Engasga Engasga: a mentira que aterrorizou Macapá e prendeu inocentes

Por João Capiberibe *
Em 1973, uma onda de pânico tomou conta de Macapá. Mulheres estariam sendo atacadas nas ruas. A cidade parou.
Macapá, capital do Amapá, era uma cidade pacata, com ruas e avenidas largas e bem traçadas. Havia muitos espaços vazios destinados à urbanização futura, onde crianças improvisavam suas brincadeiras. Mangueiras de copas frondosas formavam um mar de sombras — ponto de táxi e de gente sem pressa, parada obrigatória em busca de brisa e proteção contra o sol escaldante do meio do mundo.
Os macapaenses, isolados na margem esquerda do Rio Amazonas, sem televisão e sem rodovia que os conectasse ao restante do país, viviam em um recanto de tranquilidade. Sem grandes ambições e com tempo de sobra, sentavam-se nas portas de casa ao fim da tarde, deixando as horas correrem em conversas simples, longas e sem urgência.
Foi nesse cenário — e entre essa gente pouco voltada para o que acontecia fora dali — que tudo mudou.
De repente, tensão e medo se espalharam como rastilho de pólvora. A vida virou de ponta-cabeça.
Naquele dia de maio de 1973, que parecia seguir como qualquer outro, o rumo da cidade mudou ao meio-dia. O locutor da Rádio Difusora de Macapá — emissora oficial do governo — interrompeu a programação. Com música de suspense ao fundo, leu pausadamente o Comunicado Oficial nº 1, assinado pelo secretário de Segurança Pública, coronel Gentil Almeida Campos:
“A situação é grave e de grande perigo, motivo de aflição e insegurança para as famílias que vivem nesta pacata cidade. Cabe-nos informar que, nos últimos dias, registramos vários ataques com as mesmas características: tentativa de estrangulamento de mulheres indefesas.
Ontem mesmo, ainda com o dia claro, uma mulher foi atacada no momento em que ia ao banheiro no fundo do quintal de sua casa.”
Após longos considerandos, o comunicado recomendava:
1. Evitar saídas desnecessárias, mesmo durante o dia;
2. Reforçar trancas, portas e janelas;
3. Evitar o uso de sanitários localizados no fundo dos quintais.
E concluía:
“Nós, defensores da lei e da ordem, não mediremos esforços para garantir a segurança do povo bom e ordeiro dessa terra.”
Quarenta e oito horas depois, o governo decretou toque de recolher em Macapá, proibindo a circulação de pessoas entre 20h e 6h.
Parecia um pesadelo.
A cidade silenciou. Ruas vazias, portas fechadas. A sensação era de confinamento coletivo. Dentro das casas, o medo circulava livre: qualquer ruído parecia ameaça, e o tempo custava a passar até o amanhecer.
Mas o tempo passou.
Cinco décadas depois, a memória desse episódio — apelidado pelo povo de “Engasga Engasga” — permanecia incompleta. Faltava o depoimento de alguém do governo que revelasse o que se passou nos bastidores do poder.
A Comissão da Verdade, criada em 2013 pelo então governador Camilo Capiberibe, investigou os crimes da ditadura no Amapá, mas encontrou enorme dificuldade para colher depoimentos. Poucos se dispuseram a falar.
Durante muito tempo, vindo dos governantes da época, quase nada se soube, até que um dia…Janete me surpreendeu com um maço de folhas amareladas, datilografadas.
— Lembra disso? — perguntou.
— São textos teus sobre o “Engasga”. Tem entrevista com o Chaguinha… e com o Dr. Adamor.
Comecei a ler e não parei mais.
Eram cerca de trinta páginas: vinte com textos meus, escritos de forma romanceada sobre o “Engasga” e outras com a degravação de duas entrevistas — uma com Francisco das Chagas Bezerra, o Chaguinha, vítima da farsa, e outra com o advogado Adamor Oliveira, então assessor do secretário de Segurança.
Coincidência ou não, eu já estava retomando esse tema para um livro. Mas, diante do ineditismo do depoimento de Adamor, decidi torná-lo público imediatamente.
As entrevistas foram realizadas, ao que me recordo, em dezembro de 1989, no final do meu primeiro ano como prefeito de Macapá. Trinta e sete anos depois, esses escritos perdidos reaparecem, e com eles as entrevistas que compartilho com vocês.
Boa leitura.
Entrevista
Francisco das Chagas Bezerra — Chaguinha. Em dezembro de 1989.
Nascido em 1907, em Fortaleza (CE), militante do Partido Comunista. Chaguinha tinha 84 anos quando me concedeu esta entrevista.
“Isso começou por volta do dia 20 de maio de 1973. Eu só ouvia falar que havia homens atacando mulheres, tentando estrangulá-las, mas sem matar. O medo foi crescendo. Em todos os bairros se falava disso. A cidade entrou em pânico.
Eu não levava muito a sério no começo. Eram muitos comentários. Mas o terror foi tomando conta de todos.”
No dia 31 de maio, ao sair do trabalho na antiga Beira — onde fazia carretos — encontrou um amigo:
“Seu Chagas, estão prendendo muita gente. Já levaram Isnar Lima, Jorge Padeiro e o filho dele. Melhor o senhor ir pra casa.”
Chaguinha seguiu pela Avenida FAB. Ao chegar, a polícia já o aguardava.
“Me deram voz de prisão na porta de casa. Disseram que era por esse ‘negócio’ e por ordem superior. Entraram e reviraram tudo. Livros, fotos… até livro da Rachel de Queiroz. Era horrível. Eu estava apavorado, mas não demonstrei.”
Foi levado à Fortaleza de São José, onde já havia cerca de vinte homens presos.
“No dia seguinte, os soldados entraram mandando todo mundo encostar na parede. Rasgaram roupas, colocaram as camisas na cabeça como capuz. Aquilo era humilhante. Depois nos amarraram com arame.”
Reconheceu conhecidos entre os presos.
“Quando me chamaram pelo nome, amarraram minhas mãos. Um soldado que me conhecia disse: ‘Não aperta muito, é o velho Chagas’. Aquilo me salvou.”
Depois, foram levados em caminhão ao aeroporto e embarcados em um avião do Exército rumo a Belém.
Ao desembarcarem em Belém, foram transportados para a 5ª Companhia de Guarda do Exército. Lá, um oficial ordenou que as amarras fossem retiradas e que os detidos fossem alimentados. Entre os presos, havia uma mulher loira, posteriormente identificada como uma jovem vendedora de confecções em Macapá, acusada de distribuir bombons envenenados para crianças.
Os presos foram chamados individualmente para interrogatório. Hermínio Gugel, ao retornar, demonstrava angústia, afirmando que não seria contra as autoridades. À noite, um soldado tentou intimidar os detidos, ordenando que repetidamente se levantassem e sentassem. Um dos presos, um paraibano com problemas no joelho, recusou-se a obedecer, desafiando os soldados a atirarem nele. Outro soldado interveio, lembrando que os detidos estavam sob a responsabilidade do major Amorim. Depois de três semanas de interrogatórios e maltratos, o inquérito policial militar (IPM), instaurado para investigar o caso, chegou a conclusão que tudo não passara de uma farsa grotesca, e todos foram postos em liberdade.
Entrevista
Dr. Adamor Oliveira
Advogado, à época assessor do secretário de Segurança Pública. Dezembro de 1989
Adamor inicia sua fala com um desabafo que revela o sentimento de perplexidade que o acompanhou anos depois:
“Eu só fui entender o que estava acontecendo muito tempo depois. Quando percebi, pensei: como éramos ingênuos.”
E foi direto ao ponto:
“Gentil Almeida Campos queria justificar a criação da Polícia Militar no Amapá. Para isso, precisava de um fato concreto. A estratégia foi simular ataques para gerar pânico. Assim nasceu o ‘Engasga Engasga’.”
Segundo ele, o personagem central da farsa foi um estrangeiro conhecido como Itapai.
“Ele vivia no Brasil com documento falso. Gentil mandou integrá-lo às rondas. Com o tempo, percebemos que ele próprio era o ‘engasgador’.”
Mesmo com suspeitas, o secretário o protegia.
“Houve uma vez em que ele desapareceu durante a ronda. Nesse intervalo, ocorreu um ataque perto de onde estávamos.”
Paralelamente, começaram a mapear antigos militantes políticos.
“Levantaram nomes de pessoas presas em 1964. Depois vieram as prisões.”
Cerca de vinte pessoas foram detidas e enviadas a Belém em avião militar.
“Quando prenderam todo mundo, os ataques simplesmente pararam.”
O objetivo estava cumprido.
“O Itapai foi colocado no meio dos presos para ouvir conversas e relatar tudo depois. Em Belém, foi liberado. Os demais ficaram.”
O Inquérito Policial Militar foi conclusivo:
“Não havia nenhuma atividade subversiva. O próprio Exército concluiu que tudo não passava de uma simulação.”
O processo foi arquivado.
Sobre o destino de Itapai:
“Gentil mandou que ele deixasse o país pela Guiana Francesa. Foi preso no caminho, voltou, recebeu dinheiro e ordem para desaparecer. Nunca mais se ouviu falar dele.”
Adamor encerra com uma síntese dura:
“Hoje está claro: tudo foi montado. Uma operação para justificar poder e repressão.”
Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.
Histórias como essa nos lembram que a democracia não é um dado permanente — é uma construção cotidiana. Quando o Estado fabrica o medo e manipula a verdade, o que está em jogo não é apenas a liberdade de alguns, mas a segurança de todos. Defender a democracia é, antes de tudo, garantir que nunca mais o medo seja usado como instrumento de poder contra o próprio povo.
*) Prefeito de Macapá, governador e senador do Amapá. Autor da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência). Empreendedor da economia da floresta em pé.

Artigo – O Amapá poderá se beneficiar do Fundo Florestas Tropicais para Sempre

Por Marco Antonio Chagas*

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), a ser anunciado na COP 30 em novembro próximo, em Belém, tem o objetivo de remunerar a conservação de florestas tropicais no mundo. O lançamento será feito em uma reunião específica sobre o tema, chamada “Solutions Dialogue: TFFF”, com Lula e outros chefes de Estado.

O TFFF foi anunciado como finalista do Prêmio Earthshot 2025, criado pelo Príncipe William. A cerimônia de entrega dos prêmios, que acontecerá no dia 5 de novembro, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, contará com a presença do Príncipe William.

Os recursos do TFFF serão doados a países com florestas tropicais, proporcionalmente à área conservada, com 20% direcionados especificamente a comunidades locais ou indígenas. Territórios legalmente protegidos poderão ser beneficiados pelo TFFF, como o Amapá.

A região protegida que se estende do Norte do Pará, Amapá e Guiana Francesa possui uma área de aproximadamente 300 mil quilômetros quadrados. Constitui o maior território protegido e conectado do planeta. A criação da Reserva da Biosfera Norte da Amazônia- Platô das Guianas credibilizará ainda mais o TFFF perante a comunidade internacional.

A partir da COP 30, as Convenções do Clima e da Biodiversidade serão integradas em uma única agenda. Não tenho conhecimento de que o governo brasileiro tenha uma proposta para a COP 30 tão relevante para a questão do clima e da biodiversidade como a criação da Reserva da Biosfera Norte da Amazônia-Platô das Guianas.

Como o Amapá pode se beneficiar do TFFF? A conta é estimada pela comprovação de que a cobertura florestal está protegida, mediante comparação de imagens de satélite. O valor fixado para cada hectare será remunerado com US$ 4. A Reserva da Biosfera Norte da Amazônia-Platô das Guianas receberia US$ 120 milhões, aproximadamente R$ 600 milhões.

A proposta está disponível em português e inglês no endereço https://unifap.academia.edu/MARCOCHAGAS e seu encaminhamento depende do interesse político dos governos do Amapá, do Pará, das autoridades da Guiana Francesa e do Governo Brasileiro. A iniciativa precisa atender aos protocolos da UNESCO/Programa MAB, conforme documento “Diretrizes Técnicas para Reservas da Biosfera, disponível em https://en.unesco.org/mab.

*Marco Antonio Chagas, Doutor em Desenvolvimento Socioambiental. Professor do Curso de Graduação em Ciências Ambientais e do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento da Amazônia Sustentável da Universidade Federal do Amapá. [email protected].

Marketing eleitoral predatório: é preciso reagir

Marketing eleitoral predatório: é preciso reagir  
Paulo César do Vale Madeira

Nos últimos anos, sobretudo depois do lançamento do livro “Como as democracias morrem”, by Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, os formadores de opinião, através da imprensa, e também o meio acadêmico, passaram a refletir de forma mais acentuada sobre os novos mecanismos usados por autocratas ou por líderes populistas para minarem a democracia, fugindo dos clássicos golpes militares, como os ocorridos no Brasil e no Chile, para ficarmos em dois exemplos ligados diretamente à nossa realidade. Sobre a ligação entre o golpe militar no Chile e a nossa realidade brasileira, para que não pareça uma afirmação vazia, é recomendável a leitura do livro “O Brasil contra a democracia: a ditadura, o golpe no Chile e a guerra fria na América do Sul”, by Roberto Simon.

Com o desenrolar das reflexões passou a ser quase um lugar comum a afirmação de que as democracias começam a colapsar com a desmoralização das instituições democráticas, o que pode ocorrer de várias formas: diminuição dos poderes dos órgãos de fiscalização, supressão de prerrogativas de Juízes e Juízas, alteração das composições dos Tribunais, com aumento de vagas para possibilitar nomeações casuísticas, dentre outras.

Também passou a ser lugar comum a reflexão de que esses mecanismos de desmoralização da democracia foram potencializados pelo fenômeno das redes sociais, uma das transformações mais impactantes na sociede atual. No Brasil, sobretudo a partir das eleições de 2018, o impacto das notícias falsas, as chamadas “fake news”,  através das redes sociais, foi quase devastador para as instituições que zelam pelas eleições no Brasil. A afirmação insistente de um líder extremista sobre a vulnerabilidade das urnas eletrônicas, mesmo sem base material ou aderência ao histórico das eleições por esse meio, que vem desde 1996, ganhou corpo no mundo virtual, virou verdade paralela para muitos, e obrigou o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, a fazer um movimento (equivocado, como hoje se reconhece), consistente em trazer para dentro dos órgãos de acompanhamento e segurança da Corte uma representação militar, como se a democracia precisasse dessa chancela para não deixar dúvida sobre a idoneidade do processo eleitoral.

Tudo isso dito, cabe uma relexão sobre um desdobramento do fenômeno das redes socias, a partir de fatos atuais do mundo físico, do mundo real, o que chamo de marketing eleitoral predatório a partir dos debates em estúdios de TV. Estamos falando, claro, dos acontecimentos na cidade de São Paulo, onde um candidato, quase sem tempo de propaganda eleitoral gratuita, encontrou um meio de se tornar conhecido por quase toda a população: agredir, de forma impiedosa, verbal e até fisicamente, através de um Assessor, os adversários presentes no mesmo espaço que era para ser de debates. As agressões, por razões humanas compreensíveis, vão gerando reações, algumas destemperadas, como foi o episódio que já entrou para a história das nossas eleições, de forma caricata, a cadeirada no provocador.

Qual o grande problema disso, para além da bizarrice, em si, e das possíveis implicações criminais? Sem dúvida, o proveito político eleitoral para o provocador, o que pode fazer escola, e ajudar, por esse viés, a desmoralizar as instituições democráticas, suprimindo das matérias jornalísticas os debates de ideias, para que as notícias sejam exatamente aquelas que não deveriam ser dignas de comunicação: os atos de violência física e moral entre candidatos que foram registrados perante a Justiça Eleitoral. Não se trata aqui, por óbvio, de qualquer tentativa de responsabilizar a imprensa pela divulgação das violências que viraram marketing eleitoral predatório, se trata, sim, de uma reflexão que todos nós devemos fazer sobre a contribuição, ainda que involuntária, que os formadores de opinião acabam dando para os provocadores. É preciso reagir, e o orenamento jurídico nos dá as ferramentas.

A Justiça Eleitoral, do mesmo modo que todos os segmentos do Judiciário, está vinculada a alguns princípios fundamentais estampados na nossa Constituição Federal e que são, na essência, representativos da nossa adesão aos avanços civilizatórios inseridos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, com destaque para a dignidade da pessoa humana, o princípio mais importante. Para que não reste dúvida sobre a obrigaçãoda da utilização desse princípio nas decisões judiciais, necessário recorrer a uma norma de sobredireito, inserta no Código de Processo Civil de 2015, o Art.8º, que diz:

“Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.”.

Aliado a essa previsão, para ficarmos no campo próprio do Direito Eleitoral, temos que as novidades incluídas na Resolução TSE nº 23.610/2019, através da Resolução TSE nª 23.732/2024, nos apontam um caminho. No Art.9º – F, da Resolução em questão, vem uma previsão que, mudando o que tem que mudar, pode ser adotada para os casos de marketing eleitoral predatório a partir dos debates em estúdios de TV. Diz o dispositivo:

“Art. 9º-F. No caso de a propaganda eleitoral na internet veicular fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados sobre o sistema eletrônico de votação, o processo eleitoral ou a Justiça Eleitoral, as juízas e os juízes mencionados no art. 8º desta Resolução ficarão vinculados, no exercício do poder de polícia e nas representações, às decisões colegiadas do Tribunal Superior Eleitoral sobre a mesma matéria, nas quais tenha sido determinada a remoção ou a manutenção de conteúdos idênticos.”.

Se por uma lado não é defensável a censura prévia, que permitiria e exclusão de um determinado candidato de um debate em razão das práticas predatórias nas redes, parece defensável que a constatação dessa prática reiterada nos debates, com o objetivo de tirar proveito político a partir da desmoralização das instituições democráticas, gerando “notícias” nas redes sociais e até na imprensa profissional, justifica a atuação do Ministério Público e do Estado-Juiz para instauração de procedimento voltado para a exclusão do predador da corrida eleitoral, que deve seguir regras e princípios, preservando a dignidade da pessoa humana. É preciso reagir enquanto a prática não virou epidemia.

*Paulo César do Vale Madeira é poeta, juiz de Direito, ex-Juiz membro do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá, Mestre em Direito Constitucional pela UnB e um dos membros coordenadores da ABRE – Associação Brasileira de Eleitoralistas

Todo escritor é um maratonista

Maratona
André Naves (*)

Eu gostaria de ter escrito este artigo no dia 25 de julho. Como diz o ditado, “sempre que Deus vê nossos planos, Ele ri”. Também, pudera, os planos são Dele! Claro que a gente tem de se planejar para tudo. Mas, também, nós devemos ter a flexibilidade para adaptar tudo o que foi planejado às novas circunstâncias.
É que 25 é o dia do escritor! Seria uma forma de homenagem. Logo no dia seguinte, 26, foi a Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Todo escritor é um maratonista! Vai escrevendo, às vezes se perde, se cansa, cai, mas volta a se levantar e o rio da narração volta a correr por caminhos novos, originais, diferentes do plano original.

O traçado da maratona está lá! Mas cada atleta tem sua estratégia, sua história, alimentação, treinos… Seus caminhos! As ideias iniciais do escritor indicam um destino, mas cada palavra puxa outra por trilhas até então desconhecidas e impensadas. Claro que a gente sempre olha na bússola, procurando uma certa direção. Mas assim como o rio contorna as pedras em seu leito, a história meio que vai se escrevendo e a gente tem de escolher novos, e sempre melhores, caminhos que nos levem ao final.

O maratonista é um escritor! O lirismo está em sua corrida leve, está em descobrir os melhores caminhos dentro do caminho. Isso é perseverar! Buscar novas alternativas para superar obstáculos. Essa é a missão do maratonista! Essa é a busca do escritor! Perseverança!

São 40 anos desde Los Angeles, 1984, Olimpíada em que teve palco uma das imagens mais emocionantes de todos os jogos olímpicos. A foto que traduz a Perseverança! Nunca vi a fotografia da maratonista que levou o ouro em Los Angeles. No entanto, é bem comum a lembrança de Gabrielle Andersen, que ficou na trigésima sétima posição naquela prova. Antes de Los Angeles as mulheres eram proibidas de disputar maratonas olímpicas. Aquela era a primeira. Um marco.
Gabrielle perdera a última estação de água. Desidratada e desorientada, além de estar com fortes cãibras, ela levou intermináveis sete minutos para percorrer os 500 metros do Los Angels Coliseum. Mancou, chorou, quase caiu, mas perseverou… Venceu a linha de chegada.
Caiu!Ouviu os fortes aplausos!Trigésimo sétimo lugar. Vitória!

* André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos, Inclusão Social e Economia Política. Escritor, professor, ganhador do Prêmio Best Seller pelo livro “Caminho – a Beleza é Enxergar”, da Editora UICLAP 

A desconstrução do mundo 

A desconstrução do mundo
*João Filipe da Mata   

Quando saí do Brasil para morar no exterior, eu sabia que muita coisa iria mudar: mais uma língua, outros costumes, novas paisagens. Em resumo, muita novidade pela frente – e era exatamente o que eu queria. Eu só não sabia que a maior mudança  aconteceria dentro de mim.

Em Xangai,  eu, que sempre fui considerado baixo, passei a ter estatura mediana e a comprar roupas tamanho M. Em Abu Dhabi, o trabalho acontecia de domingo a quinta-feira – a sexta, dedicada à oração, parecia domingo; o sábado, com ruas cheias, tinha cara de sábado, mas encerrava a semana. Em Roma, o sonho infantil de comer pizza todos os dias se tornou realidade, e foi radicalmente abandonado antes que virasse pesadelo – até pizza enjoa.

Cada uma dessas pequenas novidades contribuiu para abalar os alicerces de tudo que, para mim, parecia muito bem definido: quem, quando e por quê –  quem eu era, o que era o tempo ao meu redor, e quais eram os meus desejos.

Ao longo dos 12 anos em que morei no exterior, quase tudo foi desconstruído, e várias vezes. Sem que eu pudesse evitar, certezas foram substituídas por dúvidas, que se resolveram em outras dúvidas e, por vezes, em um vazio incômodo, até serem finalmente substituídas por novas certezas. Mais ou menos como acontece quando vemos um documentário, interagimos com alguém mais questionador ou lemos um bom livro.

Doeu? Um pouco, mas trouxe crescimento. As nossas certezas, aprendi, são provisórias. Queiramos ou não, eu e o mundo estamos sempre em construção.

*João Filipe da Mata é escritor e vice-cônsul em Sydney, Austrália. Já morou na Eslovênia, na Itália, nos Emirados Árabes, na China e no Sri Lanka. É autor de “Filho da Mãe”, publicado pela Much. 

Violência contra mulheres no Amapá

Violência contra mulheres no Amapá
Por Joel Elias*

Nos últimos anos, o estado do Amapá tem enfrentado um aumento alarmante nos casos de violência contra as mulheres, especialmente nos crimes de violência sexual e feminicídios. De acordo com os dados do relatório “A Violência Contra Mulheres na Amazônia Legal nos Últimos Cinco Anos em Comparação com o Restante do País”, divulgado nesta semana pelo Instituto Igarapé, no período de 2018 a 2022, o Amapá registrou um aumento impressionante de 88,5% nos casos de violência sexual e de 147,6% nos casos de feminicídios. Esses números são extremamente preocupantes e exigem uma resposta imediata e eficaz por parte das autoridades e da sociedade como um todo.
A análise desses dados revela uma realidade sombria e perturbadora que não pode ser ignorada. O aumento vertiginoso nos casos de violência sexual e feminicídios no estado aponta para uma profunda crise de segurança e de proteção dos direitos das mulheres. Esses números representam vidas perdidas, corpos violentados e sonhos interrompidos, evidenciando uma falha sistêmica em garantir a segurança e a integridade das amapaenses.
E, infelizmente, esse tipo de violência não é um problema isolado do Amapá, e apresenta-se como um reflexo de questões mais amplas e complexas que afetam o tecido a social. Fatores como desigualdade de gênero, falta de acesso a serviços de proteção e Justiça, e cultura de impunidade para os agressores contribuem para perpetuar esse ciclo de violência. Além disso, a vulnerabilidade das mulheres, especialmente no que se refere a questão socioeconômica, é exacerbada pela falta de políticas públicas eficazes e de programas de prevenção e assistência.
Diante desse quadro preocupante, é imperativo que o estado do Amapá e a sociedade amapaense adotem medidas concretas e urgentes para combater a violência contra as mulheres. Primeiramente, é essencial fortalecer o sistema de proteção e assistência às vítimas, garantindo o acesso a serviços de apoio psicológico, jurídico e médico de qualidade. Além disso, é fundamental investir em políticas de prevenção, educação e conscientização, promovendo uma cultura de respeito aos direitos das mulheres e de repúdio à violência de gênero.
É igualmente importante fortalecer o aparato policial e judiciário, garantindo uma resposta eficaz e rápida aos casos de violência de gênero. Isso inclui a capacitação de profissionais para lidar com esses casos de forma sensível e empática, além do fortalecimento das investigações e do combate à impunidade que sempre beneficia os agressores.
Por fim, é fundamental que a sociedade se mobilize nesse esforço coletivo para acabar com a violência contra as mulheres em terras Tucuju. Isso significa desafiar atitudes e comportamentos machistas, promover relações baseadas no respeito mútuo e na igualdade de gênero, e apoiar as vítimas em sua busca por justiça e dignidade.
Pelo que mostra o estudo feito pelo Instituto Igarapé, o combate à violência contra as mulheres no Amapá é urgente e inadiável. Cada vida perdida e cada crime cometido são um lembrete doloroso da urgência de agir. É hora de unir esforços, de enfrentar esse desafio com determinação e de garantir um futuro seguro e digno às amapaenses. Somente assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária para todos.

*Joel Elias dos Santos é amapaense, jornalista, músico, compositor e poeta. Iniciou na imprensa amapaense como repórter policial do jornal Novo Fronteira em 1991. No ano seguinte estava na equipe que fundou o Diário do Amapá, sendo um dos primeiros editores. Trabalhou ainda nos jornais A Gazeta, Tribuna Amapaense e Leia Agora. Trabalhou ainda como assessor de comunicação do Governo do Estado do Amapá, Câmara Municipal de Macapá e Assembleia Legislativa do Amapá. Há mais de 10 anos reside em Porto Velho (RO), onde trabalhou como assessor de comunicação da prefeitura da cidade e atualmente é editor-geral do jornal Diário da Amazônia. Cursou filosofia na Universidade Federal de Rondônia (Unir) e está se graduando em música no curso de bacharelado da Faculdade Metropolitana.

O combate ao etarismo em favor da dignidade da pessoa idosa

O combate ao etarismo em favor da dignidade da pessoa idosa
André Naves (*)

É fundamental compreender que o envelhecimento é um processo natural e que todos nós, se tivermos a sorte de viver tempo suficiente, nos tornaremos idosos. Portanto, a garantia dos direitos humanos e da dignidade das pessoas idosas é uma questão que nos afeta a todos. Um dos principais desafios que a população idosa enfrenta é a violência, que pode assumir diversas formas, incluindo, lamentavelmente, a violência doméstica. Além das agressões físicas, é importante destacar que a violência pode ser verbal, emocional e até institucional.
Para combater a violência contra os idosos, a ação policial qualificada é essencial, mas é importante destacar que a prevenção desempenha um papel fundamental, que começa com a criação de estruturas sociais sustentáveis, inclusivas e justas. Isso envolve garantir que os idosos tenham acesso a serviços de saúde de qualidade, moradia adequada, oportunidades de educação contínua e participação ativa na sociedade.
É necessário eliminar o etarismo, o preconceito e o estigma associados ao envelhecimento, promovendo uma cultura que valorize a experiência e a sabedoria das pessoas idosas. Além disso, a convivência intergeracional desempenha um papel crucial no desenvolvimento da criatividade e da inovação. A troca de experiências e conhecimentos entre idosos e jovens enriquece a sociedade como um todo. Portanto, dar dignidade à população idosa não é apenas um dever constitucional e moral, mas também uma condição essencial para o desenvolvimento sustentável da sociedade.

Em resumo, a concretização dos direitos humanos e da dignidade das pessoas idosas é um desafio que requer uma abordagem abrangente, que inclua a prevenção da violência, a eliminação do preconceito e a promoção da convivência intergeracional. Acima de tudo, educação de qualidade e políticas públicas eficientes podem contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva para pessoas de todas as idades.
*André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; Mestre em Economia Política; Autor do livro “Caminho – A Beleza é Enxergar”.

O filho mais querido

O filho mais querido
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Perguntaram um dia a um sábio persa:

– Tu tens muitos filhos, a qual preferes? O homem respondeu:

– O filho que prefiro é o menor até que cresça; o que está longe até voltar; o que está doente até ficar curado; o que está preso até ser libertado; o que está sofrendo até ser consolado…

Neste 26º Domingo do Tempo Comum, continuamos com a leitura do evangelho de Mateus e também com as perguntas e respostas “polêmicas” dos sacerdotes e anciãos de um lado e de Jesus do outro. Desta vez, porém, a iniciativa é do próprio Mestre. Através de uma simples parábola ele nos deixa, como sempre, um ensinamento que vai além das circunstâncias e, assim, desafia a todos nós. A parábola fala de dois irmãos, filhos do mesmo pai. Ele manda ambos ir trabalhar na vinha da família. Nada de mais óbvio. Na medida do possível, os filhos devem colaborar com a economia da casa da qual fazem parte. No entanto, o pai recebe diferentes respostas verbais, mas sobretudo respostas diferentes no agir dos filhos. O primeiro disse claramente que não queria ir trabalhar. Parece preguiçoso e desinteressado. Depois, porém, “mudou de opinião” (Mt 21,29) e foi trabalhar na vinha. O segundo filho recebeu a mesma ordem, logo respondeu que iria, sim, para a vinha. Contudo ele não foi. Jesus perguntou às autoridades presentes e, indiretamente, também a nós: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Não tinha outra resposta a não ser: “O primeiro”, ou seja, aquele filho que, apesar de ter dito que não iria trabalhar, afinal, foi para a vinha. O outro, aparentemente obediente, na realidade desobedeceu ao pai. Logo em seguida, Jesus repreende os sumos sacerdotes e os anciãos, porque não acreditaram na pregação de João Batista. Ele faz uma afirmação, no mínimo, ofensiva e escandalosa para aquelas pessoas que, por causa da rigorosa obediência à Lei, consideravam-se justas e no direito de julgar os outros. Jesus diz que “Os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus” (Mt 21,31) porque eles acreditaram no batismo de penitência que João pregava. Ou seja: os considerados pecadores e perdidos se entenderam como tais e acolheram a proposta de conversão. Ao contrário, os que se consideravam corretos – as pessoas de bem – achavam que não precisavam mudar em nada a própria vida. Indiretamente, Jesus fala dele mesmo, porque com esta atitude de cegueira e surdez à mensagem de João, aquelas pessoas “perfeitas”, em prática, fecharam-se à chegada daquele que, depois, teria batizado “em Espírito Santo e fogo” (Mt 3,11).

A mensagem da parábola é clara. Deus não precisa de filhos obedientes só com as palavras, exteriormente, nas aparências. Ele quer filhos que pratiquem os ensinamentos daquele Filho único que nos enviou: Jesus. Não importa se antes, por alguma razão, estavam bem longe e andavam por caminhos errados. Nunca é tarde para mudar de vida, de fato e seriamente. Autossuficiência, soberba e orgulho acabam nos afastando da mensagem do evangelho. Assim Jesus se torna inútil. Humildade, consciência dos próprios pecados e reconhecimento da bondade de Deus, fazem-nos admirar a sua misericórdia e experimentar a alegria do perdão. Jesus se torna nosso Amigo e Mestre.

Qual seria, então, o filho que o Pai celestial prefere? O perfeito e o orgulhoso de si mesmo? Provavelmente ele prefere o afastado com saudade da casa paterna, a “ovelha perdida” que se deixa carregar nos ombros do Bom Pastor, o errado que desce da árvore para abrir a sua casa, acolher Jesus e dar a metade dos seus bens aos pobres. Ou seja, o filho e a filha que confiam mais na misericórdia do Pai que nos próprios merecimentos e, sobretudo, não julgam os outros. Os filhos e as filhas que se alegram pelo bem que qualquer um pode fazer, sem fazer propaganda. Toda mudança de vida é sempre e antes de tudo um dom gratuito de Deus e não o resultado dos nossos presunçosos esforços. Todo lugar é a “vinha do Senhor”, toda situação precisa de trabalhadores do Reino que pratiquem o mandamento do amor.                         

Agora é que são ELAS! 

Agora é que são ELAS!
André Naves (*)

A bola vai rolar na Austrália e na Nova Zelândia a partir do dia 20, naquela que a FIFA está chamando de “a Copa das Copas”! As majestosas esquadras nacionais competirão para levar para casa a grande taça. É a paixão nacional, tão humana e de profunda beleza, que animará as torcidas a levantarem suas cores numa profunda ciranda: a mandala da inclusão, a imagem da sociedade alegre, festeira e criativa!

No meio de tantas palavras femininas, soa muito estranho, e até fora de lugar, que o futebol, a essência brasileira, seja palco de tanto machismo, homofobia, racismo, capacitismo, e diversos outros nojentos preconceitos. Por isso que são louváveis iniciativas como a “Respeita as Mina”, do Corinthians, que, aproveitando a crescente visibilidade do futebol feminino, busca combater o assédio e a violência de gênero. Também, as “Gaivotas da Fiel”, torcida organizada LGBT que luta contra a homofobia e as outras diversas formas de violência e exclusão.
Para não ficar só enaltecendo os corintianos, também é válido citar a “Autistas Alviverdes”, torcida palmeirense extremamente inclusiva. Também o Vini Jr., que depois de tanto sofrer com agressões racistas, começou a liderar uma campanha mundial contra o racismo no futebol!
É por isso que prestigiar a Copa Delas é tão importante. Como paixão que é, o futebol tem a capacidade de estimular os melhores (e, lamentavelmente, os piores) sentimentos e atitudes humanas. Se o amor pela bola fez o menino Gui, de 8 anos, com uma doença rara, vencer o coma para visitar seu time do coração (juro que quase virei vascaíno, de tão emocionantes que foram as cenas!), o que será que ele pode fazer por nossa sociedade?
Ou seja, torcendo pelas meninas tornaremos o futebol mais inclusivo e acessível para todos e todas. E, a partir disso, a construção de estruturas sociais mais inclusivas e justas será, cada vez mais, naturalizada.
O futebol é o sorriso da gente! A partir dele continuaremos firmes em nossa permanente viagem rumo à Utopia!

*André Naves é Defensor Público Federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; Mestre em Economia Política.

Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia

Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia (At 10,40)
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

É sempre difícil expressar em poucas palavras a grandeza do evento pascal. Os próprios evangelistas tiveram que encontrar palavras novas para dizer algo inesperado e surpreendente. Isso vale também para nós. Se reduzimos a Páscoa a algumas afirmações decoradas podemos saber dizer que “Jesus ressuscitou”, mas, com isso, não deixamos ainda que essa “novidade” ilumine a nossa vida. Com efeito, a Páscoa de Jesus nos comunica algo extraordinário sobre Deus, Jesus e nós mesmos.

Afirmar que o Deus, Pai de Jesus Cristo é o “Deus da Vida e não da morte” é mais do que falar de imortalidade ou algo semelhante. Desde o Antigo Testamento, aprendemos que o problema do ser humano não é a morte biológica em si, que nos é apresentada como a conclusão natural de uma existência passageira. O que faz a diferença entre quem está vivo e quem está morto não é o número dos anos alcançados, mas a maneira de viver. Quem acompanha e obedece ao projeto de Deus está “vivo”. Quem não acolhe a proposta de Deus já está “morto”, apesar de estar andando ainda pelos caminhos deste mundo. Ou seja: somente quem está em “comunhão” com Deus está vivo de verdade. No Novo Testamento, é a vida de Jesus que nos é apresentada como uma forma de vida perfeitamente em acordo com a vontade do Pai. Isso não significa que tudo foi fácil para ele. Até o último dia, os seus seguidores esperavam alguma manifestação grandiosa de poder que revertesse a situação ameaçadora na qual ele se encontrava. Na Paixão, foram tantos os que gritaram: “Se és o Cristo, desce da cruz, salva a ti mesmo e a nós” (Lc 23,35-39).

Para muitos, ainda hoje,  Jesus não soube aproveitar do seu sucesso, perdeu todas as oportunidades que a sua fama lhe oferecia para se tornar poderoso. Foi sempre essa a tentação que o acompanhou. É a mesma que nós todos experimentamos, quando temos que decidir como gastar a nossa vida e os talentos que recebemos sem pedir: usá-los para dominar os irmãos ou para servi-los? Se o Deus que Jesus veio nos fazer conhecer é amor, somente ele pode doar. Não quer tirar nada de ninguém e nem obrigar a fazer a sua vontade. Somos nós que nos preocupamos demais com aquilo que vamos ganhar. A vida de Jesus foi uma vida totalmente doada, a serviço do Reino de Deus que ele veio iniciar. Para segui-lo, chamou “os que ele quis”, mas ninguém foi forçado a fazê-lo. O jovem rico, por exemplo, foi chamado ao seguimento, mas ficou livre de decidir e foi embora triste  (Mt 19,16-22). Os apóstolos fugiram na hora da Paixão, mas Jesus, depois da Ressurreição, não os culpou pela covardia e nem os ameaçou de castigos, ao contrário, ofereceu-lhes a paz e o perdão. Por tudo isso, nós ousamos dizer que Jesus, “com forte clamor e lágrimas” (Hb 5,7), mas sobretudo com amor total caminhou livremente – e conscientemente – rumo à morte de cruz, e São Paulo chama isso de “obediência” ao Pai (Fl 2,8). Com essa vida e com essa morte, Jesus se tornou o “homem” que realizou, plenamente, o Projeto de Deus como o próprio Deus tinha pensado desde o início.

A vida dele foi diferente, sempre doada, sempre promovendo novas vidas com o perdão, a fraternidade, a partilha, a cura da maior de todas as doenças: o pecado entendido como “morte”, porque quando falta o amor morremos, afastando-nos de Deus e dos irmãos. Deus Pai “ressuscita” Jesus, porque a vida amorosa vivida pelo Filho encarnado é a própria vida de Deus que nem a morte pode vencer. A Vida-Amor não morre, continua viva, porque participa da vida divina. A vida nova da “ressurreição”- a vida verdadeira que não morre mais – começa em nós, quando acreditamos e praticamos o que afirmamos no nosso Batismo: deixamos as obras mortas que levam à morte – também se chamadas poder, riqueza, prestigio, força – e abraçamos as obras que geram vida, encontro, misericórdia, união. A Vida Nova da Páscoa está mais perto de nós do que pensamos e lembramos, pois está conosco desde quando pela fé, a esperança e o amor tivemos o dom, não merecido, de participar da Vida Divina. Essa Vida é o mesmo Espírito daquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos e que habita em nós (Rm 8,11). A comunhão com Deus-Amor não morre.

“Quem é este homem?”

“Quem é este homem?” (Mt 21,10)
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá  
Chegamos ao “Domingo de Ramos da Paixão do Senhor” e iniciamos a Semana Santa. Todos os anos, somos convidados a acompanhar Jesus nos últimos dias de sua vida. Estaremos com ele na última Ceia, na despedida dos discípulos, na agonia do Getsêmani, no caminho do Calvário, na morte cruel na cruz, no silêncio do Sábado, até o amanhecer do dia da Páscoa. O convite para todos os cristãos é, evidentemente, para participar dos momentos litúrgicos que, com sua simplicidade e sobriedade, saberão reavivar a nossa fé e nos colocar mais perto do Senhor e dos irmãos.
 Nesse sentido, a nossa maneira de viver os dias da Páscoa será um sinal de como e de quanto estamos interessados no assunto. Para muitos serão dias comuns, de trabalho e de atividades. Não podemos mais esperar que o vaivém da vida corrida, cheia de afazeres e negócios, pare para chamar a nossa atenção e nos lembrar que é Páscoa. Não estamos mais numa sociedade “cristã”, também se nas TVs passarão filmes sobre a Paixão do Senhor e seremos submergidos de mensagens com rostos ensanguentados de Jesus para todos os gostos, com as lágrimas de Maria e com todas as orações possíveis. Logo em seguida, será a vez de recebermos a obrigatória enxurrada de votos de “Feliz Páscoa”. Tudo isso significa que se, nesses dias, não paramos para refletir e nos questionar sobre a nossa fé, gastaremos tempo para, assistir, ler, responder e apagar as mensagens, mas tudo passará rapidamente e muito pouco ficará daquele evento fundamental, que para nós cristãos é a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Sim, um único “evento”, consumado em poucas horas. Para as autoridades daquele tempo, tudo devia acabar para sempre ao anoitecer daquela Sexta-Feira. Mas o corpo ensanguentado daquele malfeitor, condenado às pressas, para se livrarem dele, morto na cruz e sepultado de qualquer jeito, nunca mais foi encontrado. “Ele está vivo” começaram a proclamar os seus seguidores e saíram pelo mundo para espalhar essa notícia dispostos a morrer por causa disso. Algo novo, inesperado, surpreendente, tinha acontecido. Voltaremos sobre o assunto no próximo domingo.
Agora, o convite, é refletir e tentar responder à pergunta que “a cidade inteira” de Jerusalém, na sua agitação, fazia-se: “Quem é este homem?”. As leituras da Liturgia deste Domingo de Ramos nos ajudam, mas nada e ninguém poderá substituir o que cada um de nós pensa e declara acreditar, porque nós “recebemos” dos outros, através da comunidade cristã, o conteúdo da fé, mas a adesão a ela só pode ser pessoal, dada no exercício da nossa liberdade e no silêncio da nossa consciência. Vou apresentar algumas respostas. As multidões dizem: “Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia” (Mt 21,11). Certo, um profeta. Mas a pouco servirão o seu exemplo e os seus ensinamentos. No processo, serão usados contra ele. Judas, saúda Jesus com um: “Salve, Mestre”. Em resposta ao seu beijo, ele escuta: “Amigo, a que vieste?”.
 Até o fim, Jesus é amigo dos pecadores, pronto a mostrar-lhes o rosto misericordiosos do Pai. Até por isso foi julgado réu.  Na cruz, colocaram um letreiro com as palavras: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. Era costume afixar no patíbulo o motivo da condenação. Mas, nesse caso, ficou um “título” que, diz outra coisa: o nome significa “Deus salva”. É como se estivessem escrito que “este” aí, Jesus, era o salvador do seu povo. Para o evangelista Mateus o “nome” de Jesus é importante, o usa mais de que os outros evangelistas. Esse “nome” é lembrado também na segunda leitura da Missa. Após ter dito que “Jesus Cristo” se fez obediente até a morte, e morte de cruz, na carta aos Filipenses lemos: “Por isso Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que que está acima de todo nome. Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua proclame: “Jesus é o Senhor”, para a glória de Deus Pai” (Fl 2,9-11). Também os soldados “se ajoelharam diante de Jesus, mas para zombá-lo (Mt 27,29). Um profeta, o amigo dos pecadores, o rei-salvador do seu povo…o Senhor… Afinal, quem é este homem para nós?

Senhor, dá-me dessa água

Senhor, dá-me dessa água (Jo 4,15)    
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá 
Nos próximos três domingos de Quaresma, deste ano, deixaremos o evangelho de Mateus para ler três longos trechos do evangelho de João. Não é um capricho de quem planejou as leituras dominicais. Esses evangelhos, riquíssimos em suas mensagens, são os escolhidos para os ritos dos “Escrutínios” e “Exorcismos” que os Catecúmenos devem fazer durante a Quaresma antes de receber o Batismo na noite de Páscoa. Como era costume, a maioria de nós deve ter sido batizada bem pequenina e, portanto, não deve ter lembrança daquele momento. Os nossos pais e padrinhos decidiram por nós, convencidos de fazer algo certo e muito bom.  No entanto e justamente a Mãe Igreja quer oferecer a todos os que frequentam as liturgias, aos domingos, a oportunidade de “escutar” novamente esses evangelhos. Assim, a cada três anos, podemos nós mesmos avaliar a nossa caminhada na fé, os frutos do Batismo e confirmar a nossa escolha livre e jubilosa de seguir o Senhor Jesus, participando da nossa Igreja-comunidade. Além dessas razões, o Ano Vocacional Nacional nos convida a reavivar o nosso compromisso batismal porque, qualquer seja a nossa “vocação” e a nossa condição social, depois do chamado à vida, deveríamos acreditar que o maior dom que recebemos foi o fato de sermos cristãos, ou seja, de ter encontrado e conhecido Jesus Cristo.
Neste Terceiro Domingo da Quaresma, vamos nos colocar no lugar da mulher samaritana e dialogar com Jesus para ver se chegamos à mesma conclusão dela e dos samaritanos: “Este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4,42). Na beira do poço de Jacó acontece o encontro entre duas sedes: aquela da samaritana, que foi ali para buscar a água para beber e uma outra “sede”, a de Jesus desejoso de ser reconhecido e acolhido por todos além das diferenças religiosas e morais. Com efeito, na frente dele está uma mulher que faz parte de uma crença desprezada pelos judeu e que já teve cinco maridos. Ela demora, mas, aos poucos, vai entendendo. Primeiro percebe que Jesus é “um profeta” (Jo 4,19), depois pergunta sobre o Messias e escuta daquele homem uma extraordinária autoapresentação: “Sou eu, que estou falando contigo” (Jo 4,26). A samaritana esquece o cântaro e volta para a cidade para contar o acontecido, levando consigo uma grande questão que é o passo necessário para alcançar a fé: “Será que não é ele o Cristo?”. Os samaritanos se aproximam de Jesus, escutam as suas palavras e muitos creem.
A página do evangelho da Samaritana diz muitas mais coisas que precisariam ser lembradas e aprofundadas. O que interessa, neste momento, porém, e espero possa ajudar mais alguém, é responder à pergunta: por que esse evangelho é colocado antes do Batismo dos Catecúmenos? Os “Escrutínios” e os “Exorcismos” são uma oração para que aquele que pede o Batismo tenha a força e a coragem de tomar a grande decisão de ser cristão. Terá que renunciar a algumas coisas e acreditar em outras. Talvez, terá que dar um rumo bem diferente à sua vida. Sem essa lucidez, o Batismo corre o perigo de ser reduzido a um costume social tradicional ou a uma imaginária proteção para a criança contra doenças ou maus-olhados. Nesses casos, estamos muito longe da fé cristã. Na prática, se as “sedes” da nossa vida são as do dinheiro, do sucesso, do bem-estar, do comodismo e de tudo o mais de material que empolga a nossa vida e anestesia a nossa consciência, o Batismo não vai servir para muita coisa. A “sede” que Jesus quer satisfazer é a do sentido profundo da nossa existência, ou seja, o desejo e a busca de ter motivações de vida e de compromisso que não nos fechem em nós mesmos, mas nos abram aos irmãos – junto aos quais caminhamos nesta peregrinação terrena – e mais ainda, sede daquela “água” que satisfaz todas as sedes: o Espírito da Verdade que Jesus quer doar aos seus amigos. Somente assim podemos ser os “verdadeiros adoradores” do Pai, filhos amados que colaboram na construção do Reino de Deus já neste mundo. Continuaremos essas reflexões sobre o nosso Batismo com o “cego de nascença” e o retorno de Lázaro à vida.