O mito e o castigo divino de Sodoma e Gomorra

O mito e o castigo divino de Sodoma e Gomorra
Alexsander Costa

O Homosapiens é a única espécie animal capaz de justificar, através de uma história, o funcionamento de vários acontecimentos da vida terrena.

A esta história chamamos de mito, que passou a existir a partir do momento em que o ser humano despertou conhecimento, poder de análise de experiências, e poder de justificar e conhecer determinados fatos da vida.

O mito tem o intuito de explicar algo que, até então, não tem explicação, algo que a experiência humana sente ou que tenta entender, seja do seu passado ou do seu futuro, do seu nascimento ou da sua morte, seja sobre a vida animal ou vegetal, das estações do ano, de seus costumes ou crenças.

A mitologia surgiu para auxiliar o ser humano a lidar com suas experiências, foi “criada” para ajudar nos momentos de dificuldades que encontramos em vida e assim vislumbrarmos novas realidades.

O mito é, também, uma narrativa etiológica, é diverso, pode nos amparar sobre a origem do mundo: cosmogonia. Sobre origem de Deuses: Teogonia. Sobre a morte ou origem dela: Escatologia. Sobre os fenômenos cósmicos na Cosmologia. Sobre histórias de heróis e muitos outros.

Em gênesis, livro bíblico, vemos um exemplo de cosmogonia, ou mito de criação, quando Deus, o grande criador, cria o mundo: “No principio Deus criou os céus e a terra” (cap. 1). Cria também, o primeiro humano a partir do “pó da terra” (cap. 2): Adão, que vivia no jardim do Edén. Ele ganhou vida para poder cultivar a terra no Paraíso.

Nos escritos Babilônicos, o Enuma Elish, há o relato da criação do universo através da união de deuses. Apsu (Deus das aguas doces) e Tiamat (deusa dos oceanos) que deram origem aos demais Deuses e

também aos seres humanos para que pudessem trabalhar no lugar dos Deuses enquanto estes descansavam.

Nestes escritos também encontramos mitos de criação, além de exemplos de mitos de heróis, como o que observamos na Epopeia de Gilgamesh, o primeiro herói que se tem registro na História. Além deste, a aventura de Utnapishtim no grande dilúvio babilônico, que rivaliza com o dilúvio bíblico protagonizado por Noé, aparece como castigo divino após a criação dos humanos e quando estes desagradaram os Deuses.

Como visto, os mitos possuem forte relação com religião, toda religião possui elemento mítico e ligações com ritos, no entanto a religião não deve ser pensada como o mito propriamente dito.

Na religião católica, em especial no gênesis (velho testamento), podemos observar vários mitos de criação e de heróis. No Cap. 10, o livro sagrado descreve como a terra pôde ser povoada a partir da descendência de Noé. Seus três filhos Sem, Cam e Jafé povoaram o planeta terra após o grande diluvio: desceram da arca, multiplicaram-se e espalharam-se pelas nações.

No cap. 13, versículo 13, há citação à cidade de Sodoma: uma cidade onde moravam homens “perversos e pecadores”, tal qual Gomorra, ambas ficavam próximas ao mar salgado (versículo 3, cap. 14).

Essa história ganha detalhes no capitulo 19: um castigo divino recai sobre as grandes cidades da época, onde o próprio Deus, o criador, lança sobre a Terra larvas de fogo. Mas, Abrãao, um dia antes ao conversar com Deus, tentou convence-lo a não destruir as cidades por conta de corações puros que ainda existiam lá. Ló, um destes homens bons, relutou em abandonar a cidade, ele ofereceu suas duas filhas para que os homens perversos da cidade não abusassem dos anjos enviados por Deus, e sim das moças virgens, em uma tentativa desesperada de salvar sua cidade e seu povo do fogo eterno.

O castigo divino desta vez não viria em forma de inundação porque Deus, ainda no cap. 9, havia aliançado com Noé que jamais a terra seria inundada novamente por sua vontade para castigar os seres humanos.

Os anjos, compadecidos da situação de Ló, pediram para ele e sua família deixarem a cidade em direção às colinas, mas Ló, suas duas filhas e sua esposa fugiram para se salvar do desastre até uma pequena

cidade vizinha. Foi então que o próprio Deus castigara os homens perversos daquele lugar com uma lançante de fogo e enxofre, destruindo as famosas cidades de Sodoma e Gomorra.

A história acima, explica sob a perspectiva judaico-cristã, através do velho testamento, como duas cidades da margem do mar morto, no vale do Sidím, onde hoje encontra-se o Iraque, foram tragadas pelo fogo em um evento catastrófico nos idos de 1700 a.c.

Hoje, com os recursos científicos e tecnológicos que dispomos, pesquisadores da Universidade Trinity Southwest, instituição cristã que fica em Albuquerque, Novo México (EUA), acreditam que o evento que dizimou as duas cidades e suas populações foi causado pela explosão de um meteorito que atingiu a atmosfera terrestre. A explosão desses corpos celestes a poucos metros da superfície ocasionou o que observamos nas escrituras sagradas, a “chuva de fogo e enxofre”.

Os cientistas usaram carbono 14 para datar o evento nos restos de construção que sobrou do sinistro, foram feitas escavações na região onde existiam as cidades, não apenas de Sodoma e Gomorra, mas a de el-Hammam, e todas as demais nas proximidades.

Uma grande onda do Mar Morto também é provável que tenha inundado a região após o fogo ter tomado conta do lugar, fazendo com que a localidade tenha ficado com solo pobre para a agricultura e inabitável pelos próximos 700 anos.

Os cientistas ainda hoje tentam desvendar mais mistérios da época, analisando os restos e fundações que restaram das construções do período.

Durante muito tempo se imaginou que as cidades nem tivessem existido e que o conto bíblico não passasse de uma história contada para justificar o castigo nas sociedades antigas e modernas.

Na antiguidade, a religião, através dos mitos era a forma de conhecimento que existia e que explicava todos os fenômenos, inclusive muitos que hoje já foram elucidados.

O mito de que “se você fizer algo errado será castigado” ainda perdura mesmo após o advento da ciência e mesmo tendo passado mais de 3 mil anos desde as primeiras escrituras. O medo de sofrer, de ser penalizado e expiado caminha lado a lado com a humanidade. Para muitos, a passagem terrena é um julgamento para a morada eterna, o paraíso ou para o inferno.

Independente dos recursos científicos ou da análise filosófica, o mito vai ser sempre uma constante na vida humana. Eventos nunca explicados e que talvez nunca sejam explicados pela impossibilidade da experiência vivenciada (como a morte, por exemplo) sempre irão contar com uma gama de hipóteses baseadas na ciência, na filosofia, nas religiões ou na mitologia.

O extraordinário poder da poesia na mente humana

O extraordinário poder da poesia na mente humana

*Thelma Miguel

Que a poesia e a boa música dão arrepios todo mundo já sabe, mas a ciência vem nos provar como isso acontece.

Com cerca de 4300 anos, a poesia é uma das primeiras manifestações literárias registradas. Provavelmente já existia anteriormente e sua transmissão era realizada de forma oral pelos povos. O fato é que, com certeza, ela afeta o cognitivo e a emoção das pessoas desde que se tem conhecimento da escrita. A partir desta constatação intuitiva, muitos trabalhos vêm sendo realizados na tentativa de provar como nosso cérebro é afetado pela poesia.

Estudo realizado na Alemanha demonstrou através de monitoramento de frequência cardíaca, movimentos faciais, eriçamento de pelos e ressonâncias magnéticas cerebrais durante a leitura de poemas, que áreas específicas do cérebro são ativadas com a poesia, algumas delas também estimuladas com a música. Contudo há uma diferença. A música nos arrebata de uma só vez.  A poesia nos leva a um relaxamento, provocando uma reação de prazer gradativo e atinge um clímax próximo ao desfecho do poema.

Na Universidade de Exeter foram avaliadas reações cerebrais de voluntários após a leitura de textos diversos: manuais de instrução, fragmentos de romances, sonetos, poemas em geral e até um poema favorito do avaliado. Descobriram que o cérebro processa de forma diversa o texto poético e a prosa, ativando áreas relacionadas ao processamento emocional, mas também áreas do cérebro associadas com a memória, como o córtex cingulado posterior e o lobo temporal médio, áreas que são despertadas quando estamos relaxados ou introspectivos. Ao estimular estas áreas associamos os poemas a nossas vivências e emoções profundas, gerando uma sensação de bem-estar.

O fato de algumas pessoas não serem afetadas tão profundamente pela poesia pode ser explicado por uma insuficiência de exposição durante a infância e adolescência associada a uma abordagem analítica e “engessada” na escola. Uma aproximação da realidade do leitor com a poesia, participação ativa em leituras, discussões, apresentações podem ser mais esclarecedoras e muito mais atrativas. Projetos educacionais com o propósito de espalhar poesia também devem sempre ser estimulados.

Livros de autoajuda e música são frequentemente associados a benefícios à saúde mental, mas, na verdade, um livro de poemas pode nos relaxar e emocionar ainda mais. Então, o que você está esperando para ler um bom livro de poemas hoje?

*Thelma Miguel é carioca, médica, mãe, avó e poeta, autora dos livros Sem Casca e O Silêncio e o Grito.

Aprender a gratuidade – Dom Pedro José Conti

Aprender a gratuidade 
Dom Pedro José Conti –
Bispo de Macapá

Chegamos ao domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré. De novo, sem podermos nos manifestar como gostaríamos, numerosos e alegres, a nossa devoção a Maria, a humilde serva do Senhor, a “bendita entre as mulheres”, a “bem-aventurada” porque acreditou. Neste ano, colocamos Maria ao lado de São José. Eles, juntos com Jesus, constituem aquela que chamamos de “Sagrada Família”, exemplo para todos nós de oração, trabalho e fé. Qual segredo “a mais” podemos aprender com essa família tão especial?

Talvez nos ajude o evangelho deste domingo. Encontramos uma pessoa que procura Jesus e tem um grande desejo: “ganhar a vida eterna”. Algo maravilhoso se, com essas palavras, entendemos não tanto o conjunto de todos os bens possíveis e imagináveis, mas, nada menos, que o próprio Deus, sumo bem e plena felicidade para todos. Inicialmente, Jesus lembra àquele homem os mandamentos da Lei de Deus, ou seja, um caminho de confiança, obediência e respeito. Para aquela pessoa, porém, isso não tem nenhuma novidade: conhece os mandamentos e os pratica desde a juventude. O que lhe falta? – Só uma coisa – responde Jesus – vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me! (Mc 10,21). O evangelho continua dizendo que aquele homem “foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico”. O comentário de Jesus vem em seguida: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Mc 10,23). Pelo jeito, os bens materiais, tão cobiçados pela grande maioria dos seres humanos, são um obstáculo muito grande para fazer parte do Reino de Deus. No entanto o próprio Jesus aponta a saída: o que parece impossível para nós, somente com as nossas forças, é possível para Deus. Se nós o pedimos, com fé e confiança, ele mesmo, Deus Pai, nos dá a capacidade de nos livrar das amarras da ganância e do lucro. Quando a luz de Deus toma conta do nosso coração e das nossas decisões, nós começamos a olhar e a entender as coisas da vida e do mundo com o olhar dele, que é de amor e, portanto, somente capaz de doar, doar tudo, doar a si mesmo, sem esperar ou pedir nada em troca. Podemos chamar este amor de gratuidade total. Por nossa vez, a este amor incondicional de Deus, nós podemos responder somente amando generosamente a ele e aos nossos irmãos.

Com Deus não tem negociação, cobranças, reivindicações, prazos… A “vida eterna”, que o homem do evangelho procurava, é um dom gratuito de Deus, é oferecida, doada, nunca será o resultado do nosso esforço ou um direito adquirido pelos nossos merecimentos. Jesus nos ensinou tudo isso; não foi para nos fazer sentir pequenos perante a grandeza sem medidas do amor de Deus, mas para transformar o nosso coração de interesseiro em generoso e compassivo. A sociedade que organizamos funciona com a troca de mercadorias, de serviços e de favores. Estamos tão acostumados com isso, que desconfiamos de quem nos oferece algo sem cobrar nada antes ou depois. Sempre perguntamos quanto custa aquilo que gostaríamos ter ou alcançar.

Também o homem do evangelho deste domingo queria saber o preço da vida eterna, quais obrigações devia cumprir, quais ofertas ou holocaustos devia fazer. Dar de graça aos pobres aquelas riquezas que tinham custado tanto tempo, trabalho, organização e esperteza não entrava na sua cabeça e no seu coração. Vale a pena nos perguntar se aprendemos a gratuidade nas nossas famílias, ou se também nelas já funciona a lógica interesseira do mundo. Filhos, crianças e adultos, que não sabem mais agradecer aos pais por tudo aquilo que fizeram por eles. Esposos e esposas que perderam a alegria de se doar e de se receber cada um como uma dádiva não merecida. Parentes que se odeiam por causa da herança deixada pelos pais e avós. Temos dúvidas que Jesus aprendeu a gratuidade também com Maria a José? Ele, o homem justo e obediente, acolheu Maria em sua casa, acreditando nos seus sonhos e na palavra dela. Ela, a serva do Senhor, ficou feliz de colaborar com o projeto de Deus sem saber tudo o que a aguardava e se teria merecido alguma recompensa. E Jesus? Ele deu tudo, até a própria vida, porque Deus é assim, só amor doação.

O que o poeta quis dizer?

O que o poeta quis dizer?
Antonio Juraci Siqueira*
Quando estudante, essa foi uma pergunta que ouvi várias vezes em salas de aulas feitas por professores de português em trabalhos de análise de textos. O(a) professor(a), apresentava um poema aos alunos para que analisassem e ai daquele cuja interpretação passasse longe da pré concebida pelo professor. Não sei se atualmente essa pergunta ainda é feita aos alunos. Lembro do filme “Sociedade do Poetas Mortos” que inicia com um professor analisando um poema com base em equação matemática sem atentar que a poesia é arte e, como tal, não pode ser analisada racionalmente, senão pelos sentidos. A estética se vale do juízo de valor, subjetivo, para analisar uma obra de arte e não do juízo de fato, objetivo, como fazem as ciências exatas. Triste da obra de arte que não sirva a mais de uma interpretação! Mário Quintana disse num poema: “Quando te perguntarem o que quiseste dizer com teu poema, perguntar-lhes: o que Deus quis dizer com este mundo?” Ou como disse Salvador Dali: “Como querem entender os meus quadros se eu que que os faço não os entendo?” A pergunta tem sentido pelo fato que a arte deve ser sentida e não compreendida. O poeta não “quis dizer”, ele efetivamente disse com todas as letras. Dane-se o que ele quis dizer, vale o que o poema disse para cada leitor. Como no jogo do bicho, vale o escrito. Não há nada mais patético, mais melancólico, que o artista explicar sua obra, como vi, certa vez, um pintor explicando, numa exposição, uma pintura surrealista de sua autoria. O máximo que ele consegue é esvaziá-la. O simples título de uma obra já induz, já direciona a interpretação do público. Em 1984, participei e ganhei um concurso promovido pela secretaria de cultura de São Bernardo do Campo, São Paulo, na época das grandes greves do ABC paulista, tempo em que o Lula surgia como o grande líder metalúrgico. Dei o título de “Povo” ao poema pois era a ele que me dirigia naquele momento em que estávamos quebrando as algemas da ditadura militar. Publiquei com esse título na página “O Jornaleco” de A Província do Pará mas quando o incluí no livro “Travesseiro de Pedra”, em 1986, mudei para “Oleiro e Barro”, mudando completamente o olhar do leitor. Agora a mensagem é direcionada ao indivíduo e não mais ao povo. O professor Pedro Holanda, no seu TCC sobre a minha obra, pela UFPa, o remeteu ao Genesis, com Deus e não o poeta falando ao homem. Portanto, dane-se o que eu quis dizer e viva o que o poema disse e diz a cada leitor. E para você, o que foi que eu disse nesse poema?
OLEIRO E BARRO
Acorda! Já é dia e o teu destino
é fazer teu destino caminhando!
Tu és, ao mesmo tempo, oleiro e barro;
tu és, num só momento, o boi e o carro!
Acorda! O tempo urge…Tu não sabes
que deténs as rédeas da ação?
Tu és a solução dos teus problemas
e a chave que abre tuas algemas
repousa, eternamente, em tua mão!
Levanta! O sol se põe… Bate a poeira
acumulada por tantos verões!…
Tu és a vela-mestra da História,
o caminho que conduz à glória,
a semente das revoluções!

*Antonio Juraci Siqueira é poeta, professor, escritor, autor de mais de 70 livros

Qual riqueza? – Dom Pedro José Conti

Qual riqueza?
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá

Certo dia, o marido disse à esposa:

– Sabe, querida, trabalharei muito e, um dia, seremos ricos.  A esposa respondeu:

– Querido, nós já somos ricos. Porque eu tenho você e você tem a mim. Um dia, talvez, teremos dinheiro.

No evangelho de Marcos, deste domingo, encontramos Jesus e seus discípulos andando, quase às escondidas, pela Galileia. Na realidade, “o segredo” está no segundo anúncio da paixão. Ele fala também da ressurreição, mas os discípulos “não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar” (Mc 9, 32). Entendemos que o assunto é sério e que sempre será muito difícil aceitar Jesus como “messias” sofredor. Mais ainda: um messias perdedor, sem mais nada, sem poder nenhum, vergonhosamente derrotado. Talvez os discípulos tivessem medo de lhe pedir uma explicação mais clara para não ter que reconhecer que aquelas palavras de Jesus derrubavam os sonhos de grandeza que, secretamente, acalentavam. Aqueles seguidores representam todos nós e os cristãos de todos os tempos. A razão é simples. Os reinos e as sociedades humanas funcionam como uma pirâmide de poder. De uma maneira ou de outra, quem está em cima manda em quem está em baixo. Vez por outra, as coisas parecem melhorar; mudam as leis e os sistemas de governo, mas sempre aparece algo que, do alto, “pesa” mais que outras coisas. Hoje, vivemos sob o jugo da economia, das leis do mercado. Tudo bem misturado e aliado com o poder das armas, da tecnologia, dos meios de comunicação que exaltam o individualismo e o consumismo. Alguém duvida que estejamos vivendo tempos de grandes disputas? As contendas começam em nossas famílias e nem as religiões escapam das confrontações. Todos querem ganhar, sobressair, estar por cima, ser os maiores, ser os primeiros. Poder e riquezas continuam fascinando.

Jesus, o Mestre, tem algo importante para nos dizer. É quase um “segredo”, é para poucos, porque também é muito difícil de ser entendido e acolhido. Por isso, fala “em casa” e chama só os doze ao seu redor. Primeiro explica: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!” (Mc 9,35). Mas, a quem servir? Eles devem lembrar outras palavras dele. Devem “servir” aos pequenos, aos pobres, àqueles que nunca poderão devolver o que receberam. Isso para que o serviço da caridade não seja interesseiro, não tenha outro objetivo a não ser o bem daqueles que foram ajudados. De outra maneira, deixaria de ser um gesto de amor e seria uma troca de favores, a ser cobrada antes ou depois. Logo em seguida, Jesus, para ajudar a entender o que quer nos ensinar, pega uma criança e a propõe como modelo de pessoa que deve ser abraçada, acolhida e servida por causa dele, para honrar o nome dele, e, por isso, de maneira totalmente amorosa e gratuita. Uma criança! Exemplo claro de alguém que, muitas vezes, passa despercebido, quase invisível.  Alguém que, naquele tempo, pouco ou nada valia. Só dava despesa e devia ser cuidada. Ainda não produzia nada, não podia ser uma força de trabalho.

Hoje, parece muito diferente, mas nem tanto. Falo dos milhões de crianças fora da escola por causa das guerras, das migrações, da fome e da miséria. Têm crianças transformadas em soldados, violentadas em sua inocência ou exploradas em sua dignidade. Têm crianças vendidas como mercadoria, roubadas de sua infância e usadas para satisfazer os desejos e as ambições dos adultos. Apesar de tantos progressos, continua difícil para os mais velhos acolher as crianças como elas são, como elas vêm ao mundo, com seus limites, mas também com o direito de serem diferentes de como, talvez, os pais as queriam. Isso porque cada pessoa é um dom de Deus único e irrepetível. Dom e desafio ao mesmo tempo para ser acolhido e amado, com total gratuidade, sem condições ou chantagens. Jesus nos ensina que para Deus Pai cada pessoa vale por si mesma, é um verdadeiro tesouro, uma riqueza incomparável. Só quem ama sabe dar o verdadeiro valor às pessoas amadas. Pode faltar dinheiro, mas quanta riqueza temos em nossas famílias! Ainda não a descobrimos?

O belo vaso quebrado – Dom José Conti

O belo vaso quebrado
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá 
Um casal de namorados estava passeando. A moça, olhando a vitrine de uma loja, ficou encantada com um lindo vaso chinês. Seu namorado foi indagar o preço. Era caro demais para ele. Andando pela loja, porém, viu um vaso igual, mas quebrado. Teve uma ideia. Uns dias depois, comprou, quase de graça, o belo vaso quebrado e pediu ao dono que o embrulhasse como se fosse um presente. O seu plano era chegar na casa da namorada e simular um tombo. Assim, poderia dizer que o vaso tinha se quebrado naquele momento. Deu tudo certo, e a namorada acreditou nele até desembrulhar o vaso. Então constatou a mentira. O dono da loja havia embrulhado cada pedaço do vaso quebrado separadamente! A moça ficou muito decepcionada com o namorado que queria enganá-la.
Neste 22º Domingo do Tempo Comum, voltamos a ler o evangelho de Marcos. Jesus é questionado pelos mestres da Lei sobre o fato de alguns dos discípulos dele não lavarem as mãos antes das refeições. Era um simples costume de higiene, mas tinha-se transformado numa regra rigorosa. Com base nela, as pessoas eram julgadas “observantes” ou não da “lei” e, portanto, nada menos, se eram obedientes ou não a Deus. Ao voltar do mercado, onde circulava todo tipo de gente, animais e mercadorias era necessário tomar banho, porque o contato com pessoas ou coisas “impuras” podia ter contaminado os bons judeus. Uma questão de simples e prudente “limpeza” tinha se transformado numa questão de “pureza” religiosa. Jesus chama de “hipocrisia” essa excessiva preocupação dos mestres da Lei, porque eles ficavam olhando a limpeza exterior e se descuidavam do que era mais importante: a pureza do coração. O que interessa mesmo a Jesus é o que se passa no “interior” das pessoas. O que fazemos pode parecer limpo e até chamar atenção exteriormente. Podemos enganar os homens, mas não conseguimos mentir para Deus, porque ele “vê o que está em segredo” (Mt 6,4). Com efeito, a grande verdade é esta: as boas ou as más intenções do nosso agir vêm, antes de outras motivações, do profundo do nosso coração (Mc 7,21-23).
Nestes tempos de pandemia, estamos vivendo a experiência de ter que passar álcool e lavar as mãos inúmeras vezes, sempre que suspeitamos o perigo do vírus. Não é que antes fôssemos tão “sujos” assim e que nunca lavássemos as mãos, mas agora tudo isso virou obrigação, preocupação e até frenesi. Com tanta “água e sabão” ficamos mais limpos? Com certeza “por fora”, mas, “por dentro”, continuamos os mesmos.
Talvez as palavras de Jesus nos ajudem a encontrar o melhor “detergente” para limpar o nosso coração. O contrário da “hipocrisia” é, sem dúvida, a sinceridade.
 Quando damos lugar a segundas intenções, quando praticamos certa duplicidade no nosso agir, quando falamos de um jeito e praticamos de outro, é sinal de que algo está errado conosco. Afinal, quantas pessoas somos? Por que aquela que aparece por fora é diferente daquela que somos por dentro? Não falo de doenças psicológicas ou algo semelhante. Falo mesmo do nosso ser cristãos. Tem uma bem-aventurança de Jesus sobre isso. É aquela dos “puros no coração, pois eles verão a Deus” (Mt 6, 8). Esses “puros” não são os ingênuos que não enxergam as coisas erradas. São aqueles que encontraram o “colírio” para ungir os olhos (Ap 3,18) e ver as possibilidades do bem e do amor apesar das dificuldades e das incertezas da vida. São aqueles que estão vendo Jesus presente nos pobres, nos pequenos, nos sofredores.  Eles veem muito claramente as injustiças. Não fingem não as ver, não as escondem, não aproveitam delas, não as transformam em destino ou, pior, em “vontade de Deus”.
Deveríamos zelar pela nossa sinceridade, sobretudo para não enganar a nós mesmos. Antes de apontar as “sujeiras” dos outros, seria bom “purificar” o nosso coração e o nosso agir. O nosso amigo do vaso chinês não conseguiu enganar a namorada. E nós? Será que vamos poder mentir para Deus e para a nossa consciência? Talvez, mas, vale a pena?

As palavras no chão – Dom Pedro José Conti

As palavras no chão
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá 

Um bom paroquiano acabava de participar da Missa e estava chegando perto da sua casa. De repente, um amigo aproximou-se dele e lhe disse:  “Eu preciso lhe falar”. O bom homem viu naquele encontro um sinal do céu. Ficou tão entusiasmado que começou a falar de tudo aquilo que achava importante. Falou das bênçãos de Deus, da eficácia da oração, do compromisso, da satisfação em fazer o bem e explicou ao amigo que ele era um sinal enviado pelo seu anjo da guarda porque antes estava se sentindo só, mas agora não mais. Falou, falou com palavras inspiradas. O amigo o escutava em silêncio. Agradeceu e foi embora. O bom paroquiano perdeu um pouco da sua euforia. Também porque percebeu que, por conta da sua empolgação, não tinha prestado atenção ao pedido do amigo. Baixou os olhos e viu todas as suas palavras no chão, espalhadas na rua.  

O trecho do Evangelho deste 21º Domingo do Tempo Comum é a conclusão do capítulo 6 do evangelho de João. Deixamos Jesus, dois domingos atrás, afirmando: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51). Os judeus questionam: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” (v.52). Mas Jesus insiste: “Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” (v.55) e ainda repete o que já disse no v.51: “Aquele que come este pão viverá para sempre” (v.58).

Apesar de estarmos, talvez, familiarizados com a linguagem simbólico-teológica do evangelho de João, sobretudo neste capítulo onde nos fala da Eucaristia, não podemos deixar de nos maravilhar das conexões que surgem entre elementos tão diferentes. Comemos é pão e bebemos é vinho. Só que o pão é a carne de Jesus e o vinho é o sangue dele. Sem fazer a ligação com a vida doada de Jesus e o seu sangue derramado na cruz esta linguagem fica incompreensível. No entanto, parece-me que o mais difícil seja entender o que representa para os seguidores de Jesus comer o seu corpo e beber o seu sangue. Significa escolher participar do seu amor, doando também a própria vida a serviço dos irmãos. O amor é a essência de Deus. Amar é participar da vida divina, vida esta que é plena, porque vai além do tempo limitado da nossa passagem neste mundo humano. A “palavra dura” do evangelho deste domingo não é, portanto, a promessa da vida plena, mas o jeito de alcançá-la. Esse é o paradoxo exigente de Jesus: é possível encontrar a “vida plena” somente perdendo-a, ou seja, gastando-a por amor a Deus e ao próximo. Se o egoísmo ou a indiferença falam mais alto, dá vontade mesmo de desistir.

É isso mesmo que Jesus pergunta aos discípulos: “Vós também vos quereis ir embora?” (Jo 6,67). A resposta de Pedro é uma verdadeira profissão de fé: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69). Para o evangelista João, Jesus é a Palavra de Deus feito carne (Jo 1,14), agora ele vai dar essa “carne” – o seu corpo, a sua vida – por meio do sinal do pão, como alimento àqueles que acreditarem nele. No memorial da Páscoa de Jesus, acontece uma comunhão extraordinária entre o ser humano e as Pessoas divinas. A Palavra sem Eucaristia pode resultar num discurso bonito, mas vazio; a Eucaristia sem a Palavra pode ser só um cerimonial bem-organizado.  Palavra e Eucaristia são “alimentos” que se completam, um explicando o outro, um plenificando o outro. Na missa nos são apresentadas a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia para podermos nos alimentar de ambas. Acreditamos que Jesus é o Pão Vivo descido do céu, mas ele é, também, a Palavra viva. Essa Palavra não é um livro para ser simplesmente lido, mas é alguém que continua a ensinar, a corrigir, a perdoar e a enviar. A Palavra transforma a nossa vida quando se torna a nossa mesma maneira de pensar, de falar e de agir. Para conseguirmos isso, precisamos antes ser, nós mesmos, bons ouvintes da Palavra de Deus. Somente assim aprenderemos a escutar os irmãos para entender seus anseios, esperanças e necessidades. Sem escutar primeiro, falaremos à toa.

A velhinha mal-arrumada

A velhinha mal-arrumada
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá 

Em tempo de férias, uma família de cinco pessoas estava na praia aproveitando do sol e do mar. As crianças tomavam banho e brincavam com a areia. De longe,  apareceu uma velhinha. Tinha os cabelos brancos esvoaçando ao vento e a roupa era visivelmente surrada e suja. Ela falava consigo mesma e, vez por outra, tirava alguma coisa da areia e a colocava num saco. Os pais chamaram as crianças mais perto e lhes disseram para ficarem longe da idosa desconhecida. Quando ela passou perto da família, sempre catando algo aqui e acolá, lançou um sorriso para eles, mas ninguém o retribuiu. Algumas semanas depois, souberam que aquela velhinha maltrapilha, há muitos anos, tinha escolhido para si uma tarefa: recolher os pedaços de vidro que ficavam na praia para que não ferissem os pés das crianças.  

No 19º Domingo do Tempo Comum, continuamos a leitura do capítulo 6 do evangelho de João. O assunto é ainda o do “pão da vida”, “o pão que desceu do céu”, mas com algo novo e muito importante. Jesus fala sobre o Pai que o enviou e diz que ninguém vai ao encontro dele se o próprio Pai não o atrair. Também, quem estiver com Jesus participará da ressurreição no último dia. Ele fala assim porque o povo murmurava a seu respeito. Pensavam conhecê-lo, porque sabiam algo sobre a sua família e a sua cidade. Esse foi o engano deles. Um equívoco sempre atual, porque é muito fácil julgar Jesus pelas informações recebidas nos anos da nossa infância e adolescência. Nós nos tornamos adultos, mas a nossa formação cristã não cresceu junto. Muitas vezes, desistimos de continuar a ser “discípulos de Deus” (Jo 6,45), de escutar o Pai, de nos deixar “instruir” por ele e assim nos aproximarmos mais de Jesus, o Filho.

Para o evangelista João o ser atraído, o conhecer, o ver e o crer são todas ações que o discípulo experimenta como dons de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – com a única condição de deixar-se conduzir docilmente por ele. A não ser que o sufoquemos com a nossa desconfiança e o nosso materialismo, existe em nosso coração, um grande desejo de conhecer e encontrar a origem e a fonte da nossa existência. Podemos chamar isso de sede e fome de Deus. Mas Deus também está à nossa procura (Adão “onde estás?” Gn 3,9) e por isso enviou o seu próprio Filho, encarnado no homem Jesus. Com efeito, “a Deus, ninguém jamais viu” (Jo 1,18; Jo 6,46), porém, agora, se de verdade quisermos conhecê-lo e encontrá-lo, o caminho certo é acolher aquele que “vem de junto de Deus” porque este “viu o Pai”. Para que esse “caminho” de busca não seja mera especulação intelectual ou autossugestão, mas se torne vida vivida, experiência real, é necessário vivenciar bem a Eucaristia que celebramos e comemos. Quem se alimenta com “o pão que desce do céu”, reconhece a gratuidade do dom da vida de Jesus e, por isso, aprende também a fazer da própria vida um dom. Quem sustenta a sua vida aprendendo a amar com e como Jesus, participa da realidade amorosa de Deus com laços tão fortes que nem a morte pode destruí-los.

Estamos navegando na mais alta “teologia” do evangelho de João. O discurso parece confuso e misturado, mas a realidade é uma só: quem se alimenta de Jesus Eucaristia-Pão da Vida- Pão do Céu, assume o mesmo estilo de vida e, por sua vez, deixa-se consumir, dia após dia, por aqueles aos quais decide doar-se generosamente. Sem essa vida doada, a participação da Eucaristia se resolve em intimismo e devocionismo. Pode ser gratificante para a pessoa, mas não produz todos os frutos de amor que Jesus espera vir de quem se alimenta com ele, “pão vivo descido do céu”, “carne dada para a vida do mundo”. É difícil. Consola-nos, porém, saber que tantos irmãos e tantas irmãs, jovens e velhos, bem ou malvestidos, doam muito ou, ao menos um pouco, das suas vidas para que outros vivam mais felizes e sofram menos pelas feridas do desamor e da injustiça. Talvez nós não o saibamos, mas Deus os conhece, são seus amigos, já vivem da vida dele.

Servidor público pode ser obrigado a tomar vacina contra coronavírus?

Por Clara Banha – Procuradora de Justiça do Ministério Público do Amapá

Neste momento da pandemia do coronavírus, muito se tem questionado, se o servidor público pode ser obrigado a tomar a vacina contra o vírus, ao colocar em risco a saúde de pessoas que trabalham, ou de quem procura o órgão.

A lei N.13.979 de  06 de fevereiro de 2020, proposta pelo Presidente da República, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada,  dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do coronavírus responsável pelo surto de 2019, prevê que as medidas estabelecidas na lei objetivam a proteção da coletividade. E que as pessoas deverão sujeitar-se ao cumprimento das medidas previstas na lei, e o descumprimento delas acarretará responsabilização, nos termos previstos em lei.

Art. 3º- Para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional de que trata esta Lei, as autoridades poderão adotar, no âmbito de suas competências, entre outras, as seguintes medidas:

III – determinação de realização compulsória de:

(…)

  1. d) vacinação e outras medidas profiláticas.

Portanto, a Lei a 13.979/2020, estabelece que a vacinação poderá ser exigida compulsoriamente, ou seja, obrigatoriamente.

Foi ajuizada no Supremo Tribunal Federal, a Ação Direta de Inconstitucionalidade N.6.586, tendo como Relator o Ministro Ricardo Lewandowski, questionando o  artigo 3º, III, d, da Lei 13.979/2020, que  prevê a possibilidade de vacinação compulsória.

Em julgamento realizado em 16/12/2020, o Supremo Tribunal Federal, decidiu:

Decisão: O Tribunal, por maioria, julgou parcialmente procedente a ação direta, para conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 3º, III, d, da Lei nº 13.979/2020, nos termos do voto do Relator e da seguinte tese de julgamento: “(I) A vacinação compulsória não significa vacinação forçada, porquanto facultada sempre a recusa do usuário, podendo, contudo, ser implementada por meio de medidas indiretas, as quais compreendem, dentre outras, a restrição ao exercício de certas atividades ou à frequência de determinados lugares, desde que previstas em lei, ou dela decorrentes, e (i) tenham como base evidências científicas e análises estratégicas pertinentes, (ii) venham acompanhadas de ampla informação sobre a eficácia, segurança e contraindicações dos imunizantes, (iii) respeitem a dignidade humana e os direitos fundamentais das pessoas, (iv) atendam aos critérios de razoabilidade e proporcionalidade e (v) sejam as vacinas distribuídas universal e gratuitamente; e (II) tais medidas, com as limitações acima expostas, podem ser implementadas tanto pela União como pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, respeitadas as respectivas esferas de competência.”

Como observamos o Supremo Tribunal Federal adotou o entendimento de que ninguém pode ser levado à força para se vacinar, mas quem não cumprir com a sua obrigação de receber a vacina pode vir a sofrer as consequências legais por meio da restrição de direitos e do recebimento de sanções, o que se aplica também aos servidores públicos.

A Constituição Federal explicita que a saúde é direito de todos e dever do Estado.

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Portanto, temos dois direitos fundamentais que estão previstos na constituição e que são contrapostos nesse caso específico, de um lado, a proteção da saúde pública, e do outro, um eventual direito individual de pessoas que querem se negar a isso. Na balança,  parece que o direito à saúde pública e a obrigação a se vacinar devem prevalecer frente a supostas liberdades individuais, principalmente, quando a  lei N.13.979 /2020,  prevê que as medidas estabelecidas na lei objetivam a proteção da coletividade. Logo, a saúde coletiva, como estamos em uma pandemia, tem que prevalecer sobre o direito individual de não querer tomar a vacina.

Desse modo, por expressa disposição constitucional e legal,  todo servidor público tem o direito de exercer suas funções em um ambiente de trabalho seguro com normas de proteção à saúde, o que gera a obrigatoriedade de todo gestor público expedir normas para diminuir a propagação do Novo Coronavírus no ambiente de trabalho público, o que inclui a necessidade de vacinação de todos os servidores contra a COVID-19 como forma de evitar o contágio da doença, sendo por essa razão que o Conselho Nacional de Saúde recomenda a obrigatoriedade da vacinação de todos.

Portanto, um superior hierárquico não pode vacinar um servidor público de forma forçada, mas tem o dever-poder de aplicar as sanções administrativas aos servidores que se recusam a receber a vacina, não se tratando a aplicação da referida sanção de um ato discricionário e sim de um ato vinculado.

A lei 0066/93, que  Dispõe sobre o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Civis do Estado do Estado do Amapá, das Autarquias e Fundações Públicas Estaduais, quando trata dos deveres dos servidores públicos, estabelece:

Art. 133 – São deveres do servidor:

(…)

VI – observância das normas legais e regulamentares;

VII-obediência às normas superiores, exceto quando manifestamente ilegais.

Assim, os servidores públicos, devem cumprir, sob pena de sofrerem sanções administrativas, as ordens dos seus superiores que não estejam claramente destoando da lei. No caso da obrigatoriedade de vacinar, a ordem efetivamente tem previsão legal, conforme mencionado.

Reafirmo: não podemos esquecer que estamos enfrentando uma pandemia de uma dimensão nunca vista pelos atuais membros da nossa sociedade. A principal arma para enfrentar a referida realidade já se sabe qual é, a vacinação de  todos.

É certo como consta da decisão do STF,  que ninguém pode ser forçado a se vacinar, porém não podemos confundir a vacinação forçada com a vacinação obrigatória, o que não podemos é aceitar que servidores que recusam tomar a vacina contra o coronavírus,  possam  colocar em risco a saúde de pessoas que trabalham, ou de quem procura o órgão.

Diante de toda a análise restou comprovado que, um superior hierárquico no âmbito da Administração Pública pode expedir determinação obrigando todos os seus subordinados a receberem a vacina contra o Novo Coronavírus.

Caso a determinação  não seja cumprida, o gestor público não poderá vacinar o seu subordinado à força, mas tem o dever-poder de aplicar as sanções administrativas aos servidores que se recusam a receber a vacina, não se tratando a aplicação da referida sanção de um ato discricionário e sim de um ato vinculado.

VACINA SIM.

Macapá, 05 de agosto de 2021