisamos voltar com segurança, garantias. Não aceitamos ser cobaias de um teste de como será, para quiçá ser um premiado a morrer, ou ver um aluno nosso perder a vida para essa doença.

A educação é prioridade sim, mas a vida é prioridade maior ainda.

No mais, nós nos solidarizamos com as mães que necessitam trabalhar e não tem com quem deixar suas crianças. De fato, essa é uma realidade a ser considerada, porém neste momento, com certeza, a escola não é o lugar mais seguro.

*Valdice Holanda é professora da rede pública de ensino de Macapá

Crise alimentar, crise humanitária

Crise alimentar, crise humanitária
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“Nenhuma região do planeta está isenta de uma possível crise alimentar bem próxima causada pela pandemia covid-19. A Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO) em conjunto com o Programa Alimentar Mundial (PAM) prepararam uma lista de ao menos 27 países que correm o risco da fome e, em alguns casos, já estão vendo o desgaste da insegurança alimentar experimentando um aumento considerável do número de pessoas levadas à fome extrema”. Isso revela o relatório das duas Agências da ONU apresentado à imprensa alguns dias atrás. Nos próximos meses, as previsões, para alguns países da Ásia, da América e da África, são das piores. Também porque alguns desses países já viviam uma crise alimentar grave antes da pandemia. As causas s&at ilde;o d iversas: recessão econômica, instabilidade e insegurança, eventos climáticos extremos como seca ou inundações, pragas na agricultura. Como será o futuro? Quantos milhões de seres humanos morrerão pela fome? Quantas crianças não desenvolverão as suas capacidades por causa da desnutrição? O que acontecerá no Brasil?

No domingo do evangelho da “multiplicação” dos pães e dos peixes começo a minha reflexão com essas notícias. Não é uma historinha imaginária. É a duríssima realidade de milhões de seres humanos como nós, com as mesmas necessidades de alimento e de água. Com a mesma vontade de viver! Mas o que podemos fazer? Todos nós nos sentimos impotentes frente às dimensões da crise, no entanto a nossa consciência de cristãos e de pessoas “humanas” não pode nos deixar indiferentes. Se acreditamos, as palavras de Jesus podem nos ajudar a entender e, espero, também a agir.
A primeira palavra é “compaixão” (Mt 14,14). Ao sair do barco, Jesus vê o povo e se enche de compaixão. É o sentimento de quem abre o seu coração para deixar entrar o sofrimento dos outros. A dor alheia se torna também a nossa. Mexe conosco. O contrário, evidentemente, é fechar os olhos, virar as costas e esquecer ou a desculpa de sempre: eu não sabia! São tantas as formas para calar a nossa sensibilidade. Curioso: choramos e torcemos para que o bem triunfe assistindo a filmes e telenovelas, mas estamos prontos a julgar um pobre como preguiçoso e vagabundo. Quando desistimos de ser “humanos”, deixamos também de sermos imagem e semelhança de um Deus que se revelou amoroso e compassivo.

A segunda palavra de Jesus é um verdadeiro desafio para os discípulos: – Dai-lhes vós mesmo de comer! (Mt 14,16). Eles só têm “cinco pães e dois peixes”. Pouco demais para a fome da multidão. Contudo, dá para começar. Talvez o segredo esteja nisto: ousar algo novo, algo que parece impossível. Arriscar a partilha, arriscar uma nova economia mundial. Ilusão? Papa Francisco sempre nos fala para sermos criativos, de abrir caminhos novos, de não esperarmos pelos outros. Não é possível que uma humanidade tão fecunda de tecnologia nas comunicações, nas armas letais, nos gastos enormes para shows espetaculares, não saiba o que fazer para resolver a fome no mundo. Estamos chegando em Marte, mas estamos “perdidos” ainda por aqui, no planeta Terra, porque estamos “perdendo” milhões de vidas humanas.

A terceira palavra de Jesus é: – Trazei-os aqui (Mt 14,18). Ele pede que confiem nele, que acreditem que o impossível pode acontecer com a compaixão e a partilha. Mas não só naquele momento, por causa daquela fome, mas sempre. Jesus nos pede para aprendermos com ele a vencer o medo de sermos mais fraternos e solidários. É por isso que o evangelista Mateus nos deixa perceber, antecipadamente, os gestos da Eucaristia, o que Jesus fará na despedida da Última Ceia. Esse é o “milagre” que não pode parar de acontecer: uma turma de discípulos que continua a manter viva a memória-presença de Jesus, reparte o Corpo e o Sangue dele, para construir uma humanidade “nova” de irmãos, sem ódio, sem ganância, sem fome. A Eucaristia não é só “comunhão” com Jesus sacramentado, é também comunhão com aqu ele Jesus que está com fome e que um dia vai nos dizer “foi a mim que o fizestes”.