Qual riqueza? – Dom Pedro José Conti

Qual riqueza?
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Certo dia, o marido disse à esposa:

– Sabe, querida, trabalharei muito e, um dia, seremos ricos.  A esposa respondeu:

– Querido, nós já somos ricos. Porque eu tenho você e você tem a mim. Um dia, talvez, teremos dinheiro.

No evangelho de Marcos, deste domingo, encontramos Jesus e seus discípulos andando, quase às escondidas, pela Galileia. Na realidade, “o segredo” está no segundo anúncio da paixão. Ele fala também da ressurreição, mas os discípulos “não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar” (Mc 9, 32). Entendemos que o assunto é sério e que sempre será muito difícil aceitar Jesus como “messias” sofredor. Mais ainda: um messias perdedor, sem mais nada, sem poder nenhum, vergonhosamente derrotado. Talvez os discípulos tivessem medo de lhe pedir uma explicação mais clara para não ter que reconhecer que aquelas palavras de Jesus derrubavam os sonhos de grandeza que, secretamente, acalentavam. Aqueles seguidores representam todos nós e os cristãos de todos os tempos. A razão é simples. Os reinos e as sociedades humanas funcionam como uma pirâmide de poder. De uma maneira ou de outra, quem está em cima manda em quem está em baixo. Vez por outra, as coisas parecem melhorar; mudam as leis e os sistemas de governo, mas sempre aparece algo que, do alto, “pesa” mais que outras coisas. Hoje, vivemos sob o jugo da economia, das leis do mercado. Tudo bem misturado e aliado com o poder das armas, da tecnologia, dos meios de comunicação que exaltam o individualismo e o consumismo. Alguém duvida que estejamos vivendo tempos de grandes disputas? As contendas começam em nossas famílias e nem as religiões escapam das confrontações. Todos querem ganhar, sobressair, estar por cima, ser os maiores, ser os primeiros. Poder e riquezas continuam fascinando.

Jesus, o Mestre, tem algo importante para nos dizer. É quase um “segredo”, é para poucos, porque também é muito difícil de ser entendido e acolhido. Por isso, fala “em casa” e chama só os doze ao seu redor. Primeiro explica: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9,35). Mas, a quem servir? Eles devem lembrar outras palavras dele. Devem “servir” aos pequenos, aos pobres, àqueles que nunca poderão devolver o que receberam. Isso para que o serviço da caridade não seja interesseiro, não tenha outro objetivo a não ser o bem daqueles que foram ajudados. De outra maneira, deixaria de ser um gesto de amor e seria uma troca de favores, a ser cobrada antes ou depois. Logo em seguida, Jesus, para ajudar a entender o que quer nos ensinar, pega uma criança e a propõe como modelo de pessoa que deve ser abraçada, acolhida e servida por causa dele, para honrar o nome dele, e, por isso, de maneira totalmente amorosa e gratuita. Uma criança! Exemplo claro de alguém que, muitas vezes, passa despercebido, quase invisível.  Alguém que, naquele tempo, pouco ou nada valia. Só dava despesa e devia ser cuidada. Ainda não produzia nada, não podia ser uma força de trabalho.

Hoje, parece muito diferente, mas nem tanto. Falo dos milhões de crianças fora da escola por causa das guerras, das migrações, da fome e da miséria. Têm crianças transformadas em soldados, violentadas em sua inocência ou exploradas em sua dignidade. Têm crianças vendidas como mercadoria, roubadas de sua infância e usadas para satisfazer os desejos e as ambições dos adultos. Apesar de tantos progressos, continua difícil para os mais velhos acolher as crianças como elas são, como elas vêm ao mundo, com seus limites, mas também com o direito de serem diferentes de como, talvez, os pais as queriam. Isso porque cada pessoa é um dom de Deus único e irrepetível. Dom e desafio ao mesmo tempo para ser acolhido e amado, com total gratuidade, sem condições ou chantagens. Jesus nos ensina que para Deus Pai cada pessoa vale por si mesma, é um verdadeiro tesouro, uma riqueza incomparável. Só quem ama sabe dar o verdadeiro valor às pessoas amadas. Pode faltar dinheiro, mas quanta riqueza temos em nossas famílias! Ainda não a descobrimos?

O belo vaso quebrado – Dom José Conti

O belo vaso quebrado
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá 
Um casal de namorados estava passeando. A moça, olhando a vitrine de uma loja, ficou encantada com um lindo vaso chinês. Seu namorado foi indagar o preço. Era caro demais para ele. Andando pela loja, porém, viu um vaso igual, mas quebrado. Teve uma ideia. Uns dias depois, comprou, quase de graça, o belo vaso quebrado e pediu ao dono que o embrulhasse como se fosse um presente. O seu plano era chegar na casa da namorada e simular um tombo. Assim, poderia dizer que o vaso tinha se quebrado naquele momento. Deu tudo certo, e a namorada acreditou nele até desembrulhar o vaso. Então constatou a mentira. O dono da loja havia embrulhado cada pedaço do vaso quebrado separadamente! A moça ficou muito decepcionada com o namorado que queria enganá-la.
Neste 22º Domingo do Tempo Comum, voltamos a ler o evangelho de Marcos. Jesus é questionado pelos mestres da Lei sobre o fato de alguns dos discípulos dele não lavarem as mãos antes das refeições. Era um simples costume de higiene, mas tinha-se transformado numa regra rigorosa. Com base nela, as pessoas eram julgadas “observantes” ou não da “lei” e, portanto, nada menos, se eram obedientes ou não a Deus. Ao voltar do mercado, onde circulava todo tipo de gente, animais e mercadorias era necessário tomar banho, porque o contato com pessoas ou coisas “impuras” podia ter contaminado os bons judeus. Uma questão de simples e prudente “limpeza” tinha se transformado numa questão de “pureza” religiosa. Jesus chama de “hipocrisia” essa excessiva preocupação dos mestres da Lei, porque eles ficavam olhando a limpeza exterior e se descuidavam do que era mais importante: a pureza do coração. O que interessa mesmo a Jesus é o que se passa no “interior” das pessoas. O que fazemos pode parecer limpo e até chamar atenção exteriormente. Podemos enganar os homens, mas não conseguimos mentir para Deus, porque ele “vê o que está em segredo” (Mt 6,4). Com efeito, a grande verdade é esta: as boas ou as más intenções do nosso agir vêm, antes de outras motivações, do profundo do nosso coração (Mc 7,21-23).
Nestes tempos de pandemia, estamos vivendo a experiência de ter que passar álcool e lavar as mãos inúmeras vezes, sempre que suspeitamos o perigo do vírus. Não é que antes fôssemos tão “sujos” assim e que nunca lavássemos as mãos, mas agora tudo isso virou obrigação, preocupação e até frenesi. Com tanta “água e sabão” ficamos mais limpos? Com certeza “por fora”, mas, “por dentro”, continuamos os mesmos.
Talvez as palavras de Jesus nos ajudem a encontrar o melhor “detergente” para limpar o nosso coração. O contrário da “hipocrisia” é, sem dúvida, a sinceridade.
 Quando damos lugar a segundas intenções, quando praticamos certa duplicidade no nosso agir, quando falamos de um jeito e praticamos de outro, é sinal de que algo está errado conosco. Afinal, quantas pessoas somos? Por que aquela que aparece por fora é diferente daquela que somos por dentro? Não falo de doenças psicológicas ou algo semelhante. Falo mesmo do nosso ser cristãos. Tem uma bem-aventurança de Jesus sobre isso. É aquela dos “puros no coração, pois eles verão a Deus” (Mt 6, 8). Esses “puros” não são os ingênuos que não enxergam as coisas erradas. São aqueles que encontraram o “colírio” para ungir os olhos (Ap 3,18) e ver as possibilidades do bem e do amor apesar das dificuldades e das incertezas da vida. São aqueles que estão vendo Jesus presente nos pobres, nos pequenos, nos sofredores.  Eles veem muito claramente as injustiças. Não fingem não as ver, não as escondem, não aproveitam delas, não as transformam em destino ou, pior, em “vontade de Deus”.
Deveríamos zelar pela nossa sinceridade, sobretudo para não enganar a nós mesmos. Antes de apontar as “sujeiras” dos outros, seria bom “purificar” o nosso coração e o nosso agir. O nosso amigo do vaso chinês não conseguiu enganar a namorada. E nós? Será que vamos poder mentir para Deus e para a nossa consciência? Talvez, mas, vale a pena?

As palavras no chão – Dom Pedro José Conti

As palavras no chão
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá 

Um bom paroquiano acabava de participar da Missa e estava chegando perto da sua casa. De repente, um amigo aproximou-se dele e lhe disse:  “Eu preciso lhe falar”. O bom homem viu naquele encontro um sinal do céu. Ficou tão entusiasmado que começou a falar de tudo aquilo que achava importante. Falou das bênçãos de Deus, da eficácia da oração, do compromisso, da satisfação em fazer o bem e explicou ao amigo que ele era um sinal enviado pelo seu anjo da guarda porque antes estava se sentindo só, mas agora não mais. Falou, falou com palavras inspiradas. O amigo o escutava em silêncio. Agradeceu e foi embora. O bom paroquiano perdeu um pouco da sua euforia. Também porque percebeu que, por conta da sua empolgação, não tinha prestado atenção ao pedido do amigo. Baixou os olhos e viu todas as suas palavras no chão, espalhadas na rua.  

O trecho do Evangelho deste 21º Domingo do Tempo Comum é a conclusão do capítulo 6 do evangelho de João. Deixamos Jesus, dois domingos atrás, afirmando: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51). Os judeus questionam: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” (v.52). Mas Jesus insiste: “Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” (v.55) e ainda repete o que já disse no v.51: “Aquele que come este pão viverá para sempre” (v.58).

Apesar de estarmos, talvez, familiarizados com a linguagem simbólico-teológica do evangelho de João, sobretudo neste capítulo onde nos fala da Eucaristia, não podemos deixar de nos maravilhar das conexões que surgem entre elementos tão diferentes. Comemos é pão e bebemos é vinho. Só que o pão é a carne de Jesus e o vinho é o sangue dele. Sem fazer a ligação com a vida doada de Jesus e o seu sangue derramado na cruz esta linguagem fica incompreensível. No entanto, parece-me que o mais difícil seja entender o que representa para os seguidores de Jesus comer o seu corpo e beber o seu sangue. Significa escolher participar do seu amor, doando também a própria vida a serviço dos irmãos. O amor é a essência de Deus. Amar é participar da vida divina, vida esta que é plena, porque vai além do tempo limitado da nossa passagem neste mundo humano. A “palavra dura” do evangelho deste domingo não é, portanto, a promessa da vida plena, mas o jeito de alcançá-la. Esse é o paradoxo exigente de Jesus: é possível encontrar a “vida plena” somente perdendo-a, ou seja, gastando-a por amor a Deus e ao próximo. Se o egoísmo ou a indiferença falam mais alto, dá vontade mesmo de desistir.

É isso mesmo que Jesus pergunta aos discípulos: “Vós também vos quereis ir embora?” (Jo 6,67). A resposta de Pedro é uma verdadeira profissão de fé: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Para o evangelista João, Jesus é a Palavra de Deus feito carne (Jo 1,14), agora ele vai dar essa “carne” – o seu corpo, a sua vida – por meio do sinal do pão, como alimento àqueles que acreditarem nele. No memorial da Páscoa de Jesus, acontece uma comunhão extraordinária entre o ser humano e as Pessoas divinas. A Palavra sem Eucaristia pode resultar num discurso bonito, mas vazio; a Eucaristia sem a Palavra pode ser só um cerimonial bem-organizado.  Palavra e Eucaristia são “alimentos” que se completam, um explicando o outro, um plenificando o outro. Na missa nos são apresentadas a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia para podermos nos alimentar de ambas. Acreditamos que Jesus é o Pão Vivo descido do céu, mas ele é, também, a Palavra viva. Essa Palavra não é um livro para ser simplesmente lido, mas é alguém que continua a ensinar, a corrigir, a perdoar e a enviar. A Palavra transforma a nossa vida quando se torna a nossa mesma maneira de pensar, de falar e de agir. Para conseguirmos isso, precisamos antes ser, nós mesmos, bons ouvintes da Palavra de Deus. Somente assim aprenderemos a escutar os irmãos para entender seus anseios, esperanças e necessidades. Sem escutar primeiro, falaremos à toa.

A velhinha mal-arrumada

A velhinha mal-arrumada
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá 

Em tempo de férias, uma família de cinco pessoas estava na praia aproveitando do sol e do mar. As crianças tomavam banho e brincavam com a areia. De longe,  apareceu uma velhinha. Tinha os cabelos brancos esvoaçando ao vento e a roupa era visivelmente surrada e suja. Ela falava consigo mesma e, vez por outra, tirava alguma coisa da areia e a colocava num saco. Os pais chamaram as crianças mais perto e lhes disseram para ficarem longe da idosa desconhecida. Quando ela passou perto da família, sempre catando algo aqui e acolá, lançou um sorriso para eles, mas ninguém o retribuiu. Algumas semanas depois, souberam que aquela velhinha maltrapilha, há muitos anos, tinha escolhido para si uma tarefa: recolher os pedaços de vidro que ficavam na praia para que não ferissem os pés das crianças.  

No 19º Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do capítulo 6 do evangelho de João. O assunto é ainda o do “pão da vida”, “o pão que desceu do céu”, mas com algo novo e muito importante. Jesus fala sobre o Pai que o enviou e diz que ninguém vai ao encontro dele se o próprio Pai não o atrair. Também, quem estiver com Jesus participará da ressurreição no último dia. Ele fala assim porque o povo murmurava a seu respeito. Pensavam conhecê-lo, porque sabiam algo sobre a sua família e a sua cidade. Esse foi o engano deles. Um equívoco sempre atual, porque é muito fácil julgar Jesus pelas informações recebidas nos anos da nossa infância e adolescência. Nós nos tornamos adultos, mas a nossa formação cristã não cresceu junto. Muitas vezes, desistimos de continuar a ser “discípulos de Deus” (Jo 6,45), de escutar o Pai, de nos deixar “instruir” por ele e assim nos aproximarmos mais de Jesus, o Filho.

Para o evangelista João o ser atraído, o conhecer, o ver e o crer são todas ações que o discípulo experimenta como dons de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – com a única condição de deixar-se conduzir docilmente por ele. A não ser que o sufoquemos com a nossa desconfiança e o nosso materialismo, existe em nosso coração, um grande desejo de conhecer e encontrar a origem e a fonte da nossa existência. Podemos chamar isso de sede e fome de Deus. Mas Deus também está à nossa procura (Adão “onde estás?” Gn 3,9) e por isso enviou o seu próprio Filho, encarnado no homem Jesus. Com efeito, “a Deus, ninguém jamais viu” (Jo 1,18; Jo 6,46), porém, agora, se de verdade quisermos conhecê-lo e encontrá-lo, o caminho certo é acolher aquele que “vem de junto de Deus” porque este “viu o Pai”. Para que esse “caminho” de busca não seja mera especulação intelectual ou autossugestão, mas se torne vida vivida, experiência real, é necessário vivenciar bem a Eucaristia que celebramos e comemos. Quem se alimenta com “o pão que desce do céu”, reconhece a gratuidade do dom da vida de Jesus e, por isso, aprende também a fazer da própria vida um dom. Quem sustenta a sua vida aprendendo a amar com e como Jesus, participa da realidade amorosa de Deus com laços tão fortes que nem a morte pode destruí-los.

Estamos navegando na mais alta “teologia” do evangelho de João. O discurso parece confuso e misturado, mas a realidade é uma só: quem se alimenta de Jesus Eucaristia-Pão da Vida- Pão do Céu, assume o mesmo estilo de vida e, por sua vez, deixa-se consumir, dia após dia, por aqueles aos quais decide doar-se generosamente. Sem essa vida doada, a participação da Eucaristia se resolve em intimismo e devocionismo. Pode ser gratificante para a pessoa, mas não produz todos os frutos de amor que Jesus espera vir de quem se alimenta com ele, “pão vivo descido do céu”, “carne dada para a vida do mundo”. É difícil. Consola-nos, porém, saber que tantos irmãos e tantas irmãs, jovens e velhos, bem ou malvestidos, doam muito ou, ao menos um pouco, das suas vidas para que outros vivam mais felizes e sofram menos pelas feridas do desamor e da injustiça. Talvez nós não o saibamos, mas Deus os conhece, são seus amigos, já vivem da vida dele.

Servidor público pode ser obrigado a tomar vacina contra coronavírus?

Por Clara Banha – Procuradora de Justiça do Ministério Público do Amapá

Neste momento da pandemia do coronavírus, muito se tem questionado, se o servidor público pode ser obrigado a tomar a vacina contra o vírus, ao colocar em risco a saúde de pessoas que trabalham, ou de quem procura o órgão.

A lei N.13.979 de  06 de fevereiro de 2020, proposta pelo Presidente da República, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada,  dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019, prevê que as medidas estabelecidas na lei objetivam a proteção da coletividade. E que as pessoas deverão sujeitar-se ao cumprimento das medidas previstas na lei, e o descumprimento delas acarretará responsabilização, nos termos previstos em lei.

Art. 3º- Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as seguintes medidas:

III – determinação de realização compulsória de:

(…)

  1. d) vacinação e outras medidas profiláticas.

Portanto, a Lei a 13.979/2020, estabelece que a vacinação poderá ser exigida compulsoriamente, ou seja, obrigatoriamente.

Foi ajuizada no Supremo Tribunal Federal, a Ação Direta de Inconstitucionalidade N.6.586, tendo como Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, questionando o  artigo 3º, III, d, da Lei 13.979/2020, que  prevê a possibilidade de vacinação compulsória.

Em julgamento realizado em 16/12/2020, o Supremo Tribunal Federal, decidiu:

Decisão: O Tribunal, por maioria, julgou parcialmente procedente a ação direta, para conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 3º, III, d, da Lei nº 13.979/2020, nos termos do voto do Relator e da seguinte tese de julgamento: “(I) A vacinação compulsória não significa vacinação forçada, porquanto facultada sempre a recusa do usuário, podendo, contudo, ser implementada por meio de medidas indiretas, as quais compreendem, dentre outras, a restrição ao exercício de certas atividades ou à frequência de determinados lugares, desde que previstas em lei, ou dela decorrentes, e (i) tenham como base evidências científicas e análises estratégicas pertinentes, (ii) venham acompanhadas de ampla informação sobre a eficácia, segurança e contraindicações dos imunizantes, (iii) respeitem a dignidade humana e os direitos fundamentais das pessoas, (iv) atendam aos critérios de razoabilidade e proporcionalidade e (v) sejam as vacinas distribuídas universal e gratuitamente; e (II) tais medidas, com as limitações acima expostas, podem ser implementadas tanto pela União como pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, respeitadas as respectivas esferas de competência.”

Como observamos o Supremo Tribunal Federal adotou o entendimento de que ninguém pode ser levado à força para se vacinar, mas quem não cumprir com a sua obrigação de receber a vacina pode vir a sofrer as consequências legais por meio da restrição de direitos e do recebimento de sanções, o que se aplica também aos servidores públicos.

A Constituição Federal explicita que a saúde é direito de todos e dever do Estado.

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Portanto, temos dois direitos fundamentais que estão previstos na constituição e que são contrapostos nesse caso específico, de um lado, a proteção da saúde pública, e do outro, um eventual direito individual de pessoas que querem se negar a isso. Na balança,  parece que o direito à saúde pública e a obrigação a se vacinar devem prevalecer frente a supostas liberdades individuais, principalmente, quando a  lei N.13.979 /2020,  prevê que as medidas estabelecidas na lei objetivam a proteção da coletividade. Logo, a saúde coletiva, como estamos em uma pandemia, tem que prevalecer sobre o direito individual de não querer tomar a vacina.

Desse modo, por expressa disposição constitucional e legal,  todo servidor público tem o direito de exercer suas funções em um ambiente de trabalho seguro com normas de proteção à saúde, o que gera a obrigatoriedade de todo gestor público expedir normas para diminuir a propagação do Novo Coronavírus no ambiente de trabalho público, o que inclui a necessidade de vacinação de todos os servidores contra a COVID-19 como forma de evitar o contágio da doença, sendo por essa razão que o Conselho Nacional de Saúde recomenda a obrigatoriedade da vacinação de todos.

Portanto, um superior hierárquico não pode vacinar um servidor público de forma forçada, mas tem o dever-poder de aplicar as sanções administrativas aos servidores que se recusam a receber a vacina, não se tratando a aplicação da referida sanção de um ato discricionário e sim de um ato vinculado.

A lei 0066/93, que  Dispõe sobre o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis do Estado do Estado do Amapá, das Autarquias e Fundações Públicas Estaduais, quando trata dos deveres dos servidores públicos, estabelece:

Art. 133 – São deveres do servidor:

(…)

VI – observância das normas legais e regulamentares;

VII-obediência às normas superiores, exceto quando manifestamente ilegais.

Assim, os servidores públicos, devem cumprir, sob pena de sofrerem sanções administrativas, as ordens dos seus superiores que não estejam claramente destoando da lei. No caso da obrigatoriedade de vacinar, a ordem efetivamente tem previsão legal, conforme mencionado.

Reafirmo: não podemos esquecer que estamos enfrentando uma pandemia de uma dimensão nunca vista pelos atuais membros da nossa sociedade. A principal arma para enfrentar a referida realidade já se sabe qual é, a vacinação de  todos.

É certo como consta da decisão do STF,  que ninguém pode ser forçado a se vacinar, porém não podemos confundir a vacinação forçada com a vacinação obrigatória, o que não podemos é aceitar que servidores que recusam tomar a vacina contra o coronavírus,  possam  colocar em risco a saúde de pessoas que trabalham, ou de quem procura o órgão.

Diante de toda a análise restou comprovado que, um superior hierárquico no âmbito da Administração Pública pode expedir determinação obrigando todos os seus subordinados a receberem a vacina contra o Novo Coronavírus.

Caso a determinação  não seja cumprida, o gestor público não poderá vacinar o seu subordinado à força, mas tem o dever-poder de aplicar as sanções administrativas aos servidores que se recusam a receber a vacina, não se tratando a aplicação da referida sanção de um ato discricionário e sim de um ato vinculado.

VACINA SIM.

Macapá, 05 de agosto de 2021

O galo – Dom Pedro José Conti

O galo
Dom Pedro José Conti  – Bispo de Macapá 
O galo acordava bem cedo todas as manhãs e dizia para a bicharada do galinheiro: “Vou cantar para fazer o sol nascer…”. Ato contínuo subia até o alto do telhado, estufava o peito, olhava o horizonte e cantava. Em poucos minutos, a bola vermelha começava a aparecer e se mostrava toda acima das montanhas, iluminando a paisagem. Todos ficavam boquiabertos e respeitosos ante o poder extraordinário conferido ao galo. Aconteceu, entretanto, que o galo, certo dia, perdeu a hora e, quando acordou, o sol já estava lá, brilhando no meio do céu, sem necessidade do seu canto. O galo ficou triste e caiu em depressão, mas os bichos ficaram alegres por saberem que não precisavam da ordem do galo para o sol nascer.
A leitura do evangelho de Marcos continua neste 15º Domingo do Tempo Comum. Jesus deu exemplo de coragem indo para “a outra margem” e mostrou como encontrar as pessoas em suas situações de exclusão e sofrimento. Ele fez também a experiência das críticas e da recusa, primeiro longe, na região de Gerasa e, depois, em Nazaré, a sua terra. É neste momento, de acolhida e de repúdio, que ele envolve os doze e os envia em missão “dois a dois”. Eles devem pregar a todos a conversão, expulsar os demônios e curar os doentes, ou seja, na prática, fazer o mesmo que Jesus estava fazendo. As portas de algumas casas se abrirão, mas outras permanecerão fechadas. Alguns ficarão escutando, outros não. Sempre será assim, nem todos acolherão o anúncio do Reino. Nem por isso a missão deve parar ou se limitar a amigos e simpatizantes. Para os do “contra” ficará a poeira dos pés como testemunho de um dom desprezado.
Nesta página do evangelho de Marcos aparecem também algumas condições para que a missão avance com a chegada dos discípulos. Eles são enviados “dois a dois”. O primeiro fruto da alegria do Evangelho é a comunidade, porque o fato de ser “dois” é o início de qualquer fraternidade. Desse jeito Jesus, numericamente falando, diminui as possibilidades, mas aumenta a força do exemplo. A Boa Notícia deve ser anunciada junto à vivência da amizade, da solidariedade, da comunhão e da partilha. Sem o exemplo de tudo isso, a pregação deles ficaria um discurso de palavras belas, talvez, mas vazias. “Dois” significa também aprendizagem, diálogo, correção fraterna. O contrário do individualismo e das disputas para ser, ou aparecer, um melhor do que o outro.
Outras condições da missão, sem dúvida alguma, são: a pobreza e a escassez de recursos. Os “dois” devem confiar na providência de Deus e na acolhida nas casas. A falta de certos bens, a princípio necessários, não somente tornará os viajantes mais ágeis e leves, porque não terão muita coisa para carregar, mas também não serão vítimas da inveja ou da cobiça de interesseiros e assaltantes. Sendo pobres, darão testemunho de desprendimento e liberdade, mas, muito mais, provarão ter encontrado na Boa Notícia do Reino o verdadeiro tesouro, para o qual vale a pena vender tudo para comprá-lo (Mt 13,44-45). Mais uma vez, Jesus nos ensina a não confundir o Evangelho com os meios úteis e necessários para anunciá-lo. Planos e projetos ajudam a não trabalhar à toa ou sem rumo, mas podem transformar os discípulos em funcionários que cumprem metas de produção. A preocupação do dinheiro pode nos tornar eternos pedintes, sempre insatisfeitos, ou administradores superatarefados em gerir fundos verdadeiros ou imaginários. Os discípulos, agora também missionários, não anunciam a si mesmos, mas a novidade do Reino que está começando, visivelmente, com Jesus. Devem dizer a todos que Deus é Pai, que tem misericórdia e quer ser amigo dos homens. Não anunciam novas normas para serem obedecidas, mas o único mandamento do amor. Com suas vidas doadas, eles devem despertar os distraídos e anunciar-lhes que o Reino é dom de Deus, oferecido a todos. Essa  é a nova luz que desponta e resplandece. Que alegria serem alcançados por ela e poder comunicá-la a outros! Afinal o galo era, e ainda é, somente “o mensageiro” do sol, nunca o seu dono.

A essência da transformação digital na área de marketing

Por Beth Fontanelli*

A transformação digital do marketing, acelerada em todo o mundo em decorrência da pandemia, transcende em muito a um processo tecnológico. Esta é uma questão superada, considerando que já são múltiplas, avançadas e conhecidas as ferramentas e plataformas disponíveis para o desenvolvimento dessa importante área, como a inteligência artificial, mídias sociais, blogs, podcasts, newsletters, SEO (otimização para mecanismos de busca) e o marketing de conteúdo.
O desafio a ser vencido, nas relações de empresa para empresa (business-to-business) ou com o consumidor final, é romper o distanciamento com o cliente, conhecê-lo cada vez mais, permanecer mais próximo dele e estabelecer afinidades com a marca. Portanto, além do investimento em tecnologia, a transformação digital do marketing requer mudança cultural da empresa e dos responsáveis por essa área. Trata-se de um passo que exige o engajamento da alta direção das organizações, pois implica transformações no modo de abordar, tratar e interagir com o mercado e a sociedade.
O conceito essencial é que, independentemente do presente cenário ou da conjuntura no pós-pandemia, a transformação digital do marketing é irreversível. Com isso, deve-se considerar um ambiente híbrido no novo contexto global após o controle da doença e o estabelecimento de uma nova realidade para o relacionamento das pessoas na sociedade, no trabalho, no lazer e em todas as atividades. O home office, o sistema de entrega, o comércio eletrônico, as transações feitas pelo computador, celular, tablets e outros processos digitais acentuados durante o longo período de distanciamento social e quarentena deverão continuar muito fortes. Do mesmo modo, as lojas físicas e os estabelecimentos prestadores de serviços certamente voltarão a ter vigor, dando vazão ao impulso interativo natural do ser humano, reprimido durante os longos meses de isolamento.
Mais do que nunca, utilizando todas as ferramentas e tecnologias possíveis, é preciso ter foco na experiência do cliente. Esteja ele na loja física ou no site de uma empresa. É decisivo que o consumidor sinta confiança, segurança, acolhimento e identificação com a marca e valores.
Para o êxito desse processo, são necessárias estratégias de coleta de informação, de modo a converter dados aleatórios em inteligência de mercado. Para isso, como já observado anteriormente, há eficientes ferramentas e plataformas tecnológicas. Mais importante do que definir quais delas usar é saber como utilizá-las de modo adequado, sempre respeitando o direito inalienável do cliente à privacidade e as diretrizes da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados, nº 13.709/2018).
Por meio do marketing digital, será possível definir e implementar campanhas, inclusive personalizadas, para a divulgação da marca, produtos e promoções. Torna-se viável estabelecer com ele uma interação permanente, que extrapole o propósito de venda e compra, no compartilhamento de ideias, princípios e tendências. É preciso saber como abordar cada segmento de público (persona) e até mesmo cada pessoa, no momento de oferecer um bem ou serviço. As múltiplas alternativas tecnológicas com habilidade e precisão viabilizam a transformação digital no marketing, proporcionando infinitas possibilidades. Contudo, a essência de todo esse processo, crucial para o êxito, é constituída, mais do que nunca, pelo fator humano.

*Beth Fontanelli é sócia-diretora de marketing e comunicação da KPMG no Brasil e na América do Sul

A reza do remador

A reza do remador
Rui Guilherme

Acho que isso acontece com todo mundo. Mas, como não sou porta-voz de ninguém, se não acontece com todo mundo, comigo, pelo menos, ocorre com frequência me deparar com gente de que gosto de cara; ou, ao contrário, outros com os quais sinto que dificilmente vou me dar bem. Claro que, ao longo dos anos, didaticamente a vida me ensinou a burrice que é prejulgar. Uns, que me despertaram de saída antipatia gratuita, vieram a tornar-se pessoas queridas. Outros, do outro time, com os quais senti que me daria muito bem, com a convivência acabaram revelando se não o mau caráter, pelo menos que não mereciam continuar no meu círculo de amizade.

O remador e sua mulher formam um casal do qual todo mundo parece gostar. E aqueles que gostam, gostam pra valer.

É o que pude perceber no meio daqueles conhecidos em comum.

O morador da cidade grande desenvolve uma certa cautela no contato com o próximo. É emblemático o diálogo frequente no Rio de Janeiro travado entre a turma do chope eventual depois da praia: – “Poxa, cara, você é muito legal! Aparece lá em casa qualquer dia”, mas nunca dá o endereço. E ainda pode no chope seguinte o carioca dizer na maior cara de pau:- “Pô, cara, eu te esperei e você não apareceu! Que bom que a gente tá se vendo de novo!”; e o papo rola com a maior naturalidade, superficial como sempre.

O nortista de um modo geral, quem sabe se por serem menores as cidades, quando chama alguém para ir à sua casa, se prepara, e à própria família, para receber o convidado. Há até laivos da hospitalidade do beduíno. Este último, fiel aos ditames do Corão, ao receber alguém em sua tenda mata a derradeira cabra, põe à mesa as tâmaras mais maduras, o melhor chá,  o mais suculento queijo, pois o viajor a quem está sendo dado abrigo pode ser um anjo mandado por Alá.

Recebemos o remador e madame em nossa casa, em eventos de que tomavam parte outros amigos das mais diversas procedências. Fiéis às nossas origens paraenses, sempre gostamos de abrir nossa casa em festa, naturalmente que na era ACV (antes do corona vírus). Em alguns desses convescotes, com farta mesa de guloseimas nortistas, tivemos a alegria de contar com o casal do qual trata este artigo. Formou-se, dessa maneira, uma ligação afetiva que veio crescendo com o tempo.

O casal é fervorosamente católico. Sua devoção é genuína e contagiante. A forma com a qual rezam comove pela autenticidade da qual se reveste. Exercem, os dois, uma gentil liderança nos movimentos da paróquia, dos quais participamos.

Ele, um empresário bem sucedido, sempre foi dado aos esportes náuticos. Remador de prancha, modalidade a que aderiu já maduro, ganhou significativa quantidade de troféus nas competições de que participou. Moram em frente à praia. Na visita que lhes fizemos, além de rezarmos juntos o terço, conversamos longo tempo animadamente, com direito a consomé de batata baroa, bolo de coco e vinho do Porto para arrematar, tudo servido com carinho fraternal.

À certa altura, falou-nos a anfitriã que fica vendo da janela do apartamento o marido dar uma parada nas vigorosas remadas de sua prancha, para nela sentar e ficar se deixando flutuar nas ondas gentis de Copacabana. Nesse momento, o remador, no balanço do mar entra em contato direto com o Poder Superior. Agradece comovido pelas dádivas que vem recebendo com tanta prodigalidade, pela saúde que lhe foi devolvida milagrosamente quando o Senhor despregou um braço da cruz, curando-lhe o corpo abalado pela enfermidade.

Agradeço ao casal querido pela hospitalidade. Sobretudo pelos momentos de devoção em que, juntos, rezamos pelo fim da pandemia. Minha voz é fraca, mas com a ajuda da Mãe Maria, a quem clamamos como advogada e intercessora, pode ser que meus pedidos sejam magnanimamente acolhidos pelo Todo Poderoso. A Ele, minha gratidão por tudo que já passei nesta vida. Pelos bons momentos que a memória me permite reviver. Pelos dias procelosos, em que recebi do alto o cabedal de forças necessário para prosseguir em minha jornada. Pelos meus erros – e foram muitos! – e pelos eventuais acertos. Pelos inimigos, se é que os tenho, para que me perdoem pelo mal que lhes posso ter desejado. Na minha estupidez, se me escapou que aquele que odeia fica bebendo do próprio veneno que destila.

Meu amigo remador premiado, certo que foi a força de seus braços que lhe fez ganhar a velocidade necessária para abiscoitar o troféu almejado. Mas quem lhe deu energia para remar, equilíbrio para suster-se de pé, impávido, na sua prancha, e com ela singrar o percurso da prova atingindo em primeiro lugar a meta de chegada, quem lhe deu e lhe dá o vigor para a sucessão de conquistas é aquele braço amoroso que se despregou por instantes da cruz. A Ele, e ao Pai, e ao Paráclito, toda honra e toda glória, agora e para sempre. Amém.

Pinóquio: ficção ou realidade?

Pinóquio: ficção ou realidade?
Ricardo Viveiros*
Há certos temas que são como certos sentimentos, embora ocorrentes tornam-se recorrentes. Portanto, diante do que está acontecendo na CPI da Covid-19 no Senado Federal, voltamos todos a falar sobre algo que se faz presente e causa indignação a quem, como muitos de nós, não tem esse péssimo hábito: mentir.

Foi na Itália que um jornalista chamado Carlo Lorenzini, nascido em Florença em 1826, escrevendo histórias infantis sob o pseudônimo de “Collodi” (o vilarejo de sua mãe, na Toscana) criou um personagem que – para a eternidade – se tornaria símbolo dos que contam mentiras. Em 1881, nascia o travesso “Pinocchio”, com suas histórias escritas por Collodi e desenhadas por Eugenio Mazzanti.

Dizem que o jornalista e escritor era muito solitário, assim teria imaginado um velho marceneiro desejoso de ser pai, “Gepeto”, que ao encontrar um belo pedaço de madeira idealizou fazer uma marionete para ter companhia. Sua vontade que o boneco tomasse vida foi tão forte, que o sonho aconteceu.

O pequeno Pinóquio, que significa pinhão em italiano, tem o hábito de contar mentiras. Mas, toda vez que faz isso, seu nariz cresce e é descoberto. Além de mentiroso, também desobediente foge e se perde embarcando em uma aventura repleta de mistérios, que o leva a descobrir os perigos do mundo. Se você ainda não leu, procure conhecer porque o livro é bem interessante.

Meu saudoso pai desde cedo educou-me a sempre falar a verdade. E me fazia ler a história do Pinóquio lembrando que a mentira tem pernas curtas, mas nariz grande. A imagem ficou para sempre. No ofício de jornalista, deparei com vários “pinóquios” da vida real. Em todas as profissões; muito mais na política. Segundo a Psicologia, as pessoas mentem para protegerem a si mesmas, para evitar confrontos, polêmicas, confusões; como também, para se fazerem importantes ou se incluírem em um grupo. São problemas relacionados com a falta de autoestima.

Há mentiras históricas que não se consegue apagar: o homem veio do macaco; raios não caem duas vezes no mesmo lugar; palavra saudade não tem equivalente em nenhum outro idioma; muralha da China pode ser vista do espaço; foram os ingleses que inventaram o futebol; o tango é argentino ou uruguaio; a Amazônia é o pulmão do Mundo. E por aí vão as mentiras que se tornaram “verdades” por terem sido repetidas muitas vezes, e sem contestação.

Nestes tempos em que a demagogia tem estado mais presente do que nunca – com as fakes news sendo usadas pelo populismo irresponsável -, ao ver a pandemia sendo relativizada e o negacionismo gerar graves problemas no combate à real doença que já matou em torno de 450 mil pessoas no Brasil, nem temos o direito de, como é tradição, brincar com as pessoas contando mentiras.

Não há mentira “perdoável”, como se costuma justificar o erro. Não existe régua de medir mentira, se pequena ou grande. Mentira é mentira. Além do que, já temos um grande mentiroso que está causando muita tragédia, ao invés de apenas educar de maneira lúdica como o genial Pinóquio faz há 140 anos.

*Ricardo Viveiros é jornalista, professor e escritor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, membro honorário da Academia Paulista de Educação (APE) e autor, entre outros, dos livros “Justiça Seja Feita”, “A Vila que Descobriu o Brasil” e “Pelos caminhos da Educação”.